Prezados leitores,
o decano do blog, colunista dos domingos, Sr. Luiz Valério Cortez, mais uma vez não poderá assinar sua coluna. Está impossibilitado clinicamente, tudo decorrência das orgias etílicas em que se meteu na semana passada, ao participar de um cruzeiro. Mas isso será melhor explicado por ele na semana que vem (esperamos!).
Enquanto isso, temos o prazer de apresentar um texto muito agradável e didático, que pode mesmo ser considerado uma homenagem ao Valério, já que trata de um tema muito apreciado pelo legendário blogueiro: a cerveja.
Sirvem-se, leitores, do texto do querido amigo José Eduardo Pereira, médico, 31 anos, casado com a também médica Cristine (filha do Dr. Cunha, do antigo Banerj), mais um forasteiro adotado por Barra Mansa.
Assim como o vinho, a cerveja também possui seu mundo, suas particularidades, e o texto do Eduardo serve (e bem) como introdução nesse fascinante terreno.
Apreciem, com moderação.
O MUNDO DA CERVEJA
por José Eduardo Pereira*

Tipos de Cervejas
As Cervejas podem ser classificadas de acordo com os seguintes critérios :
1. Tipo de fermentação :
1.1. Cerveja de Alta Fermentação : obtida pela ação de levedura cervejeira (saccharomyces cerevisiae) que emerge à superfície do líquido na fermentação tumultuosa (Ale).
1.2. Cerveja de Baixa Fermentação : obtida pela ação de levedura cervejeira (saccharomyces uvarun) que se deposita no fundo da cuba durante ou após a fermentaçào tumultuosa (Lager).
2. Teor de extrato primitivo :
2.1. Cerveja Fraca : quando fabricada a partir de mosto com teor de extrato primitivo igual ou maior que 7,0% e menor que 11% em peso.
2.2. Cerveja Normal ou Comum : quando produzida a partir de mosto com teor de etrato primitivo igual ou maior que 11% e menor que 12,5% em peso.
2.3. Cerveja Extra : quando fabricada a partir de mosto com teor de extrato primitivo igual ou maior que 12,5% e menor que 14% em peso. 2.4. Cerveja Forte : quando produzida a partir de mosto com teor de extrato primitivo maior que 14% em peso.
3. Cor :
3.1. Cerveja Clara : quando possuir cor correspondente a menos de 15 unidades EBC (European Brewery Convention).
3.2. Cerveja Escura : quando possuir cor correspondente a 15 ou mais unidades EBC.
4. Teor Alcoólico :
4.1. Cerveja sem álcool : quando seu conteúdo de álcool for menor ou igual a 0,5% em peso. 4.2. Cerveja de baixo teor alcoólico : quando seu conteúdo for maior que 0,5% e menor que 2,0% em peso.
4.3. Cerveja de médio teor alcoólico : quando seu conteúdo for igual ou maior que 2,0% e mnor que 4,5% em peso.
4.4. Cerveja de alto teor alcoólico : quando seu conteúdo for igual ou maior que 4,5% e menor que 7,0% em peso.
Como fazer cerveja - O Processo de fabricação
Produzir cerveja requer três processos básicos: mostura, fervura e fermentação. Os dois primeiros geralmente ocorrem no mesmo dia. Já a fermentação dura de uma a algumas semanas. A seguir, uma descrição resumida de cada processo.
MOSTURA
Este processo, que dura de 2 a 5 horas, extrai os açúcares fermentáveis e outros componentes importantes do malte. Primeiro o malte é moído, depois misturado à água quente, permanecendo a uma temperatura de aproximadamente 65ºC. Depois disso, a água rica em açúcares (agora chamada de MOSTO) é retirada e o que restou do malte moído é lavado com água quente para extrair o máximo possível dos açúcares que restaram.
FERVURA
O mosto é fervido na caldeira de fervura, normalmente de 1 a 2 horas. Durante a fervura, o lúpulo é adicionado em momentos variados, com a finalidade de conferir amargor, paladar e aroma que o cervejeiro deseja. No final da fervura, o mosto é separado do lúpulo e resfriado, sendo preparado para a fermentação.
FERMENTAÇÃO
O fermento é adicionado ao mosto para iniciar a fermentação e transformá-la em cerveja. As fermentações “Ale” (de alta fermentação) duram de 5 a 10 dias a temperaturas de 16 a 21ºC. As fermentações “Lager” (de baixa fermentação) geralmente são mais longas, com uma fermentação inicial de 10 a 13ºC, seguida de um período de maturação a 1ºC. No final da fermentação, a cerveja é carbonatada e envasada.
É claro quer há inúmeros processos de fazer cerveja, como com fermentação natural, carbonatação natural, adição de outros "temperos" além do lúpulo, etc. Todavia, o roteiro resumido acima dá uma boa idéia inicial da “espinha dorsal” da produção do nobre líquido.
Temperatura ideal para degustar sua cerveja
A temperatura de uma cerveja, sem dúvida nenhuma, influencia a experiência de degustação, já que ela pode alterar o bom funcionamento dos receptores gustativos da língua. Temperaturas baixas permitem que cervejas fracas como as Pale Lagers sejam apreciadas por seu frescor, enquanto temperaturas mais quentes permitem que os sabores e aromas mais complexos de uma Ale sejam percebidos.
Existe, portanto, uma regra errada de que a melhor cerveja é sempre a mais gelada. Se estivermos falando sempre das Pilsen, as mais populares no Brasil, estaremos quase certos, mas não absolutamente, já que há um limite de resfriamento. E se você quer realmente começar a conhecer outros tipos de cervejas, deverá atentar para este assunto de temperaturas.
A escala apresentada abaixo é uma variação dela, adaptada ao clima e gosto do brasileiro:
Muito gelada (de 0 a 4°C): Pale Lagers, cervejas sem álcool e qualquer cerveja que tenha o objetivo de refrescar e não muito a de ser degustada, provavelmente pela qualidade duvidosa
Bem gelada (de 5 a 7°C): cervejas de trigo claras, Lambics de fruta e Gueuzes.
Gelada (de 8 a 12°C): para Lagers Escuras, Pale Ale, Amber Ale, cervejas de trigo escuras, Porter, Helles, Vienna, Tripel e Bock tradicionoal.
Temperatura de adega (de 13 a 15°C): para as Ale quadrupel, Strong Ales Escuras, as Stout e a maioria das cervejas especiais Belgas, incluindo as Trapistas. As Bocks mais fortes como a Eisbock e a Doppelbock.
Você deve notar que as cervejas mais claras e suaves normalmente são servidas mais geladas, enquanto as mais escuras e mais fortes devem ser servidas a temperaturas maiores. Obviamente isso não é uma regra, bem como as escalas apresentadas acima, porém são uma boa orientação, que pode ser seguida ou não, dependendo do gosto de quem bebe, do local de consumo e da proposta do momento.
DICA: Se estiver em dúvida sobre a temperatura ideal da cerveja, seja por não saber o estilo ou não lembrar a tabela acima, guie-se pelo percentual de álcool. Em muitos casos a temperatura ideal estará em até 3°C acima do percentual alcoólico. Desconsidere a dica para as pale lagers que bebemos muito geladas.
Copos de Cerveja - tipos e estilos para cada cerveja
Parece frescura e você pode até não acreditar, mas o tipo do copo influi consideravelmente nos prazeres degustativos que você pode obter de uma cerveja. E por dois motivos:
a) Apresentação
Na Bélgica, cada cerveja tem o seu copo próprio. E olhe que estamos falando de um país do tamanho do nosso estado do Ceará e que possui mais de 450 cervejas diferentes. Isso porque um dos grandes prazeres degustativos é o VISUAL. Nada mais inspirador do que a imagem de um cálice com uma cerveja trapista ou um "weizen" transbordando de hefeweiss alemã.
Além disso, cada formato de copo tem uma função em relação à espuma, uns feitos com uma preocupação maior para mantê-la a uma certa altura, outros nem tanto.
b) Aroma
Uma das principais características da cerveja, são levados em consideração na hora de desenhar o copo que sejam mais adequados, segundo o fabricante, para desprender o bouquet e aroma da cerveja, para você poder apreciar o que cada uma tem de melhor.
É claro que nada substitui o prazer de tomar cerveja com os amigos, no boteco, com um prosaico copo "americano . Mas consideramos que, na hora de degustar, você tenha à mão algum copo ao menos parecido com o que é recomendado pelo fabricante da cerveja.
Isto posto, vamos aos tipos mais comuns de copos:
Nós, brasileiros, o chamamos popularmente de "tulipa". Ideal para as cervejas dos tipos pilsen. Possibilita a formação de um bom creme e direciona o aroma do lúpulo para o nariz. Mas não confunda com o copo de Lager, que também são muito usados para chope aqui no Brasil: o Pilsner tem a boca mais larga, enquanto o de Lager tem a boca levemente fechada.
LAGER (chope)
Facilmente encontrados no Brasil, são os tradicionais copos de chope, o qual erroneamente chamamos de tulipa. A diferenca é que a tulipa tem a boca mais aberta, um pé mais fino e geralmente mais alto.
Comumente visto servindo chope em algumas choperias, o caldereta é versátil e pode ser utilizado para English e American Ales e também para algumas lagers escuras e IPAs. Por comportar um volume um pouco acima de 300ml, é uma alternativa mais adequada do que outros copos genéricos, portanto uma boa opção para se ter em casa quando não se pode ter os diversos estilos recomendados. Também leva o nome de Shaker.
Também chamado de Becker, é aquele que você entorna nos pubs ingleses e irlandeses. Ideal para as cervejas do tipo Bitter e Stouts. Foi idealizado por ter um desenho simples, barato e que comporta grandes quantidades de cerveja. Os que apresentam o anel mais saliente no topo, como o da foto ao lado, são do tipo Imperial Pint, também chamado de Nonic, os demais são do tipo English Pint.
Como o próprio nome já diz, é ideal para cervejas do tipo Weiss, as de trigo. Permite que se admire o corpo e a cor da cerveja, bem como a expansão do creme. E como são altos, possibilitam que todo o conteúdo de garrafas de 500ml sejam colocados no copo, incluindo o fundo com as leveduras, e ainda sobre espaço para a espuma, como manda a tradição do estilo.
TULIPA
Ideal para cervejas que possuem bastante creme, como a Duvel e outras Strong Ales belgas. O desenho é baixo e elegante, permitindo também observar a evolução do creme. Não confundir com o que chamamos aqui no Brasil de Tulipa, que na verdade é um copo Pilsner. A Tulipa parece mais com uma taça de conhaque, porém com a boca do copo virada para fora.
CÁLICE
Na Bélgica é chamado de Goblet, e lembra a flor do mesmo nome. Ideais para as grandes trapistas belgas. São muito bonitos, às vezes ostentando dourado na borda. São desenhados para manter íntegro o creme, bem como proporcionar maior percepção do aroma. Também podem ser usados com os estilos Dubbel, Tripel e Quadrupel. Váriações de formato são encontradas com os nomes de Bolleke (copos da Leffe e Westmalle) e Trapist (copo da LaTrappe).
FLAUTA
Em forma de flauta, são mais usados para beber espumantes e champagnes, mas são ideais para cervejas do tipo Faro, Lambic, Gueuze ou as champegnoises, como a belga Deus e a brasileira Lust. O fato de serem esguios possibilita que o creme demore mais para se dissipar, mantendo as qualidades da cerveja no copo.
CANECA
Muito usada para servir chope ou cervejas vendidas na pressão. Podem ter vários tamanhos e formatos, mas normalmente são robustos, de vidro grosso, e algumas têm até apoio para o polegar na alça, para ajudar com o peso do copo+cerveja. Também podem ser de cerâmica e metal, mas para degustações, prefira as de vidro mesmo, maior garantia de não influenciar no sabor da cerveja.
MASS
É o típico canecão alemão de 1 litro, ideal para grandes e festeiros bebedores, daqueles que adoram brindar a cada minuto. Também conhecido, na Alemanha, como "mug" ou "stein", deve seu sucesso à quantidade de cerveja que podem conter.
YARD
Parece um tubo de laboratório, sem pé, o que demanda um suporte de madeira caso quem estiver usando-o não queira ficar segurando-o o tempo todo. Ficou famoso por ser usado e recomendado pela Pauwel Kwak
TAÇA
Não estão ligadas a nenhum estilo em específico, mas são cada dia mais usados com cerveja, seja pela elegância que confere, seja pela ergonomia que oferecem. Taças de vinho também vêm sendo utilizadas em degustações, principalmente aquelas altas e largas e as do tipo ISO, aquelas menores para degustação. também chamadas de Pokal ou Footed Glass.
TUMBLER
Copo utilizado para as cervejas do tipo witbier, com o a Hoegaarden. Como estas cervejas não formam muito creme, o copo não precisa ter a boca fechada. Robustos e pesados, também facilitam a vida dos bares por serem mais difíceis de serem quebrados, por isso não é incomum serem usados para servir coquetéis, refrigerante e chá gelado.
CILÍNDRICO
Copos cilíndricos normalmente são usados para cervejas Kölsh e Altbier. Porém, podem ser recomendadas pelos fabricantes em outros estilos, com por exemplo algumas fruit-beers. Permitem uma boa formação de espuma, porém não ajudam muito no desenvolvimento do aroma. Podem aparecer com outros nomes, como Stange, Stick (vareta) ou Collins.
CONHAQUE
Copos como os usados para conhaque são indicados para Barley Wines, Eisbock e Imperial Stouts, ou seja, cervejas fortes. São ótimos para capturar os aromas, permitindo agitar a cerveja em movimentos rotativos leves, sem muito risco de que a cerveja transborde o limite do copo. Também ajudam na manutenção de espuma, permitindo grandes goles sem que muito dela acabe entrando em contato com o rosto de quem bebe. Também chamados de Snifter.
OUTRAS DICAS IMPORTANTES
Se alguém lhe oferecer, para fazer "firula", um copo gelado, recuse. O contato da cerveja com a temperatura do copo produz condensação que irá diluir a bebida a ponto de alterar-lhe o sabor e a temperatura correta na qual deveria ser servida.
Lave seus copos sempre à mão, e assegure-se de estar bem enxaguado. Os saponáceos que eventualmente sobram no copo "matam" a cerveja e o seu creme. Seque-os, de preferência, naturalmente, sem contato com tecidos.
Jamais retire os copos recém-lavados da máquina lava-louças e sirva logo em seguida. O copo deverá sempre estar na temperatura ambiente para receber a cerveja.
RECOMENDAÇÃO DA SEMANA
Para começar, sugiro que comece por experimentar uma lager pilsener tcheca ou alemã, qualquer que seja sua escolha, será uma boa forma de comparar as autênticas pilsener’s com as cervejas que até então tomávamos achando que eram pilsener’s. Você perceberá um amargor mais intenso e uma cerveja mais encorpada do que as “pilsener’s” brasileiras.
Ex: Pilsener Urquell e Czechvar (a verdadeira budweiser, produzida na república tcheca, que por acordo comercial é comercializada no continente americano pelo nome que apresentei),ambas tchecas . Ou tente a Konig Pilsener ou a Spaten pils, alemãs que provavelmente serão mais fáceis de encontrar..
Obs: Vamos todos perturbar o Cid lá no Frilat pra ver se eles começam a trazer essas gracinhas para que nós possamos comprá-las aqui em Barra Mansa.
*José Eduardo Pereira tem 31 anos, é casado, médico anestesiologista, adora cerveja mas não bebe em serviço.