
* por César Zadorosny
Caros amigos o assunto esta semana, como não poderia deixar de ser, é o Natal. Sei que ao invés de ficar no lugar comum eu poderia inovar falando sobre temas alternativos como, por exemplo, a agressão sofrida pelo Papa Bento 16, pouco antes da celebração da Missa do Galo, e dizer que a intolerância e o extremismo devem ser combatidos com educação e esperança; poderia também destacar o fato de que o prestigiado jornal Le Monde outorgou a Lula o recém criado prêmio de “Homem do Ano”, tecendo-lhe elogios tantos que nos fazem pensar que o senso de humor francês já foi, um dia, mais refinado; eu poderia também falar sobre o caso do menino Sean Goldman (nada a ver com o caso do menino Carlinhos), que tomou conta dos noticiários brasileiros e norte-americanos e, acreditem, foi assunto tratado por Secretários e Presidentes de Estado, obviamente porque não tinham nada melhor para fazer; tudo isto daria para preencher esta e mais umas duas colunas, mas, realmente, não vejo nada de novo ou alternativo nisso. Como já disseram alhures, “é sempre mais do mesmo”, enquanto que o Natal, sim, é a melhor alternativa.
Confesso que meu ceticismo me torna uma pessoa pouco indicada para falar de tradições religiosas, mas, nem por isso, o Natal deixa de ser uma data especial em minha vida e na dos meus. Recordo-me, por exemplo, que em minha infância os Natais sempre foram comemorados na casa de minha avó, onde todos se reuniam para a ceia e a troca de presentes. Como só poderia abrir meus presentes após a meia-noite, passava o dia rodeando a árvore, tentando puxar o papel de um e outro embrulho para descobrir antecipadamente o que iria ganhar. O tempo passou e, tanto Noel quanto o Coelhinho da Páscoa se foram, levando consigo, de quebra, o Velho do Saco e o Saci Pererê.
A boa notícia é que aqui em casa Júlia, do alto dos seus bem vividos oito anos de idade, ainda crê na existência daquele senhor gordinho, de barba alva, bochechas rosadas e vestido com as cores do América do Rio (uniforme de inverno). Não diria que ela nutre uma fé cega, sem arroubos de incredulidade, já que sempre surgem dúvidas acerca do sistema de entregas desenvolvido pelo velhote alvirrubro (tema inclusive de debate recente neste espaço), mas ainda é possível tapeá-la com alguma explicação esdrúxula, sempre permeada de da boa e velha magia especial que explica tudo ao final.
Como fazemos todos os anos, fui levar Júlia para ver o Bom Velhinho ao vivo e em cores no Centro da cidade. Mesmo sendo um final de tarde, ainda estava bem quente e o sujeito que encarnava Noel já dava sinais de cansaço sob o tecido de poliéster molhado de suor e a barba espessa de algodão, fato que, todavia, não demoveu Júlia do intento de se aproximar, conversar brevemente e fazer seu pedido. É a magia do Natal.
Sempre procuro ficar por perto para ouvir o diálogo e ter uma ideia do que ela quer de presente e, por isso, consigo ouvir as perguntas: Qual o seu nome, mocinha? Você foi uma menina boazinha e estudiosa este ano? A resposta, sempre positiva, não é dada sem um olhar meigo, carregado com um pouco dúvida, direcionado a minha pessoa, como quem pede autorização e desculpas ao mesmo tempo. _ Esse olhar (eu já disse uma vez), ainda vai custar uma Ferrari a alguém. Corre tudo como manda o figurino, ela acorda de manhã e encontra o presente que pediu na sala, fica feliz da vida e, no final das contas, o que vale é o que ela acredita: Papai Noel existe!
O Natal também é o momento de aproveitar a maré de bons fluidos e fazer uma reflexão da vida, o que há de bom e ruim, exercitar a tolerância e a compaixão, aprender com erros e acertos, com as vitórias e as derrotas, e, como disse Kipling, saber tratar da mesma forma esses dois impostores. Ou seja, é momento para tentarmos nos tornar um pouco melhores do que somos e cada vez mais, pois é isso que realmente importa, acreditando você ou não no espírito natalino. Veio-me à memória, quando escrevo essas breves linhas, o poema “If” de Rudyard Kipling, criador de “Mogli o menino da selva”, e que tem uma mensagem bastante positiva e apropriada. Segue abaixo a transcrição.
SE
Se és capaz de manter tua calma, quando, todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando, e para esses no entanto achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares, ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares, e não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires, de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires, tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas, em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas, e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única parada, tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada, resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo, a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo, resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes, e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes, se a todos podes ser de alguma utilidade.
Se és capaz de dar, segundo por segundo, ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo, e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!
- Rudyard Kipling -
Bem, estou indo agora para a festa de final de ano do blog na casa do incomparável Valério, evento etílico-gastronômico que promete estremecer as estruturas da cidade e que certamente será alvo de uma coluna neste espaço, num futuro próximo.
Feliz Natal e Ano Novo!
*César Augusto Zadorosny tem 36 anos, possui formação profissional em Administração e Direito, é pai de Júlia e esposo de Cris e está muito contente com isso, apesar de não ter sido eleito o “Homem do Ano” pelo Le Monde, não ter participado do “Escândalo do Panetone” em Brasília e também não ter sido convidado para integrar o elenco de “A Fazenda”, na TV Record.