Por Figurótico*Com a urgência das colunas sobre o Ultraje em Volta Redonda, e os 25 anos do primeiro Rock in Rio, é chegada a hora de irmos “A La Playa! Oh, oh, oh, oh, oh!” Sim, minha cidade de janeiro, de réveillon, de carnaval, minha Cabo Frio. Desde 1975, o ano em que vim ao mundo, tenho registros das salinas em minha alma e coração. Há fotos que comprovam não só eu menino, recém-nascido, mas já na barriga de minha espetacular Mãe em terras cabofrienses!
Desde então venho carregando pela vida momentos que lá passei, e todo ano quando piso naquelas areias não brancas, mas claras, cristalinas, todas essas emoções vem à mente e me emocionam. É como seu eu pegasse ano a ano que lá estive e construísse uma vida independente, só de estada em Cabo Frio. É uma vida!
A emoção da chegada é intensa, sempre, não me acostumo. Quando avisto as praias de todas as Iguabas (hoje não mais, devido à construção da Via lagos a rota não é mais a mesma) a adrenalina bate forte. O céu incomparável aberto à frente lhe chamando para aproveitar ao máximo o dia lindo. E você aproveita, aproveita, se cansa e aproveita de novo. Essa é a rotina de praia – a minha ao menos –, volto de lá mais cansado que tudo, porém renovado. Não vou à praia para descanso, mas para suar o corpo, curtir, esvaziar a mente de toda a minha vida que não esteja lá naquele momento. Tanto que além da tradição de ir anualmente à Cabão (ou cabófa, cabo canaveral, cabo frito), tenho mantido sem querer a tradição de ir com o celular cortado por falta de pagamento. Óbvio, o que é mais importante? Eu pagar a minha conta de celular e viajar com menos dinheiro, ou deixar de pagá-la e ir com mais dinheiro? Não resisto em dizer que no ano corrente não foi questão de ir com mais ou menos dinheiro, fui com apenas o dinheiro que pagaria minha conta! Claro que tenho a grande sorte de ter um tio e uma tia com apartamento lá. Até 1994, ficávamos no de meu tio, depois disso passamos a ficar na da minha tia, ambos na Praia do Forte.
Praia do Forte é um capítulo a parte. Já estive em outras praias do país, nos estados de São Paulo, Espírito Santo e Bahia, mas a do Forte é a minha praia. Por umas três vezes apenas tive de ficar em Búzios ou na Paria do Peró. Esta última, não tem nada a ver comigo, por exemplo, não houve identificação alguma. A gente com a idade vai se tornando previsível demais, e pra eu ficar completamente feliz, basta me colocar na Praia do Forte que tudo vai ficar bem. Sou tão Forte que prefiro estar ali, com os pés fincado e vez por outra dar um rápido passeio a Búzios, do que ficar instalado em Búzios. Loucura, não? Não, é paixão mesmo. Gosto de curtir à noite no Malibu, no Cilada, e depois dar um confere no canal, se não estiver legal, voltamos para o Malibu.
Devem ter reparado que neste texto abusei de palavras “paixão, lindo, menino, alma, coração” não muito presentes em textos que redijo. Mas tais palavras, tão usadas pelo Rei Robertão, tem explicação: todos sabemos que viagens não são marcantes só pelo destino em si, mas pelo seu trajeto, estrada. E nas inúmeras vezes neste caminho, a lembrança que me faz chorar, acontece quando ouço “A guerra dos meninos”. Pra quem não ligou o nome à pessoa, lá vai:
“Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito
Que eu sonhei em toda a minha vida
Sonhei que todo mundo vivia preocupado
Tentando encontrar uma saída
Quando em minha porta alguém tocou
Sem que ela se abrisse ele entrou
E era algo tão divino, luz em forma de menino
Que uma canção me ensinou
La La La La La...”Principalmente nesse refrão, na gravação com a voz de um menino, “Lá, lá, lá, lá, lá, lá”. Vejo claramente, como num filme, pai e mãe no banco da frente, eu e Pança (meninos) no banco de trás, meu outro irmão nem nascido era. E o rádio tocava essa canção do Rei, e seguíamos ainda pela estrada velha para Cabo Frio. É sem dúvida, a música com mais cheiro de infância que tenho. Nisso já havíamos passado de Niterói e eu já começava a ficar ansioso, perguntando o famoso “está chegando, pai?”. Uma parada marcante que dávamos era na “Casa dos Amanteigados”. Fazíamos lanche e levávamos produtos para a casa. Os cata-ventos nas salinas também eram sinais de que estávamos chegando, sim. Nem quando entrávamos na cidade minha ansiedade se aquietava, só ficava calmo quando avistava um dos prédios mais antigos de Cabo Frio, de cor marrom, e que suas varandas faziam uma meia-lua, com uma gradezinha característica. Até hoje ele permanece assim. Pronto, ali estávamos perto do prédio de meu tio. Ao entrar no apartamento já corria para a varanda para me debruçar no muro e avistar, na ponta dos pés, o mar... a Praia do Forte.
Serei sempre grato à minha mãe e a meu pai por terem me passado esse amor por Cabo Frio, meu pai principalmente, pois é mais fanático que todos nós. Sempre saíamos de Barra Mansa com ele, às quatro da manhã. Ele dizia que era pra evitar engarrafamentos. Mas eu bem sei que a intenção era a de chegar às oito da manhã e já estarmos na praia, malandro...
Já fiquei em Cabo Frio por quinze dias (isso tem tempo...), por uma semana, quatro dias, três, dois, um, e até mesmo ir e voltar no mesmo dia, numa segunda-feira, quando estudava no Rio. Peguei uma carona e nosso destino era o Rio de Janeiro, eu iria estudar e meu amigo trabalhar. Bateu aquele sol na Dutra em Nova Iguaçu e coloquei a pilha. Fomos, pegamos uma praia, comemos camarão, tomamos um chope e voltamos para o Rio à noite, continuando o chope que começara em cabófa. Pura fomiagem...
Como também nem sempre os apartamentos da família estavam disponíveis, já dormi em grama de camping (nunca tive barracas, odeio, aliás); em apartamento de conhecidos que encontrava por lá, sem combinação prévia; dentro do carro, na rua, enfim... Vivi momentos ali que me fizeram o que sou hoje. Curti épocas em que a cidade não tinha se transformado no que é hoje, e ainda era possível ouvir Bete Balanço no sistema de som da praia, de ver os sons de carros abertos rolando Men at Work e Dire Straits que embalavam a geração surfista de 80. Chegava a passar três horas dentro da água sem sair, pegando jacarés. Fui socorrido n vezes por salva-vidas, pois queria ir fundo na praia, e nem por isso tive trauma algum. Vi Leandro Peixe-frito algumas vezes batendo papo na praia e falando sobre futebol. Ganhei uma cicatriz característica no lábio por conta de uma garrafa de coca-cola que estourou em minha mão aos sete anos de idade, quando a levava para o almoço e tropecei na escada do edifício; vi João Penca fazer um showzaço na Praia do Japonês; vi...; vi...; vi coisa pra caramba ali, em Cabo Frio.
Fui, sou e sempre serei Cabo Frio!
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Coluna escrita ao som do Rei:
http://www.youtube.com/watch?v=uZMjTU9jBDE&feature=related
E hoje, nós barramansenses, comemoramos o dia de nosso padroeiro, São Sebastião!
Viva!!!!
*Figurótico é músico, jornalista, 34 anos, e quer curtir a velhice em Cabo Frito.