domingo, 31 de janeiro de 2010

Nepotismo e Rock in Rio

Atenção atenção, em mais um ato de puro e explicito nepotismo, colunista arruma uma vaguinha para irmão postar um texto. E dos bons.
Um bom domingo a todos

Valério Cortez


Houve uma vez um Rock in Rio, pena.

*Por Alex Frederick

Em agosto do ano passado, publiquei um artigo na Revista Eletrônica O Guaruça http://www.ubaweb.com/ falando de Belchior, que na época virara notícia no fantástico e em toda mídia nacional por seu suposto desaparecimento. Achado, foi entrevistado, e com a elegância de sempre respondeu as perguntas feitas pela repórter, pediu licença e mais uma vez saiu de cena, sumiu.
Belchior é só mais um (Gigante) entre tantos, que sumiram nos últimos anos na MPB.

Falta de talento seria um argumento simplista demais e pouco inteligente para explicar a precoce aposentadoria de tanta gente boa que um dia puseram o pé na profissão. O que talvez ajude a entender um pouco o gradual desaparecimento de nossos gigantes da MPB é em parte o fato da adoção pelos produtores musicais brasileiros de um modelo de negócios baseado na exploração maciça de um determinado estilo musical, em detrimento de todos os outros.

Não cabe aqui, questionar o modelo econômico adotado pelos agentes do negócio, mas cabe questionar a qualidade do produto gerado deste modelo.

Começou com o chamado BRock (Rock Brasil) onde qualquer formação básica –
Baixo, bateria, guitarra e vocal – virava sucesso nacional. Tiveram seu ápice no Rock in Rio de 1985 e gente como Cazuza, Herbert Viana e Renato Russo davam qualidade às composições da época. Depois disso, de virarem bagaço nas mãos dos produtores musicais, foram trocados pelos pagodeiros, depois pelos pagodeiros românticos, depois pelos sertanejos, depois pelas bundas, depois pelo axé, depois pelo axé e pelas bundas, e vem sendo assim até os dias de hoje. E sem data para terminar.

Pena que seja assim. Que assim seja.


Um grande domingo a todos

*Alex Frederick tem 48 anos, e é um rubro negro perdido em São Paulo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

PAPO DE BOTECO


*por César Zadorosny

Outro dia, num daqueles momentos de dissipação espiritual que nos permitimos eventualmente, em companhia dos amigos de sempre, foi-me perguntado o seguinte: para você, o que há de genialidade nesse ou naquele escritor?

É uma pergunta difícil de ser respondida, principalmente porque envolve grande grau de subjetivismo que dificilmente é compartilhado pela maioria e, algumas vezes, sequer pela minoria. Reparem bem, nós não estávamos pretensamente desenvolvendo qualquer tese crítica sobre a literatura universal, mesmo porque iria faltar conhecimento de causa e sobriedade suficiente para avançar, talvez, mais do que cinco ou dez minutos, até esbarrar na inevitável e constrangedora conclusão de que tínhamos outros temas de domínio mais amplo e profundo a discutir (futebol, política etc). Tratava-se apenas de saber sobre a preferência de um e outro sobre determinado escritor.

Tenho minhas predileções e não sei bem explicar o porquê delas. Fui desenvolvendo-as com o tempo, iniciando minhas incursões literárias obedecendo aos limites físicos da biblioteca da família – aliás, nada modesta, vindo posteriormente a trilhar caminhos próprios, o que possibilitou experiências novas e surpreendentes, embora difíceis de serem compartilhadas no "papo de boteco" que nos unia naquele dia.

Confesso que acho perda de tempo qualquer tipo de arrogância ou presunção quando o assunto é a leitura. Para mim, o fato de alguém estar lendo algum livro já é um sinal de algo promissor, seja qual for o autor de sua preferência. Embora seja um irresistível clichê, tenho isso como uma verdade: a leitura ilumina o espírito, exercita a mente, além de - na minha concepção - possibilitar a quem a pratica a fuga do “lugar comum”, de se tornar "maioria sem par", esquivar-se da ignorância atávica que impõe a alguns, por exemplo, o triste dever de tecer comentários depreciativos, e mesmo sem qualquer pertinência com a proposta que buscamos em nosso humilde espaço, quando poderiam, de fato, criticar-nos com afinco e inteligência como outrora já se fez (obrigado Jorge Couto). Se o silêncio ainda é um direito sagrado, por que não exercê-lo? Pensem nisso!

Abaixo, alguns trechos de obras interessantes.

“Duffy detesta tudo o que lembra desordem física ou mental. Um médico da Idade Média o classificaria como saturnino. Seu rosto, que trazia as marcas de todos os seus anos, tinha a mesma cor das ruas de Dublin. Em sua cabeça, larga e comprida, crescia um cabelo seco e negro e os bigodes de tom castanho não chegavam a dissimular a expressão hostil de sua boca. As maçãs do rosto também lhe davam uma aparência dura, mas não havia aspereza em seus olhos que, contemplando o mundo debaixo de sobrancelhas também castanhas, sugeriam tratar-se de um homem sempre pronto a descobrir nos outros qualidades redentoras, mas que geralmente se decepcionava. Vivia a pequena distância de seu corpo, observando os próprios atos com olhares furtivos e desconfiados. Tinha estranha mania autobiográfica que o levava, de quando em quando, a compor mentalmente uma curta sentença a respeito de si mesmo, colocando o verbo no passado e o sujeito na terceira pessoa. Nunca dava esmolas e caminhava com passos firmes, tendo sempre na mão uma rija bengala.”
(Dublinenses. Um caso doloroso. J. Joyce)

“Da margem elevada descobria-se um vasto espaço. Da outra margem longínqua mal chegava o eco de uma canção. Ali, na estepe infindável, banhada pelo sol, apareciam pontos negros quase imperceptíveis, as tendas dos nômades. Para além havia liberdade e viviam outras pessoas, completamente diferentes das de aquém; ali era como se o tempo tivesse parado e não tivesse passado o século de Abraão e dos seus rebanhos. Raskólhnikov permanecia sentado e olhava fixamente, sem desviar os olhos; o seu pensamento transformou-se num desvario, numa contemplação; não pensava em nada, mas uma certa tristeza o comovia e afligia”.
(Crime e Castigo. Dostoiévski)

Abração e até a próxima.

*César Zadorosny é... César Augusto Zadorosny.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Som do Vinil







* Por Sérgio Soares


No início da década passada foram lançados no mercado vários DVDs, trazendo à baila os bastidores das gravações de álbuns históricos da música internacional, com títulos dos mais variados, de Bob Marley a Rolling Stones, U2 a Stevie Wonder, Jimi Hendrix a Steely Dan. Tratava-se da festejada série “Classic Album”, que ganhou reconhecimento mundial.

Também focado na análise dos bastidores das gravações de álbuns de relevância, tanto musical como histórica, temos no Brasil um belíssimo programa de televisão na grade fixa do Canal Brasil, transmitido pela SKY, chamado “O Som do Vinil”. Eis seu sucinto perfil, constante da página do Canal Brasil na internet:

“A partir de sua pesquisa de discos antigos, o titã Charles Gavin apresenta os bastidores de álbuns que se tornaram clássicos da música brasileira”.

O perfil é curto e não exprime a qualidade do que é exibido na tela. Semanalmente é selecionado um álbum de reconhecido destaque e importância histórica no contexto da música brasileira, sem preconceitos de estilo. Durante trinta minutos desenrola-se um bate-papo do autor da obra com Charles Gavin (baterista dos Titãs e reconhecido colecionador/apreciador de música brasileira), intercalado com trechos das principais músicas, comentários de artistas, produtores etc. Em alguns casos, rola até mesmo uma “palhinha” do autor, esclarecendo pontos musicais por vezes despercebidos do grande público (lembro do Guilherme Arantes tocando alguns cromatismos no piano, para explicar que seu estilo não seria de todo parecido com o de Elton John, com quem costumava ser comparado pelo jeito de tocar).

Releva notar que o programa comandado por Gavin é relativamente curto, possuindo uma aura de descontração e informalidade que o torna extremamente agradável de ser assistido. Detalhes ocultos, e muitas vezes divertidos, referentes às composições, aos bastidores das gravações, são revelados com extrema naturalidade pelos artistas. Já foram produzidos episódios relativos a discos de Arrigo Barnabé, Wilson Simonal, Sandra Sá, Lulu Santos, O Terço, Ultraje a Rigor, Ivan Lins, Guilherme Arantes, Raul Seixas, Novos Baianos, Jair Rodrigues e Jards Macalé, entre outros.

Aos amantes de música brasileira de qualidade e, em especial, para os que se interessam nos detalhes ocultos por trás das gravações, o Som do Vinil afigura-se como simplesmente essencial.

Segue um pequeno trecho, disponível no youtube, do programa gravado com Jair Rodrigues:




Há também disponível diretamente no site do Canal Brasil, trechos de alguns episódios. Eis o referente aos Novos Baianos:



Para quem se interessar, “O Som do Vinil” vai ao ar às sextas-feiras, 21h30min, com reprises regulares na grade da emissora. É diversão garantida.

Até sexta que vem. Bom fim de semana a todos!


* Sérgio Soares realmente gosta muito do Som do Vinil e esclarece não ter recebido qualquer incentivo financeiro (jabazinho) pelo texto de hoje...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

QUAL É A SUA MÚSICA



por Alex Peres*

A memória é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial).
A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e se deteriora com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias, ajudando a tomar decisões diárias.

Em informática, memória são todos os dispositivos que permitem a um computador guardar dados, temporariamente ou permanentemente.

Várias técnicas utilizam-se de elementos físicos para resgatar a memória humana.
Uma boa mortadela ou uma pizza de aliche com alho podem ser considerados elementos de ativação da memória, pois você pode se lembrar deles por vários dias, porém funcionam como elemento volátil.

A música sim, de forma eficiente, faz ativar lembranças que outrora estavam inconscientemente perdidas, e analogicamente funciana como um mecanismo de recuperação de memória biológico.

Ontem tive a oportunidade de assitir um show, em alta qualidade blue ray, que me motivou a fazer essa coluna. Embora com o título sugestivo, “Remember That Nigth”, o show do David Gilmor, fez meus neurôrinos sacudirem em um misto de frenezee e medo, provacando profundas lembranças de momentos muito bons.

David Gilmour é o guitarrista e vocalista da banda inglesa Pink Floyd, uma das maiores bandas da história do rock. Confeço que estou deveras atrazado pois esse show foi gravado do no Royal Albert Hall em 29, 30 e 31 Maio de 2006 e o DVD foi lançado em setembro de 2007 em High-Definition com mais de 3 horas de duração. O cantor contou com participações especiais de David Bowie, Crosby & Nash e Robert Wyatt. Imperdível!!! E por acaso eu tenho ele aqui!!!
Nos últimos 40 anos, tempo transcorrido desde o surgimento do Pink Floyd, vários de seus integrantes e ex-integrantes lançaram álbuns solo. Ao mesmo tempo em que usufruíam de todo o status adquirido com a banda, Syd Barrett, Roger Waters, Nick Mason e o próprio Gilmour, procuravam fugir à todo custo, de qualquer possível semelhança com a sonoridade do grupo, muitas vezes em vão.
“On A Island”, terceiro ‘vôo solo’ de Gilmour, surpreende neste aspecto. O álbum quebra um hiato de quase 25 anos - seu último trabalho solo, “About Face”, foi lançado em 1984 -, trazendo o excepcional guitarrista fazendo de tudo e mais um pouco à que estamos acostumados, com aquele feeling “FENDERano” e seu estilo inconfundível.

Muitíssimo bem produzido, o show é imperdível, para quem ainda não assistiu. Sei que, claro, a maioria dos nossos colunistas já viram esse magnífico show.
Todo mundo tem uma música que leva a lembranças boas, ou ruins.
E a sua, qual é?
A minha, com certeza é “Confortably Numb”!!! entre outras...
Confortavelmente Entorpecido


Olá?
Tem alguém aí?
Apenas acene se puder me ouvir
Tem alguém em casa?

Vamos lá,
Ouvi dizer que você está se sentindo deprimido
Bem, eu posso aliviar sua dor
E te pôr em pé de novo

Relaxe

Vou precisar de algumas informações primeiro
Apenas coisas básicas
Você pode mostrar onde dói?

Não há dor, você está retrocedendo
Uma fumaça de um navio distante no horizonte
Somente te vejo chegando por entre ondas
Seus lábios se movem, mas eu não consigo ouvir o que você está dizendo
Quando eu era criança eu tive uma febre
Minhas mãos se sentiam como se fossem dois balões

Agora eu tenho essa sensação mais uma vez
Eu não posso explicar, você não iria compreender
Isto não é o que eu sou
Estou me tornando confortavelmente entorpecido

Estou me tornando confortavelmente entorpecido

O.K.
Apenas picada de alfinete
Não haverá mais... aaaaaahhhhh!
Mas você pode se sentir um pouco enjoado
Pode se levantar?
Acho que realmente está funcionando, ótimo.
Isso vai te manter vagando durante o show
Vamos, está na hora de ir

Não há dor, você está retrocedendo
Uma fumaça de um navio distante no horizonte
Somente te vejo chegando por entre ondas
Seus lábios se movem, mas eu não consigo ouvir o que você está dizendo
Quando eu era criança tive uma visão fugaz
Pelo canto do olho
Eu virei para olhar mas tinha sumido
Eu não pude tocar na ferida
A criança cresceu
O sonho se foi
E eu me tornei
Confortavelmente entorpecido

de Gilmour e Waters


Me perdoem a tradução. Sou defensor do meu vernáculo, porém para rock and roll o inglês é impressionantemente ótimo.

Um abraço, e até a próxima quinta.

*Alex Peres – É Pink Floydiano entorpecido.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tanto riso, oh quanta alegria...


Por Figurótico*

Com a proximidade do carnaval meu sentimento de folião começa a dar sinais. Não que sempre tenha tido tal sentimento. Quando criança, detestava carnaval, bailes em clubes e tal. Só fui apreciar quando comecei a entender o sentido de toda a magia que circunda o período momesco. A magia da bagunça, da desordem, do despudor, do desbunde, da esbórnia. Os quatro dias mais “aloprados” do ano, em que na quarta-feira de cinzas nos perguntamos: seria a vida isso mesmo? E nos recolhemos à calmaria de sempre para nos livrar de tudo o que fizemos em excesso.

Levou um tempo para eu gostar do carnaval. Porém hoje em dia não perco um. Sem casamento e filhos, o que me resta, o que vida me oferece é cair na folia. Quatro dias em que se pode beber sem culpa. Ir atrás do bloco e aproveitar. Só não me peçam para me fantasiar, ou sair cantando as músicas da moda. Contem comigo ali, olhando tudo, copo na mão, e disposição para amanhecer os quatro dias em pé.

Mas nem tudo é perfeito neste carnaval de hoje. A máquina-de-fazer-dinheiro-que-vem-da-Bahia assumiu esse período para ela e não largará nunca mais, ao que os números indicam. Talvez nem estejamos vivos para presenciar o declínio baiano no carnaval... E este virou sinônimo de abadás, camarotes, trios, dinheiro, “tira o pé do chão”, dinheiro e mais dinheiro. Obviamente que emprega muita gente, gera receitas astronômicas, movimenta a economia do país. Só que eles descobriram que o povo vai em qualquer “uma” no carnaval, compra qualquer “onda”, paga qualquer preço, é persuadido com extrema facilidade. E vem da Bahia, toda essa (nova) “magia” do carnaval. Conseguiram em poucos anos dar um “chega pra lá” nos sambas-enredos, nas marchinhas que outrora eram o cartão de visitas da folia. No início da década de 90 se ouvia umas quatro, cinco músicas da Bahia que tocavam nas rádios. A primeira a tocar – ao menos por aqui – data do fim da década de 80 ainda, era do Chiclete com Banana. Segue um trecho da letra (após consulta no Google, claro): “Vou caminhando entre flores e guerras/ Vou deslizando entre o bem e o mal (...) A esperança é uma flecha de fogo/ Que faz arder o meu coração/ Eu canto e grito de novo/ paz nesse mundo e união...”. Depois disso vieram os samba-reggaes, que logo em seguida, tudo o que vinha da Bahia se tornaria o Axé Music. Pronto. Com ele, o país mudou. Os maiores vendedores de discos passaram a ser eles, criaram um tipo de evento anual em praticamente todas as cidades do país, dedicados só ao ritmo “envolvente da Bahia”, à “cara do Brasil”. Só se for do Brasil, porque minha nunca será! (No jargão carioca, “nunca serão!").

Por isso continuo amando e adorando o Marceleza, Marcelo Nova. Que em pleno Festival de Verão de Salvador, disse para toda a Bahia ouvir:

- Vocês estão se divertindo aí embaixo? Você dança como você quiser, meu anjo. Aqui ninguém vai dizer: “tira o pezinho do chão, galeraaa! Enfia o dedinho no * galeraaaa! Entendeu, baby? Eu não faço música pra adestrar macaco!

Na mosca. É realmente isso que se vê. Na versão nova desse festival, aliás, que a Globo exibiu um pouquinho do festival, e que eu tomando remédio para uma faringite – não tenho TV por assinatura em casa – assisti a uns pedaços. Anunciaram 90 atrações em todo o festival, com tendas e tudo o mais. E o que passou na Globo? Ivete, Asa de águia, Chiclete, Cláudia Leite e a (já anunciada!) dança do próximo carnaval! Coisa que até o Jornal da Globo fez questão de ratificar!!! Vejam como Marcelo está certo. Todo ano há a música do carnaval, a dança do carnaval, que são previamente elaboradas naqueles cantos, e que já é sabido, o povo vai comprar antes de gostar. Adestramento de macaco! E o pior de tudo ainda é ver André Marques, saltitante, anunciando uma atração, usando o mesmo texto há 12 anos (tempo que existe o festival e que este moço o apresenta!): “se você é chicleteiro, está abençoado, se não, está perdoado...” Simplesmente deprimente.

O que devem pensar Moraes Moreira, Armandinho, seres responsáveis pelo início desse carnaval baiano, de trio, além é claro de Dodô e Osmar? Moraes Moreira tem músicas feitas para carnaval que são excelentes para uma folia saudosista. Lembro-me de “Chame Gente”, “Pombo Correio” e “Festa do Interior” (música feita para SãoJoão mas que estourou no Carnaval).

Mas o que importa e que o carnaval está chegando, e pra algum canto eu vou cair.

Essa musica já é suficiente pra eu sentir o cheeeiro do carnaval...
http://www.youtube.com/watch?v=AlP-oONVImw

Pra fechar, a música (que fecha) o CD de minha banda, e que foi composta num carnaval, em ritmo de marcha.

Da terra dos Esbornes
(Figurótico/Ricardo Leitão)

Nós viemos lá do “Esborne”
E chegamos para avacalhar
Conhecemos todas as formas de porre
Que vierem nos impostar
Nós curtimos “beirola” de praia
E encontros nus ao luar

Esse é o país da esbórnia
Tire sua roupa ao entrar
O álcool que no sangue corre
É a mistura que faz engrenar
“Esbornes” não fogem da raia
Enquanto o rock rolar

Olha o “esborne” aê
Olha o “esborne” aê
Olha o “esborne” aê

*Figurótico é músico, jornalista, 34 anos e no carnaval é... folião!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Uma opinião é só uma opinião

O Mozart está sem condições de postar essa semana devido a problemas técnicos (enchente em Barra e compromissos de trabalho além do normal),por isso ,para preencher a lacuna ,mando um texto meu,escrito em Dezembro de 2009.


Uma opinião é só uma opinião
*Renata Klotz


Caraca,a semana foi cansativa,corrida e cheia de coisas pra comentar.Mas escolhi falar de um assunto que eu acho essencial:opinião (alheia) e como ela influencia normalmente mal as nossas vidas.

Tive uma conversa com uma amiga que tem sérios problemas de auto-estima advindos da opinião que os outros têm dela.Daí começou uma conversa,que gerou esse post hoje.Pros homens talvez isso seja um pouco menos relevante (não totalmente e nem pra todos,claro),mas pra nós mulheres é uma pedra no sapato desde que o mundo é mundo.Por que? Porque fomos criadas pra agradar.Pra enfeitar.Pra servir.E pra não questionar,quem questiona não casa,minha filha!

Pois é.Triste conclusão,mas verdadeira,ainda nos dias de hoje.Crescemos com a impressão de que a opinião do outro é mais importante que a nossa.Isso quando ousamos ter opinião.Em alguns campos podemos dar pitaco,mas em outros,nem pensar.O que é curioso,pois quem observar atentamente,verá que as grandes decisões dentro das famílias são tomadas pelas mulheres.Abertamente ou não,a mulher cria o ambiente e os padrões morais da sua família,ensina aos seus filhos o que eles devem saber sobre o mundo.Enfim,mas isso é papo pra outro post.

O que eu quero dizer é que com essa busca incessante pela aprovação(pois claro,queremos opiniões positivas sobre nós) esquecemos do mais importante:amor próprio e auto-aceitação
E assim passamos a vida correndo de lá pra cá,de cá pra lá,querendo sempre aplausos pra cada gesto,pra cada escolha que fazemos.Mas não obtemos isso jamais.A não ser que façamos as escolhas que o outro nos impõe,porque desse modo ,claro,ele nos aprova.”Faça o que eu digo ,não faça o que eu faço.”

Eu aprendi a duras penas, que a primeira, e talvez em alguns casos, a única pessoa que deve ser agradada por mim,sou eu mesma.Tenho que estar em paz,feliz comigo mesma.Nos conheçamos,descubramos como e a tranquilidade chegará até nós.
De resto,já foi dito, lembre-se, uma opinião é só uma opinião.



Renata Klotz (renataklotz@hotmail.com) tem 32 anos até Março e acha que muita gente tem opinião demais ,enquanto outros deviam ter ao menos uma...!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SER COOL









por Carlos Vinicius Rosenburg*






Em uma dessas tradicionais zapeadas pela programação da Sky, me deparei com o finalzinho de um documentário, no Canal Brasil, sobre o trombonista Raul de Souza, exatamente no ponto em que o mesmo tocava junto com Maria Bethânia, no final do filme (pela qualidade do instrumentista, merece uma coluna separada, que exigirá uma certa pesquisa e, óbvio, o conhecimento do documentário na íntegra – parece que já foi disponibilizado no Youtube). E o que chamou a minha atenção, naquele momento, foi a sofisticação na execução da canção, a voz de Bethânia, sem exageros, no tempo certo, e o fantástico solo de trombone do já citado Raul de Souza. Procurei uma palavra que traduzisse aquilo e a única que apareceu, ironia, foi uma da língua inglesa. Pensei:

- Que som cool!

Meu Deus, logo eu, sempre contrário ao uso de expressões alienígenas para definir algo. Mas isso tem muito a ver com o significado da palavra. Foi a expressão que encontrei na hora.

Mas, e o que seria alguém (ou algo) cool? Não é fácil traduzir, não há um sentido único. Está mais para um estado de espírito, aquilo que a pessoa é, um estilo. Por isso não é fácil achar um equivalente em português. Sofisticado? Talvez, mas vai além. Maneiro, antenado, chique (chique é dose...), alguém que tenha estilo, estiloso. É mais ou menos por aí.

Porém, muito mais fácil do que definir, é apontar quem ou o que é cool. Sob esse aspecto não dá para errar, e aí fica fácil entender o sentido da expressão. Assim teríamos, por exemplo, os já citados Raul de Souza e Maria Bethânia, Woody Allen, Tom Jobim, Cole Porter, Miles Davis, Elvis Costello, Osmar Milito, Scorsese, Jagger, Basquiat, Velha Guarda da Portela ou da Mangueira, Marlon Brando, Marília Gabriela, Raul Cortez, Sade, Seal, David Gilmour (carreira solo), um restaurante no em um lugar exclusivo, afastado, uma pousada no alto de uma serra (como a da foto - Ventos da Bocaina, na Estrada do Parque Nacional - http://www.ventosdabocaina.com.br/), um filme de David Lynch, uma foto de Sebastião Salgado, Buena Vista Social Club, Ry Cooder, Orson Welles, Albert Camus, De Niro, William Hurt (principalmente em Cortina de Fumaça), Morphine - a lista é infinita, enfim, como já foi dito, não dá pra querer ser cool. Ou se tem estilo, ou... É um pouco a coisa do “menos é mais”.

Mas é preciso muito cuidado. Entre ser cool e ser pretensioso, ficar fazendo pose, há uma linha tênue. Não basta usar um chapéu Panamá, colocar um jeans artificialmente surrado e deixar a barba por fazer. Ninguém se torna cool. Tem que ser natural. A música instrumental é um bom exemplo. Temos inúmeros músicos considerados cool, sofisticados (o jazz tem até um estilo – cool jazz), mas também temos o intragável (fãs, desculpem) Kenny G, que é tudo (cafona, chato, repetitivo etc.), menos cool. E isso pode ser visto em todas as áreas. No mundo moderno, todos querem ser cool (assim como querem ser famosos, magros, ricos etc. – isso é tema para outra coluna).

Bem, antes que achem a coluna pretensiosa, chata, nada cool, fico por aqui. E sem trocadilhos óbvios, por favor.

Até a próxima segunda.

NOTA: coluna inspirada no documentário sobre o trombonista Raul de Souza (a primeira parte pode ser vista aqui - http://www.youtube.com/watch?v=1n_RE8v6Lo0), na fantástica “Long Gone Day”, música extremamente cool do grupo Mad Season (projeto paralelo de músicos do Alice In Chains, Pearl Jam e Screaming Trees) – apenas o áudio - http://www.youtube.com/watch?v=SCl108Lxav0 e na música mais cool de todos os tempos, “Via Con Me”, de Paolo Conte, presente em inúmeros filmes – só o áudio - http://www.youtube.com/watch?v=VJKX9Z86WuY. Também extremamente cool é a banda Morphine, projeto de banda de rock que tem apenas bateria, baixo (com duas cordas) e sax no lugar das guitarras - http://www.youtube.com/watch?v=m1iTZItBzGY.



*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é casado, tem uma filha e escreve no Estação BM, o blog mais cool da internet...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Gente Estranha, Comida Esquisita

Por Valério Cortez


De médico, cozinheiro e louco, todo mundo tem um pouco.

Eu pessoalmente, adoro cozinhar, ainda que nunca tenha feito nada mais elaborado do que um ovo frito, viajo na elaboração e harmonização dos sofisticados pratos que assisto serem construídos nos programas de culinária.

É isso aí, mas do que cozinhar, gosto de ver gente cozinhando, mas do que isso, gosto de ver gente cozinhando nos programas de culinária da TV.

Conheço todos, da Ana Maria Braga, ao maravilhoso “Larica Total” do “Chef” Paulo de Oliveira, no Canal Brasil, com sua culinária guerrilheira, onde abundam receitas como “Fettuccine a La tudo que tem na geladeira”, o Maravilhovo, a Macarronada de Miojo e o fantástico Restô de Ontê.

Dia desses, vagabundeando na internet, me deparo, na pagina da UOL, com uma bela receita de batatas assadas, com foto é tudo, em ato contínuo, acesso a pagina, Mixirica, melhor que a encomenda.
No Blog, além da receita das batatas, encontrei uma pequena pesquisa sobre assassinatos culinários, ou seja, sobre as improváveis receitas e rangos que elaboramos e comemos, mas não ousamos contar a ninguém, seja pelo inusitado do prato ou pelo horário da degustação.

A pesquisa enumera assassinatos gastronômicos que vão do já clássico “mexido da minha mãe”, ao prosaico “feijão com macarrão”, passando pelo revolucionário “leite com gás” (Molico preparado com água gasosa).

Eu, pessoalmente, nunca fui de grandes elucubrações gastronômicas, no maximo, um pão com lingüiça e mel, e você, o que anda comendo escondido ? da pra contar?

Valério Cortez num esforço hercúleo, concluiu estas mal digitadas linhas às 5.30 horas da manhã.

A receita do Mexirica

Batatas douradas

- batatas com casca
- azeite
- sal
- parmesão ralado
- folhas de tomilho

Lave bem as batatas, esfregando as cascas. Corte em pedaços do tamanho que desejar e leve ao fogo para cozinhar até conseguir espetar um garfo nas batatas. Escorra, disponha as batatas em uma assadeira e tempere com sal, queijo ralado, tomilho (seco ou fresco) e um fio de azeite. Leve ao forno médio e asse até dourar levemente.

Tenham um bom Domingo

sábado, 23 de janeiro de 2010

ILHA DO ROCK




*por César Zadorosny

Numa semana em que o saudosismo foi tema corrente em nosso humilde espaço virtual, vindo à baila recordações de tempos escolares e férias memoráveis, provavelmente, impulsionado por isto e também pela postagem de segunda-feira relacionada ao Ano Bom, meus pensamentos também foram levados ao passado. Não a um passado remoto e vivido por outros, mas a um tempo próximo, marcante, presenciado por mim e por boa parte dos barramansenses que contam com mais 35 anos e que, acredito, dificilmente se verá repetir aqui: os shows do Ilha Clube.

Para quem só se recorda do Ilha Clube como palco de bailes funk aos domingos, além de shows pagode e forró de segunda classe, lamento profundamente, pois houve um tempo em que nossa cidade podia ser considerada parte do circuito musical nacional. Quando o “rock brazuca” de fato estourou nas gravadoras do país, tivemos a sorte de ver passar por aqui grande parte das melhores bandas que surgiram na época, tendo como principal arena a quadra do Ilha Clube.

Dentre as bandas mais importantes que vieram temos a Blitz, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Lobão (que naquele tempo acabara de lançar o álbum Vida Bandida), além dos Titãs, que demoraram a aparecer, mas vieram enfurecidos com “Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas”. Além destas, houve uma espécie de festival, tipo Rock ‘n Ilha, com a presença das bandas Nenhum de Nós, Uns e Outros e Inimigos do Rei (?!), evento que já anunciava uma certa decadência, contando mesmo com a presença de público aquém do esperado.

Recordo-me também que todo ano, no Dia dos Namorados, tínhamos a presença garantida do Roupa Nova na cidade, arrebatando os corações dos casais com seu repertório “mela cueca”, executado sempre de forma magistral pelos excelentes músicos da banda. Alguns amigos, mesmo sem namorada, esperavam a data ansiosamente para se emocionarem mais uma vez e, quando flagrados no local por algum conhecido, diziam que estavam ali por causa da performance excepcional dos músicos em “Sapato Velho”. Mentirinha. Bem sabemos que eles queriam mesmo era ouvir a execução de “Dona” ao vivo e fazer parte do coro com as mãozinhas levantadas balançando de um lado a outro. O pior era o tal do isqueiro, aquilo era de doer, mas ainda assim era bem melhor do “Pipo’s Ultra X Espião Choque de Monstro”.

Que não se pense que, pelo fato de se tratar de uma cidade do interior, as apresentações eram curtas e distantes, como acontece atualmente nesses parques de exposições agro-comércio-pastoril-industrial. A plateia ficava há pouquíssimos metros da banda e as performances eram, via de regra, avassaladoras, com os músicos se desdobrando no palco e, literalmente, suando a camisa para levantar o público. Exemplo disso foi um show dos Paralamas em que, após a execução de boa parte do repertório da banda, Herbert Viana, empunhando uma Gibson SG Doubleneck, começa a solar Stairway to Heaven. Cara, melhor que isso só a visão do Durval, ao final do show, tirando o cinto e perseguindo uma garota desavisada que sorrira pra ele – ou dele, não sei bem – segundos antes. Nosso então adiposo amigo fazia da peça de seu vestuário uma espécie de chicote, vibrando-a no ar e correndo em círculos pela quadra com a garota, desesperada, a sua frente. Impagável. Acho que ela também se recordará daquele show para sempre.

A melhor apresentação de banda de rock, na minha modesta opinião, foi dos Titãs. Como já disse aqui, o grupo lançara na época um de seus melhores álbuns, o “Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas”, realizando uma apresentação ruidosa e inspirada, ainda contando com a presença de Arnaldo Antunes no palco, aliás, uma figuraça. Embora não consiga recordar o número aproximado de presentes, tenho certeza de que foi um dos shows mais lotados, inclusive, porque o espaço físico da quadra já havia sido ampliado, quase dobrando a capacidade da casa.

Nem só de rock era feito o Ilha Clube, admito. De todos que lá se apresentaram, justiça seja feita, o mais importante certamente foi o "rei" Roberto Carlos. Não fui ao show, pois não era – e ainda não é – a minha praia, mas quem foi certamente se emocionou embalado pelo som de “Café da Manhã” e “Cama e Mesa”.

Abração e até a próxima.

*César Zadorosny é... César Augusto Zadorosny e não entra no Ilha Clube desde a sua colação de grau no Curso de Administração em 1996.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Barra Mansa - Um caso de amor e ódio? (Do Vale do Paraíba ao Vale do Jequitinhonha)





























* Por Sérgio Soares


Sou barramansense, mas deixei minha terra natal há oito anos. Saí por necessidade profissional. As Minas Gerais me acolheram com grande hospitalidade.

Em minhas andanças pelas alterosas, estive no noroeste, próximo a Brasília, passei pelos Vales do Jequitinhonha, Mucuri e do Aço, vindo finalmente a me fixar na Zona da Mata. Vi um pouco de tudo.

O que me chamou a atenção, no início, foram as cidades extremamente pobres como Ponto dos Volantes, Virgem da Lapa e Itinga, incrustadas no Vale do Jequitinhonha. Baixo índice de desenvolvimento humano, ausência de perspectivas, falta de emprego, atendimento médico precário, enorme distância dos grandes centros etc.

E o que encontrei no denominado vale da pobreza? Um povo acolhedor, amigo e, acima de tudo, feliz e amante de sua terra! E isso me fez, de plano, recordar a época em que vivi em Barra Mansa, cidade de médio porte, bem localizada, com acesso a praticamente tudo, distante cerca de apenas 100 km da capital do estado. E então pude perceber como por vezes fui exigente e cego.

E hoje, passados oito anos, olho para Barra Mansa com novos olhos. Talvez o tempo tenha se encarregado de apagar memórias ruins e enaltecer aspectos positivos. Pode ser. Mas sinto mais respeito por minha terra do que quando a deixei. Barra Mansa é cheia de defeitos, não há dúvidas, razão pela qual certamente ainda falarei mal dela várias vezes, pois isso faz parte dessa relação de amor e ódio.

Dizem que a grama do vizinho é sempre mais verde. Pois percebi na seca impiedosa que às vezes o vizinho nem grama tem.


* Sérgio Soares é barramansense criado na Rua Jansen de Melo. Formado em Direito na SOBEU.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O MELHOR BOTEQUIM DE BARRA MANSA


por Administração do Blog Estação BM*

Nosso blogueiro que dá expediente em nosso boteco às quintas-feiras ficou muito alegre com a ida do Obina para o Patético/MG e não postou sua coluna.


Mantendo nosso compromisso quase cívico de abrir as portas da bodega diariamente, colocaremos mais uma de nossas enquetes, dessa vez com um assunto que está na categoria "segurança nacional": o botequim.


Então, trazendo mais uma vez o caldo para o lado de nossa cidade, perguntamos aos nossos (poucos) leitores:


QUAL É O MELHOR BOTEQUIM DE BARRA MANSA?


Pode ser pé-sujo, pé-limpo, meio boteco-meio restaurante, não importa. Quem frequenta um boteco sabe reconhecer um, mesmo que o dono coloque alguns disfarces (basta que seja um lugar em que você vá para beber e comer algum tira-gosto - vai do complexo Jorginho/Serrate ao Gaia Grill, passando por Senegal, Tomáz e outros).


Respostas nos comentários - quem puder, mande a enquete com o link para acesso ao blog para os contatos de e-mail, Orkut, Facebook, MySpace etc.


Que vença o melhor!
*Estação BM é o blog mais etílico de Barra Mansa.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um lugar para se viver (para eu)


Por Figurótico*


Com a urgência das colunas sobre o Ultraje em Volta Redonda, e os 25 anos do primeiro Rock in Rio, é chegada a hora de irmos “A La Playa! Oh, oh, oh, oh, oh!” Sim, minha cidade de janeiro, de réveillon, de carnaval, minha Cabo Frio. Desde 1975, o ano em que vim ao mundo, tenho registros das salinas em minha alma e coração. Há fotos que comprovam não só eu menino, recém-nascido, mas já na barriga de minha espetacular Mãe em terras cabofrienses!

Desde então venho carregando pela vida momentos que lá passei, e todo ano quando piso naquelas areias não brancas, mas claras, cristalinas, todas essas emoções vem à mente e me emocionam. É como seu eu pegasse ano a ano que lá estive e construísse uma vida independente, só de estada em Cabo Frio. É uma vida!

A emoção da chegada é intensa, sempre, não me acostumo. Quando avisto as praias de todas as Iguabas (hoje não mais, devido à construção da Via lagos a rota não é mais a mesma) a adrenalina bate forte. O céu incomparável aberto à frente lhe chamando para aproveitar ao máximo o dia lindo. E você aproveita, aproveita, se cansa e aproveita de novo. Essa é a rotina de praia – a minha ao menos –, volto de lá mais cansado que tudo, porém renovado. Não vou à praia para descanso, mas para suar o corpo, curtir, esvaziar a mente de toda a minha vida que não esteja lá naquele momento. Tanto que além da tradição de ir anualmente à Cabão (ou cabófa, cabo canaveral, cabo frito), tenho mantido sem querer a tradição de ir com o celular cortado por falta de pagamento. Óbvio, o que é mais importante? Eu pagar a minha conta de celular e viajar com menos dinheiro, ou deixar de pagá-la e ir com mais dinheiro? Não resisto em dizer que no ano corrente não foi questão de ir com mais ou menos dinheiro, fui com apenas o dinheiro que pagaria minha conta! Claro que tenho a grande sorte de ter um tio e uma tia com apartamento lá. Até 1994, ficávamos no de meu tio, depois disso passamos a ficar na da minha tia, ambos na Praia do Forte.

Praia do Forte é um capítulo a parte. Já estive em outras praias do país, nos estados de São Paulo, Espírito Santo e Bahia, mas a do Forte é a minha praia. Por umas três vezes apenas tive de ficar em Búzios ou na Paria do Peró. Esta última, não tem nada a ver comigo, por exemplo, não houve identificação alguma. A gente com a idade vai se tornando previsível demais, e pra eu ficar completamente feliz, basta me colocar na Praia do Forte que tudo vai ficar bem. Sou tão Forte que prefiro estar ali, com os pés fincado e vez por outra dar um rápido passeio a Búzios, do que ficar instalado em Búzios. Loucura, não? Não, é paixão mesmo. Gosto de curtir à noite no Malibu, no Cilada, e depois dar um confere no canal, se não estiver legal, voltamos para o Malibu.

Devem ter reparado que neste texto abusei de palavras “paixão, lindo, menino, alma, coração” não muito presentes em textos que redijo. Mas tais palavras, tão usadas pelo Rei Robertão, tem explicação: todos sabemos que viagens não são marcantes só pelo destino em si, mas pelo seu trajeto, estrada. E nas inúmeras vezes neste caminho, a lembrança que me faz chorar, acontece quando ouço “A guerra dos meninos”. Pra quem não ligou o nome à pessoa, lá vai:

“Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito
Que eu sonhei em toda a minha vida
Sonhei que todo mundo vivia preocupado
Tentando encontrar uma saída
Quando em minha porta alguém tocou
Sem que ela se abrisse ele entrou
E era algo tão divino, luz em forma de menino
Que uma canção me ensinou
La La La La La...”


Principalmente nesse refrão, na gravação com a voz de um menino, “Lá, lá, lá, lá, lá, lá”. Vejo claramente, como num filme, pai e mãe no banco da frente, eu e Pança (meninos) no banco de trás, meu outro irmão nem nascido era. E o rádio tocava essa canção do Rei, e seguíamos ainda pela estrada velha para Cabo Frio. É sem dúvida, a música com mais cheiro de infância que tenho. Nisso já havíamos passado de Niterói e eu já começava a ficar ansioso, perguntando o famoso “está chegando, pai?”. Uma parada marcante que dávamos era na “Casa dos Amanteigados”. Fazíamos lanche e levávamos produtos para a casa. Os cata-ventos nas salinas também eram sinais de que estávamos chegando, sim. Nem quando entrávamos na cidade minha ansiedade se aquietava, só ficava calmo quando avistava um dos prédios mais antigos de Cabo Frio, de cor marrom, e que suas varandas faziam uma meia-lua, com uma gradezinha característica. Até hoje ele permanece assim. Pronto, ali estávamos perto do prédio de meu tio. Ao entrar no apartamento já corria para a varanda para me debruçar no muro e avistar, na ponta dos pés, o mar... a Praia do Forte.

Serei sempre grato à minha mãe e a meu pai por terem me passado esse amor por Cabo Frio, meu pai principalmente, pois é mais fanático que todos nós. Sempre saíamos de Barra Mansa com ele, às quatro da manhã. Ele dizia que era pra evitar engarrafamentos. Mas eu bem sei que a intenção era a de chegar às oito da manhã e já estarmos na praia, malandro...

Já fiquei em Cabo Frio por quinze dias (isso tem tempo...), por uma semana, quatro dias, três, dois, um, e até mesmo ir e voltar no mesmo dia, numa segunda-feira, quando estudava no Rio. Peguei uma carona e nosso destino era o Rio de Janeiro, eu iria estudar e meu amigo trabalhar. Bateu aquele sol na Dutra em Nova Iguaçu e coloquei a pilha. Fomos, pegamos uma praia, comemos camarão, tomamos um chope e voltamos para o Rio à noite, continuando o chope que começara em cabófa. Pura fomiagem...

Como também nem sempre os apartamentos da família estavam disponíveis, já dormi em grama de camping (nunca tive barracas, odeio, aliás); em apartamento de conhecidos que encontrava por lá, sem combinação prévia; dentro do carro, na rua, enfim... Vivi momentos ali que me fizeram o que sou hoje. Curti épocas em que a cidade não tinha se transformado no que é hoje, e ainda era possível ouvir Bete Balanço no sistema de som da praia, de ver os sons de carros abertos rolando Men at Work e Dire Straits que embalavam a geração surfista de 80. Chegava a passar três horas dentro da água sem sair, pegando jacarés. Fui socorrido n vezes por salva-vidas, pois queria ir fundo na praia, e nem por isso tive trauma algum. Vi Leandro Peixe-frito algumas vezes batendo papo na praia e falando sobre futebol. Ganhei uma cicatriz característica no lábio por conta de uma garrafa de coca-cola que estourou em minha mão aos sete anos de idade, quando a levava para o almoço e tropecei na escada do edifício; vi João Penca fazer um showzaço na Praia do Japonês; vi...; vi...; vi coisa pra caramba ali, em Cabo Frio.

Fui, sou e sempre serei Cabo Frio!
___________________

Coluna escrita ao som do Rei:
http://www.youtube.com/watch?v=uZMjTU9jBDE&feature=related

E hoje, nós barramansenses, comemoramos o dia de nosso padroeiro, São Sebastião!
Viva!!!!


*Figurótico é músico, jornalista, 34 anos, e quer curtir a velhice em Cabo Frito.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

CVD



por Mozart Valle Neto*

Semana passada foi anunciado aqui que eu iria escrever sobre o Decreto Presidencial dos Direitos Humanos. Pesquisei bastante, li o decreto todo, enorme por sinal, vi a opinião de alguns colunistas pela internet. Cheguei a iniciar vários. Um metia o pau, outro mais leve, outro em forma de carta para o presidente e o mais radical: uma carta para o Serra mostrando minha indignação e oferecendo minha ajuda gratuita para sua campanha. Pensei bem e resolvi não publicar nenhum deles! Sabe-se lá se não vão nos tirar do ar por conta disso...

Ai surgiu um problema, sobre o que escrever? A idéia surgiu de uma conversa com um aluno hoje à tarde. Por acaso ele descobriu que eu conhecia o Lafer. Quando eu falei que ele tinha sido meu professor me toquei. Eu estava ministrando aulas para um ex-aluno de um ex-professor meu! Um cara que tinha sido muito importante na formação do meu conhecimento e caráter. Aliás, quem tiver saudades também pode dar uma olhada no blog dele. http://laboratoriodolafer.blogspot.com/

Na volta de Itaipava, na noite passada, minha memória se encheu de lembranças do Colégio Verbo Divino. Lembrei do dia que tiramos aquela foto da 263MB no pátio da cantina. Neste dia o Boi, carregando a Flavinha Adário, levou um tombão numa poça d’água. Lembrei do prof. Ernesto colocando o dedo no meu nariz por causa da estrelinha do PT. Lembrei da Dona Julieta mandando a gente entrar na sala. Do dia que convence-mos todo mundo da sala, inclusive a Carla filha do Ernesto, a matar a aula de português da dona Suely. Da terça-feira negra e da perícia da Polícia Federal.

Lembrei da paralisação de apoio a greve geral de 1989. De como foi legal transformar as faixas da Skol nas do CEBAM. De como foi difícil escrever o panfleto de apoio, eu dando idéias e o Bujão escrevendo. A pressão para levar para a gráfica. Acho que foi o meu primeiro death line.

A peruca bem colocada! Das manhãs tocando o violão do SOR, do J. sendo infiltrado para pegar e devolver o instrumento. Do grêmio. Do Glauco da Convergência Socialista. Das aulas práticas de física no laboratório. Das aulas de natação. Do Sureca. Da natação. Picolé de mini saia. Parquinho. Jeverds. Do surdão do Bujão no jogos. Da dona Martha com as mãos nas cadeiras. Da fantasia de Cuca que minha mãe costurou.

Da tia Maria, tia Leninha, tia Denise, tia Sueli, tia Clara, Belmiro, Toninho, Adelino, Jackson, Marquinhos Bolinha, dona Agnes, dona Norma, Lafer, Carminha, Suely, dona Júlia, Joaquim, Taninha, dona Jane, Jane Zandonaide, dona Uiara, Domi, Maria Helena, Silvana, Gringo e sua cinquentinha, Waldomir, Fernando, André Careca, seu Zé, seu Jorge da cantina e de tanta gente que eu acho legal hoje em dia, na época nem tanto, e agora eu não estou lembrando o nome, rs.

Tantas lembranças. Tantas saudades...


Esta coluna foi escrita com o acompanhamento de um delicioso sanduíche de pão italiano com requeijão feito pela mamãe lá no sítio, com presunto royale com capa de gordura, alface, tomate e shiitake orgânico vindo diretamente de Itaipava. Tudo isso regado a mostarde escura. Na vitrolinha rolava a trilha sonora do filme Easy Rider.


* Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) tem 38 anos, está enamorado e trabalha na área de educação e marketing. Descobriu que cada povo tem o governo que merece.





segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ano Bom: polo etílico-gastronômico?




por Carlos Vinicius Rosenburg*

Dia desses, em conversas com alguns amigos, falávamos sobre a quantidade de bares/restaurantes concentrados em apenas uma rua de um dos mais tradicionais bairros de nossa cidade, aquele com o nome mais espetacular: o Ano Bom. Segundo a Wikipédia (!), é um importante bairro do Distrito Sede do Município de Barra Mansa no Estado do Rio de Janeiro, Brasil [http://pt.wikipedia.org/wiki/Ano_Bom_(Barra_Mansa)]. E mais não disse a enciclopédia virtual.

Bom, e nessa conversa alguém disse que o restaurante La Campagnola (para quem não é de Barra Mansa, um antigo restaurante especializado em comida italiana, localizado em um bairro afastado, a Colônia Santo Antônio) abriria uma filial no Ano Bom, ou mais precisamente, quase em frente ao restaurante/bar Fronteiras. Se tal informação se confirmar, teremos um panorama que começa a ficar interessante.

Puxando pela memória e fazendo uma linha reta, veremos que, na mesma rua (que começa como Praça das Nações Unidas, passa para Abdo Felipe e termina como João Valiante), temos a pizzaria Estação da Pizza, a churrascaria Gaia Grill, os bares Belisca, Estação do Bacalhau e Severo, um japa – Sansei (é isso mesmo?), o bar-choperia-churrascaria-japonês-pizzaria-tudo Fronteiras e um bar sem nome, mais para o final da rua, antes da Ponte Velha, depois do Fronteiras (se alguém souber o nome, cartas/e-mails para a redação). Sem falar do Abatedouro Guedes, do Sacolão, da padaria Cesta de Ouro e de outros estabelecimentos nas imediações, como o bar Camisa 10 e a pizzaria Papabru. Tudo isso em volta do Sesc Barra Mansa, lugar que abriga bons eventos culturais, que pedem uma esticada para comer e beber algo.

Pois bem. Sendo verdadeira a informação sobre a Campagnola, o Ano Bom se confirmaria como polo etílico-gastronômico de Barra Mansa. E a tendência é de crescimento, pois mais bares/restaurantes trazem mais pessoas, quem incentivam novos empreendimentos e assim por diante. Talvez estejamos diante de uma 33 versão Barra Mansa (para quem não sabe, 33 é o nome de uma rua em Volta Redonda que concentra muitos bares/restaurantes).

E aí, nessa possível realidade, entra um importante fator: o Município. Este pode se tornar ator no processo, através de incentivos, publicidade, melhorando calçadas, ruas, sinalização (algo lamentável em Barra Mansa), enfim, criando um efetivo corredor de bares e restaurantes, realizando algo em uma cidade tão carente de opções nessa área. Como também pode se tornar um fator de entraves, burocracia, lentidão. Essa última opção é tudo o que a população de Barra Mansa não quer.

O Município tem uma bela oportunidade para uma bola dentro. Só depende da PMBM.

*Carlos Vinicius Rosenburg (cvrosenburg@gmail.com) tem 37 anos, é casado e acha o nome Ano Bom o melhor nome de bairro que já viu, apesar de ter nascido/sido criado/morar no Centro...

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Indigesta Dieta do Palhaço

Por Valério Cortez

Em 2003, Morgan Spurlock, famoso roteirista nova-iorquino de TV e Publicidade, um dia assistiu na televisão, uma matéria jornalística sobre duas garotas adolescentes que estavam processando a rede MacDonald’s por tê-las tornado obesas. Nascia daí a idéia e o posterior roteiro do documentário Super Size Me ou a Dieta do Palhaço.
Spurlock, na qualidade de produtor/roteirista/diretor/narrador e cobaia do documentário, propôs averiguar o que aconteceria com o seu organismo, ao se impor uma dieta que o obrigasse a comer durante 30 dias, somente os produtos da rede Mac Donald.

Para que sua experiência tivesse um caráter cientifico, antes de iniciar a maratona, consultou-se com três médicos (clinico geral, cardiologista, gastroenterologista), uma nutricionista e um preparador físico, que atestaram as ótimas condições físicas de Spurlock e ficaram responsáveis por monitorá-lo durante todo o período da experiência.

Estabeleceu ainda algumas regras a serem cumpridas por ele próprio no período da dieta ou do documentário: teria que fazer três refeições por dia, não poderia ingerir nada que não fosse vendido pelo MacDonald’s (nem água), teria que experimentar todos os itens do cardápio da rede pelo menos uma vez e sempre que a porção ”Super Size” fosse oferecida, teria que aceitar.

No primeiro dia de sua dieta, Spurlock come como café da manha, um hambúrguer e bebe uma coca cola, em uma loja perto de sua casa.

No segundo dia, come pela primeira vez o tamanho Super Size, (quarteirão duplo de queijo, 500 gramas de batatas fritas e mais de um litro de refrigerante), leva uma hora para comê-lo e vomita no caminho de volta para casa.

No quinto dia, apresenta sinais de depressão, letargia e dores de cabeça e já acumula 4,5 kg a mais em seu peso.

No vigésimo dia apresenta palpitações no coração, crise de abstinência, tremores, triglicerídeos elevados, perda de energia e piora no seu desempenho sexual.
Seus amigos e familiares começam a se preocupar, seu cardiologista o aconselha a parar, mas Spurlock insiste em continuar ao ouvir o seguinte conselho de seu irmão: “Morgan, a gente comeu essa merda a vida toda. Acha mesmo que vai te matar se você comer os outros nove dias?”

Ao final do trigésimo e ultimo dia, Spurlock após atingir seu objetivo, é examinado pela junta médica, que diagnostica um alto grau de deterioração de sua saúde, com danos irreversíveis no fígado, hipertensão, complicações cardíacas e um sobre peso de 11 kg.

The End.


Resumo da Opera ou Como Terminam Todas as Coisas

- Morgan Spurlockl logo após o fim da dieta e do documentário, iniciou uma dieta de desintoxicação. Ele levou exatos onze meses para recuperar seu peso anterior a esta experiência bizarra e perigosa.

- Super Size Me ganhou o premio de melhor direção de documentários no Sundace festival, foi indicado ao Oscar de melhor documentário do ano e teve uma bela carreira comercial nos Estados unidos e no restante do mundo.

- A rede MacDonald’s, algum tempo depois do lançamento do filme, retirou de seu cardápio os produtos “Super Size” e ganhou a ação contra as adolescentes, que não conseguiram provar na justiça, a responsabilidade da rede em seus problemas de obesidade.


Notas perdidas

Tremo só de pensar, na possibilidade de, em uma hipotética Dieta do Bicho Preguiça, o dietante (essa é nova) fosse obrigado a comer em suas três refeições diárias, durante sete dias por semana, 30 dias por mês, somente e tão somente, os nauseabundos churrasquinhos do Serrate, que conforme diz a crença popular, “se não mata, aleija”.


Desejo a todos um bom domingo e uma refeição saudável.
Valério Cortez prefere o Bob's.

sábado, 16 de janeiro de 2010

BOM INÍCIO?



*por César Zadorosny
Antes de tudo, quero que perdoem a ausência da última semana, mas “forças ocultas” impediram minha humilde contribuição para este espaço holístico e, ultimamente, cabalístico, no bom sentido.

Começamos o ano com o pé esquerdo, contando corpos e desaparecidos, vendo os bons sucumbirem à trágica tragédia, enquanto os maus prosseguem prosperando na chafurda, rapinando o erário e manobrando a saída impune da maneira mais calhorda que se possa imaginar: bem na nossa cara. O falecimento na catástrofe do Haiti da fundadora da Pastoral da Criança, a pediatra Zilda Arns, é um ótimo exemplo, a meu ver, de injustiça divina, pois sua inestimável contribuição para o bem coletivo deveria ser fator preponderante na hora de se decidir quem vai primeiro e quem fica por último, especialmente, quando a matilha vaga ilesa pelo planalto, conjugando em alto e bom tom o verbo “estoupoucomelixandoparaoresto”. Infelizmente, não sou eu quem faz as regras e também não cabe aqui discutir os desígnios celestiais.

Bem, devemos olhar as coisas também pelo ângulo positivo. Se tirarmos a bandalheira, as maracutaias, a cafagestagem, o cinismo, a mordaça e tudo o mais que não presta, até que o saldo vem sendo, digamos, favorável. Já tem até instituto de pesquisa dizendo que teremos no Brasil, em 2016, índices de pobreza e desigualdade próximos aos de países ricos. Só não ficou bem esclarecido se serão os nossos índices que subirão ou se serão os índices deles que despencarão (e muito), ou até mesmo ambas as situações, ao mesmo tempo, em conjunto e concomitantemente.

O único problema é que nossas pretensões de ocupar um lugar ao sol – e no Conselho de Segurança da ONU –, podem esbarrar no pequeno detalhe de que há previsões catastróficas para 2012, ano em que o mundo “irá para a Cucuia”, segundo alguns pessimistas metidos a Nostradamus e também segundo o preciso calendário Maia. Eu, como otimista inveterado, acho que o fim dos tempos não se avizinha, ainda. Vai levar algum tempo e será tudo bem mais lento e doloroso, com os miolos a cozer num calor de 60 graus, sem água, comida, TV de plasma, home theater, dique-pizza etc.

Não pensem que com isso que estou aspirando ao título de Walter Mercado (ligue djá, lembram?) do blog, pois este já pertence ao nosso decano Valério Cortês. Nossa versão brazuca do andrógino místico porto-riquenho (só que sem a frondosa cabeleira loira e a roupa extravagante), fez no último domingo implacáveis previsões para o ano que já segue torto, tirando-me o sono, especialmente no que se refere ao panorama esportivo. Espero que assim como seu alter ego sósia da Hebe Camargo e da Vovó Mafalda, ele seja mais especializado em acertar o que não vai acontecer.

No aspecto pessoal posso dizer que meu início de ano foi excelente, pois passei junto com minha família, cercado de bons amigos, sendo recebido com extrema gentileza e carinho pelo Sergio e a Cacau em sua casa de Angra dos Reis. Para completar, o fato de estar de férias torna o início de 2010 ainda mais agradável e promissor.

Minha dica para um divertido início de ano é assistir ao filme Avatar. Sei que muita gente torce o nariz para o estilo “máquina de fazer dinheiro” hollywoodiano, mas uma coisa tem de ser dita: é um filme realmente extraordinário, que utiliza o que há de mais avançado em recursos técnicos, em harmonia com um bom (embora simples) roteiro e, lógico, a modesta soma de US$ 300 milhões – alguns falam em US$ 500 milhões. Não há dúvida que se trata de uma película feita para o grande circuito, com vistas a faturar alto, já estando mesmo próxima de bater o recorde de Titanic nas bilheterias, segundo os especialistas. Mas, e daí. São cerca de 150 minutos em que predomina a criatividade e a beleza de imagens feitas com tecnologia 3D, somente possível de serem realizadas com o atual avanço da era digital, pois o roteiro de Avatar já estava traçado há mais de quinze anos pelo seu criador James Cameron. Prepare a cerveja e o torresmo, quer dizer, a pipoca e o refrigerante, é diversão garantida.

Abração e até a próxima.

*César Zadorosny é ... César Augusto Zadorosny.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Castro Alves




* Por Sérgio Soares

Início de ano complicado. Tragédias naturais e políticas...
Resolvi usar meu espaço de hoje, véspera de fim de semana, com algo positivo, compartilhando com os amigos um pouco das letras de um de nossos grandes poetas: CASTRO ALVES.

Antônio de Castro Alves, baiano, nascido em 1847 na fazenda Cabaceiras, vila de Curralinho, atual cidade de Castro Alves, conhecido como o poeta dos escravos. Antiescravagista, fundou em 1864, junto com seu amigo Rui Barbosa, a Sociedade Abolicionista do Recife. Morreu precocemente, aos 24 anos de idade, sem completar os estudos no curso de Direito. O poema abaixo transcrito revela uma faceta mais desconhecida do poeta, de cunho lírico e erótico, escrito para sua grande musa, a atriz portuguesa Eugênia Câmara. Ei-lo:

Boa-Noite

BOA-NOITE, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!... E tu dizes – Boa-noite.
Mas não mo digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve... a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti? ...pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela d`alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do capuleto,
Eu direi, me esquecendo d`alvorada:
“É noite ainda em teu cabelo preto...”

É noite ainda! Brilha na cambraia
- Desmanchando o roupão, a espádua nua –
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
- São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira do vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion! ...É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
- Boa-noite! – formosa Consuelo!...

São Paulo, 27 de agosto de 1868.


Abraços a todos e um ótimo fim de semana.
Até a próxima sexta.

* Sérgio Soares, 36 anos, barramansense radicado em Minas Gerais. Escreve também no blog Confraria Jurídica.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

New Resende

Bom dia meus caros amigos,

Hoje, apesar de vários assuntos interessantes a serem postados, resolvi laçar no blog uma coluna do amigo Washington Lemos, que também foi meu professor na faculdade de engenharia elétrica. Por estar sempre antenado nos acontecimentos sociais e políticos da nossa região, Washington soube descrever com ótima percepção, uma sinalização de algo que pode estar afetando toda a região, como uma doença social que deve ser extinta o mais rápido possível.


Eu, como barra-mansense nato e resendense adotado, tenho a obrigação de divulgar.

Obrigado, e até a próxima quinta.

Alex Peres


Bem-vindo à nova Resende


por Washington Lemos*

As notas curtas de jornais, as pequenas notícias dão sinais claros daquilo que Resende pode vir a se tornar. Ao longo do último ano todo resendense ouviu dizer, ou leu, ou ficou sabendo de algum crime ou violência ocorridos devido ao exponencialmente crescente uso de drogas (especialmente crack) na cidade. São crianças se prostituindo por R$10 na “Grande Alegria”, assaltos no comércio e recorrentes furtos residenciais.
Tudo isso é comentado nas esquinas, entre vizinhos ou em conversas familiares, porém sempre supõem-se que são casos isolados, espasmos de truculência que raramente acontecem em uma tranquila cidade do interior como Resende.
Pois bem... lamento termos evidências suficientes para não acreditar nisso. O ano de 2010 começou dando fortes indícios do agravamento da situação (veja matéria do jornal A Voz da Cidade, ou pergunte ao seu vizinho, se você more nos arredores da Itapuca).
Ontem (11/01/2010) uma arma de calibre 32 e uma granada foram encontradas na Itapuca. Mais ainda: tal arma tinha a inscrição CV, insígnia conhecida como Comando Vermelho, grupo criminoso que atua em nosso Estado do Rio. Ou seja, o que é corriqueiro na capital e até então inédito em Resende começa a acontecer: armas de uso exclusivo do exército estão sendo usadas pelos marginais de Resende, via crime organizado. Outro detalhe importante é que os envolvidos (ao que tudo indica) são menores de idade, adolescentes e até mesmo crianças metidas em crimes sérios e brutais.
No olho do furacão, em uma calma artificial, vendo todo o resto girar, estão os setores públicos e administrativos de Resende. Não sei exatamente qual é a razão da paralisia de nossos representantes. Caso eles estejam conscientes do problema que se avoluma no horizonte, contudo não o consideram importante, tratar-se-á de omissão. Se estes senhores simplesmente não perceberam a seriedade da situação, fica evidente a incompetência. Em ambos os casos, porém, esta discussão em nada contribui para a busca de uma solução. E ela, a solução, existe.
O primeiro passo a ser dado em direção a uma solução é pensar em ação conjunta entre prefeitura, Estado (através das polícias civil e militar), iniciativa privada além da sociedade. Isso pode ser evidenciado na necessidade crítica e urgente de estabelecer um posto móvel (porém permanente) de vigilância na entrada do acesso Oeste. Esta nova entrada de Resende foi extremamente mal projetada, pois se encontra antes (no sentido SP-RJ) do posto da polícia rodoviária federal. Esta falha de projeto gerou parte do problema atual. Para evitar a polícia federal os marginais que trazem drogas e armas vindas de São Paulo descobriram que passar por dentro de Resende é mais seguro, pois evita dois postos federais de fiscalização rodoviária (caso optem por retornar à rodovia Dutra apenas em Bulhões). Deslocar-se por dentro de Resende está tão fácil que estes marginais já estão incrementando e tudo leva a crer que transformaram locais da “grande Alegria” em pontos logísticos de distribuição, estadia e armazenamento. Por isso é preciso mostrar que cruzar a cidade inteira sem encontrar um posto policial não será tão simples e fácil. Resende não pode ser um atalho para o tráfico.
O assunto Segurança Pública quase sempre é visto como um assunto exclusivamente de polícia, de repressão, de função do Estado e não da prefeitura. Esta concepção é antiga e equivocada. A segurança passa diretamente por um planejamento urbanístico e conservação dos bens e locais públicos. Manter as ruas iluminadas, sem buracos e com terrenos baldios murados e sem mato contribui muito para melhorar a segurança.
O clima de anomia e a desordem promovem os pequenos delitos e crimes de venda e consumo de drogas. Ruas escuras e terrenos com matagal acobertam marginais. Buracos diminuem a velocidade de veículos em localidades consideradas menos seguras. Todas estas ações são de responsabilidade da prefeitura e ingenuamente vistas como medidas menores, sem impacto ou importância para a segurança.
Para promover a segurança do cidadão a prefeitura precisa zelar pelo bem estar da sociedade, aumentando sua qualidade de vida e promovendo um convívio social mais salutar. Por isso, é impossível falar ou pensar seriamente segurança pública sem envolver educação – educação em tempo integral, obviamente. Qualquer estatística feita às pressas mostrará que (atualmente) os envolvidos em crimes são jovens, jovens quase sempre por nós não educados. Para que uma criança se envolva com drogas e a pequena criminalidade (porta de entrada para crimes mais violentos no futuro) é condição necessária o contato com delinquentes e tempo ocioso longe de pais, professores ou outro adulto responsável. Por isso, apenas o fato de tirarmos a criança das ruas (no período em que seus pais estão trabalhando fora de casa) e a mantermos em uma escola preparada para educar e incentivar atividades intelectuais, culturais, sociais e esportivas, já será um grande salto para a redução da criminalidade. Outras centenas de ações podem e devem ser tomadas pela administração pública municipal visando garantir a segurança do cidadão. A grande importância da prefeitura e seu papel indispensável consistem justamente em seu poder de mobilização da sociedade e capacidade de coordenação de esforços. Se a prefeitura se omite em protagonizar e exercer esta função, a sociedade perde grande potencial de ação e solução de problemas.

* Washington Lemos é Mestre em Avaliação de Projetos Industriais - Gestão e Inovação – COPPE /UFRJ, Engenheiro de Produção – UERJ, Professor universitário, fotógrafo amador, Escreve em www.wml.blog-se.com.br

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Há 25 anos




Por Figurótico*

Era verão, era janeiro, era sol. Era o início, o despertar, o frescor, o marco, o momento, a eternidade, a felicidade, a paz. Era 11 de janeiro de 1985, o país vinha da abertura política e tal, mas apara mim, aquele foi O ano, o ano do Rock in Rio! O do primeiro e incomparável Rock in Rio. Eu faria 10 anos em maio daquele ano, não tinha idade para ir ao festival, mas tudo o que eu queria era ter estado lá. Sempre que ouço relatos de quem lá esteve sinto inveja. E nesta semana foram comemorados os 25 anos daquele mega-festival.

As lembranças vêm à cabeça de uma época que não voltará. De uma época em que o rock era a pauta. O festival era eclético, sim. Havia Al Jarreau, George Benson, James Taylor, Gilberto Gil, etc. Mas era o rock a atrair a atenção do público. O festival teve como maior ícone a banda inglesa Queen, de Freddie Mercury. Era o que credenciava o país a entrar na rota dos grandes shows internacionais que depois vieram com maior freqüência. Perguntem para o Iron Maiden se não é verdade?

No meu caso particular o que tanto me marcou esse tal de Rock in Rio, foi que meses depois de terminado o festival, estava na casa de minha prima (ao lado da minha) e vi uma fita com os dizeres em caneta “Rock in Rio”. Coloquei-a no vídeo cassete – poucas pessoas possuíam vídeos naqueles anos, o daqui de casa só chegou em 86 – e a primeira aparição foi a de Bruce Dickson chamando o público para “Revelations”. Fiquei extasiado com a fita e a levei para minha casa, onde se encontra até hoje e já foi devidamente passada para DVD, pois se trata de imagens históricas. Além dos shows que a Globo transmitiu algumas músicas, há dois sábados seguintes ao fim do festival com os “melhores momentos”, além é claro das propagandas que passavam no momento. Um documento que certamente não terei outro de tão valioso.

O idealizador Roberto Medina levou a idéia para Lisboa e Madrid, e diz que pensa numa nova edição no país em 2011 de volta ao Rio. Sinceramente tenho medo do que possa vir num futuro Rock in Rio. Ele já disse que se hoje fosse, as atrações seriam Ivete Sangalo, Beyoncé, AC/DC, Hannah Montana, Capital Inicial, Shakira, Riahnna, Lady Gaga, Red Hot e Radiohead. Basta uma leve olhada para ver que o tal rock’n roll teria um dia, no máximo, dedicado a ele. O mundo mudou muito, virou de pernas para o ar, e a grande coluna do Serginho aqui no blog ratifica o hoje acontece.

As outras edições do festival no Brasil foram em 1991 e 2001, estive nas duas, mas muito abaixo do plantel do primeiro Rock in Rio. Quem lá esteve em janeiro de 85, deve estar saudoso agora, pois esse tipo de acontecimento não costuma se repetir na história.

O portal do G1 colocou uma seqüência de vídeos de chorar em comemoração à data.
http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1439992-7085,00-VEJA+VIDEOS+HISTORICOS+DO+ROCK+IN+RIO+DE.html

*Figurótico é músico, jornalista, 34 anos e é cria também do Rock in Rio I.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Carta do Zé Agricultor, para Luis, da cidade!

* por Mozart Valle Neto

Caros Amigos!!!
Estou estudando o famoso Decreto Presidencial dos Direitos Humanos. Preciso de mais tempo para escrever um texto interessante. Por isso vou divulgar um e-mail que recebi está semana. Trata da política agrícola aplicada pelo nosso governo. Leiam é muito importante conhecermos melhor esta realidade.


Carta do Zé Agricultor, para Luis, da cidade


Luis, quanto tempo!
Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.
Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite
De madrugada pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?
Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade.
To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.
Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.
Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?
Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né ...) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?
Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender
no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.
Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.
Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia,isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.
Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pran fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?
Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.
Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava
morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.
Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.
Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia.. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.
Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.
Até mais Luis.
Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta em papel reciclado pois não existe por aqui, mas aguarde até eu vender o sítio.


*(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.) *
"Na prática, a teoria é outra."

* Mozart Valle Neto trabalha com educação e marketing e está cada dia mais acreditando que a Venezuela está cada dia mais perto!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra






por Carlos Vinicius Rosenburg*

Natal e réveillon já se foram, eu não consegui achar o ponto G e ele também já se foi (é o que dizem os cientistas... - ou será que achei várias vezes mas não sabia o que era?) e vários livros que recebi do Bom Velhinho e outros que comprei durante os festejos natalinos ainda estão na fila.

Mas um desses livros eu devorei: “Led Zeppelin – Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra”, do jornalista e crítico musical Mick Wall.

Trata-se de uma biografia não-autorizada sobre a famosa banda inglesa da década de 70. O autor, Mick Wall, conhece do riscado, pois viveu a época e tinha proximidade com a banda.

O belo trabalho é dividido em duas partes: “ascensão” (com 8 capítulos) e “a maldição do rei Midas” (que seria a queda, com 7 capítulos). São 520 páginas interessantes não apenas para quem é fã da banda ou de rock, mas para todas as pessoas interessadas em cultura pop e música/arte contemporânea. Todas as fases da banda são retratadas, desde o início, a gravação do primeiro disco, o estouro na Inglaterra e nos EUA, rios de dinheiro, groupies (tietes) aos montes, álcool e drogas ilícitas, acusações de plágio (algumas confirmadas) etc.

O livro é centrado em Jimmy Page, guitarrista, produtor e principal compositor da banda, como se pode ver pela foto da capa (Robert Plant, o vocalista, aparece apenas na contracapa). Ali vemos como surgiram a ideia da banda, os conceitos musicais, o trabalho de Page como produtor. Porém, uma das partes mais interessantes está na relação de Page com o ocultismo, mais precisamente em sua fixação na obra e na pessoa de Aleister Crowley, o polêmico ocultista britânico, referência para muita gente naqueles loucos anos (inclusive Paulo Coelho e Raul Seixas). O interesse era tão grande que Page chegou a comprar uma propriedade que foi de Crowley, às margens do Lago Ness. Mas não só isso. Livros autografados pelo bruxo, objetos pessoais e o que mais pudesse ser adquirido. O livro mostra também a influência de Crowley na obra do Led Zeppelin, em versos, visual, capas dos discos, desenhos dos encartes etc.

Da central figura de Page o autor do livro segue para os outros integrantes: o hippie-bicho-grilo Robert Plant (vocalista), o alucinado-porradeiro baterista John “Bonzo” Bonham, o tranqüilo e muito bom baixista John Paul Jones e o fundamental empresário Peter Grant, fazendo com que nós, leitores, possamos entender a química existente entre os componentes da banda, que conseguiu, como nenhuma outra, elevar à enésima potência o sagrado trinômio sexo, drogas e rock’n’roll. São anos de loucura, orgias, drogas pesadas, bebedeiras homéricas e dinheiro para bancar tudo isso (o Led Zeppelin, no auge, conseguiu desbancar os Rolling Stones em arrecadação de turnês - o Boing 737 personalizado colocado à disposição do grupo era famoso...). Como coadjuvantes das intermináveis festas, temos nomes conhecidos do mundo do rock, como os integrantes do Black Sabbath, Bad Company, Stones e tantos outros.

Mas nada disso é gratuito, e uma hora a conta é cobrada. Após cinco anos levando a vida em ritmo claramente hedonista, passando por cima de tudo e de todos, sendo prepotentes, correndo muitos riscos, os quatro caras chegaram ao cume da montanha. De lá, não há como subir, e então começa uma terrível queda.

O envolvimento de Page com o ocultismo era constantemente abordado pela imprensa como satanismo. Em 1976 Robert Plant sofre um terrível acidente de carro com a família, ferindo seus dois filhos (um deles gravemente – mas que acabou se recuperando). Com a bacia fraturada, Plant fica um longo tempo sentado em uma cadeira de rodas, tendo gravado o álbum Presence nessa situação. Por causa disso, ficaram sem fazer shows, o que só aconteceria novamente no ano seguinte. Nesse meio tempo, lançaram “The Song Remains The Same”, filme gravado quatro anos antes e que foi um retumbante fracasso comercial (e mesmo a qualidade artística era duvidosa, pois a banda possuía momentos muito melhores captados em vídeo – o que pode ser comprovado nos DVDs lançados nos anos 2000 – “How The West Was Won”).

No retorno, tudo parecia correr bem, quando, durante uma turnê nos EUA, explode uma bomba com efeitos devastadores: o filho de Robert Plant, Karac, de 5 anos, morreu vítima de um vírus misterioso. Não bastasse isso, Jimmy Page estava viciado em heroína e o baterista Bonham tornara-se alcoólatra (chegava a beber quatro doses quádruplas de vodka com laranja, pela manhã, ao acordar – dizia que era o café da manhã).

Após um retiro de quase dois anos de Robert Plant, voltaram a se reunir em 79, para a gravação daquele que viria a ser seu último (e pior) disco – In Through de Out Door. Com Page sem condições de comandar o barco (sempre fora o líder, desde o início) por causa do vício em heroína, a tarefa caiu nas mãos do baixista John Paul Jones, que na época estava entusiasmado com teclados. O resultado só não foi mais desastroso porque se tratava do Led Zeppelin, mas o disco era, inegavelmente, inferior a tudo o que o grupo havia produzido.

Mas mesmo com essas (relativamente) boas notícias, o grupo continuava a ser rondado por uma atmosfera pesada, que muitos ligavam ao envolvimento de Page com o ocultismo. Dando combustível a quem alegava isso, um fotógrafo apareceu morto por overdose de heroína na mansão de Jimmy Page. Pouco tempo depois o Zeppelin sofreria seu maior golpe, agora fatal: no segundo semestre de 1980, durante ensaios na nova mansão de Jimmy Page, o baterista John “Bonzo” Bonham, de 32 anos, foi encontrado morto. A causa da morte: ingestão de, aproximadamente, quarenta doses de vodka. Bonham já vinha mal há algum tempo, viciado em cocaína, com problemas de saúde, alcoolismo crônico, falta de potássio no organismo. Mas ninguém dava muita bola. Como disse Robert Plant, “naquela época não pensávamos nessas coisas. Só numa grande garrafa de Jack Daniel’s e coca – direto.”

Assim, de maneira trágica, o Zeppelin parou de voar, e os gigantes deixaram de caminhar sobre a Terra.

Até a próxima segunda.
NOTA: coluna escrita ao som de "Achilles Last Stand", petardo sonoro do álbum Presence, grande trabalho de guitarra de Jimmy Page. Para ouvir, clique no link http://www.youtube.com/watch?v=z-9nzK2Jdh4

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é casado e teve o privilégio de ver, se não o Led completo (não tinha idade para isso), Jimmy Page e Robert Plant juntos, em show antológico na Praça da Apoteose, em 1996. Ali deu pra ter uma leve ideia do que deve ter sido o saudoso grupo.