quarta-feira, 31 de março de 2010

Desaparecido II

Por Figurótico*

Momentos de turbulência no blog, pessoas desaparecendo – com motivos, obviamente – e o cavalheiro Valério fazendo uma de suas melhores colunas (que conseguiu me matar de ri num dia completamente anti-riso!) a fim de cutucar a ferida da rapaziada, como já dizia Leitão em uma de suas grandes músicas, quando se referiu ao Andorinha, o “Andura”: “cutuca ferida, com ele não tem perdão, não tem não...”.

E parece que surtiu efeito, devido aos quilométricos comentários (quase 50!). E que comentários!? Tão quilométricos que eu me recusei a ler todos. Haja paciência pra tanta réplica e tréplica... Mas isso fez com que o blog esquentasse novamente. Não estou criticando (agora a crítica anda imperando nos coments), mas como sabem me falta paciência mesmo para comentar colunas, ponto. Mas também concordo que comentários anônimos devam ser excluídos.

Portanto minha coluna de hoje se perderá no que eu ia realmente escrever. Acredito na longevidade do blog pelos presentes que ainda escrevem aqui. O que é mais forte e o diferencial neste espaço é uma combinação de saberes diferentes em uma determinada pessoa. O ponto comum é que temos profissionais da área do direito que impera aqui, e que ambos têm seus conhecimentos cabalísticos a respeito de música, de rock, e de política; temos engenheiros (um bailou) que na mesma levada sacam de música, poesia e burocracia; temos um gabaritado em educação e marketing que adora uma mesa posta, uma análise antropológica de botequins e afins e temos um músico que anda down com a música e que fala mais da sua vida que da própria música.

Enfim, não culpemos os desaparecidos (não me refiro a mim), falo pelo Alex e pelo Vinícius. Se não estiveram presentes, se saíram de cena completamente, vamos deixá-los em paz. E acho que isso irá acontecer de novo, com outros daqui a um tempo. Como o Boi saiu, ganhamos o Sérgio, que escreve bem à beça, fã do Purple incondicional! Pausa! Não resisto em confessar: hoje em dia acho o Led fundamental para a música, são os gigantes, claro, os maiores. Mas na época quando os conheci, eu curtia muito mais o Purple que o Led. Sempre achei o Blackmore muito mais guitarrista do que o Page, disparado. Achava o Page um bêbado em cima do palco, que compôs coisas geniais, mas quando garoto eu não curtia ele ao vivo, curto mais hoje do que antes. Porém continuo tendo mais simpatia ao Blackmore que Page. E se fosse para eu escolher de quem queria ter como amigos, que fosse a galera do Purple.

Sendo assim, se o Alecão não quer escrever mais, deixem-no quieto. Ninguém ganha para escrever aqui, então é preciso fazer por amor, fazer forçado não dá. E se eu não estiver motivado um dia, pedirei o boné sem pestanejar. Poderemos ganhar outro escriba com a saída do Alex, alguém já se habilitou? Eu indicaria o Willon, o Renatão, tem gente, falta coragem.

E a comunicação anda exagerada, como já dito aqui. É fato em cima de fato. Jamari França usou um termo interessante em seu blog, “A ‘burralização’ das massas”. E a tendência é essa mesma. O questionamento deve sempre existir quando recebemos informação, seja de qualquer veículo que for. Como há veículos específicos, todo e qualquer assunto banal, terá o seu canal. Quem duvida de que o BBB daqui a um tempo não será a própria novela das nove? Mobiliza muito mais gente que qualquer novela. “Ei, novela! Perdeu, playboy!”. Ontem mais de 150 milhões votaram na final do Dourado. E não se consegue mobilizar nem 5% pra derrubar o Sarney, ou outros tantos que passaram batido na esfera do consciente coletivo. O tal do Tribunal do Júri como bem disse o Buja, é bem questionável, e tantos veículos cobrindo o julgamento, não se falou nada sobre o poder do Júri na acusação de réus, se é realmente o mais correto em casos que mobilizam a opinião pública. E pra iniciar a semana, Lula e Dilma lançaram o PAC 2. Coincidência danada em ano de eleição. Cadê o PAC 1? "Aí, maluco.. numtendinada..."

*Figurótico é músico, jornalista e como nunca deu um voto ao Lula, obviamente não dará à Dilma.

terça-feira, 30 de março de 2010

Discurso do Embaixador

por Mozart Valle Neto*


Nesta noite fui apanhado por um problema decorrente da minha segunda puberdade. Antes que alguém pense mal da minha pessoa vou explicar: Os fios do meu aparelho dentário foram trocados por mais grossos. Estou imóvel, na cama, para diminuir um pouco as dores. Por isso vou reproduzir um texto que recebi de um grande amigo e ídolo. Meu professor Demétrio, 74 anos, morador de Porto Real, oriundo da Rússia.

O texto não é dele. É um daqueles atribuído a alguém que ninguém tem garantia de ser dele mesmo. Mas pelo menos tem uma tese bem interessante. Este tema está na moda. Foi até utilizado na prova do concurso da PMBM. Um texto do chatíssimo Jabor que fala dos textos atribuídos a ele. Bom aí vai:

Um discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de ascendência indígena, sobre o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Européia.

A Conferência dos Chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em Madrid, viveu um momento revelador e surpreendente: os Chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e historicamente exato.

"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a "descobriram" há 500... O irmão europeu da alfândega pediu-me um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financeiro europeu pede ao meu país o pagamento, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu explica-me que toda a dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros, sem lhes pedir consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no "Arquivo da Companhia das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos de 1503 a 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Teria aquilo sido um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!

Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.

Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação dos metais preciosos tirados das Américas.

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas uma indenização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.

Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra e de outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?

Não. No aspecto estratégico, delapidaram-nos nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias outras formas de extermínio mútuo.

No aspecto financeiro, foram incapazes - depois de uma moratória de 500 anos - tanto de amortizar capital e juros, como de se tornarem independentes das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, o que nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos para cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.

Limitar-nos-emos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, concedendo-lhes 200 anos de bônus. Feitas as contas a partir desta base e aplicando a fórmula européia de juros compostos, concluímos, e disso informamos os nossos descobridores, que nos devem não os 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, mas aqueles valores elevados à potência de 300, número para cuja expressão total será necessária expandir o planeta Terra.

Muito peso em ouro e prata... Quanto pesariam se calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para estes módicos juros, seria admitir o seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.

Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos a assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente na obrigação do pagamento da dívida, sob pena de privatização ou conversão da Europa, de forma tal, que seja possível um processo de entrega de terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a verdadeira Dívida Externa.

* Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) tem 38 anos, é separado e trabalha na área de educação e marketing, neste domingo enquanto esperava o concurso de BM acabar bebeu a cerveja mais cara dos últimos tempos – Antártica Original R$5,70 no bar Senegal na Vila Nova.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Será que ninguém pensou nisso?




por Carlos Vinicius Rosenburg*






O assunto que dominou a última semana, nem preciso falar, foi o julgamento Nardoni/Jatobá. Não quis me aprofundar no assunto, tenho uma filha de seis anos e seria apenas tortura psicológica fazer parte desse trágico drama familiar.


Mas o que me espanta é ver que nenhum jornalista/analista da nossa imprensa tenha questionado o vetusto instituto do Tribunal do Júri (se alguém tiver notícia de alguma crítica em relação a isso, favor informar). Sei que a manutenção ou não do Júri é dos temas mais polêmicos na área jurídica, e não vou me aprofundar nos argumentos desta seara. Vou me ater apenas aos argumentos práticos.

Foi uma semana de julgamento. Os jurados ficaram incomunicáveis (ao contrário do Júri no EUA, onde os jurados se reúnem para que se chegue à unanimidade), não puderam trabalhar (sua empresa/repartição pública perde com isso), houve o tradicional e longo teatro, muito dinheiro foi gasto (deslocamento, alimentação, logística de um modo geral etc.). Tudo isso em nome de quê?


Temos hoje juízes concursados, muito bem remunerados, preparados e voltados exclusivamente à solução de conflitos. Escolheram isso. É muito romantismo submeter cidadãos comuns a tudo isso, sem escolha. Estamos em 2010. As pessoas sentem medo, pode ser um grande traficante na sua frente, um matador de aluguel e por aí vai. Os juízes de direito, repita-se, escolheram isso, os jurados não.


Alguns argumentarão que os escolhidos podem utilizar-se da escusa de consciência (alegar motivos filosóficos, políticos ou religiosos) para não participar. Muito bonito, romântico, mas na prática ninguém faz isso. Pode-se ainda dizer que o Júri é cláusula pétrea de nossa Constituição. Ora, o que se propõe aqui é exatamente a mudança da Constituição. Cláusula pétrea existe enquanto existir a Constituição. A partir do momento em que tais cláusulas atrapalham a sociedade, urge que surja novo documento. Mas isso é tema muito polêmico. Mais simplicidade tiveram os portugueses, que se utilizaram do instituto da dupla revisão, que nada mais é do que você modificar o artigo que diz o que é cláusula pétrea. É jeitinho? Sim, aprendemos com os portugueses. Mas não vou entrar em detalhes que só dizem respeito a quem é da área jurídica.


O que me interessa aqui é apenas chamar a atenção para certos absurdos que são aceitos sem qualquer contestação. Esse país está politicamente correto demais.


Grande abraço e até segunda que vem.


*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos e pensou nisso. Pede desculpas pela ausência da semana passada, mas o Valério, ontem, desvendou o mistério.

sábado, 27 de março de 2010

O Mistério do Desaparecimento dos Blogueiros ou Quem Sair Por Último Apague a Luz.


Por Valério Cortez

Entre um passo e a perspectiva de outro, milhões de perguntas e dúvidas corroem meus já cansados neurônios.

Nesta Joaquim leite de 6° feira e sol a pino, tento encontra algum sentido neste grande emaranhado de mistérios e circunstâncias que tomou de assalto nossas vidas nestes últimos tempos.

O que aconteceu com todo mundo? Embarque na Nau dos Magoados? Abdução? Pré sal? Gran Circo dos Nardonis? h1n1?

Sei lá, ta difícil de saber.

Mas, sem mais delongas, vamos aos fatos:

1° semana de Novembro de 2009 - Em uma pequena rua paralela ao Central Park, 5 th Ave, em Nova York, um homem forte e bem vestido, invade uma Lan House feito um boi desgarrado, joga alguns dólares sobre a mesa e se aboleta frente a uma das máquinas.
Meia hora depois, levanta-se e sai disparado da loja.
Na tela do computador, resta uma frase, “Woodstock – This is Michael Jackson”, postada no blog brasileiro “Estação BM”.

Depois disso, o homem nunca mais foi visto em Nova York, no Larguinho em Barra Mansa nem no blog.

1° semana do mês de março de 2010 - Após a derrota em uma concorrência pública, cujo contrato previa a troca de todas as lâmpadas de todos os postes de todas as ruas de todos os bairros de todas as cidades de todos os estados e do Distrito Federal, um jovem engenheiro e empresário, entra em depressão, se refugia em um sitio de onde dispara 2875 emails.
Em um deles, dirigido ao blog Estação BM, encaminha um texto poético, onde se despede e confessa alguns pequenos pecados como, votar no BBB, ler livros do Paulo Coelho e trabalhar como as putas.

O jovem engenheiro nunca mais foi visto na Prefeitura de Resende, na Raça Rubra negra, nem no blog.

2°semana do mês de março de 2010 – Irrequieto membro do judiciário, constrangido com a missão de encaminhar ao reformatório uma menina de 12 anos de idade, usuária de crack, passa a se sentir como um bujão de gás prestes a explodir, e após uma sucessão infindável de não idas, não vindas, furos e desculpas esfarrapadas, sai de cena e cai no silencio total.
Não ligou nem mandou Email se despedindo.

O Band Leader bissexto nunca mais foi visto no fórum da cidade, no Clube do Recanto nem no blog.

3°semana do mês de março de 2010 – Talentoso músico e seu fiel amigo Falácio, uma verdadeira figura, são vistos deixando a cidade na calada da noite. Partem para a cidade grande atrás de cerveja gelada, rock in roll e do Roger Moreira.
Após o dilúvio na capital, foram vistos nos escombros do palco do Guns N”roses na apoteose e longo depois, tomando todas no Informal em Ipanema, sem o Roger Moreira.
Não ligou nem mandou Email se despedindo.

Nunca mais foi visto no Serrate, no Abatedouro Guedes, no Circo Voador nem no blog.


E assim aconteceu, e assim tem acontecido.

E a vida segue, escorrendo pela Mário Ramos e desaguando na Praça da Liberdade.


Quem entendeu, entendeu. E quem não entendeu, entendeu também II.

Pra fechar

Enquanto isso, numa Domingos Mariano escura e fria como o focinho do Zeca, uma van vagueia, levando a bordo a Renata Klotz, o Luiz Correia, o Jorge Couto, o Alex Frederick, o Eder, o Mario e o Willon Smith. Personagens de um blog a deriva.


Tenham um bom domingo

sexta-feira, 26 de março de 2010

Manguebeat - I




* Por Sérgio Soares





Hoje inicio um pequeno mergulho nas águas lamacentas dos mangues do Recife. Berço do movimento musical manguebeat, conhecido pela mistura altamente criativa de ritmos regionais como o maracatu com rock, levadas eletrônicas, elementos de psicodelia e tudo o mais que soe bem. Criado e fomentado por grandes artistas, o manguebeat já deu ao mundo Chico Science, Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e Mestre Ambrósio, dentre vários outros artistas de grande qualidade.

Um dos marcos iniciais do movimento, entendido como tal, é o manifesto “Caranguejos com Cérebro”, escrito em 1992 por Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A. Sua leitura serve de ponto de partida para entendermos em que consiste o manguebeat, que em realidade ultrapassou os limites da música, estendendo seu alcance às demais formas de arte, influenciando teatro, cinema e artes plásticas.

A antena parabólica fincada na lama do mangue e o caranguejo com antenas são símbolos que bem definem o espírito do movimento, posto que representam a manutenção da cultura local, fincada no mangue, mas ligada e aberta a tudo que acontece ao redor.










Em outra oportunidade indicarei alguns discos básicos do manguebeat. Hoje transcrevo o acima citado manifesto, para início de conversa:

CARANGUEJOS COM CÉREBRO

Mangue, o conceito

Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.
Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem do alagadiço costeiro.
Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown, a cidade

A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.
Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.
Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue, a cena

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.
Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.
Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.
Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.

Grande abraço a todos e um ótimo fim de semana.

Meu maracatu pesa uma tonelada!

* Sérgio Soares, 36 anos, considera a Nação Zumbi uma das melhores bandas do país, mesmo depois da trágica perda de Chico Science.

terça-feira, 23 de março de 2010

Para gostar de ler!

* por Mozart Valle Neto

Quem lembra desta antológica coleção de livros que povoou nossa infância e adolescência. O meu predileto era: Um cadáver ouve rádio! Nem lembro o autor, mas posso ver a capa sem precisar fechar os olhos. Leitura obrigatória! Fazíamos teste de livro. Confesso que gostava. E gostava mais ainda de contar, no dia da prova, o resumo da história para um colega que não tivesse livro. Acho que o Boi não leu nenhum livro nessa época. Talvez tenha nascido daí minha vocação para ensinar ou pelo menos de passar o conhecimento apreendido.

A leitura tem me perseguido incansavelmente. Todo dia aparece uma coisa nova. Cada novidade! Por mais saudosista que seja gostar do papel eu consigo me dar bem com a tela de um computador. Esses dias, no Metro do Rio, eu vi um livro “muderno”. Desses que a gente baixa o conteúdo é lê numa telinha. O conceito é interessante. Deixei a vergonha de lado é pedi para o dono para dar uma olhada. O rapaz simpático me mostrou. Ele estava lendo o jornal do dia (Washington Post). Ele mostrou também que cabiam vários livros, os dele estavam todos em inglês, por isso não sei bem os títulos.



Pelas minhas contas, pelo que lembro, já devo ter lido mais de duzentos livros. A princípio parece muito. Mas se dividir isso pelos anos que leio vai dar uma média de uns seis livros por ano. Eu achei pouco, é um livro por cada dois meses. Preciso aumentar.

Também reparei que muito deles eu não chego ao final. Deixo num canto, ou até porque costumo ler mais de um por vez. Sinto que às vezes falta foco. Mas atração contínua. Sempre que posso estou lendo.

Talvez este seja o motivo de escrever aqui. Colocar para fora toda a riqueza da cultura mundial que vem entrando, sendo deglutida e vomitada. (Esse parágrafo é em homenagem ao Valério).

Tudo há ver!


Tem um site muito legal que é uma página de relacionamento de leitores vorazes. Lá você monta sua biblioteca (com livros que já leu, está lendo e com os que pretende ler). Tem acesso a milhares de resenhas e inclusive pode fazer as suas próprias. Para quem gosta é um prato cheio! O endereço é http://www.skoob.com.br




Ps para Valério: Só descobri agora, com o texto pronto, que você gostaria que sua companheira de júri ocupasse este lugar hoje. Hoje não dá, até porque esse testículo acabou de ser escrito e já se vai mais de uma da matina. Mas semana que vem o espaço está aberto!!! Ou melhor que tal a Flavinha assumir o dia do Alecão temporariamente!

* Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) tem 38 anos, é separado e trabalha na área de educação e marketing, lê pouco e escreve muita bobagem e anda meio chateado porque o Alecão jogou a toalha.

domingo, 21 de março de 2010

Reunião Geral dos Ratos


Por Valério Cortez

Uma vez os ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele eterno transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim um rato jovem levantou-se e deu a idéia de pendurar uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas: o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um rato velho que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se de seu canto. O rato falou que o plano era muito inteligente, que com toda certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem ia pendurar a sineta no pescoço do gato?

Moral da História: E precisa?

Fábulas de Esopo.

Um bom domingo a todos.

sábado, 20 de março de 2010

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM





*por César Augusto Zadorosny

Após longo período de hibernação virtual, estando impedido de postar ainda que breves linhas devido à influência de forças nada ocultas, finalmente consigo retomar a caminhada amigos.

Quero deixar bem claro que, embora sobrevivendo as últimas semanas entre toneladas(?!) de cimento, areia, tijolos et cetera, mantive-me sempre cioso de meu dever para com o mundo virtual, acompanhando as excelentes postagens de meus colegas e amigos.

Podem pensar que estou brincando, mas o desgaste de tocar uma obra, ainda mais residindo na própria, é uma experiência (ruim) que ficará marcada em minha memória de forma indelével e certamente sua lembrança futura, ainda que por breve momento, fará que com meus dedos dos pés encolham e o cenho franza, tamanho o trauma que a labuta provocou.

Um amigo que é muito experiente nessas sendas disse-me certa vez que a obra, em determinado momento, parece adquirir vida própria, ter autonomia de vontade. Ele estava coberto de razão. Acredite, é assim mesmo e não adianta querer contrariar, bater o pé e dar chilique, é a obra quem manda.

Mas isso já é passado. Vida que segue. O que importa é que o Arruda ainda está preso, embora a camarilha criminosa que se aboletou na cúpula do governo do Distrito Federal ainda não tenha encontrado o caminho do xilindró; importante também é que o governador Sergio Cabral e a prefeita de Campos Rosinha Garotinho saíram caminhando de braços dados na passeata do Pré-Sal (dá para acreditar?); relevante também é que Barra do Piraí, pólo etílico-gastronômico-cultural da região, segundo fontes seguras, se prepara agora para receber Cats; outra, o Valério Cortês e a Flavinha serão sorteados no próximo dia 24 para integrarem o seleto corpo de jurados barramansense; que a depressão pós-formatura do Alex Peres vai terminar logo, assim que ele ouvir um pouco de rockinroll e tomar uma gelada com os amigos, voltando em seguida a escrever no blog; e, finalmente, mas não menos importante é que o Vinícius (Buja), confirmando todas as previsões do início do ano, prossegue dando bolo na galera à torto e à direito. Isto é o que realmente importa!

Seguindo a linha do amigo Sergio Soares de tentar trazer um pouco de descontração ao espaço, ainda mais após a péssima notícia que acabei de ler da saída (temporária) do amigo Alex de nosso convívio virtual, transcrevo abaixo um pequeno e hilário texto que vem circulando na internet, cuja “ideia” original é atribuída à ex-roqueira Rita Lee.

“A cantora e ativista Rita Lee teve uma daquelas ideias brilhantes, dignas do seu gênio criativo.

Reclamando da inutilidade de programas como o Big Brother, ela deu a seguinte sugestão:
- Colocar todos os pré-candidatos à presidência da República trancados em uma casa, debatendo e discutindo seus respectivos programas de governo. Sem marqueteiros, sem assessores, sem máscaras e sem discursos ensaiados. Toda semana o público vota e elimina um.
No final do programa, o vencedor ganharia o cargo público máximo do país. Além de acabar com o enfadonho e repetitivo horário político, a população conheceria o verdadeiro caráter dos candidatos. Assim, quem financiaria essa casa seria o repasse de parte do valor dos telefonemas que a casa receberia e ninguém mais precisará corromper empreiteiras ou empresas de lixo sob a alegação de cobrir o 'fundo de campanha'. Casa dos Políticos, já!!! Rita Lee.”

Duvido muito que a ideia tenha partido da ex-cantora de rock, já que seu “gênio criativo” há muito não se manifesta. Mas, seja lá quem for, deu uma boa sacada. O problema vai ser se alguma candidata do sexo feminino for eliminada e receber, em seguida, um convite para posar em alguma revista masculina. Bom, melhor parar por aqui.

Outra ideia interessante foi do governo da Coréia do Norte de Kim Jong-il, que na última semana mandou executar um ex-diretor de Planejamento e Finanças do Partido Comunista, responsável pela implementação de uma reforma monetária desastrada. Já pensaram se moda pega também para os corruptos. Seria uma chacina.

Um forte abraço e até a próxima.

P.s. 1: Estou pensando em fundar o movimento “Fica Alex. Por uma vida mais emocionante”.
P.s. 2: A camisa do EstaçãoBM, segundo soube, estará vendendo em breve nas melhores lojas do ramo, inclusive, na Mula Manca. Com autógrafos sai mais cara.

César Augusto Zadorosny tem 36 anos, formação em Direito e Administração, e está pensando em ir à próxima passeata do Pré-Sal vestindo uma camisa com os seguintes dizeres: EstaçãoBM apoia a luta pelos royalties, contando que o meu venha primeiro. Só não topamos chorar na TV.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Pérolas Jurídicas



* Por Sérgio Soares


A semana começou a mil, com discussões a respeito do pavoroso texto de nosso colega de letras Valério Cortez, escrito certamente durante ou logo após um violento ataque de fúria. Espero que já esteja tudo bem com meu dileto amigo. Em seguida passamos pelas pornochanchadas e o polêmico “Cinema Novo”, desembocando em elucubrações acerca da figura de Mussolini e do Estado totalitário! Em uma forte guinada, Figurótico postou um texto rock `n` roll, nos salvando das discussões “acadêmicas” que ameaçavam atacar o blog.

Eis que chega a sexta-feira, véspera de fim de semana, e todos estão loucos por um pouco de descanso – sombra e água fresca (esta facilmente substituída por cerveja gelada, para os adeptos). Resolvi postar algo que reflete um pouco da realidade que me cerca e que torna menos pesado o ambiente forense, carregado por natureza, posto que ninguém procura a Justiça por estar feliz.

Todos que militam no ambiente forense cedo ou tarde acabam se deparando com situações no mínimo inusitadas. Sejam petições ou manifestações orais, há casos absurdos no cotidiano da justiça. Estão aí nossos amigos César Zadorosny e Vinicius Rosenburg que não me deixam mentir. Valério e Flavinha também já devem ter presenciado alguma derrapada no plenário do Tribunal do Júri. Se ainda não aconteceu, é só questão de tempo.

Recentemente recebi um e-mail de um amigo das lides forenses, com alguns trechos de manifestações que bem exemplificam o que acima afirmei. Dêem uma olhada:

"Fulano de tal, falecido em 08 de maio de 2003, conforme certidão de óbito em anexo, doravante denominado reclamante, por seu advogado signatário, vem perante Vossa Excelência ajuizar ação trabalhista..."
(De uma petição inicial na Vara do Trabalho em Varginha/MG)

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"O devedor pode ser localizado na casa nº 242 da rua que fica aos fundos do cemitério, não precisando o oficial de Justiça alegar medo, como pretexto para não realizar a diligência, porque se trata de rua despovoada de almas do outro mundo".
(De uma petição, na comarca de São Jerônimo)

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"O contestante nega ser o pai da criança, pois não chegou a copular com a mãe do investigante. Mesmo tendo sido uma noite de orgias, com vários participantes, o investigado limitou-se a uma única cópula, com outra pessoa da roda, após o que ficou com o tiche murcho".
(De uma contestação em ação de investigação de paternidade, em Vara de Família em Porto Alegre/RS)

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"A empresa é responsável, em casos de assaltos dentro de seus coletivos, pois deveriam ter câmeras acopladas a satélites para a segurança de passageiros."
(De um voto vencido, em julgamento no TJRJ)

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"Edital é uma forma de fazer uma pessoa saber o que ela não sabe, só que muitas vezes, porque não lê o jornal, ela não vai mesmo ficar sabendo".
(Resposta em uma prova de Processo Civil, em Faculdade de Direito da Grande Porto Alegre)

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"O réu jamais se furtou ao recebimento da citação. Ocorre que reside em um local onde tem várias casas com o mesmo número, uma espécie de apartamento deitado".
(De uma contestação, em processo na comarca de Pelotas, com o réu tentando explicar que não se escondera do oficial de Justiça)

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"Bens móveis são aqueles que são fabricados nas marcenarias. Já os bens imóveis são aqueles que não se movimentam, como um edifício, e também, por exemplo, um veículo que por estar sucateado não tem como ser removido".
(De um universitário, ao fazer a diferenciação entre bens móveis e bens imóveis, numa prova de Direito Civil)

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"A parte autora diz que no contrato de compra e venda estão presentes o sujeito e o objeto, mas não aponta onde estará o predicado".
(De uma contestação em ação revisional)

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"Ordem de vocação hereditária é quando o filho segue a mesma profissão do pai, ou seja, filho de peixe, peixinho é"
(Candidato, em Exame da Ordem)

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"O de cujus deixou uma decuja e 4 decujinhos..." ·
(De uma petição de inventário em Sorocaba/SP)

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Depoimento em uma Delegacia de Polícia:
"O pedestre não tinha idéia para onde ir, então eu o atropelei"

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Certidão lançada por um oficial de Justiça, em Passo Fundo, após efetuar uma penhora: "Penhorei uma mesa de comer velha de quatro pés"...

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Certidão de oficial de Justiça, não tendo encontrado o réu:
"O mutuário foi para São Paulo melhorar de vida. Quando voltar, vai liquidar com o Banco"

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Início de relatório de perito-avaliador:
"Chegando na fazenda do Sr Pedro Jacaré e em não encontrando o réptil..."

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De um termo de encerramento de laudo judicial, em processo que tramitou perante Vara Cível do fórum de João Mendes, São Paulo: "Os anexos seguem em separado."

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E PARA FECHAR COM CHAVE DE OURO...

Descrição da penhora feita por um oficial de Justiça de Porto Alegre/RS:
"... um crucifixo, em madeira, estilo colonial, marca INRI - sem número de série..."


Muita sombra, água fresca e um bom fim de semana a todos.

E que aguardemos, com ansiedade, o texto do grande César Augusto, que marchará por sobre nossas letras com toda a sua glória, em um retorno triunfal, nunca dantes visto...

* Sérgio Soares se depara com situações como as descritas neste post há 16 anos. Também escreve no blog Confraria Jurídica.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Flutuando em Encantos (Ultimate Post)


por Alex Peres*


Flutuando em Encantos

Verde encantado
Agora não estou mudo
Azul enfumaçado, O Barco
Agora não estou surdo
O Barco virado de lado
Falo mesmo pouco
Flutuando sob a espuma branca
Agora sinto a realidade
Insetos alados
O sonho
A responsabilidade
Pássaros famintos ou saciados?
O homem do barco calado
O vento dança pelos cabelos da mulher ao lado
De olhos fechados
Robustos e encantados
Agora vivo intensamente
Tudo e todos
Pois você me ensinou assim
A lua e o sol se olham
Em busca de admiração
A alma preenchida
Amolece e agradece tremendo esplendor
Vivo o amor
Vivo a vida
Vivo a morte
Sofro

Alex Peres (15-01-1995)


Fala meu povo!!!!
Acho que estou ficando careta.
Ou sempre fui?
Por isso estou deixando a disposição esse espaço de quinta feira para qualquer outro maldito como eu preenchê-lo, no bom sentido é claro, para alívio dos nossos mais de 6000 leitores.
Acho que estou ficando retrogrado, ou então é a idade. Não justifica é claro, mas fazendo uma reflexão pergunto: Viver é deixar viver? Ou desistir? Lutar ou compreender?
Depende do ponto de vista.
O pior é que leio a Veja de vez em quando,
o ultimo livro que li faz exatos 12 meses, e foi do Paulo Coelho,
vou à missa quase todo domingo,
assisti Big Brother algumas vezes e entrei no site da Globo.com para votar pro Eliezer sair,
não me lembro quem é o Ministro de Minas e Energia,
tomo cerveja sozinho em casa porque acho chato ir aos botequins da cidade onde moro,
não gosto de gente bêbada,
90% dos meus papos tem sido sobre cálculos de potência e planilhas orçamentárias,
tenho rendido muito mais no meu trabalho de madrugada, que nem as putas,
meus amigos se distanciaram de mim e eu só ando com outros iguais a mim (que nem as putas ),
quero ficar em forma mas não malho, quero ganhar mas não jogo,
fiz um nivelamento para um curso de inglês e achei que iria entrar pelo menos no Book 4 pelos anos perdidos nas chatas aulas de inglês na adolescência, mas fui classificado para o Book 1,
o cliente sempre quer pagar menos e quer que eu faça maravilhas (que nem as putas ),
pago uma fortuna de TV a cabo e não consigo ver um programa inteiro, sequer um filme, pois fico com o controle remoto sentado mudando de canal.

E o pior, eu gosto disso!!!!

Portanto meus amigos, um abraço a todos e que, não dificilmente
é claro, outro colunista possa preencher esse espaço de quinta.

Obrigado, e boa noite a todos!!!!

*Alex Peres

quarta-feira, 17 de março de 2010

O show dos que não foram


Por Figurótico*


Sedento por um show grande de rock – o último fora em abril passado, do Kiss – resolvi que partiria para o Guns N’ Roses sem pensar. Nunca fui fã ardoroso da banda, mas reconheço tranquilamente se tratar da última GRANDE banda de Hard Rock que por aqui passou. Sem a presença do símbolo Slash e da banda original, só contando com seu problemático vocalista, o show poderia ser até num Maracanã, mas com a banda figurante a Apoteose estaria de bom tamanho.

Deu uma ouvida no Chinese Democracy, e uma (re) ouvida nos clássicos e me preparei. Rumamos à capital com disposição, já sabendo dos atrasos de três horas que Axl estava provocando por onde passava. Sem contar a genial furada que deu na boate de Marcos Mion, o famoso show-surpresa que a banda faria em SP para uma platéia de 150 convidados... VIPs. A tuitada do Axl foi impagável! Está no http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/musica/2010/03/15/242429-axl-rose-fala-em-seu-twitter-sobre-o-cancelamento-do-show-privado-no-brasil-na-boate-disco.

Com todo o respeito aos que gostam da pontualidade britânica em shows de rock, sou daqueles que gostam de que o show atrase mesmo! Até por mais de uma hora, assim a plateia esquenta, o clima ferve. Sempre gostei dos show no Circo, por exemplo, porque são marcados para as 22 horas e começam uma da manhã. A noite é mais longa, e o rock'n roll é da noite.

Assim, calculamos que o show acabaria às duas da manhã. Parte da tropa voltaria direto para Barra Mansa, coisa que abomino a todo custo depois de grandes shows. Gosto de sentir o cheiro do Rio e cair na noite fazendo resenhas intermináveis e arrumando pretexto pra enfiar o pé! Apenas por duas vezes voltei para Barra Mansa.

Na estrada fomos ouvindo Guns e já bebericando algo. No baixada um trânsito caótico em pleno domingo já indicava cheiro de perrengue. Na linha vermelha caia o mundo. A própria chuva se confundia. Não sabia se vinha de lado, de frente ou de trás. A cada momento era um lado do carro que era atingido por pequenos granizos, e a ventania à nossa frente era visível, já escurecia. Pensei em como compraria meus ingressos na hora debaixo daquela chuva. Diante do cenário nosso condutor resolveu deixar o carro em casa, já prevendo alagamentos pelo Rio. Na mosca. Quando passávamos pelo Aterro do Flamengo a Band News FM – em vinte minutos, tudo pode mudar – anunciou: “acaba de cair o palco do Guns n’ Roses na Apoteose. A produção do show informa que o show está cancelado”. A sensação foi única, como derrota em final de campeonato, brochada geral... Só se ouvia uma palavra no carro: “Puta que o pariu!”. Gente de SP que deu olé no trabalho, lábia pra convencer a namorada ou esposa a ir sozinho. Todo o trabalho despendido por água abaixo.

Não nos restava outra coisa: arrumar um lugar para beber, ver o jogo do Flamengo (Informal, Ipanema) e cair no rock (Empório). Vimos gente frustrada por todos os cantos, gente de fora do estado, que gastou com hospedagem, passagem, e o escambau. Foi-se. Prejuízo. O meu nem tanto, pois nem o ingresso havia comprado. Caí na noite, mantive a tradição, dormi no Rio e tive uma noite dos deuses!

O vídeo do desabamento do palco pode ser conferido na página do Globoonline. Registrado pelo baterista do Sebastian Bach:

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2010/03/16/desabamento-do-palco-do-guns-roses-foi-registrado-em-video-por-baterista-assista-916082784.asp

*Figurótico é músico, jornalista e só iria adentrar a Apoteose quando Sebastian Bach já estivesse no camarim após seu show.

terça-feira, 16 de março de 2010

Estado Totalitário

por Mozart Valle Neto


“Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado” Benito Mussolini


A idéia de Totalitarismo como poder político “total” através do estado foi formulada em 1923 por Giovanni Amendola em uma critica ao fascismo italiano. O termo depois ganhou conotações positivas nos escritos de Giovanni Gentile, o principal teórico de fascismo. Ele usou o termo "totalitário" para se referir à estrutura e metas do novo estado. O novo estado deveria dispor sobre a "representação total da nação e a orientação total das metas nacionais". Ele descreveu o totalitarismo como uma sociedade em que a ideologia do estado teria influência, se não poder, sobre a maioria de seus cidadãos. Mussolini pregava que o sistema politiza tudo que é espiritual e humano. O conceito de totalitarismo surgiu nos anos 1920 e 1930. A visão de que ele foi elaborado somente depois de 1945 é freqüentemente equivocadamente influenciada principalmente pela propaganda anti-soviética durante a guerra fria.


As principais características do regime nos governos de esquerda são: abolição da propriedade privada; coletivização obrigatória dos meios de produção agrícola e industrial; supressão da religião da esfera política e tem como base o socialismo.


Já nos governos de direita se tem um forte apoio da burguesia industrial; o corporativismo nas relações de trabalho e tutela estatal nas organizações sindicais; a fundamentação ideológica em valores tradicionais (étnicos, culturais, religiosos); um forte apoio da/a religião e a base no capitalismo.


Existem características que estão presentes nas duas orientações políticas: o regime de partido único (real ou de fachada); centralização dos processos de tomada de decisão no núcleo dirigente do partido; burocratização do aparelho estatal; intensa repressão a dissidentes políticos e ideológicos; culto à personalidade do(s) líder(es) do partido e do Estado; patriotismo, ufanismo e chauvinismo exacerbados; intensa presença de propaganda estatal e incentivo ao patriotismo como forma de organização dos trabalhadores; censura aos meios de comunicação e expressão; paranóia social e patrulha ideológica; militarização da sociedade e dos quadros do Partido; expansionismo.


Minha idéia aqui é fazer um texto vivo. Baseados nas características levantadas vamos comentar nossas semelhanças e diferenças de nosso governo e também dos outros paises do mundo.


Rola na Internet: A Dilma foi visitar uma escola e numa sala do terceiro ano perguntou aos alunos se alguém queria fazer alguma pergunta. O Joãozinho levantou o dedo. Ele falou que queria fazer três perguntas. Diga meu querido, exclamou Dilma. Joãozinho perguntou: Por que o mensalão federal não teve nenhum culpado e o do DF já prendeu um monte de gente? Por que até hoje não acharam os culpados pelo assassinato do prefeito Celso Daniel? Por que o presidente Lula é o último a saber de tudo? De repente o sinal do recreio tocou. As crianças saíram correndo. Acabou o recreio e todos voltam para a sala. Mal Dilma entra na sala o Pedrinho já esta com a mão levantada. Quero perguntar. Dilma assente. Queria fazer cinco perguntas: Por que o mensalão federal não teve nenhum culpado e o do DF já prendeu um monte de gente? Por que até hoje não acharam os culpados pelo assassinato do prefeito Celso Daniel? Por que o presidente Lula é o último a saber de tudo? Por que o sinal do recreio hoje tocou uma hora antes? E por último onde está o Joãozinho?



* Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) tem 38 anos, é separado e trabalha na área de educação e marketing. Nesta semana se redimiu do esquecimento e postou esta coluna dois dias antes.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Cinema Nacional – parte 1









por Carlos Vinicius Rosenburg*

Como amante do cinema, sempre vi filmes nacionais. Aquela coisa de querer ouvir a própria língua na tela grande (sem dublagem), os mesmos costumes, enfim, um pouco como tentar se ver naquele espaço (sem qualquer ufanismo - arte não tem pátria e pensar o contrário é, no meu modesto entender, pensar pequeno e privar-se de coisas boas - isso é tema para outro texto). Apesar disso, o cinema feito aqui parece que sempre tentou fugir de mim (e da maioria dos interessados). Ora pretensioso demais (Júlio Bressane), ora com roteiros e diálogos paupérrimos (Tropclip – os diálogos são constrangedores), ora querendo salvar o mundo (em especial o Nordeste – muito do Cinema Novo entra aqui), os seguidos fracassos trouxeram sempre as mesmas justificativas: baixo número de cópias para competir com Hollywood, baixo orçamento, falta de divulgação, má vontade do público, censura (nos anos da ditadura militar). Isso era a regra, e havia exceções (que apenas confirmavam a regra), mas todas longe do público (como Sganzerla, por exemplo – que fazia cinema de autor – também extremamente pretensioso, diga-se, mas pensador, um artista; Glauber, talvez o maior, que errou muito, mas tinha um imenso gênio criativo).

E assim tivemos, depois das chanchadas da Atlântida (Oscarito e Grande Otelo faziam filmes de sucesso), um período com o Cinema Novo, que pregava um cinema engajado, com baixo orçamento, uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. Só esquecia de pensar no próprio público, que não tomou conhecimento de tal vertente cinematográfica (que fez mais sucesso entre a intellingentsia estrangeira – talvez mais por curiosidade antropológica e culpa enrustida de alguns intelectuais do Primeiro Mundo). O público simplesmente não viu os filmes do Cinema Novo – ficou famosa a frase de Paulo Francis publicada n’O Pasquim sobre como eram encarados tais filmes e seus diretores – “o filme é uma merda, mas o diretor é genial”.

Pois bem. Veio depois a pornochanchada. Uma espécie de retomada das chanchadas em versão, digamos, mais apimentada. O que os americanos chamam de softcore. Falando em português claro: filmes pornôs sem mostrar a penetração. Isso era a pornochanchada. Filmes lamentáveis, de oitava categoria, dando um tiro de morte no que restava da produção nacional. Mas não pense você que não houve justificativa para tantas produções ruins. Houve. E é aquela ladainha de sempre: era uma forma de protestar contra a censura, contra os orçamentos baixos, uma fuga dos filmes aculturados e colonizados da Atlântida etc.

Ora, tais argumentos não resistem a um sopro, sem que o interlocutor precise ser especialista em Schopenhauer (e sua “Arte De Ter Razão”) ou seja um intelectual. O primeiro deles é de um simplismo infantil e chega a abusar da mediana inteligência de qualquer um. Existia censura? Óbvio, sabemos todos. Mas a censura era política. E os outros temas da vida? Os outros dramas humanos? Os amores, a loucura, a falta de dinheiro, relações pai-filho, velhice, medo da morte etc. Poderia ficar escrevendo infinitamente e os temas não terminariam. Sem falar que em outras artes também havia censura e os artistas produziram muito (e bem!), fazendo inúmeras críticas ao regime, através de artifícios como jogos de palavras, metáforas etc. Então, o argumento não cola, mas impressiona o número de pessoas inteligentes que se rendem a ele, sem qualquer questionamento. Talvez não sejam tão inteligentes assim...






Baixo orçamento também entra em qualquer lista de justificativa. Ora, já está mais do que provado que baixo orçamento nunca impediu que se fizesse cinema de qualidade. Hollywood mesmo está cheia de exemplos. “A Última Tentação de Cristo”, de Scorsese, é uma obra-prima (desculpem os fanáticos religiosos) e tem baixíssimo orçamento – filme completamente fora dos padrões da Meca do cinema. E fora de Hollywood temos inúmeros casos – o movimento “Dogma 95” dinamarquês, a turma escocesa que fez “Cova Rasa” e “Trainspotting”, os filmes de Walter Salles e por aí vai. E há ainda um argumento caseiro: os filmes de Renato Aragão. Sem qualquer pretensão de resolver os problemas da humanidade ou da nação, o humorista cearense, dirigido pelo subestimado J. B. Tanko, fez comédia popular. Olhado com desdém pelos (auto-intitulados) intelectuais, Aragão fez o que o povo (não o povo idealizado por nossa esquerda, possível ator das revoluções, mas o povo real, brega, cafona, que só pensa em melhorar e vida) gosta. Colocou diversão nas telas com orçamento baixíssimo, sem apelações de cunho erótico. Mas foi ignorado por nossos setores, digamos, mais cultos.

Realmente, estes setores não poderiam ficar prestando atenção a filmes menores como os feitos pelos Trapalhões. Havia temas mais importantes, era preciso arrumar desculpas para os inúmeros fracassos dos anos 70. E ficavam presos nisso, sem olhar para o futuro, acusando o imperialismo americano, a ditadura, os militares, a censura e qualquer outra coisa. Só nunca foram capazes de culpar a própria falta de talento, ou ainda, de como o fenômeno da pornochanchada fez com que se associasse, deleteriamente, o cinema nacional à pornografia, espantando o público.

Depois desta fase vieram os anos 80 e a abertura política, e com eles os bizarros (constrangedores seria um termo mais apropriado) filmes “jovens” (“Garota Dourada”, “Areias Escaldantes”, “Rock Estrela” e outros). Em seguida iniciou-se a era Collor, e com ela o fim da Embrafilme, tudo o que os velhos dinossauros-parasitas de verbas públicas não queriam, mas (e mais) uma bela desculpa para muitos de seus fracassos.

Ainda bem que no mesmo período estava nascendo uma geração de diretores desvinculada do velho modus operandi, preocupada apenas em fazer cinema (e não em inventar a roda). Tal movimento foi classificado como retomada. Mas isso é tema para a próxima coluna.

Até a próxima segunda.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é casado, tem uma filha, é apaixonado por cinema e sonha com o dia em que as pessoas que fazem cinema no Brasil se preocupem mais com cinema do que com a invenção da roda.

sábado, 13 de março de 2010

Snegs de Biufrais



Por Valério Cortez

Tá chato. Tá muito chato. Isso aqui tá chato pra cacete.O que esta acontecendo com a gente? Será que estamos virando um blog papai-mamãe? Será que estamos virando um blog de auto-ajuda?

“Nossa, teu texto tá maravilhoso”. “Hoje você se superou”. “concordo plenamente contigo”. Marasmo das frases feitas e dos clichês elogiosos. Vade retro arautos da punhetagem solidária.

E antes que eu me esqueça, decano é o carajo.

Texto sobre o dia internacional das mulheres? Pra que? Sobre as mulheres basta dizer que são gostosas. E basta. Ou não?

Entrega do Oscar? And the winner is...? Oscarajo. Programa de auditório transmitido diretamente do Kodak Theatre. Rubens Ewald Filho? Fala serio. Tarantino? Bastardos Inglórios? Talvez. Que são Sganzerla nos ilumine e proteja.

Caras Jazz? A novidade musical da garotada da favela, suburbana, classe média marginal. É informatica metralha, Sub-Uzi equipadinha com cartucho musical, de batucada digital. Deu pra sacar?

Internet? Orkut? Twitter? Facebook? Sinais de fumaça. Som da batida de tambores. Telégrafo High Tech. Chute no saco e na paciênca.

Que merda hem? Alguem aqui deve ter fumado maconha estragada.
e
Rock’n Roll. Cadê meu Rock’n Roll? Britpop? Que porra é essa? Strokes? Coldplay? Cansei de Ser Sexy? Doidões de Shopping Center. Quero meu Rock’n Roll e meus malucos de volta.

Nada interessante pra dizer? Então não diz nada.

Quem diria, estamos virando os porta vozes da babaovisse interiorana. Barra do Piraí é uma merda. O Bar do Borracha também.

Estamos virando o blog oficial do bom-mocismo barramansence. Bons filhos. Bons pais. Dedicados. Responsáveis. Conscientes. Dignos. Lacraias da mesmice.

Abaixo os virtuoses, os altruístas e os filantropos, porque deles será o reino do céu, onde, por toda a eternidade, terão a companhia de anjinhos chatos tocando trombetas desafinadas.

César faça a coisa certa, solte o réu e prenda os jurados.

Deus não existe, e o Jorge Couto também não. O Jorge Couto é só uma figura de retórica. O Alex Frederick é o ‘enfant terrible’ do Guaruça News. Só isso. O Zeca é melhor que os dois.

Pelo visto, celacanto não provoca mais maremoto.

Postar ou não postar? A dúvida do Hamlet moderno é boa. A foto do macaco também é boa. O nome da rádio é legal. A rádio também é legal. Deep Purple é rock’n roll. Deep Purple toca na Lágrima Psicodélica. Tudo ao mesmo tempo agora.

Quem entendeu, entendeu. E quem não entendeu, entendeu também.


Um bom domingo a todos, na certeza de que não existe pecado do lado de baixo do equador. Nem do de cima.

*Valério Cortez é um babaca. Glauco, Fernanda Abreu e Vitor Paiva não.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Deep Purple - California Jam



* Por Sérgio Soares

Data: 06 de abril de 1974
Local: Ontario Motor Speedway – Califórnia/EUA
Público: 200.000
Bandas: Rare Earth; Earth, Wind & Fire; Eagles; Black Oak Arkansas; Black Sabbath; Deep Purple; Emerson, Lake & Palmer.

Em 1974 o Deep Purple já havia lançado sete discos de estúdio. Destes, chamavam atenção os últimos quatro (In Rock, Fireball, Machine Head e Who do We Think We Are), gravados pela clássica formação conhecida como Mk II, desfeita em 1973. O excepcional vocalista Ian Gillan debandou, seguido pelo baixista Roger Glover. Para seus lugares foram recrutados David Coverdale (um jovem desconhecido, então com 23 anos de idade) e Glenn Hughes (baixista e vocalista da banda Trapeze), respectivamente. O show em Ontario seria a grande apresentação dos novos integrantes da banda, que então promovia o recém lançado álbum Burn, ao público americano.

Ao findar do dia, com o sol ainda insistindo em brilhar, a contragosto de seu conturbado guitarrista, o Deep Purple adentra no palco montado no local normalmente utilizado para corridas de Nascar e Fórmula Indy. Ao fundo do palco, um enorme arco-íris estilizado, que seria imortalizado nas clássicas fotos e filmagens do festival. Coincidência ou não, Ritchie Blackmore batizou sua banda pós-Purple como Rainbow.



A competência musical dos integrantes do Purple não seria discutida. Ian Paice sempre foi um dos mais técnicos bateristas do rock. Jon Lord mesclou como ninguém experimentos de música clássica e rock em seus teclados, sendo o exemplo mais evidente disto o conhecido “Concerto for Group and Orchestra”, de 1969. Ritchie Blackmore é um gênio da Fender Stratocaster, com uma pegada neoclássica e blueseira que influenciou milhares de guitarristas ao redor do planeta, de Eduardo Ardanuy a Yngwie J. Malmsteen. Desta forma, a expectativa em Ontario estava voltada aos dois novos integrantes, especialmente para Coverdale, um grande desconhecido.

Com David Coverdale cantando maravilhosamente bem, embora um tanto contido ante a grande platéia que encarava pela primeira vez na vida, o inquieto Glenn Hughes praticamente roubou a cena, com backing vocals poderosos, domínio de palco perfeito e linhas de baixo pulsantes, esbanjando uma energia arrebatadora. Em “Burn”, faixa-título do novo álbum, seus vocais chegaram a quase suplantar o principal vocalista, que apenas teve sossego na faixa “Mistreated”, cantada exclusivamente por ele.

O festival Califórnia Jam foi o cartão de visitas da dupla de vocalistas ao vivo. O duelo vocal é um ponto instigante do Deep Purple nos anos Hughes e Coverdale – Mk III e Mk IV (quando Tommy Bolin substituiu Ritchie Blackmore no disco “Come Taste The Band”). Eram promovidas verdadeiras batalhas vocais, restando evidente a contínua tentativa de superação, sem que tal fato jamais tenha descambado para exibicionismos baratos, sendo a disputa travada em altíssimo nível. As vozes unidas faziam surgir músicas estupendas, como a inclassificável “You Fool No One”, com seus poderosos vocais dobrados em uníssono:




O público presente em Ontário ainda teve o privilégio de assistir pérolas do quilate de “Might Just Take Your Life”, “Smoke On The Water” e “Lay Down, Stay Down”, antes do apoteótico final com “Space Truckin`”, com Ritchie Blackmore destruindo duas guitarras e uma câmera de vídeo da produção do espetáculo (prejuízo orçado em oito mil dólares para a banda). Outros tempos.

Deep Purple – Califórnia Jam:

Ritchie Blackmore – Guitarra
Ian Paice – Bateria
Jon Lord – Teclados
David Coverdale – Vocais
Glenn Hughes – Baixo e Vocais

* Sérgio Soares é purplemaníaco. Para apreciação do vídeo disponibilizado, aconselha uma momentânea pausa na sensacional rádio do blog.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A vida como ela parece que é

Por Figurótico*

Na pauta dos acontecimentos atuais, a tecnologia abarca grande parte dos debates hoje dentro de escolas e faculdades, das transformações ligeiras que estamos passando com tudo que está sendo oferecido alucinadamente. Tenho minhas restrições quanto ao uso exagerado da Internet. Grande parte do que uso é pelo uso da máquina a favor da divulgação da música da banda, do contato com fãs.

Se talvez não fosse eu quem sou, acho que já teria por exemplo eliminado o Orkut de minha vida, mesmo reconhecendo o poder dessa ferramenta de se conectar com pessoas conhecidas que estão longe demais para fazer um interurbano. Esta página em específico tem se tornado um grande destruidor de relacionamentos amorosos. Pois as fotos e recados (scraps) são vigiados pelo par com o intuito de cercar os passos como num big brother. Pessoas que não são estão querendo ser... “artistas”. Com fotos e frases roubadas criam uma imagem fictícia da realidade.

Já mencionei que passei a adquirir mais páginas devido ao fato de já ter visto um perfil falso meu na rede, e que por precaução, criei em outras ferramentas a fim de me antecipar antes que alguém o fizesse. Então parti para o Twitter e Facebook (este último não mexo em nada, a não ser aceitar pessoas que conheço para serem “amigas” ali também). Já na coqueluche do momento Twitter, uso-o moderadamente, dando um “pitaco” ou outro de onde vamos tocar. O outro objetivo dessa página é o de “seguir” pessoas – obviamente que tem algo a dizer.

E nessa eu clicando em um, em outro e de repente vi que seguir certas pessoas por mais de duas semanas é impraticável. Fiquei embalado ao seguir o Lobão, que como está escrevendo sua autobiografia, está postando pílulas diárias (sensacionais!) no portal. O problema é que esse “diário virtual” passa dos limites da informação para cair no banal, completamente banal. Um músico que você começa a segui-lo para dar informações de... música, de repente passa a falar com paixão do seu clube de futebol, analisando as partidas em tempo real; comentando a eliminação do BBB... Estou falando de artista que eu considerava, que tinha um discurso consistente, músicas marcantes, e que de tanto abrirem suas vidas, vão perdendo ponto. Nessa eu vou deletando, deletando – já foram uns 20 pro ralo. E com os Iphones, Smartphones e sei lá mais o quê – estou longe desses inventos da hora, muito longe, nem compreendo e muito menos quero ainda – começam a mandar da rua, fotos do trânsito, do camarim onde estão antes de tocar, e por aí.

Resumindo, novela pra quem gosta de acompanhar novela, e nessa eu não caio. Estou com a impressão de que as pessoas estão passando o dia pensando, “hmmm, boa frase pra eu lançar no Twitter” e por assim vão. E os comentários mais íntimos são os que me afastam ainda mais. Tem de tudo, “solidão”, “dor”, “jantar”, “banho de piscina”. Quando a gente segue um artista, quer saber do que anda fazendo, escrevendo, não do seu dia-a-dia, sinto que entrei no lugar e na hora erradas. Quando se segue um suplemento de cultura de jornal de sua preferência, você já é antecipado do que lá irá sair. Bacana, sem chiliques, funciona bem. Opinião demais se perde quando você quer informação. Seu filtro mental tem de estar bem ligado nesses tempos de Internet. Vi um blogueiro futebolístico conhecido dizer que “no dia dos namorados ele preferirá o jogo da Nigéria a sua namorada...”. Mais um não-seguido. Só tenho me divertido mesmo com o Lobão, estou contando os dias para que esse projeto chegue às livrarias.

Preocupo-me até onde a Internet pode chegar. Fazendo pessoas escreverem por pura diversão, por popularidade, criando fatos nada relevantes, se exibindo. Sinto que chegará um dia em que o mundo lamentará o excesso de Internet na vida das pessoas, a destruição de laços mais verdadeiros, de contato, de afeto, de tesão. E será tarde por demais.

*Figurótico é músico, jornalista, 34 anos, e está precisando de um tempo da Internet.

segunda-feira, 8 de março de 2010

E o vencedor foi...





por Carlos Vinicius Rosenburg*


Ontem tivemos a premiação da Academia de Hollywood, o 82º Oscar. Maior festa do cinema mundial, a mais comercial, a hora dos grandes estúdios. Com toda aquela pompa, tapete vermelho, a tradicional chatice desses eventos americanos, as piadas prontas, ensaiadas, alguns números musicais, homenagens, bem, o roteiro de sempre – se bem que Steve Martin e Alec Baldwin são bem melhores que o Billy Cristal.

O evento foi transmitido ao vivo pelo canal TNT (60 da Sky). Mas eu não agüentei ver tudo. Segunda é dia de labuta e o sono falou mais alto. Hoje cedo vi os resultados. Muitos já previsíveis, a Academia adora o politicamente correto, os temas que emocionam a sociedade americana, alguns atores queridinhos e a reparação de injustiças. O grande vencedor foi “Guerra ao Terror”, com seis estatuetas (melhor filme, direção, roteiro original, montagem, som e edição de som).

Como dito acima, ponto para o politicamente correto. A diretora do filme da noite, Kathryn Bigelow, venceu o de melhor direção. Parabéns para ela. Se o filme realmente é bom (eu ainda não vi), muito legal. Mas tenho a impressão de ser aquela patriotada da Academia, recheada com a primeira estatueta para a direção de uma mulher. Espero que tenha sido realmente pelo trabalho feito, e não para fazer média com as mulheres no dia delas. E já adianto: é o tipo de filme que não me anima, muito ufanista. Espero estar errado.

Um dos prêmios mais esperados é o de melhor ator. Jeff Bridges, finalmente, levou sua estatueta. Dizem que o atual papel não é tão bom quanto outros que já fez. Bridges não precisa provar nada a ninguém. Já está entre os grandes. Mas parece ter sido aquele Oscar como o que foi dado a Scorsese por “Os Infiltrados” (grande filme, mas muito abaixo de várias coisas feitas por Marty). A Academia, nesses momentos, parece se tocar e falar: “caramba, ainda não demos nenhum prêmio pra esse cara, tem que ser agora”. E o prêmio é dado, mesmo que o filme não chegue nem perto de outros daquele artista.

Outro prêmio ansiosamente aguardado, o de melhor atriz, teve como vencedora Sandra Bullock, queridinha da América, Miss Simpatia. Bateu Meryl Streep, a maior de todas as atrizes. Muito previsível.

Surpresa boa mesmo foi a vitória do argentino “O Segredo Dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella (Argentina), como melhor filme estrangeiro. Parabéns para os hermanos. Prova de que baixo orçamento e crise econômica não impedem bons filmes.

E Avatar? Bom, o filme de maior bilheteria da história ficou aquém do esperado. Ganhou em efeitos visuais, fotografia e direção de arte. Na minha opinião, boa produção. É um filme legal, bacana, muito bem feito, mas está longe de ser uma obra-prima.

“Bastardos Inglórios”, do cultuado Quentin Tarantino, levou apenas o de ator coadjuvante. Merecido. Grande atuação de Christoph Waltz, que realmente rouba a cena.

No restante da cerimônia (vi apenas metade), mais do mesmo. Outras piadas prontas, sorrisos, lágrimas, vestidos caros e smokings. Ah, e de bom tivemos a volta do velho “and the winner is...” (e o vencedor é...) no lugar do burocrático “and the Oscar goes to...” (e o Oscar vai para...). Nunca entendi a troca. Bom retorno do bordão tradicional.

Mas o que me levou a desligar a televisão, além do sono, foi a presença do comentarista Rubens Ewald Filho. Meu Deus, o que é Rubens Ewald Filho?

Até a próxima segunda.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é casado, tem uma filha, acha o Rubens Ewald Filho uma mala e prefere filmes fora do padrão da Academia.

domingo, 7 de março de 2010

Mulheres


Por Valério Cortez

Dia internacional das mulheres, confesso que nunca dei muita bola para esta data. Para as mulheres sim, para a data comemorativa não.

Nosso capitalismo “goela seca” transforma tudo em jeito de se ganhar dinheiro e assim datas comemorativas acabam sendo mais importantes para o comercio do que para os homenageados.

Se bem que, não sei se existe o costume de se presentear as mulheres nesta data, estou mais acostumado com o Dia das Mães, dos Namorados e aniversários, datas nas quais já homenageamos nossas mulheres. Desculpem minha ignorância na matéria.

Mas tudo bem, quem sou eu para questionar uma homenagem instituída pela ONU e que já perdura por quase 100 anos? Então viva as mulheres.

No Google descubro que a escolha da data, 8 de março, deveu-se a lembrança de um massacre ocorrido na cidade de Nova York em 1857, quando 129 tecelãs foram trancadas e mortas carbonizadas no interior da fabrica em que trabalhavam. O motivo? Promoverem uma greve por melhores condições de trabalho. Justo muito justo, a homenagem, não o massacre.

Mas independente de datas, homenagens ou massacres, e bom deixar bem claro que achamos vocês maravilhosas, todas vocês, nossas mães, esposas, filhas, sogras, avós, tias, amigas e amantes.

Tem uma frase do Drummond que eu gosto muito:

“Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer”.

Um bom domingo para todos, parabéns as nossas amadas mulheres, e fiquem com Veríssimo.

Era uma vez... numa terra muito distante...uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico...
Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:
- Eu, hein?... nem morta!

Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 5 de março de 2010

Justiça Social - Utopia?



* Por Sérgio Soares


“A todos aqueles que neste momento habitam um ventre e que nascerão na miséria, morarão nas ruas, terão como teto o tempo, sentirão frio, acostumar-se-ão com o medo, comerão lixo, cheirarão cola, conhecerão o sexo na infância, procriarão na puberdade e, analfabetos, morrerão antes de atingirem a idade adulta. Sua vida já é conhecida, antes de nascerem, filhos órfãos que são da cidade grande. Muitos dos que sobrevierem, seu caminho também não é mistério, pois as portas da prisão os aguardam.”
(Wagner Cinelli de Paula Freitas – Espaço urbano e criminalidade: Lições da escola de Chicago – São Paulo: IBCCRIM, 2002)


Os sistemas de interação social, em geral, são injustos. Podemos dizer que o real socialismo caiu há algum tempo e o que lhe resta são lembranças de um modelo social que na prática demonstrou não resolver, a contento, as diferenças sociais, posto que amparado em uma artificial e forçada igualdade. De nada adianta a imposição de modelos sociológicos quando os integrantes do grupo não alcançam o real significado da fraternidade buscada.

Lado outro, o capitalismo jamais escondeu seu fascínio pelos valores materiais, a começar por sua própria denominação, que não deixa espaços a dúvidas, tratando-se de modelo desigual por natureza.

Indiferente a modelos sociais, grande parcela da população mundial limita-se a viver (nascer, procriar e morrer) em precárias condições, vendo passarem frente a seus olhos a corrupção, a malversação das verbas públicas e o contínuo descrédito dos agentes do poder, como materializações da miséria a espancarem-lhe a face diariamente.

Diz-se que cada povo possui o governo que merece. A assertiva é apenas em parte verdadeira. Há um lado por vezes esquecido desta questão, decorrente da inferioridade a que é submetida a população de baixa renda. “Quem tem fome tem pressa”, diria o inesquecível Betinho. Aguardar a manifestação popular da massa para a resolução de nossos problemas sociais, em especial na seara política, é ignorar a crua realidade que nos cerca. É dever da parcela esclarecida da população (minoria) adotar posturas ativas visando o incremento da máquina pública, tornando menos sofrida a vida daqueles que por conta das falhas inerentes ao próprio sistema social não detém condições de exercer, a contento, a cidadania. Não podemos simplesmente “sentar no trono de um apartamento, com a boca cheia de dentes, esperando a morte chegar”, como alertou nosso saudoso Raulzito.

O caminho está aberto. Batalhas serão perdidas, é certo. Mas o que importa é a caminhada, contínua, rumo ao engrandecimento moral do país. Um passo de cada vez. Fatos inéditos têm ocorrido, como a prisão preventiva de autoridades influentes, combate eficiente ao nepotismo etc. Não há volta, só não podemos esmorecer. Ainda há muito a ser feito. É necessária a exigência, cada vez maior, de respeito aos princípios constitucionais regentes da administração pública - legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, previstos no artigo 37, caput, de nossa Constituição Federal.

É o mínimo que se espera de nós, detentores de confortável situação social em um mundo tão desigual. Utopia?

“Ela está no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho 10 passos e o horizonte corre 10 passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para fazer caminhar.” (Eduardo Galeano)

Bom fim de semana a todos.


* Sérgio Soares, 36 anos, casado, Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais, com atuação nas áreas de defesa do patrimônio público, histórico e cultural; defesa do meio ambiente, habitação e urbanismo; defesa do consumidor; tutela das fundações; infância e juventude infracional. Escreve no blog Confraria Jurídica.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Caras Jazz



*por Alex Peres

Hoje quero falar de um dos acontecimentos que mancharam de sangue a história do Brasil.
Mas antes tenho que falar de um movimento que há muito me chama atenção pelo seu verdadeiro ideal. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. Passei a infância e adolescência vendo esse movimento crescer, ganhar força, perder força, e continuar.
Em um pais dotado de milhares de hectares de terras improdutivas o governo deveria incentivar a atividade rural e promover a distribuição de terras, evitando assim o êxodo rural e o aparecimento de novas favelas, que embora produza mão de obra barata, não possui especialidade, e acaba sendo expulso da cidade, ou vivendo de forma desumana.


Para onde vai esse cidadão? A “sociedade” quer esse cidadão?


O movimento surgiu a partir dessa necessidade, a promoção da reforma agrária. Esse por sua vez é um sistema que visa distribuir terras (sem querer sobrepor a constituição federal, já sobrepondo) de forma justa. A partir desse pensamento e da posição real em que o Brasil se encontra, pessoas que não possuem terras para plantio organizaram um movimento de protesto contra a centralização de terras nas mãos de poucos.


O movimento é organizado em 24 estados brasileiros a partir de comissões de frente que buscam a reforma agrária de forma verdadeira. Cada comissão é responsável pelos setores de saúde, direitos humanos, educação, cultura, comunicação, formação, projetos e finanças, produção, cooperação, meio ambiente e frente de massa.
Como forma de reivindicação e de fazer valer a reforma agrária, o MST ocupa os latifúndios e se mobilizam em massa de forma que os proprietários fiquem sem maneiras de reagir.
O MST a partir de sua manifestação impactante universalizou sua causa e tornou conhecida a necessidade de fazer valer o direito do homem de ter seu espaço para morar e promover seu sustento e ainda trouxe à tona a ocupação improdutiva de terras por pessoas que visam apenas terem posses.


Dados coletados em diversas pesquisas demonstram que os agricultores organizados pelo movimento têm conseguido usufruir de melhor qualidade de vida que os agricultores não organizados. Isso mostra a condição precária que vive o trabalhador rural nesse pais.


Porém, existem pessoas que se infiltram no movimento com a intenção de enganar o governo e os próprios manifestantes somente para obterem um pedaço de chão. Estes, de maneira alguma devem ser considerados integrantes sem-terra.


É lógico que em um movimento dessa magnitude e ainda por cima não governamental é quase impossível obter a organização plena, pois se nem na administração pública isso é alcançado. Por isso existem alguns aspectos desfavoráveis ao movimento, não só pela influencia de infiltrados oportunistas, mas por atitudes muitas vezes impensadas, que embora em alguns casos fosse inevitável, enfraquece a credibilidade do movimento como manifestações e invasões que acabaram em morte e pancadaria, saques e destruição de propriedade pública, etc.Também temos que levar em consideração o fato de que a reforma agrária causaria impactos ambientais assim como há desmatamento em alguns assentamentos.
Isso tudo são falhas principalmente do ser humano e não do movimento em si.


Hoje, em alguns lugares, o movimento é confundido como a nova favela rural ou por comunidades de ciganos.

O Massacre

Em 17 de abril de 1996 policiais militares promoveram o Massacre de Eldorado de Carajás, que ganhou repercussão internacional e deixou marca na história do país, ao lado do Massacre do Carandiru (1992) e da Chacina da Candelária (1993), como uma das ações policiais mais violentas do Brasil. Em 2002, o “presidente da época” instituiu essa data como o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.
Passados 13 anos do massacre no Pará, permanecem soltos os 155 policiais que mataram 19 trabalhadores rurais do MST, deixaram centenas de feridos e 69 mutilados. Entre os 144 incriminados, apenas dois foram condenados depois de três conturbados julgamentos, mas ambos aguardam em liberdade a análise do recurso da sentença, que está sob avaliação do STJ.
Vamos olhar pra frente, mas não podemos esquecer de acontecimentos como esse que devem ser vistos como uma página virada de um capítulo que não pode ser lido novamente mas sim utilizado como uma lição social para a humanidade. E que a justiça seja feita para que novamente o homem não tenha que agir com suas próprias mãos.

Há oito anos, com a colaboração do meu amigo Bujão, fiz uma música com o tema dedicado a esse fatídico dia 17 de abril.



CARAS JAZZ

Homens distantes
Caminhos itinerantes
Balas perdidas
Que acham corpos errantes

Povo jogado
Pessoas que lembram gado
Povo sofrido
O drama segue esquecido

Corpos Cansados
Corações dilacerados

Almas armadas
Fazendo a força de reação

ref.
Aqui jazem os caras
Os Carajás da intolerância
Aqui jazem os caras
Os Carajás da ignorância

Não basta esperar
O nervo da sociedade
O sumo da liberdade
Escravidão brutalidade

A lei áurea da terra
Ou fazer a guerra
O grito de morte
A virada da sorte

Corpos Cansados
Coração dilacerado

Almas armadas
Fazendo a força de reação

ref.
Aqui jazem os caras
Os Carajás da intolerância
Aqui jazem os caras
Os Carajás da ignorância


Um abraço a todos, e até a próxima quinta.

*Alex Peres, não passa nem perto de ser um revolucionário, mas admira as atitudes humanitárias e sociais e acredita que essas devem ser lideradas por cabeças que pensam. E acredita que inteligência é perceber o bem em comum e coragem de tomar a iniciativa.

Referência: www.mst.org.br

quarta-feira, 3 de março de 2010

E de repente... 10


Por Figurótico*


Muito se falou no novo ano que se iniciou com o fim do carnaval, ano de Copa, eleições. Mas só agora me toquei que encerramos a década. E como costumamos pontuar musicalmente a história da música por décadas, lá se foram os anos 2000. Muitos gostam de usar a simbologia 00, para dar sequência aos anos 70, 80, 90, 00. Ainda não me acostumei com anos 00, pois se já iniciamos os anos 10, na minha cabeça isso à primeira audição pode se referir a 1910. Como quando se ouve anos 30, nossa mente vai para trás e não pra frente. Enfim, por um tempo ainda utilizarei anos 2000, 2010, 2020, etc.

E o que essa década nos deu? Valeu a pena? Nosso ouvido virou pinico de vez? Pra começar, o fim dos anos 90 foi marcado pelo auge do Indie Rock e pelo Britpop. (Esse sem-número de gêneros me irrita). Bandas como The Flaming Lips e Oasis representavam ambos, respectivamente. Ao analisarmos a lista dos dez melhores álbuns segundo os ingleses da New Muscial Express, no início da década de 2000 (como gostam de listas esses ingleses...), temos: Queens Of The Stone Age, Primal Scream, PJ Harvey, Coldplay e Radiohead. Como podemos ver, o Coldplay atravessou a década intacto (nem tanto assim, pois foram acusados de plágio por Satriani), inclusive fazendo show na Apoteose no último domingo, Pelo que li nos jornais, houve muito efeito, balões e até música, em matéria do Globoonline.

Em 2001 uma banda de Nova York, depois de bater na porta das gravadoras americanas consegue assinar com um selo inglês Rough Trade, e estourar imediatamente, sendo ovacionada pela crítica. Mas a princípio parecia uma banda pré-fabricada, já que contava nos vocais com Julian Casablancas, filho de John Casablancas, dono da Elite. Eram os Strokes, influenciados por bandas nova-iorquinas dos anos 60 e 80, como Velvet Underground, Television e Ramones. Na cola dos Strokes vieram Interpol, The Rapture e Yeah, Yeah, Yeahs. De Detroit, veio o White Stripes, que lançou seu primeiro disco em 99, mas só apareceu na tal lista da NME em 2001, como terceiro melhor álbum. Em 2003 com o álbum Elephant chegaram ao primeiro lugar. Lista essa que também trazia The Rapture, The Storkes, Yeah, Yeah, Yeahs, Kings of Leon e um Radiohead em nono lugar. (White Stripes não só foi primeiro lugar na lista, mas ainda hoje está entre as mais tocadas no Empório, no Rio).

Como sempre viveram competindo, se testando na história da música, a Inglaterra precisava dar o troco à América por tanta banda sendo lançada. Foi quando apareceram Franz Ferdinand e The Libertines, ambos primeiro e segundo lugares na lisa da N... A segunda fora produzida por Mick Jones do Clash, e pela sonoridade já os chamaram de “O novo Clash”, ou – como os ingleses também adoram –, a salvação do rock. Pude vê-los ao vivo no Rio no Cais do Porto, no mesmo dia do Primal Scream. Posso dizer que curti o Libertines, som sujo, simples, rápido e enérgico ao vivo. Vi com o segundo vocalista da banda, Carl Barat, pois o primeiro fora expulso da banda, Pete Doherty. Um perturbado viciado em heroína e que promoveu um assalto na casa do companheiro de banda, o mesmo Carl Barat?!

Em meados da década, dando sequência à disputa da Ilha e da América – como gosta de dizer Kid Vinil – surgiu da Inglaterra Kaiser Chiefs, e dos EUA The Killers. E que mais tarde, usando e abusando da Internet, apareceria o Artic Monkeys. Vale dizer que 95% dessas bandas passaram pelo Brasil nesses anos, principalmente nos Tim Festivals da vida, e a maioria com casa cheia. E todas elas tiveram grande sucesso tanto no Rio como em São Paulo, nesses tumultuados anos 2000, devido às rádios que tocavam rock. Vivenciei isso especificamente no Rio de 2002 a 2006, com a Rádio Cidade (a rádio rock). Que para o bem ou para mal, ajudou as bandas de fora e as de dentro. Credito ao fim dessa rádio no dial (hoje só pela web ela sobrevive) o esfriamento do rock no Rio, principalmente no quesito shows. Pois ela promovia todos esses shows de rock na cidade, com festa da rádio, etc.

Na praia dos pesados tivemos Wolfmother, que parecia navegar sozinho da onda do Hard Rock da antiga, da Austrália. Dos chamados New Metal, destacaram-se Linkin Park, System of a Down, Slipknot (que vinda do fim dos 90) e a ótima aparição (e fim) do Audioslave com uma p. banda e um vocal idem.

Como não houve espaço para se falar das bandas brasileiras dos 2000, fecharei com o Cansei de Ser Sexy, que é brasileiro (?!) mas que aconteceu lá fora, assinando com a gravadora Sub Pop, a mesma que lançou Nirvana ao mundo. Caiu nas graças da imprensa inglesa e tocou em todos os festivais da Europa desde então. Não tive a curiosidade de ouvir uma música se quer do CSS, tamanha a bajulação precoce por parte da imprensa brasileira depois que a inglesa se rendeu. Ah, e como não poderia deixar de ser, saíram na lista da %$#.

E quanto a vocês, o que acharam dessa década? Nosso ouvido virou pinico?

*Figurótico é músico e anda preocupado com os 2010, à procura do fato novo.