
* Por Sérgio Soares
Quando uma autoridade norte-americana, ou até mesmo internacional, viaja ao Iraque, quem é resposável por sua segurança?
a) O Exército americano.
b) A CIA.
c) Forças especiais internacionais.
d) Um grupo de mercenários.
Por mais absurdo que possa parecer, a resposta certa à pergunta acima é a da alínea “d”. A privatização das forças de guerra norte-americanas, operada por seu Departamento de Defesa, é produto de décadas de negociações e planejamentos, efetivados especialmente por membros do Partido Republicano e aceitos pelos democratas. Os atentados de 11 de setembro de 2001 e a guerra do Iraque impulsionaram de forma estrondosa e assustadora o incremento desta indústria de guerra, que age como sanguessuga de verbas públicas, pedindo sempre mais e mais, ao argumento de ser necessário o contínuo aperfeiçoamento no combate a terroristas e ameaças, em todo o mundo.
Para se ter uma idéia, no ano de 2006 os gastos americanos apenas com as chamadas “forças de segurança” totalizaram a quantia de 613 milhões de dólares. A partir de 2003 a proteção de funcionários graduados no Iraque ficou a cargo da Blackwater USA, empresa fundada em 1996 na Carolina do Norte e que já recebeu mais de 1 bilhão de dólares dos cofres públicos americanos por conta de seus serviços, prestados através de contratos firmados, em sua maioria, sem qualquer espécie de concorrência aberta e equilibrada. Seu primeiro serviço de segurança foi a escolta de Paul Bremmer, enviado por Bush ao Iraque no primeiro ano de ocupação. Não por acaso, o último ato de Bremmer ao deixar o Iraque em 2004 foi a edição da lastimável “Ordem 17”, que isentou de processos penais os prestadores de serviços no Iraque. Por mais absurdo que isso pareça, o governo norte-americano deu carta branca a um bando de mercenários contratados por empresas particulares, que desde então se veem envolvidos em vários episódios de massacres de civis iraquianos, agindo sob o manto da concedida imunidade, chegando ao ponto de assassinarem o guarda-costas do vice-presidente iraquiano. Não são processados no combalido Iraque e não podem ser processados nos Estados Unidos da América. Uma farra que não é bem vista nem mesmo pelos oficiais e soldados americanos, minoria que não detém voz de comando sobre os mercenários, subordinados diretamente à Casa Branca. Atualmente a Blackwater foi sucedida nesta "missão" pela empresa Triple Canopy.
Como visto, não é apenas a Blackwater que presta serviços e lucra (muito) no Iraque. “No Iraque, a indústria que vem florescendo no pós-guerra não é a do petróleo. É a da segurança”, como advertiu James Hider no artigo “Soldiers of fortune rush to cash in on unrest Baghdad”, publicado no The Times londrino em 31 de março de 2004. O mercado é tão promissor que no verão de 2007 havia centenas de empresas de segurança (mercenários) prestando serviços no Iraque (DynCorp, Triple Canopy etc), com mão-de-obra contratada em todo o planeta, em países como Filipinas, Nepal, Colômbia, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá e Peru. Mercenários chilenos, treinados sob o brutal regime do ditador Augusto Pinochet, atualmente são “agentes da paz”. São esses sujeitos que perambulam pelas ruas do Iraque, apontando armas de fogo contra civis, matando, barbarizando e estimulando, cada vez mais, o ódio, a revolta e a insurgência da população, aumentando, via de consequência, a necessidade de incremento da indústria da defesa.
Por óbvio, se temos uma indústria da guerra sedenta por novos contratos e novas áreas de atuação, invariavelmente teremos também a permanente necessidade de deflagração de novos conflitos e criação de campos de atuação cada vez maiores para as atividades de guerra, o que implica em grande risco para a manutenção da paz mundial.
Não vou prolongar o texto, mas deixo aqui uma dica de um livro que considero fundamental para a compreensão do tamanho da encrenca em que estamos entrando. Chama-se BLACKWATER – A ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, escrito pelo jornalista norte-americano Jeremy Scahill e disponível no Brasil pela Companhia das Letras. Trata-se de um minucioso estudo, com precisa indicação de fontes, acerca do estrondoso crescimento do aparato militar privado norte-americano (de fortes ligações com o Partido Republicano), sua expansão global, os elos com a CIA e altas autoridades americanas e a influência das grandes empresas privadas nas decisões políticas dos Estados Unidos na área da segurança pública.
Na wikipedia há uma pequena síntese das atividades da Blackwater, atualmente denominada Xe: http://pt.wikipedia.org/wiki/Blackwater_Worldwide
No youtube há vários vídeos, sendo alguns relacionados aos abomináveis episódios de 16 de setembro de 2007, na Praça Nisour, Bagdá, Iraque, quando um comboio da Blackwater promoveu verdadeiro massacre de civis inocentes, no episódio que ficou conhecido internacionalmente como o “domingo sangrento de Bagdá”. Eis uma espécie de resumo das atividades:
Escrevi esta coluna ao som de Masters of War (Bob Dylan), Holy Wars (Megadeth), War (Bob Marley), War Pigs (Black Sabbath), Dogs of War (Pink Floyd), Warboys (Paul Rodgers), Rosa de Hiroshima (Secos e Molhados) e Machine Gun (Jimi Hendrix).
Que fiquem todos em paz e tenham um ótimo fim de semana.
* Sérgio Soares continua acreditando que a diversidade de opiniões, o respeito às divergências e a urbanidade são fundamentais para um bom convívio em sociedade.

















