
Em meados dos anos 80, nosso conterrâneo e publicitário Elias Raffide, o popular Peça O'Hara, fez uma letra emblemática, falando sobre uma invasão dos paulistas ao Rio. A música pertencia ao repertório do grupo Boca Atentada, que trazia nos vocais um cara conhecido como Júlio, também conhecido como Júlio Kunta (lembram do Kunta Kintê, do seriado Raízes?) e que mais tarde se tornaria celebridade regional com a dupla Julinho Marassi & Gutemberg - não sei se a música é só do Peça ou se é parceria. Na mesma época, como é sabido, o Ultraje a Rigor faz o clássico "Nós Vamos Invadir Sua Praia". As duas músicas são premonitórias. Mais do que invadir a Guanabara, os caras invadiram o Brasil. E isso pode ser constatado no vocabulário falado em nosso país, na grande imprensa e internet.
O Rio foi capital do Império e da República. Também era centro financeiro. Além disso, sempre foi locação de inúmeras novelas da Globo. Cidade cosmopolita, destino de turistas estrangeiros, o carioca sempre teve pretensão de ser cidadão do mundo - o nome dos grandes jornais não deixa mentir - "Jornal do Brasil", "O Globo". Assim, expressões tipicamente cariocas eram entoadas pelos quatro cantos do Brasil. Mas isso mudou. Há muito tempo, o poder econômico (e político) foi (foram) transferido(s) para São Paulo.
Antes de qualquer coisa, devo dizer que tenho muitos parentes em Sampa, três irmãs da minha mãe moram lá há mais de trinta anos. Minha avó também morou, passei vários períodos de férias naquelas plagas. E sempre era divertido ouvir alguns termos tipicamente paulistas. Meu pai adorava sacanear os caras, fazia perguntas só para ouvi-los dizer "farol" (sinal de trânsito), "pebolim" (totó), "guia" (meio-fio), "carta" (carteira de motorista), "holerite" (contra-cheque) e por aí vai. Esse era o paulistês oficial. Mas era só dos paulistas. Porém, de uns tempos pra cá, a coisa veio se alastrando.
Dia desses, passando pela vitrine de uma livraria, bati os olhos em um livro que falava da história dos campeonatos brasileiros. Não lembro muito bem do nome do autor, mas uma coisa me chamou a atenção: o título. Ele não falava em Campeonato Brasileiro, mas em "Brasileirão". Pensei: é coisa de paulista. Não deu outra. Isso não preocuparia se não víssemos chamadas da televisão anunciando o... "Brasileirão"! E tome "Brasileirão", "Timão", "Verdão", "Paulistão", "Azulão", "Ramalhão", "Minhocão" etc.
Mas pode ser muito pior. Paulista não azara, paulista "xaveca". Ahn? Isso mesmo, eles dizem "rolou um xaveco". E não saem para a noite (ou night, quando se está na Zona Sul do Rio). Saem para a "balada". E o que é muito legal não é maneiro, mas "maior legal", ou "maior bom", "tá ligado" (ops...)? Sem falar no dialeto da "periferia". Caramba, não era subúrbio? Era no Rio, mas em Sampa é "periferia". E aí, tome
"truta", "mano", "mina", "maloqueiro", "firmão", "nóia" e outros bichos.Para fechar, há ainda o telemarketing com seus "Senhorrrrr", "não estou einteindeindo", "seteinta", "oiteinta", "eu vou estar analisando", "ããããã" etc. Eu desligo na hora.
Ah, e a cereja do bolo. Sempre nos referimos às pessoas de meia idade pra cima como coroas. "Aquele coroa ali", "fala com o coroa", pronto, uma palavra resumia os cabelos grisalhos, o tempo passado, a experiência. Aí aparecem os caras da ponta feia da Dutra e falam "tiozão"! Ou "tiozinho", quando o coroa é um pouco mais velho. Meu Deus...
O Peça, citado lá em cima, estava certo. Os caras invadiram o Brasil, quer dizer, o Rio, chamando todo mundo de tio. E aí, aquilo que magistralmente chamaram de "a maior cidade de interior do mundo" acaba espalhando seus modos para todos os lugares. E tome paparazzi, Chiquinho Scarpa, Ana Maria Braga, Otávio Mesquita, Faustão, João Dória Jr., Alphaville, Daslu etc.
Eu sei, é o poder econômico, o dinheiro está lá, as grandes empresas têm sede lá, não há muito o que fazer. E pelo que vemos da corrida presidencial, as coisas vão continuar como estão. Dilma é mineira mas é do PT, paulista até a medula. Serra é paulista e do PSDB, paulista como o PT.
Orra, meu! E que os meus parentes de Sampa não leiam essa coluna...
Até a próxima segunda.
*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é pai de uma menina linda e tem saudades do tempo em que o carnaval de São Paulo e o baile do Ilha Porchat Clube eram motivo de riso.



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