

Por Figurótico*
Em tempos de Black Eyed Peas, Lady Gaga e outras coqueluches que assolam a nova geração semana a semana, trazendo ídolos criados do dia para a noite; de jovens ditos sertanejos aparecendo a dar com pau em propagandas de CDs, DVDs ao vivo – que sequer eu tenha ouvido seus nomes uma vez na vida –, com suas produções que passam do tolerável fazendo-os parecerem artistas com carreira consolidada há tempos, tive uma reflexão (como sempre faço) semana passada enquanto tocava uma música na noite. Vi que o tempo é decisivo para a permanência de certa canção no inconsciente coletivo. E que não é preciso apelar para a exposição esgotante de certo artista ou canção.
Mesmo com tanta coisa baixa sendo jogada à força em todo mundo que está disposto a isso, principalmente aqueles que têm facilidade em lidar com o ambiente noturno, de bares e afins, há uma canção que resistiu a tudo quamto é momento, onda passageira, nova sensação, revelação e tantos outros termos pobres, chamada Bete Balanço. A música que foi composta pelo Barão Vermelho por encomenda de Lael Rodrigues para filme homônimo em 1984, com Déborah Block no papel principal, rasga décadas de suspiros e sacolejos noturnos quando esta é executada. Não há quem fique imune à sua introdução, exclusivamente.
“Pá pá pá!” – prenuncia a caixa de bateria de Guto Goffi para o arrasador riff de guitarra de Roberto Frejat. Pronto, a genialidade desta música está em dois momentos de pura simplicidade: três toques na caixa de bateria (coisa até banal) e uma guitarra deslizando entre dois acordes, provocando o sentido mais desejado de todo guitarrista (e que poucos conseguiram) que é fazer com que a guitarra tenha um sentido sexual, daqueles que paralisam o olhar de qualquer mulher. Pode-se afirmar que até hoje essa criação é imbatível, no sentido criativo se olharmos para o rock brasileiro.
Elementar que já passei anos sem tocar Bete Balanço, pois já tocara muito na adolescência, e a noite com sua capacidade eterna de vulgarizar muita música, já o fez com Bete Balanço também. A diferença é que esta soube driblar todas as malícias da “expert” noite, pois a própria levada de Bete Balanço é carregada de malícia, desejo, brinde ao ponto onde quer chegar, e ela chega, ao fim de tudo.
Como também certo é que o Déjà Vu é constante quando se toca essa canção, comigo pelo menos, é uma enxurrada na cabeça. Logo no início me lembro das mil vezes que assisti a um show do Barão. Das fases áureas, das caídas, das que ressurgiram das cinzas, das repletas de loucura e das de sobriedade. No matador “Pode seguir a tua estrela”, me recordo das versões na voz do Cazuza e do Frejat, separados pelo fim do Barão, e vivo sem sucesso tentando estabelecer qual é que gosto mais. “O teu futuro é duvidoso” e vem o “bend” (elevação da corda da guitarra até a nota seguinte, a um tom acima) mais famoso do rock Brasil, produzido até pelos que nada sabem tocar, na memória as inúmeras vezes que Frejat fez isso e, na mesma medida, as inúmeras vezes eu não o fez.
“Me avise quando for a hora”. Findado o primeiro refrão, parte-se para o primeiro solo, leve. Durante, memórias de shows ao vivo com o Peninha tendo uma brecha para sua percussão, podendo nesse instante “soltar a mão”. “Não ligue pra essas caras tristes/ Fingindo que a gente não existe” e mais um riffizinho clássico até a deixa para a respiração “salaaaas (escritórios, merda! – clássico do Cazuza no Rock in Rio), para o não menos clássico “eu quero ouvir todo mundo cantando comigo”, para emendar num solfejo bluseiro de Frejat, “agora eu deixo com vocês...”, e as palmas para o alto, deixando a banda sem precisar atacar até que a platéia faça sua parte e cante alto que “o teu futuro é duvidoso” para aí sim, um ataque conjunto regido pelo (de novo) riff de Frejat.
A partir de então já está tudo ganho, e o êxtase virá pela derradeira frase “me avise quando for emboraaa!!!” de Cazuza, não sem antes interromper o início do solo com “uhlll” e Roberto Frejat seguir adiante, desafiando sua criação, tentando torná-la diferente do disco, deixando somente as frases pontuais que não devem nunca mesmo ser mudadas. Nem com tanto tempo de palco se consegue que tal fato passe despercebido. Destaco o que ele fez num Hollywood Rock, ainda cabeludo, com muito gás a dar, um dos melhores de Bete ao vivo.
Por uma única vez vi o Barão tocar Bete Balanço sem ser igual ao disco. Impossível mensurar quantas foram as vezes que essa música entrou no bis por força da plateia, sem que a banda tivesse saco para tocá-la. Neste pensamento, tentaram uma versão mais calma, sem a tradicional guitarra deslizante, e isso eu vi em Volta Redonda, no extinto e passageiro Aldeia da Lua, na turnê do Álbum (de covers). Não durou muito, e eles voltaram à versão original, clássica. Estão condenados a tocar essa música para o resto da vida, mesmo que já nem saibam quem é essa tal de Bete Balanço.
*Figurótico é músico, jornalista e morreu de rir ontem no show do Lobão, vendo as pessoas saindo no meio por ele tocar muita música nova. Lobão é criativo, tem carreira, não vive de passado.






















