

*Flavia Alvaro Porto é a Flavinha. (flport@ig.com.br)



Por Jorge Couto
Nunca tive grandes simpatias pelo Sr. José Serra. Embora reconheça nele uma pessoa inteligente e culta, ele sempre me pareceu centralizador e autoritário. Quando há poucos meses atrás o ex-ministro Ciro Gomes o classificou como “figura tenebrosa”, achei exagero e que a expressão não passava de figura de retórica própria de época eleitoral. Mas agora dou meu braço a torcer, o candidato é mesmo alguém que me faz recordar tempos negros.
Candidato da oposição demotucana à Presidência da República, o Sr. Serra parece não ter nada de novo a propor e apresentar a sociedade brasileira. Como já era de se supor, limita-se a um discurso vago, reacionário e ao denuncismo no melhor estilo lacerdista (como, aliás, eu já havia dito no texto “Os Corvos”, postado por mim neste blog). Em dupla com o conhecidíssimo Sr. Índio da Costa, candidato a vice-presidente na sua chapa, oriundo das hostes do chamado Partido Democratas (só pode ser gozação!) do Estado do Rio de Janeiro, afilhado político do impagável César Maia, tem se aplicado com afinco a fazer declarações de causar urticárias de inveja nos cadáveres de Gustavo Corção, Roberto Campos ( o “Bob Fields”) e outros representantes, vivos e mortos, da direita troglodita e entreguista do Brasil. Serra e o deputado da Costa – melhor chamá-lo assim em respeito à comunidade indígena – fizeram nas últimas semanas declarações preciosas, que certamente soaram como música aos ouvidos de Washington.A intrépida dupla disse que o Mercosul é desnecessário e prejudicial ao país; que o acordo proposto pelo Brasil e Turquia para resolver o impasse entre o EUA e seus aliados com o Irã, foi perda de tempo e que como Presidente do Brasil ele não receberia nenhum líder iraniano (certamente daria preferência a figuras do calibre de Bush júnior, Berlusconi, Benjamin Netanyahu); que o PT tem laços com o narcotráfico e com as FARCs; que Evo Morales e seu país são coniventes e tem interesses na produção de cocaína; que a Venezuela representa um perigo para a paz na América do Sul, entre outras baboseiras. Claro que tais declarações, amplificadas ao máximo pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista), tem endereço certo; vale dizer, a classe endinheirada, seus serviçais da classe média e o grande capital internacional.
Por outro lado, o que resta ao Sr. Serra e a seu coleguinha que não a histeria anti-esquerdista e anti-popular? O que dizer ao eleitorado brasileiro? Ser o anti-Lula? Seria um suicídio. Ser o continuador de Lula? Não é possível, pois o lugar já está ocupado por Dilma, ele é candidato da oposição e, além do mais, perderia seus patrocinadores.
O fato é que Serra e seu parceiro enveredaram pelo caminho do reacionarismo mais deslavado. Com suas diatribes, Serra se tornou o candidato do conservadorismo à Presidência do Brasil, e também a ser o substituto do Sr. Uribe (Presidente da Colômbia) como a principal voz da direita no continente Sul-Americano. Envia sinais claros para os EUA que, eleito Presidente do Brasil, nosso país jogará fora toda a sua política externa construída nos últimos anos, pautada pela independência e soberania, e voltará a ter como norte da política exterior a subserviência mais abjeta.
No plano interno é de se supor que teremos de volta a política social e econômica dos tempos do príncipe dos sociólogos, o inesquecível FHC, que no espaço de oito anos quebrou o Brasil duas vezes.Teremos de volta a indiferença para com os problemas sociais e privatizações lesa pátria. Em poucas palavras: neoliberalismo sem quaisquer rédeas e alinhamento automático com as potencias imperialistas, para o deleite da elite, desespero da população mais carente e prazer ilusório e masoquista de parte da classe média.
Mas o que parece indicar o cenário sucessório é que a vitória da dupla demotucana se torna cada dia menos provável, e que os reacionários da direita tupiniquim terão que continuar a destilar o fel da sua impotência por mais alguns anos.

pedimos o maior prato da casa o hausmacher plate, vem com carré defumado, salsicha branca (bovina), salsicha tipo frankfurter (bovina e suína), bolo de carne, salaminho, lingüiça, batata sauté, chucrute (feito com vinagre de vinho). Isso tudo por apenas 35 pratas, detalhe tudo vem em duas unidades. Para acompanhar uma cerveja de trigo Alemã Schneider Weisse Original, essa aí meio puxadinha, R$12,50 cada, mas combina muito bem!
O “Aurélio” define a palavra obsessão como, Idéia fixa, preocupação constante. Perfeito. Eu acho que é exatamente isso que esta acontecendo aqui em nosso blog. Estamos em meio a um surto de obsessão pela revista Caras. Eu explico, já há algum tempo, não conseguimos passar uma semana sequer, sem falar na revista. Em nossos textos e comentários ela tem sido presença constante. Só pode ser obsessão.
Para se tentar acabar de vez com um problema, o melhor remédio é falar sobre ele. Então vamos lá.
O caro objeto de nossa obsessão, a Caras, foi lançada no Brasil em 1993 pela Editora Abril, e seguiu exatamente o modelo adotado em sua versão argentina, ou seja, uma revista voltada para os emergentes, para a “nova sociedade”, em fim, para os ricos e famosos.
Logo fez enorme sucesso entre seu publico alvo, empresários, socialites, profissionais liberais bem sucedidos, atrizes gostosas e globais no atacado. Ou seja, celebridades em geral. Ou seja, babacas e deslumbrados em geral.
A idéia deu certo, pois, após o lançamento da revista, nossos ricos e famosos passaram a acreditar que, de nada valeria ter dinheiro se não fosse possível exibi-lo, de preferência em suas paginas.
Hoje, algumas crises econômicas depois, e passados 17 anos de seu lançamento, com tiragem bastante reduzida, algumas edições da revista ainda podem ser encontradas em locais como Búzios, Campos do Jordão, Maresias, Costa do Sauipe, Porto de Galinhas, Miami e Ponta Del Leste.
Caso você não se encontre em nenhum destes locais, e sinta uma vontade irresistível de ler a Caras, poderá encontrá-la ainda, na ante-sala do consultório do seu médico, do seu dentista ou no salão de beleza mais próximo.

O império contra ataca.
Em Junho de 1999, através da editora Pererê, o cartunista Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho, lança a Bundas, ou melhor, a revista Bundas.
Bundas foi lançada para ser a antítese da Caras e para isso contava com colaboradores do quilate de Jaguar, Millôr, Veríssimo e o próprio Ziraldo.
Com o slogan, “A revista que é a cara do Brasil”, bundas sofreu muito preconceito no meio publicitário, pois além do nome estranho, a publicação partia ferozmente para cima de um grande sucesso editorial da época, a revista Caras.
Os editores ridicularizavam a revista dos ricos e famosos, quando, por exemplo, criaram a seção “Castelo de Bundas”, onde publicavam a foto da casa de algum desconhecido, com uma piscininha de plástico no quintal.
Mas na verdade, a revista era muito mais que uma simples “oposição” a Caras, a idéia, como no saudoso Pasquim, era ridicularizar com tudo e com todos, esculhabando pra dizer coisas serias.
Aconteceu? Esta na Bundas.
Mas, lamentavelmente, não deu certo, alguns meses e números depois, a revista tombou vitima de problemas financeiros. Faltavam anunciantes.
Mas tudo bem, no futuro, enquanto a revista Caras devera ser lembrada, por representar os anos de ouro do neoliberalismo, a Bundas, com certeza, será lembrada por sua capacidade de tratar de assuntos sérios, com muito bom humor, e também por sua genial frase tema:
Quem mostra a bunda na Caras, não mostra a cara na Bundas.
Um bom domingo a todos
Eu fardo mais não talho.
A amizade é um amor que nunca morre.
Jorge Couto
A minha intenção ao postar este texto é de elevar o nível cultural deste blog, de seus participantes e dos eventuais leitores. Já que vida moderna não deixa tempo para a boa leitura vai aqui um resumo de alguns clássicos da literatura pra você aumentar sua cultura e ter o que botar na mesa na hora do chopp.
Gustave Flaubert:
Madame Bovary.
778 páginas.
Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre.
Fim.
Leon Tolstoi
Guerra e Paz.
Paris, Ed.Chartreuse. 1200 páginas.
Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro.
Fim.
Marcel Proust:
À La recherche du temps perdu.
Paris, Gallimard. 1922. 1600 páginas.
Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite.
No dia seguinte (pág. 486 vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág.1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos - e pronto.
Fim.
Luís de Camões:
Os Lusíadas.
Editora Lusitânia
Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super gente fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas.
Fim.
William Shakespeare
Romeu e Julieta
Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro. As duas turmas saem na porrada, uma briga fodida, muita gente se machuca. Então, um padre filho
da puta tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era
sonífero.
Fim.
William Shakespeare
Hamlet
Essa é foda.
Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que, entretanto, se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado.
Fim.
Sófocles:
“Édipo-Rei”
Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Parada muito doida.
Fim.
William Shakespeare
Othelo
Um rei otário, tremendo zé-roela, tem um amigo muito filho da puta que só pensa em fazê-lo de bobo. O malandro não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O zé mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho.
Fim.
Pronto!
Você economizou a leitura de pelo menos 7.000 páginas e R$ 500,00 em livros, e agora
pode comprar tranqüilo a sua coleção de Caras!

Na época da minha infância (e também adolescência), lembro de algumas idas ao Rio, ora para ver o Flamengo no Maracanã, ora para ficarmos em algum daqueles apartamentos de temporada que meus pais alugavam, em Copacabana. E uma coisa sempre chamou a minha atenção, além das belezas naturais e da imensidão da cidade grande: o prédio do Jornal do Brasil, o JB, na Avenida Brasil, pertinho da Rodoviária Novo Rio.
A curiosidade foi despertada por meu pai, leitor assíduo do JB, que fazia as vezes de um guia turístico, informando o nome dos locais pelos quais passávamos – aliás, meu pai fazia isso em qualquer viagem, para onde quer que fôssemos.
Ao passarmos por aquele monstro de concreto eu tentava imaginar como seria o trabalho ali dentro, a montagem do jornal, o rosto daquelas pessoas sobre as quais meu pai tanto falava – João Saldanha, Oldemário Touguinhó, Villas Boas-Corrêa, Veríssimo, Zózimo, Sandro Moreira e tantos outros – uma verdadeira seleção brasileira do jornalismo.
Algum tempo depois, quando cursava, salvo engano, a 7ª série do Colégio Verbo Divino, em 1985, apareceu a chance de matar aquela curiosidade de criança: o colégio estava organizando uma excursão para o Jornal do Brasil, exatamente para a 7ª série. Sonhei com aquilo. Aproveitei cada segundo da visita, fiz milhares de perguntas a repórteres, fotógrafos, editores e sei lá quem mais. Naquele momento eu também já era um leitor do JB.
E jornal, qualquer um sabe, é hábito. Você gosta mais de determinada editoria, pega manias (eu sempre começo a ler pela página de esportes), procura certos colunistas, enfim, cria uma certa intimidade com aquele veículo. Aí, quando você pega outro jornal, sente aquela sensação estranha, um certo desconforto, a saudade do seu jornal tradicional. E eu sentia isso quando pegava o concorrente direto, O GLOBO (para quem não sabe, eram os dois jornais “sérios” do Rio de Janeiro – O DIA ainda era um jornal popularesco, que apostava mais na vertente sensacionalista, do sangue nas manchetes). Achava O GLOBO chato, com linha editorial chapa branca, colunistas descartáveis (Ibrahim Sued e Hildergard Angel), quadrinhos que não me agradavam. Gostava dos jornalistas do JB, do Zuenir Ventura, do Zózimo, do João Saldanha, do Xexéo, do Veríssimo, do Ancelmo Góis, do Fausto Wolff, do Fritz Utzeri, das revistas Programa e Domingo. Nada n’O GLOBO chegava perto daquilo.
Mas vieram os anos 90 e o JB entrou em crise. Sofreu assédio implacável d’O GLOBO, que levou seus melhores nomes (acho que todos), valendo-se do poderio econômico de seu conglomerado , midiático (principalmente, a TV – como o JB poderia concorrer com uma TV?). E cada vez mais o GLOBO foi tornando-se parecido com o JB, não só por levar os melhores nomes para o clã dos Marinho, mas também porque o JB começou a fazer jornalismo chapa branca descarado, numa tentativa desesperada de reverter sua precária situação. Aliado a tudo isso, houve também a reformulação gráfica e editorial do jornal O DIA, que acabou “roubando” leitores do JB, que não queriam migrar para o maior concorrente.
Melancolicamente, depois de inúmeras penhoras no imponente prédio da Av. Brasil, 500, o JB deixou o local. Mudou, ainda, de formato, virando quase um tablóide. As vendagens só foram caindo, os anunciantes sumiram e o jornal chegou à inviabilidade.
Há poucos dias, como já foi noticiado amplamente, até aqui no blog, o JB parou de circular. Não há mais edição impressa. Como disse o amigo e blogueiro Valério, isso significa a morte. Eu diria que significa mais. O JB, infelizmente, já estava morto. Só faltava enterrar. Agora não falta mais nada.
Lamentavelmente, a morte do JB retrata um pedaço da decadência econômica do Estado do Rio de Janeiro. Mas mostra um pouco mais. Dá provas, muito claras, do poder das Organizações Globo. O Rio já teve nas bancas os jornais, entre outros, os diários Última Hora, Tribuna da Imprensa, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil e Jornal dos Sports, todos eles, cartas fora do baralho – o próximo da lista será O Dia. Claro que há outros fatores, inúmeras causas, que ajudam a compor o atual cenário. A internet, TV, novas mídias, interatividade, má gestão etc. Porém, não por acaso ou mera coincidência, temos em pleno funcionamento O Globo (concorrente do JB), Extra (concorrente d'O Dia), Valor Econômico (concorrente da Gazeta Mercantil) e Lance! (concorrente do Jornal do Sports), todos das Organizações Globo. Pelo visto, os fatores geradores de crise, listados acima, não são capazes de atingir o império criado por Irineu Marinho.
*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é servidor público formado em direito e aprendeu a ler jornal com o JB, por influência de seu pai, José Carlos Soares Rosenburg, a quem dedica esta coluna.
P.S.: peço aos amigos blogueiros, coloboradores, leitores assíduos e eventuais (cadê o Zé Lelé?) que dêem sugestões para o local de comemoração do primeiro aniversário do blog. Sugestões nos comentários.
Por Valério Cortez


* por Flavia Alvaro Porto
Outro dia ouvi uma mentira tão cabeluda que fiquei pensando: por que as pessoas mentem tanto?
Pra que mentir se a descoberta da mentira leva à uma consequencia bem pior do que se tivesse falado a verdade? Será que as pessoas acham que nunca serão descobertas?
O problema é que, quem procura acha. Nos dois sentidos.
Quem mente sabe que pode ser descoberto e quem escuta a mentira, se tiver o minimo de sensibilidade no “ouvido”, percebe que isso está acontecendo e vai atrás pra saber.
O pior de tudo é que a pessoa tentar passar pra você o famoso “atestado de idiotice” achando que você nem vai desconfiar ou ainda muito menos nem tentar saber a verdade.
Brincadeira!
Não sei se estou errada mas o fato é que sou daquelas pessoas que preferem uma verdade que doa a uma mentira que alegre. Frase pronta mas que, pra mim, é essencial!
Tem gente que diz que ser verdadeiro demais é falta de educação. Nem tanto!
Há mil maneiras de dizer a verdade de uma forma que não machuque ninguém.
E uma delas é você ser verdadeiro sempre.
Não sou santa e já menti sim, mas com o amadurecimento percebi que isso não leva a nada e só traz maiores problemas.
Sei ainda que há casos e casos, pois a mentira em excesso é uma doença psicológica que se chama mitomania e que é extremamente importante que se faça um tratamento.
A pessoa com esse distúrbio conta histórias mirabolantes e ainda acredita nelas.
Porém, no geral, as pessoas mentem descaradamente, levando os outros à um sofrimento totalmente desnecessário.
Não importa o tamanho da mentira.
Não existe mentira grande ou pequena.
Acaba a confiança e a decepção se instala.
Como colar uma taça de cristal que se quebrou em pedaços mínimos? A confiança é assim.
Digo que é praticamente impossível reatar um laço de confiança com alguém que mentiu pra você uma vez. Por isso não existe tamanho para a mentira.
E é muito feio as pessoas serem tachadas de mentirosas.
O descrédito é triste!
E quando a mentira é descoberta as pessoas dão as mais diversas desculpas e o medo é o principal deles: medo de sofrer, medo de perder, medo de brigar, medo de ser quem se é, medo disso ou daquilo.
Então vá é tratar o seu medo, ora bolas!
* Flavia Alvaro Porto é a Flavinha. (flport@ig.com.br)

Por Jorge Couto
* Artigo de Julie Wark, do SinPermiso.
O primeiro golpe de estado da British Petroleum, na ocasião chamada Anglo-Iranian Oil Company, foi executado com a ajuda da CIA em 1953. Cinqüenta e sete anos mais tarde, seus golpes de estado consistem em usurpar, comprar ou driblar as funções do Estado. Hoje o Mineral Management Service (Serviço de Administração de Minerais), do Departamento do Interior dos Estados Unidos parece estar sob seu mando. Apenas onze dias antes da catástrofe do Golfo do México, a BP conseguiu para esta operação a “exclusão categórica” do estudo de impacto ambiental da National Environment Policy (Política Nacional Ambiental).
Com sede em Londres e escritório central nos EUA localizado em Houston, a BP é a maior corporação do Reino Unido e uma das maiores do mundo. Os negócios da primeira empresa a explorar petróleo no Oriente Médio remontam a 1901 e a um “bon vivant” londrino, William Knox D’Arcy, que negociou direitos de exploração com Mozzafar al-Din Xá Qajar, da Pérsia (Irã). O negócio passou por vários nomes: Anglo-Persian Oil Company (1908), Anglo-Iranian Oil Company (1935), British Petroleum (1954), BP Amoco (1998) e, em 2000, BP. Em 1913, o governo britânico adquiriu a participação majoritária, mas com a campanha privatista de Margaret Thatcher, a totalidade de seus ativos foi vendida entre 1979 e 1987.
O delírio de riqueza do “bon vivant” de Londres transformou-se em pesadelo para milhões de pessoas em todo o mundo, começando pelo Irã. Nas cláusulas contratuais da primeira exploração, além das condições de trabalho dos operários iranianos roçando a escravidão, descartou-se desde o início a soberania do país. Em agosto de 1941, a Grã Bretanha e a União Soviética ocuparam o Irã e rapidamente forçaram o repressor Xá Reza a abdicar em nome de seu filho Mohammed Reza Pahlevi, inaugurando assim um novo regime de repressão, corrupção, brutalidade e luxo extremo. Em 1951, o Majlis (parlamento) votou unanimemente pela nacionalização e, pouco depois, tomou posse no cargo de primeiro ministro o respeitado estadista Mohammed Mossadegh. A reação dos ingleses foi draconiana e, hoje em dia, fartamente familiar: bloqueio militar, fim da exportação de bens vitais, congelamento de contas bancárias na Inglaterra, e articulações nas Nações Unidas para aprovar resoluções contra o Irã. Mossadegh buscava uma solução negociada, mas os ingleses já tinham optado pela força e, em 1952, alegando o perigo do comunismo no debilitado Estado, obtiveram o respaldo do presidente Eisenhower. Em 1953, com políticos, militares, criminosos, prostitutas e jornalistas bem comprados, e informada pela embaixada britânica e seus espiões, a CIA conseguiu executar seu primeiro golpe de Estado, por meio do qual reinstalou no poder o Xá Reza Pahlevi.
A tirania do Xá preparou o terreno para a revolução islâmica de 1979. Com o endurecimento do regime do Irã formou-se uma rede global anti-ocidental cada vê mais dependente das táticas do terror. O que os ingleses batizaram como Operation Boot (Operação Bota) e os estadunidenses “Operation Ajax” “ensinou aos tiranos e aos déspotas que os governos mais poderosos do mundo estavam dispostos a tolerar a opressão sem limites sempre e quando os regimes opressivos tratassem bem o Ocidente e suas empresas petroleiras. Isso ajudou a mudar o equilíbrio político contra a liberdade e a favor da ditadura”.
Há poucos lugares no mundo a salvo da espoliação da BP. Na Colômbia, a empresa é acusada de beneficiar-se do regime de terror dos paramilitares que protegiam os 730 quilômetros do oleoduto Ocensa, e foi obrigada a pagar uma indenização multimilionária a um grupo de camponeses. O oleoduto causou desmatamento, deslizamento de terras, contaminação do solo e diminuição do lençol freático. Colheitas foram perdidas, criações de peixes foram arruinadas e muito gado morreu. Em 1992, a BP firmou um contrato com a empresa inglesa Defence Systems Ltda (DSL) que estabeleceu a Defence Systems Colômbia (DSC) para suas operações colombianas. Três anos mais tarde, a BP firmou acordos com o Ministério da Defesa da Colômbia segundo os quais a BP pagaria ao governo US$ 2,2 milhões que seriam utilizados em sua maior parte para a Brigada XVI do exército proteger as instalações da BP.
A Brigada introduziu na zona de Casanare a guerra suja ou, como diz o povo, a tática de deixar o peixe fora d’água. A DSC ensinava estratégias militares e de contrainsurgência à polícia encarregada de proteger o perímetro das instalações. A população aterrorizada a considerava com razão mais uma força militar na zona. Além disso, um empregado da DSC revelou a jornalistas ingleses que havia trabalhado para coordenar uma rede de espiões nos povoados da zona do oleoduto para controlar os líderes sindicais e comunitários. O departamento de Segurança da empresa Ocensa pagava delatores e compartilhava informações com o Ministério da Defesa e com a brigada local do exército. Em resumo, a BP criou uma zona de exceção na Colômbia.
Na Ásia Central, a BP é um membro destacado do consórcio Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC) que controla o oleoduto que passa pelo Azerbaijão, Geórgia e Turquia, o qual, fortemente financiado pelo Banco Mundial e por outras agências estatais, foi inaugurado em junho de 2005. Demandas judiciais contra o governo da Turquia relativas a abusos de direitos humanos foram apresentadas no Tribunal de Justiça da União Européia e no Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Não obstante, o governo turco concedeu a BTC poderes sobre o corredor do oleoduto que anulam as leis de direitos humanos, ambientais e sociais, e despojam os povos da região de seus direitos civis. BTC tem acesso ilimitado à água e está isento de responsabilidade no caso de um derramamento de petróleo. O oleoduto requer um corredor militarizado que põe em perigo o frágil acordo de trégua de hostilidades entre Turquia e grupos curdos. Mesmo antes de ser concluído, o oleoduto BTC já influía na geopolítica petroleira. Ele é de enorme importância estratégica na Transcaucasiana e, graças a BTC, os EUA e outros poderes ocidentais podem intervir muito mais nos assuntos da região.
Nem os Estados Unidos estão imunes. Os dados do inventário de emissões tóxicas da Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental) identificam a BP como a empresa mais contaminadora do país. Em 1999, uma filial, a BP Exploration Alaska, teve que pagar US$ 22 milhões por danos provocados pelo vazamento de resíduos tóxicos em Endicott Island. Em agosto de 2006, foi obrigada a fechar as instalações da Bahia Prudhoe em conseqüência de um derramamento de petróleo e diesel. Na Califórnia, a BP é um dos patrocinadores mais generosos de uma iniciativa legislativa para eliminar a lei de Unfair Business Competition (Lei de Competição Desleal) usada por grupos ambientalistas para processar empresas petroleiras pela contaminação de água potável por éter-metil-tetra-butílico (MTBE). No Canadá, a BP extrai petróleo de areias de alcatrão, um processo que consume enormes quantidades de água e produz quatro vezes mais emissões de dióxido de carbono do que a perfuração convencional. O povo indígena Cree denuncia que a empresa está destruindo o velhíssimo bosque boreal, degradando o território com suas minas a céu aberto, contaminando tanto a água como a cadeia alimentar e pondo em perigo a fauna silvestre e sua forma de vida.
Os tentáculos da BP se estendem também no ensino superior. Em fevereiro de 2007, em meio a uma forte oposição de professores e alunos, a administração da Universidade da Califórnia, em Berkeley (UCB), anunciou um convênio entre a UCB e a BP, pelo qual a empresa financiaria com US$ 500 milhões durante dez anos o Instituto de Biociências da Energia, dedicado à investigação de biocombustíveis e biologia sintética. Com essa demonstração de poder em uma universidade pública, com esta vontade de privatizar o trabalho intelectual e de comercializar os resultados da investigação, a BP faz com que os trabalhadores dos países desenvolvidos mais influentes subvencionem a exploração de mais bens ecológicos do mundo em vias de desenvolvimento para servir às elites, aqueles que não se importam em tirar a comida da boca do povo para encher seus bolsos de ouro. Socializar os gastos para benefício privado não é nada novo no sistema capitalista. Não obstante, esse caso dá outra volta no parafuso com a combinação de ciência desacreditada, imperialismo ecológico e o sofisma do desenvolvimento sustentável. Com este golpe, a BP consegue o controle de cientistas universitários, de alunos e de laboratórios além de dotar seus projetos supostamente sustentáveis de um verniz acadêmico.
A BP tem um negócio de bilhões de dólares com o governo dos EUA na forma de contratos de defesa anuais e como fornecedor principal de combustível ao maior consumidor mundial de gás e petróleo: o Pentágono. Segundo o Center for Responsive Politics, a BP ocupa o centésimo lugar entre os doadores mais importantes das campanhas políticas: mais de US$ 5 milhões desde 1990 repartidos entre republicanos e democratas, com os percentuais de 72% e 28%, respectivamente. O Centro aponta o presidente Obama como o destinatário que mais se beneficiou durante os últimos 20 anos das doações do comitê de “ação política” da BP ($77.051). A BP, seus comitês de “ação política” e seus empregados contribuíram com mais de US$ 3,5 milhões aos candidatos federais durante os últimos cinco anos, fora o dinheiro destinado ao lobby. Em 2009, liberou US$ 15,9 milhões em seus esforços por influir na política energética nacional. Desta maneira, com uma gestão bem azeitada, consegue-se a “exclusão categórica” da política ambiental.
Evidentemente, a BP não trabalha sozinha. Um rápido olhar sobre algumas de suas conexões corporativas e governamentais é educativo, para não dizer alucinante. O presidente do Goldman Sachs Internacional, Peter Sutherland – que, com oito outros gerentes do Goldman Sachs, recebeu mais de US$ 12 milhões em honorários em 2009 – e presidente da BP até que muito astutamente demitiu-se em dezembro de 2009, tem um currículo fascinante na página da Comissão Trilateral : É também presidente do Goldman Sachs International (1995 – até agora). Nomeou-se presidente da London School of Economics em 2008. Atualmente é representante especial da ONU para a Migração e o Desenvolvimento. Anteriormente era diretor-geral fundador da Organização Mundial do Comércio (OMC) e diretor-geral do Acordo Geral Sobre Comércio e Tarifas (GATT) desde julho de 1993, além de desempenhar um papel decisivo nos acordos da Rodada Uruguai, do GATT. É membro do comitê diretor do grupo Bilderberg e também assessor financeiro do Vaticano.
Igualmente astuta foi sua empresa Goldman Sachs quando vendeu 44% de suas ações da BP no primeiro trimestre de 2010, embolsando cerca de US$ 266 milhões e economizando US$ 96 milhões a preços atuais. As cifras apontadas pelo Center for Responsive Politics demonstram que o comitê de “ação política” do Goldman Sachs e empregados individuais doaram US$ 994.795 durante 2007 e 2008 para a campanha de Obama. Outro homem da BP com agudo senso de oportunidade é o chefe executivo Tony Hayward – anteriormente membro da junta consultiva do Citibank – que vendeu ações da BP avaliadas em US$ 2.130.000, um terço de sua participação, somente algumas semanas antes do desastre do Golfo do México. Já os aproximadamente 18 milhões de acionistas ingleses não foram tão bem informados, especialmente muitos pensionistas, já que os fundos de aposentadoria britânicos dependem de lucros na Bolsa que pagam 1 libra de cada 7 que recebem anualmente. A queda livre do preço das ações de “rentabilidade segura” da BP até mais de 50% de seu valor em abril e o fato de que a empresa terá que pagar cerca de US$ 13,5 bilhões para um fundo de compensação significam que o pagamento de dividendos ficará suspenso até, no mínimo, 2011.
Demandada juntamente com a BP na maioria das 150 ações judiciais provocadas pelo desastre do Golfo do México, está a Halliburton Energy Services, a empresa contratada para a parte técnica da operação, encarregada da injeção de cimento no subsolo. Esta equipe foi forjada há anos durante o planejamento da invasão do Iraque. A BP foi encarregada, então, pelo Ministério do petróleo inglês de realizar estudos técnicos e de fornecer assessoria, análise e formação para o campo petrolífero de Rumaila. Nas palavras de Ethical Consumer:
“antes da invasão, a BP treinava as tropas inglesas para manter e dirigir os campos petrolíferos que tinham sido apoderados no sul do Iraque. A gigante estadunidense Halliburton, que fornece serviços às empresas para a exploração, o desenvolvimento e a produção de petróleo e gás, foi encarregada de restaurar e reconstruir a infraestrutura petroleira e, nesta condição, acompanhava as tropas aos campos petrolíferos”.
Há alguns dias, um consórcio dirigido pela BP conseguiu o contrato para desenvolver o maior campo petrolífero do Iraque, Rumaila.
Não é possível contar toda a história de canalhices da BP em poucas páginas, nem as conseqüências de seus negócios na geopolítica, na balança da guerra e da paz, na economia, no meio ambiente e no mundo em geral, envolvendo desde a política do Oriente Médio até pessoas sem posses, às vezes assassinadas em comunidades remotas. Essas notas oferecem apenas um vislumbre da enormidade de crimes cometidos por essa empresa. A BP não representa nenhuma exceção entre as empresas petroleiras nem entre as grandes corporações. Sua história, além do vazamento de petróleo no Golfo do México, constitui um exemplo a mais de seu enorme poder e impunidade. E não há nada reconfortante na notícia da semana anterior que nos informa que o novo governo de coalizão britânico considera conveniente nomear o antigo chefe executivo da BP (1995-2007), também antigo diretor não executivo de Goldman Sachs e “O Rei Sol”, Lord Browne, como o novo superdiretor de Whitehall, encarregado de difundir, no coração do governo, o espírito de valores comerciais. Enquanto isso, a linguagem dos impunes delata bastante a continuada presença da bota. Em junho, um porta-voz da Casa Branca afirmou que a tarefa do presidente Obama é apertar a bota no pescoço da BP, enquanto que o jornal inglês The Telegraph diz que a bota de Obama aperta o pescoço dos pensionistas ingleses. Na verdade, os impunes diretores e funcionários fabulosamente bem remunerados da BP estão calçando as mesmíssimas botas e pisoteiam gente indefesa.
Tradução: Katarina Peixoto
Agora imaginem por um instante se um desastre como este do Golfo do México tivesse ocorrido no litoral do Brasil, em um poço da Petrobrás. Que delícia para a mídia nacional! O que não estariam dizendo neste momento! Posso imaginar as manchetes, editoriais e notícias baseadas em “fontes bem informadas” sobre fortes indícios do envolvimento de militantes do PT com o desastre ecológico. O orgasmo em rede nacional dos jornalistas amestrados pedindo a cabeça dos incompetentes stalinistas do PT. As acusações de que a estatal brasileira se tornou cabide de emprego de petistas e de aliados do governo. Os caciques do PSDB e do Democratas pediriam uma CPI para apurar a responsabilidade do Presidente no desastre, desastre que certamente ele sabia que iria acontecer. Os articulistas de Veja, Globo, Folha de São Paulo e assemelhados, afirmariam a incompetência de brasileiros na exploração de petróleo e, mais importante - aliás, o que realmente interessa - exigiriam a urgente privatização da Petrobrás, é claro.
Mas, lástima!, não aconteceu em um poço da Petrobrás, nem no Brasil foi. Pior, aconteceu com uma enorme multinacional, um dos exemplos das maravilhas do livre mercado e do mundo do estado mínimo.
Sendo assim, a mídia nacional continuará, muito a contragosto, a noticiar o desastre. Mas de forma discreta, com notícias rápidas e no meio do noticiário. Nada de escândalos, afinal não se pode denegrir a imagem de homens como o Sr. Peter Sutherland – o homem é assessor financeiro da Santa Madre Igreja Católica e do Santo Padre, entre outras coisas –. Realmente uma pena. O cenário perfeito com personagens errados.
Mas, quem sabe, até 3 de outubro...

