segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Homenagem ao recipiente presturizado de acúmulo de gás liquefeito de petróleo.

por Mozart Valle Neto*

Tudo começou em março de 1979. Estava assustado, colégio novo, professora nova, amigos novos. O ano foi passando e fui levando. Nesta época tinha poucos amigos. Lembro bem do Vicente (sumiu de Barra Mansa e nunca mais vi) também já era meu amigo o Boi. Voltavamos juntos todos os dias, passávamos em frente ao Socorro e roubávamos um punhado de feijão para jogar um no outro. Lembro como foi difícil para eu colocar a mão e puxar um punhado de feijão pela primeira vez. Minha mãe brigou comigo e nunca mais fiz. Uma vez o Boi jogou um caroço bem no olho do Vicente. Deu o maior bode. Teve mãe no meio, hoje isso me parece bem engraçado, na época não foi.

Neste ano apareceu em minha sala um menino que viria a ser um personagem importante na minha vida e também na de todos por aqui (leitores e blogueiros). Não me enturmei com o menino novo de cara. Só me recordo de uma história desta época: Final de ano e a Tia Maria iria entregar uma medalha (que tenho até hoje) para os três melhores alunos da sala. Não me recordo se era primeiro, segundo e terceiro ou simplesmente os três melhores. Lembro bem que fui o segundo a ser chamado, o último foi o Eduardo Pinna (filho do engenheiro que veio montar a TV Sul Fluminense – que também nunca mais tive notícias) e o primeiro a ser chamado foi nosso amigo.

O tempo passou e sua fama de bagunceiro foi crescendo. Nos enfrentamos algumas vezes em eleições de Representante de Turma e até formamos uma chapa num ano (eu como candidato dos quietinhos e ele como dos bagunceiros). Já faziamos política e não sabiamos. Teve um ano que ele foi convidado a se retirar do CVD, acho que este ano ganhei sozinho a eleição. Nossa amizade começou realmente lá pelo segundo grau. Eram tempos muito polítícos. Eu ostentava uma estrela vermelha no peito (agora o Jorge, Lobo Mau, Couto teve uma síncope). Pelas minhas ligações com a asa esquerda do Espiríto Santo consegui alguns elementos para organizamos um apoio a uma greve geral que iria acontecer em nome das Diretas Já.

Lembro de uma cena, estavamos na casa do Dragão (outro que sumiu) com uma turma preparando o texto de um panfleto que seria distribuído para os alunos para conseguir apoio para greve. Muitos estavam lá pela algazarra. Estavamos com um senhor bloqueio para escrever. O deathline da gráfica estava se aproximando. Ele pegou o papel e falou: Deixa que eu vou terminar. Uns quinze minutos depois ele chegou com um caderno e leu aquela letra bonita e desenhada (sua marcar registrada). Lembro que cheguei a sentir uma lágrima de emoção no canto do olho depois da leitura. Mas neste tempo chorar era a última coisa que poderia fazer.

O tempo foi passando e a admiração aumentando. Foram muitas noites ao lado de um violão, festas, saídas homéricas, penetradas em festas... Tempo bom!

Veio a faculdade! Fizemos um ano juntos na Sobeu. O famoso Ciclo Básico. No ano seguinte ele passou num concurso e foi para o Rio. Montou um ap no Flamengo (afinal não podia ser em outro lugar) que virou embaixada de Barra Mansa. Foram tantos shows, festas, ou finais de semana com praia, alguns com Maraca no fim do domingo.

A vida foi passando os objetivos se distanciando, mas a amizade nunca estremeceu. Todo ano organizamos um encontro. Lá parece que a gente tinha se encontrado no dia anterior. A gente revive tudo de legal que tem passado entre a gente. Não só nós, toda rapazida.Tanta gente que seria injusto correr o risco de esquecer alguém. Num dos últimos soltei uma frase que calou a turma que estava por perto: ’’ Aqui estão as pessoas que vão carregar nossos caixões.’’ Pura verdade. Amizade assim não se desperdiça. Agora então que temos este encontro virtual toda semana esta cada vez mais forte. Amigos velhos, amigos novos, velhos amigos, novos amigos. Todos aqui prontos a desejar um feliz aniversário!

Parabéns Bujão!

*Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) gostaria de perguntar ao amigo Carlos Vinícius se pode passar a chamá-lo de irmão, apenas chamá-lo, pois já o considero assim a muito tempo!

Quase 40...




por Carlos Vinicius Rosenburg*

Hoje pela manhã, enquanto tomava café, parei por alguns momentos e comecei a pensar na vida. A xícara estava pela metade, o que remeteu à óbvia pergunta: está meio cheia ou meio vazia? Pergunta óbvia e inevitável no dia em que completo 38 voltas em torno do sol.

Nos últimos meses, pelas razões mais diversas, questionei os fatos sempre com a cabeça na parte mais vazia do copo. Foi um período necessário. E, mesmo hoje, ainda poderia pensar nos erros, nas frustrações, nos enganos, decepções, momentos tristes, idade, cabelos brancos e rugas. Nessa 38ª volta em torno do sol, só consegui pensar em agradecimentos.


Agradecer, primeiro, pelos pais que tive, pela educação que me deram, pelo amor que recebi, pela formação do meu caráter, pela infância repleta de brincadeiras e amigos. Pela família, minha irmã, meus avós, tios, primos, sobrinhos e afilhados. Pelas descobertas, tombos, peladas, gols, vitórias, derrotas, bolinhas de gude, pipas, piques, bete, botão, vôlei e bicicleta. Pelos primeiros beijos, foras, timidez, cantadas, poemas, músicas. Pelas rodas de violão, festas, churrascos, viagens, carnavais, acampamentos e perrengues.

Não posso esquecer também dos professores, do colégio, das bagunças, das visitas à diretoria, dos planos de mudar o mundo. Da faculdade, da responsabilidade de morar sozinho e trabalhar em outra cidade. Do primeiro trabalho, do primeiro salário, dos colegas do trabalho. Do prazer do sexo, das namoradas de uma noite, de um carnaval, das juras de amor que duravam menos de vinte e quatro horas. Dos namoros sérios, do noivado, do casamento e de tudo o que o casamento me trouxe.

Também agradeço pelas inevitáveis perdas e fracassos, que mostram nossos erros, nos dizem várias verdades, nos despertam do sonho e nos empurram para a vida.

Agradeço também aos amigos, que com o tempo descobrimos serem poucos, mas por esses poucos entregamos nossas vidas.

Um brinde também a todas as músicas ouvidas, aos shows presenciados, às canções cantadas, aos livros devorados, aos filmes que emocionaram. Por tudo isso, agradeço.

E por fim (e mais importante), agradeço por minha maior conquista, meu maior feito, a razão da minha vida. Se há algum motivo para justificar esses trinta e oito anos que se completam agora, esse motivo está na minha filha. Amor incondicional, amor pleno. E amor que transcenda isso, só os iluminados conseguiram. Mas meu jogo está nos 38 do primeiro tempo. Ainda dá tempo de tentar. Aliás, é exatamente essa tentativa que move a vida. Então, que esse jogo dure muito tempo e, se for possível, que vá para a prorrogação...


*Carlos Vinicius Rosenburg nasceu no dia 30/08/1972, data do último show de John Lennon - quando foi gravado o LP "Live In New York City". Também é o dia do nascimento da maravilhosa Cameron Diaz...

domingo, 29 de agosto de 2010

Lançando garrafas ao mar

Por Valério Cortez

Nem sempre foi assim, mas, de uns tempos pra cá, tenho tido uma enorme dificuldade para falar sobre política. Acho que isso tem a ver com a natural perda de algumas certezas e o inevitável desmoronar de minhas convicções. Mas tudo bem, pois acho que isso só tem importância para mim mesmo.

Na ultima 6° feira, numa entrevista ao caderno B de O Globo, o cineasta Cacá Diegues, produtor do filme “5X Favela, agora por nós mesmos” começou falando do filme a acabou falando do momento político brasileiro e conseqüentemente das próximas eleições.

Como eu gostei da entrevista e também não tenho nada mais original para postar, gostaria de reproduzir aqui alguns trechos da dita cuja.

Então vamos a ela.

Perguntado sobre como ele via o atual momento da política brasileira, Cacá disse;

Estou inteiramente à vontade porque votei duas vezes no Lula e duas vezes no Fernando Henrique. Não sou do PT, não sou do PSDB, não tenho preferências prioritárias por nada disso. Mas acho que só um cego ou uma pessoa de muita má-fé não vê que nós vivemos nesses últimos 18 anos - pois tem que incluir o Itamar – uma idade de ouro na história da República brasileira. Nunca tivemos um período tão longo com consolidação democrática, estabilização da moeda, distribuição de renda, menor do que gostaríamos, mas regular e permanente...claro que há muito o que fazer. Claro que não sou totalmente a favor do Lula como não fui totalmente a favor do FH. Ambos erraram muito. Mas nem por isso vou destruir o que esta sendo feito por uma paixão sem qualquer sentido.

Perguntado sobre o porquê de uma parcela influente da classe média estar se mostrado desesperançada com os rumos do país, Cacá respondeu:

A campanha eleitoral é um dos motivos. Esta muito despolitizada, desapaixonada. Os candidatos são todos uns recitadores de cifras. Por isso o Plínio de Arruda Sampaio, com um programa velho, gerou certo interesse entre os jovens. Ele introduziu na campanha a...política! Outro motivo é, sem duvida nenhuma, o preconceito social, a pior coisa que existe na oposição ao Lula. Claro que ele contribuiu em parte para isso, ao não dar importância à cultura, à educação, ao falar no diploma como algo desimportante. Mas, por mais erros que tenha cometido, é impossível não ver o quanto o Brasil avançou, como avançou no período FH também.

Perguntado se na opinião dele, Serra poderia ser considerado um candidato de esquerda, Cacá disse:

Na verdade esta coisa de esquerda e direita me confunde muito, não sei mais o que é. Mas a grande tragédia do Brasil...Olha, não sou cientista político, não tinha nem o direito de dizer isso, mas minha intuição é de que nos perdemos, desde a redemocratização, a oportunidade rara de juntar o liberalismo da social democracia com o interesse social do trabalhismo que o PT poderia representar.

Perguntado se ele se referia a uma possível união entre PT e PSDB, disse:

Lógico. Não existe nada mais perecido do que um com o outro. E se completam. Poderíamos ter na America Latina pela primeira vez uma união de forças que aliasse direitos humanos e liberdades à questão social, prioritária. Coisa rara na historia do continente.

Perguntado se esta questão não estaria diretamente ligada à questão das alianças, respondeu;

Uma mais espúria que a outra. Quem imaginou que o grande aliado de FH seria Antonio Carlos Magalhães e o de Lula, Jose Sarney? O grande aliado de Lula deveria ser FH e vice-versa. Achei lindo, em 1985, Lula o operário, e FH o acadêmico, no mesmo palanque em São Paulo.

Perguntado se achava que haveria concórdia possível, Cacá disse:

O estado básico, natural do ser humano, é de crise, de dúvida, de conflito. Mas ele pode lidar com eles sem destruir o que esta a sua volta. A discordância não implica na destruição do outro, mas na compreensão do que pensa. E há o Estado. Sempre tive medo de quem quer mandar nos outros, mas não tem jeito . O governo existe para proteger o mais fraco contra o mais forte. E só.

Enquanto isso, aqui no mundo real, o difícil meus amigos, é de ter de escolher entre um economista que quer ser conhecido como e uma tecnocrata que diz que quer ser a Mãe do Povo. Já ia esquecendo, tem a Avatar também.

Um bom domingo a todos


Da serie: Relaxa que hoje é domingo

IBGE

Fui recenseado.

Uma casa um carro

um bom emprego uma mulher

alguns filhos um cachorro

um blog alguns amigos

e um orgulho maior que o mundo

pois afinal

sou rubro negro

porra.

sábado, 28 de agosto de 2010

Bota o preto no branco!



por Heleno Guanabara*

Da tranqüilidade do meu sítio em Porciúncula, resolvi analisar o tema das cotas raciais. Enquanto pertencente à civilização judaico-cristã-greco-romana-ocidental, não necessariamente nesta ordem, era contra esse tipo de coisa.

Porém, com o tempo livre que me foi dado pelo Estado, em minha vida de aposentado por invalidez, confesso que pensei, repensei, pensei novamente e, bom, não aconteceu muita coisa, mas descobri que sou a favor das cotas raciais. Mas, para tanto, é preciso que sejam colocadas em prática certas medidas. E essas medidas devem ser determinadas pelo governo, que deverá obrigar as empresas a respeitarem as cotas raciais, da seguinte maneira:

- para cada rolo de papel higiênico branco, deve ser fabricado um preto;

- para cada folha de papel (ofício e A4) produzida na cor branca, uma deve ser preta;

- para cada litro de leite branco engarrafado, outro de leite preto também deve ser;

- metade das quadras e campos (futebol, vôlei, tênis, basquete) deve ser marcada com cal preto. Aliás, metade do cal produzido deve ser preto;

- faixas de pedestre com uma faixa preta e outra branca;

- para cada poste com luz branca, nas ruas, deve haver um com luz preta;

- durante a projeção de filmes nos cinemas, metade das legendas deve ser preta;

- metade do algodão produzido também deve ser preto, inclusive o algodão doce;

- mais teclas pretas nos pianos – há mais teclas brancas e isso não pode continuar – é racismo descarado. Assim, os pianos devem passar a ter uma tecla branca, uma preta, e assim sucessivamente;

- quando cair neve em Santa Catarina, metade deve ser preta;

- o lado escuro da lua deve aparecer em metade da noite;

- o vitiligo em negros não pode passar de 50% do corpo.

Espero, assim, ajudar a causa das cotas raciais com minhas científicas e valorosas contribuições. E contribuições dos meus queridos leitores também serão aceitas, e sem moderação nos comentários. Comportem-se.

Heleno Guanabara, na tranquilidade de seu sítio, em Porciúncula/RJ, buscando inspiração para escrever a coluna


*Heleno Guanabara tem 69 anos e é branco de alma afrodescendente. E cabelos também, com Grecin 5 preto. Ou melhor, Grecin 5 afrodescendente.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Simples assim.

*Por Flavia Alvaro Porto

Morgan Freeman é sensacional em qualquer papel que desempenhe!
Dia desses, minha querida amiga Renata me indicou um filme lançado em 2007, que se chama Feast of Love - Banquete de Amor.
Foi mesmo uma grata surpresa ter assistido esse filme, que mostra um professor universitário passando pelo drama de ter perdido seu filho para as drogas e que, de repente, se vê envolvido em várias histórias de amor, daquelas que acontecem no nosso cotidiano: uma mulher que larga do marido por causa de outra mulher, um cara que se entrega demais em suas relações e que nunca encontra alguém que o valorize o suficiente, um jovem casal cujo ela grávida fica viúva e por aí vai.
Enfim, um verdadeiro banquete: histórias intensas, totalmente possíveis e que já vimos acontecer por diversas vezes.
Morgan, mais uma vez, dá um show de interpretação!
Filme simples, texto despretensioso e cenário delicado. No mínimo interessante!
Coincidentemente, depois disso, vira e mexe me vejo envolvida em conversas com meus alunos adolescentes sobre a diferença entre amor e paixão. Incrível como essa garota simplifica as situações. Ahhh, se a maioria dos adultos fizessem o mesmo, muita coisa seria bem diferente e as relações certamente mais bacanas.
Por isso, deixo aqui um poema escrito em outrora, quando num momento inspirador, descrevi com meu próprio punho, essa tão discutida diferença.
Fernando Pessoa que me perdoe, mas Flavinha Porto também escreve poemas de amor!


O amor e a paixão

O amor é calmaria
A paixão turbulenta
O amor é soberania
A paixão atormenta


A paixão é sempre mais
Mas o amor ela não traz
Pois o amor é sempre paz
E a paixão, nunca, jamais.

A paixão causa tumulto
O amor sempre sossego
Traz a paz que queremos
Pra um dia sermos nós mesmos

O amor é livre, amigo e sereno
Sólido, afim e igual
A paixão é boa, mas instável
Ilude e é superficial.

O amor em quase tudo combina
Tem afinidade total
A tão sonhada cumplicidade
Que na nossa vida é real.

O amor é tão encantado
Que num olhar tudo se entende
Tudo fazemos juntos
Tudo se compreende.

O amor é bem equilibrado,
A paixão, “desejo de posse exaltado”
O amor não controla e sim liberta
Confia e chega na hora certa.

Não tenha medo do amor
Que um dia o destino lhe trouxe
Ele cresce, mas precisa de tempo
Pra aprendermos juntos, agora é sempre o momento.

Flavia Alvaro Porto, em 03-01-09.
Amo e pronto. Simples assim.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Por Jorge Couto

Fundado há a apenas vinte e três anos, já em 1842, o Hospital Geral de Boston era tido como de primeira ordem, mesmo se comparado aos centenários hospitais da Inglaterra e da Europa continental. O hospital tinha sua sala de operações instalada no alto do edifício. Alta e isolada, além de receber boa luz, sua posição impedia que chegassem às outras dependências do edifício os gritos de dor dos operados. A sala de operações era constituída de uma arena onde se via, ao centro, uma cadeira operatória, de encosto reclinável, forrada com um pano vermelho. Ao seu redor, dispostas em semicírculos, havia filas de bancos para os estudantes e eventuais espectadores.
Aquela manhã de sexta-feira de meados de novembro de 1842 teve um movimento cirúrgico excepcional. Num tempo em que os anais do Hospital Geral de Boston registravam, no período de 1821/1823, apenas quarenta e três operações, as quatro cirurgias marcadas para aquela manhã eram um fato extraordinário.
Exatamente às dez horas o Dr. John Collins Warren – professor de anatomia e cirurgia operatória da Escola de Medicina da Universidade de Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts em Boston – seguido pelo Dr. Jorge Hayward, professor de cirurgia clínica, e de um grupo de médicos internos assistentes, entrou solenemente na sala de operações. Sexagenário, magro, de estatura mediana, de expressão fria e impassível, trajado com esmero, o Dr. Warren, com atitudes e gestos que pareciam meticulosamente calculados, após despir a elegante sobrecasaca e receber de um cirurgião assistente, outra, mais antiga e manchada de sangue de cirurgias anteriores, explicou à platéia de estudantes o primeiro caso do dia. Tratava-se de um homem com uma antiga luxação do fêmur que, não devidamente tratada a seu tempo, acabara por se fixar numa posição anormal.
O paciente foi trazido para a sala amparado por dois enfermeiros, colocado sobre a cadeira operatória, com o encosto reclinado quase a posição horizontal. Seu tronco foi enroscado por uma corda resistente cuja ponta foi atada a uma coluna encravada no solo. A coxa foi imobilizada por grossas correias de couro que, através de outra corda, foi atada a uma roldana. Os enfermeiros puxaram a corda e, à medida que esta esticava, o corpo do paciente foi sendo elevado no ar. O pobre homem balançava a cabeça, rangia os dentes e, com o suor a escorrer por todos os poros, gritava alucinado de dor. Ao fim de uns dez minutos os enfermeiros pararam e a corda foi afrouxada. O Dr. Warren se aproximou e, com o rosto impassível, examinou a perna, que ainda não saíra da posição anormal. Com um gesto o médico ordenou aos enfermeiros que novamente tracionaram a perna do infeliz e o suplício recomeçou. Após cerca de trinta infindáveis minutos, apenas com breves pausas para que Warren examinasse a perna do paciente, a tortura chegou ao fim, com resultado negativo. Enquanto os enfermeiros desamarravam o infeliz meio desfalecido, com equimoses no peito e coxa, Warren explicou que o doente se decidira demasiado tarde pela operação.
Impassível, Warreen voltou-se para o segundo caso, que se tratava de uma mulher portadora de um tumor no seio. A paciente foi acomodada na cadeira operatória e segura por de detrás por dois enfermeiros. Warren sem lavar as mãos, apanhou um escalpelo (bisturi) de uma mesa onde se encontravam facas, tesouras, pinças, agulhas, etc, que estavam, se tanto, lavadas.
Após experimentar o corte do escalpelo com o polegar, Warren rapidamente fez uma incisão que se estendeu do seio até a axila. Com os dedos, e sem dar atenção aos gritos desesperados da paciente, Warren foi separando o tumor dos tecidos vizinhos até poder extraí-lo.O sangue empapava mãos e mangas do cirurgião. Hayward, assistente dessa operação, puxava algumas artérias com um gancho e ligava-as com cordões encerados. As sangrias menores eram detidas com esponjas que, quando, vez por outra, caiam no chão eram utilizadas novamente. Cessada a hemorragia, Warren aproximou as bordas do corte com um esparadrapo. Quando colocava a atadura, a paciente desfaleceu. Hayward derramou uma tigela de água fria na cabeça da mulher e despejou aguardente na sua boca. A pobre paciente abriu um pouco os olhos. Warren concluiu o curativo.
Warren e seu assistente enxugaram às pressas as mãos em uma toalha. Um enfermeiro trouxe mais água, enxaguou as esponjas ensanguentadas, limpou os instrumentos com um pedaço de pano sujo e colocou na mesa um torniquete e uma serra. Entrou então na arena o terceiro caso.
Era um corpulento marinheiro que teria que ter sua perna direita amputada na altura da coxa, devido a uma gangrena que se seguiu a uma fratura exposta da tíbia.
Colocado na cadeira operatória e firmemente nela amarrado, foi adaptado o torniquete acima do ponto marcado para a amputação da perna. Feito isto, o cirurgião executou uma incisão profunda e circular em torno do fêmur, separando de uma só vez pele, músculos e vasos sanguíneos. O marinheiro desandou a gemer e a esmurrar com os punhos a cadeira na qual se encontrava atado. Hayward arregaçou, com as duas mãos, a pele e os músculos acima da incisão, na direção do torniquete.Warren apanhou a serra e decepou o osso exposto. Prontamente passaram a ligar os vasos cortados. A tudo o paciente suportou apenas com gemidos. Só quando Hayward puxou separadamente os vasos e os nervos o homem não conseguiu sufocar um lamento mais alto. Na verdade, o marinheiro tivera sorte de, naquela época, os cirurgiões já terem desenvolvido uma técnica capaz de ligar vasos sanguíneos mais calibrosos, cortados; caso contrário o estancamento do sangue teria sido conseguido com o sistema de mergulhar o coto, ainda sangrando, em azeite fervente e, em seguida, cauterizá-lo com ferro em brasa; técnica não de todo abandonada como se verá em seguida.
O último paciente do dia era um rapaz de aparência saudável, mas que apresentava uma grande lesão tumoral vegetante na parte anterior da língua. O pobre diabo entrou na sala trêmulo e com olhos assustados. Rispidamente Warren lhe indicou a cadeira operatória, onde o paciente sentou apavorado. Imediatamente ele teve sua cabeça segura por um musculoso enfermeiro que se postara por trás da cadeira. Warren, tendo uma pinça na mão esquerda e o bisturi na direita, pediu que o rapaz abrisse a boca. Mal a língua surgiu entre os lábios, Warren a prendeu com a pinça. O paciente tentou recuar, mas o cirurgião puxou a língua com força e com o escalpelo na mão direita decepou a parte dianteira do órgão que juntamente com o tumor rolou pelo chão da sala. Ainda com o que restou da língua sangrante presa pela pinça, o cirurgião lançou o escalpelo sobre a mesa e recebeu de um enfermeiro o cabo de um ferro em brasa. Prontamente o cirurgião apertou o ferro incandescente sobre a língua sangrante.
O rapaz alucinado pela dor, e apesar de firmemente seguro pelo forte enfermeiro, empurrava a cadeira para trás tentando se desvencilhar do médico. Warren, porém, o seguia, sempre mantendo o ferro em brasa sobre a língua do coitado.Com o ar impregnado com o cheiro de carne queimada, e cessado o sangramento, o médico se afastou e o doente foi solto pelo enfermeiro. Enlouquecido pela dor, o rapaz pôs-se de pé a gritar e correr pela sala, até ser contido e levado por outros dois enfermeiros.

Por esta época a cirurgia era um tratamento que igualava, e até mesmo superava, o risco e o sofrimento causado pelas doenças que pretendia tratar. Com o advento da anestesia em 1846, as cenas (reais) descritas acima se tornaram cada vez mais raras, até desaparecerem por completo. O mundo médico exultava; nada parecia capaz de impedir o avanço da cirurgia; tudo era possível. Todavia, rapidamente o entusiasmo deu lugar à frustração e ao desânimo. Um velho inimigo, tão feroz e mortal quanto a dor e o sangramento, esperava os pacientes submetidos a cirurgias. A infecção pós-operatória seria o novo flagelo que por um bom tempo iria assolar os hospitais e dizimar vidas dos infelizes submetidos a procedimentos cirúrgicos, até mesmo os mais banais.
Se vocês tiverem paciência, nervos e estômago para tanto, conto este capítulo em outra ocasião.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O fechamento e o Salumão


Por Figurótico*

- Boa noite, rapaziada! Até a próxima, se Deus quiser!

E assim nos despedimos de mais um show no Porão, ou no Complexo Casarão, ou na Chopperia do Porão, ou na Boate Porão – e tantos outros nomes que esta casa lendária de Volta Redonda já teve. Sem dúvidas a casa mais antiga (e moderna, pois a cada Natal apresenta um novo ambiente, um novo espaço) em atividade na região. São mais de 30 anos de atividade. Tendo a frente outra lenda viva da noite: Elias Salume.

Logo que encerramos o show, uma rápida desmontada nos equipamentos para que a próxima banda adentre ao palco e uma bela sorvida num chope gelado, é hora de caçar o cachê. Sim, caça! Mesmo tocando lá há tanto tempo o esquema para o recebimento é o mesmo. Só após seu show encerrado, você tem direito a se encaminhar à caverna de Mister Salume. Como a casa está cheia (chopada de faculdade, birita liberada, já viram, né?) é um grande exercício, uma grande caminhada até seu esperado cachê.

Para não dar pernada à toa, dirijo-me ao rapaz que me contratou, o da faculdade, e não a própria Boate Porão. Ledo engano. Só a procura pelo rapaz já me rendeu uma pernada. O dito estava no andar de cima, do Porão Hall, na parte reservada aos estudantes-organizadores da chopada. Ou seja, curralzinho VIP a ser ultrapassado. Antes que o segurança me interceda já o aviso: “estou tocando, trabalhando”. Encontro o tal rapaz, doido pra convencer uma garota a cair na sua lábia.

- Malandro, vamos lá pra eu receber o cachê!

- Pode ir lá, Figura! O Salume já sabe do seu cachê.

- É melhor você ir comigo, mais prático.

- Não precisa, pode ir, ‘tá’ tranqüilo.
“Tranqüilo uma ova” – pensei comigo. “Será que esse cara não conhece o Salume?”.

- Se eu tiver de vir aqui atrás de você já sabe, né? Fica esperto!
Corto caminho pelos bastidores, passo pela cozinha, desço as escadas e chego à gruta da lenda.

- Salumão (a intimidade de anos me reserva a esse direito), meu cachê!

- Cachê? – com os tradicionais óculos pelo meio do nariz, a mão recheada de recibos, dinheiro, caneta, lap top com fotos de mulher (uiii), e o olhar por cima de tudo, onde os óculos não alcançam. – Chame os meninos da faculdade, porque seu dinheiro está com eles!

- Haha, é ruim de eu chamar! Já o chamei, ele disse pra eu vir direto aqui, sem condições.

- Peraí. Oh, fulanoooo! Ei, ei, vai lá chamar o garoto da chopada, fala que é urgente e que Salume está mandando!
O aspone sai em disparada e em menos de cinco minutos chega com o mancebo, claramente contrariado, pois teve seu flerte interrompido. (hahahaha).

- Sim, Salume.

- Cadê o dinheiro do Figurótico?

- Ué, não era você que ia pagar?

- Eeeuuu??? – ele eleva só um pouco a voz, nunca berra, tenta passar o medo através do tom, deve pensar: não gastarei minhas cordas vocais com esses moleques. – Vocês estão de sacanagem comigo? É assim? Já venderam 20 mil antecipado e querem que eu pague o Figurótico? Isso é com vocês! O dinheiro está com vocês!

- Ué, Salume...

- Ué? Paga logo!

- Siiimmm...

E pegaram a mochila, contrariados, contaram o dinheiro e passaram ao Salume.

- Cadê a menina da portaria? Já fechou??? – esbraveja Salumão.

- Está a caminho. Olha ela aí!

- Fechou certinho lá?

- Hmmm, é... sim... Mas estão faltando 40 reais.

- Já olhou pra ver se não caiu no chão?

- Sim.

- Então... Você trabalhou de graça. Pode ir, BOA NOITE!
E sai a garota.

Aquela sala nesses momentos, com aquele bando de garrafa de uísque na parede fazendo figuração; o pôster que Salume ostenta com Pelé há anos; aquela luz branca num lustre, que só falta ser batido com as mãos para nos sentirmos num interrogatório onde se espera a confissão de algum crime, dá todo um clima pesado no ar, mas que no fundo é pura artimanha da lenda viva. Como já presenciei isso milhões de vezes, me divirto. E Salume sabe disso. Sempre quando há novatos na área, me olha de canto de olho com quem dissesse: “vamos fazer esse cara sentir como é trabalhar com Salume”. E nessa ele vai, o Porão continua indo, e a noite passando, passando...

*Figurótico é músico, jornalista e acha a coisa mais difícil escrever estacao sem o "ç" para logar-se no blog.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Branco

por Mozart Valle Neto** Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) 38 anos, está sem nenhuma inspiração está semana...




segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vitória? - o filme


por Carlos Vinicius Rosenburg*


Na semana passada escrevi sobre o filme argentino que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano, “O Segredo dos Seus Olhos”. Não gosto de repetir os temas das colunas em semanas seguidas, mas não resisti. Hoje tratarei de um filme alternativo, produção independente, praticamente desconhecido.

Centrado na figura de uma menina linda, talvez a mais bonita do lugar em que nasceu (mas que deixara para fazer faculdade), o filme, chamado"Vitória?", tem início em um show de rock em uma praia qualquer, onde a personagem principal começa um namoro com um rapaz de sua cidade. Movidos pelo clima praiano, a paixão é avassaladora. Os dois não se desgrudam, parecem ser uma só pessoa, vivendo uma vida que tem sentido apenas na presença do outro. E, no lugar da calma que o tempo sempre traz, com o casal acontece exatamente o contrário. A cada dia que passa, aumenta a cumplicidade, o envolvimento, a necessidade psicológica, física, espiritual. O rapaz parece não acreditar que namora a garota dos seus sonhos, inspiradora de seus poemas, noites mal dormidas, suspiros desavisados.

Seguindo a ordem natural das coisas, os dois se casam. Cerimônia cercada de amigos, felicidade estampada no rosto dos noivos, dos convidados, das famílias. Era evidente que o amor havia vencido.

O tempo passa e a garota engravida. Uma gravidez tranqüila, sem sustos, preparada para dar certo. Nasce uma filha, linda como a mãe, com saúde perfeita, encantadora. O casal tem a imagem ideal: o pai é presente, bem empregado, apaixonado pela esposa. A mulher é linda, ama o marido, também tem um bom emprego, se destacando por sua humanidade, sensibilidade, respeito com as pessoas – é notório o seu poder de cativar crianças e idosos, chegando mesmo a comover familiares destes com sua postura extremamente amorosa. Marido e mulher almoçam juntos, na companhia da pequena filha, e assim segue a rotina da família.

Mas no meio de toda essa felicidade, dessa harmonia, alguns fantasmas se levantam. Fantasmas recolhidos em dramas familiares, esqueletos escondidos em armários de uma ascendência que teimava em querer aparecer.

A personagem principal do filme parecia não aceitar sua posição. Talvez não aceitasse a felicidade, talvez achasse que vida precisa de dramas, infelicidades e rupturas, tal como aconteceu na vida de seus antepassados. E para tanto, colocou um exército para lutar ao seu lado nessa cruzada rumo ao precipício. Instrutores de Programação Neuro-Linguística (PNL), gurus de auto-ajuda, livros de auto-ajuda, psicanalistas de plantão. Era preciso descobrir um meio de encerrar tal felicidade. Era necessário destruir a harmonia, imitar os antepassados, descobrir o sofrimento, criar uma nova personalidade. E seguiram-se cursos intensivos em PNL, palestras motivacionais, livros e mais livros de auto-ajuda e as intermináveis sessões de psicanálise, que se arrastaram por mais de 10 anos(!). Ela se justificava dizendo que queria crescer, queria o máximo, queria chegar ao topo, vencer. Não, não bastava o casamento, a filha linda e saudável, o emprego. Era preciso mais. Era preciso vencer. Vencer? Para tanto, contou com a colaboração do marido, que passou a freqüentar bares infestados de mulheres e ter perfil em redes sociais. Caminhada segura rumo ao abismo.

No começo de 2007 o filme teve uma paralisação, que durou até julho do mesmo ano. Retomada a produção, as filmagens tiveram um período de considerável progresso, sendo finalizadas em março de 2010.

O filme tem final feliz, pelo menos nos moldes desejados pela protagonista. Na última cena ela está separada, morando sozinha com a filha, que fica dividida entre as casas do pai e da mãe. Tem rotina puxada, saindo para trabalhar quando a filha ainda dorme e só retornando no final do dia, dedicando mais de 12 horas ao trabalho. Continuou com suas análises, religiosamente (literalmente – a confiança depositada na psicanalista beira as raias da devoção) às quartas-feiras. Conseguiu tudo o que queria, criou nova personalidade. Venceu. Venceu?

“Vitória?” é uma produção independente, que teve divulgação no esquema boca a boca. Ganhou boas críticas e simpatia da maior parte do (pequeno) público que o assistiu. Para alguns, entretanto, não passa de mais um filme descartável, como tantos existentes por aí, recheado de clichês e pieguice. Porém, mais do que isso, trata-se de uma película que nos deixa com certos questionamentos, dúvidas, enfim, faz pensar. O que é a felicidade? Será que ela realmente existe ou é apenas um combustível para vivermos? Será que a protagonista alcançou a felicidade quando conseguiu seus objetivos? Fala ainda sobre o papel da psicanálise, sobre os efeitos de um tratamento e suas consequências na vida do paciente. Também aborda a superdimensão dada por algumas pessoas a certos gurus de auto-ajuda, bem como à indústria formada em torno deles. Resumindo, é um filme que não apresenta respostas, apenas questionamentos, deixando as conclusões para o público. E eu, confesso, continuo sem saber.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é servidor público formado em direito e, se fosse o diretor/roteirista do filme “Vitória?”, talvez mudasse o final.

domingo, 22 de agosto de 2010

Num domingo de sol

Por Valério Cortez

Confesso que ainda não vi A origem, de Christopher Nolan, tampouco ouvi o Uhuu, do Cidadão Instigado, muito menos li Neon Azul do Eric Novello. A bem da verdade, ultimamente só tenho visto filmes de ontem e ouvido discos de anteontem. Enquanto dos livros, tenho passado distante.

Não é preguiça não, é que eu estou com a ligeira desconfiança de que os melhores filmes já foram feitos, os melhores discos já foram gravados e os melhores livros já foram escritos. Ontem e anteontem.

Não tenho tido muita paciência com o porvir, e como o poeta, também estou achando que o mundo ta virando um museu de grandes novidades.

Às vezes me pergunto, será possível um novo anjo pornográfico? Novos Beijos no Asfalto e Vestidos de Noivas?

Quantos jovens poetas seriam necessários para escrever o Poema em linha Retado Fernando Pessoa?

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido tem sido campeões em tudo....

Com quantos Chicos se faz uma Construção? E para uma Sampa, quantos baianos são necessários? Baianos novos ou baianos velhos? Será possível um retorno ao País dos Baurets? Ou a Catende? Nas Curvas da Estrada de Santos ou no Estácio? Quem mais tem Ouvidos de liquidificador? Ou ama meninos e meninas? Haverão novas Lucy em céus de diamantes? Novas pedras rolarão?

Podemos esperar novos Scarfaces, Blade Runner, Estranhos no Ninho,Laranjas Mecânicas, Expressos da Meia Noite, Encurralados, Odisséias no Espaço, Dias de Cão, Taxi Drivers e Apocalyse Now?

Talvez sim, mas será que eu estou interessado nisso?

Um bom domingo a todos.


Da serie: Poema não é para ficar na gaveta.

Ninguém vai sair vivo daqui

Tudo leva a crer que este Bruno é um louco. Para ser mais preciso, um psicopata. E o mundo ta cheio de Brunos. E o mundo ta cheio de psicopatas. Mas nem todos matam suas amantes e dão os corpos para os cães comerem. Alguns nem tem amantes. Alguns nem tem cães. Alguns nem sabem o que é um psicopata. Tudo leva a crer que este louco é um Bruno. Para ser mais preciso, um psicopata. E o mundo ta cheio de loucos. E o mundo ta cheio de psicopatas. De perto ninguém é normal. De perto ninguém é Bruno. De perto ninguém é louco. De perto ninguém é puta. De perto ninguém é cão. Mas ninguém vai sair vivo daqui. Nem o Bruno. Nem o louco, Nem a puta. Nem o cão. E o que é pior, nosotros também não.

Um grande abraço a todos.



sábado, 21 de agosto de 2010

Guanabara agora é aqui


*por Heleno Guanabara



Primeiramente, gostaria de desejar a todos um bom dia.

Meu nome é Heleno Guanabara, mais precisamente Heleno Guanabara de Viveiros. O Heleno é uma homenagem de meu pai, ao grande jogador de futebol Heleno de Freitas; o Guanabara é uma homenagem de minha mãe ao estado da federação onde fui concebido – segundo ela – e nasci; e o Viveiros é o preço que pago pelos idiotas dos meus pais terem vindo de Portugal.

Providas as necessárias apresentações, pulemos ao que realmente interessa e nos trouxe a bordo.

Quando das tratativas que mantive com o interlocutor deste blog, o Sr. Carlos Vinicius Rosenburg, apressei-me em tomar conhecimento dos temas mais ao gosto de seus participantes e afiliados e, evidentemente, como se faz necessário, coloquei minhas condições sem as quais não poderia aceitar o convite.

Das condições tratarei mais adiante, pois neste momento pretendo externar minha opinião sobre alguns dos temas que tenho visto serem mais recorrentes neste blog.

Futebol – Como nasci na Rua Campos Sales, na Tijuca, tornei-me ainda criança um ferrenho torcedor do América Football Club, o Diabo Rubro, que atualmente ocupa a segunda posição do Brasileirão (Série D), atrás apenas do Uberaba-MG. Sobre a seleção brasileira e a copa do mundo, acho que o Dunga estava certo, sem disciplina e comprometimento nada é possível. Acho que ele apenas errou ao confiar tanto em um atleta que, a olhos vistos, mostrou comportamento totalmente divorciado da postura viril exigida para integrar o escrete brasileiro, aquele tal de Kaká. Nas palavras de Maria da Gloria: “Ô nhô Leno, pricisava di tê mais gente nesse timi qui nem o Felipe Melo. Quiria vê só.”

Música – Adoro todos os ritmos, das guarânias e maxixes aos clássicos, passando pelo Rock and roll, sendo que este, em minha abalizada opinião, após seu apogeu, morreu junto com Bill Haley & his Comets. Gosto muito da música popular brasileira, apesar de repugnar esse antro de pederastia e sapatose.

Política – Sou, na essência, um liberal e tenho como grande ídolo político, Toninho do Posto, vereador de Porciúncula, cidade onde eu tenho um pequeno sitio de lazer, onde realizamos reuniões políticas com algumas desinibidas moças de uma cidade vizinha, que por vezes se deixam levar pelos transportes da carne e outras extravagâncias, mas sem nunca perder o foco na porneia que move o atual cenário nacional.
Quanto ao país, entendo que o Brasil está indo bem, porém acho que se o Lula ainda estivesse de macacão e espremendo seus dedos na prensa de uma metalúrgica, teríamos mais chance de sair do lodaçal antes do final deste século.

Literatura – Sou um homem de letras, leitor contumaz e escritor compulsivo. Tenho 14 livros publicados: um de poesias (Girândolas do Coração); um de contos (Um Conto no Canto); um de biologia e reprodução (O Difícil Coito do Bicho Preguiça no Parque Centenário); cinco sobre posições sexuais para sexo entre normais (Do papai e mamãe ao Cabana do Pai Tomaz, com ênfase na Gravata Chinesa); cinco sobre sexo exótico (Na busca do prazer vale tudo, cães, metazoários e botafoguenses); e, finalmente, minha autobiografia não autorizada, onde, dentre muitas histórias, apresento minhas razões sobre os cinco absurdos processos a que respondo por tentativa de homicídio contra minha ex-consorte. Sou covardemente processado e a piranha continua me corneando por aí.

Quanto à questão das minhas exigências para me incluir no panteão de colunistas fixos deste blog, acreditem, são bem menores do que a de qualquer popstar juvenil sertanejo de 5° categoria.

Por exemplo:

Não posso precisar com exatidão o horário de minhas postagens, pois como não manuseio o computador, dependo da Maria da Glória, minha empregada, que entre outras atividades, digita e envia meus textos manuscritos.

Exigi também que o blog não tivesse dentre seus membros, pessoas com desvios de conduta de caráter sexual, pois apesar de ter um filho arquiteto e uma filha que toca atabaque na banda da Mart’nália, possuo absoluta dificuldade de me relacionar com viados, sapatões e adjacências. No meu tempo, GLS era o melhor modelo da série e mais nada.

O Sr. Carlos Vinicius me assegurou que não existem pessoas com tais desvios neste blog, apesar das desconfianças – palavras dele – que pesam sobre um colaborador de uma cidade vizinha, Barra do Piraí, se não me engano.

Exigi também que eu não fosse arguido a respeito do término do “Blog dos esquisitos”, sobre o qual pretendo falar uma única e derradeira vez: as divergências começaram no futebol, avançaram pela política, adentraram a sexualidade dos participantes e terminaram em porradaria. Fomos tirados do ar e ponto final.

Acredito ter sido satisfatório este nosso primeiro encontro, em que tive a oportunidade de introduzir em vocês uma pequena parte do meu vasto e principalmente largo conhecimento. E foi gostoso, podem acreditar. Foi bom para vocês?

Quanto as minhas opiniões sobre católicosmuçulmanosejudeus, Belchior, os meninos da Vila, Caetano Veloso, Cerrate e Mumia Abu-Jamal, o bom senso recomenda que eu as guarde para mim.

Até o próximo sábado.

Obs. As questões relativas à remuneração e direitos autorais, tratarei diretamente com o Sr. Carlos Vinicius.

*Heleno Guanabara é funcionário público do estado (aposentado a bem do serviço público), escritor e poeta de rua, ponta direita e atualmente faz um bico aos sábados no EstaçãoBM.

Estação BM apresenta Heleno Guanabara

Cúpula do Estação BM comemora a aquisição de Heleno Guanabara


Prezados,

nosso blog tem o prazer de anunciar que, a partir deste sábado, 21/08/10, ou do próximo, contamos com o Sr. Heleno Guanabara como nosso colunista fixo. Como disse o Valério em um comentário no post da Flavinha, um coroa figuraça que escrevia no "Blog dos Esquisitos", que foi retirado do ar por causa de incompabilidade entre seus integrantes (fiquem tranquilos, o mesmo não ocorrerá aqui).

Trocamos alguns e-mails e, na quinta-feira, após tensa negociação (tivemos que impor certos limites ao homem e aceitar certos caprichos - não há hora para postagem nem obrigação do número de linhas), conseguimos fechar sua "contratação".

Esperamos que gostem - e esperamos também que ele poste hoje.

Administração do blog.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010


XXVIII Festival da Pinga de Paraty

*Flavia Alvaro Porto

O festival da pinga de Paraty foi criado em 1982 pela associação comercial e industrial com a finalidade de divulgar a tradicional aguardente local.
A data escolhida, o terceiro final de semana de agosto, tem a intenção de atrair turistas em um mês considerado de baixa estação.
A produção de aguardente em Paraty data do séc. XVII e, de tão famosa, incorporou o nome da cidade: Paraty é sinônimo de pinga.
Em sua fabricação se destila o caldo de cana fermentado e não o já fervido para apurar o açúcar.
O Festival da Pinga é realizado no Centro Histórico de Paraty, na Praça da Matriz e o evento é aberto ao público, com barracas dos alambiques locais e barracas de alimentação.
Uma estrutura de palco é montada onde os shows são realizados e neste sábado, 21 de agosto, o show será com Alceu Valença.

Maiores informações e a programação completa no site oficial: http://www.festivaldapinga.com.br/


* Flavia Alvaro Porto é a Flavinha.(flport@ig.com.br)

Não gosto nada de pingaiada mas amo Paraty e Alceu Valença e,
por isso, estarei por lá esse fim de semana.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

URNAS EM OUTUBRO

Por Jorge Couto

Revi o ótimo documentário Jango de Silvio Tendler, que recomendo fortemente para quem ainda não assistiu. Quem já o fez deve rever, pois é impressionante como o filme é atualíssimo. Se não fosse pelas imagens em preto e branco poder-se-ia supor que se trata de fatos ocorridos ontem. Só mudaram os atores; os personagens são os mesmos. A mesma estratégia, as mesmas manchetes nos jornalões, o mesmo discurso pretensamente democrático, mas na verdade golpista, a mesma insenbilidade da elite nacional. Depois de um longo bombardeio preparatório da imprensa, com denuncias nunca seriamente apuradas, e muito menos confirmadas, João Goulart foi derrubado por um golpe militar em abril de 1964. O governo de Goulart tinha vários defeitos, mas sua deposição foi motivada por suas qualidades. Foi a consumação de uma longa conspiração iniciada durante o segundo governo de Getúlio Vargas, que também caminhava para terminar em um golpe militar, mas que teve seu final modificado por Getúlio ao se suicidar com um tiro no peito. O golpe foi adiado por dez anos.

O atual governo passou e passa por um bombardeio semelhante, que agora também se volta para a candidata da situação. Se o desfecho do governo Lula não se dá por um golpe de força, não é por falta de vontade ou empenho da nossa elite política e econômica e de quem vocaliza seus interesses. Acontece que a situação do país mudou; o mundo não é mais bipolar como nos tempos da guerra fria; dificilmente os EUA se disporiam a financiar uma nova operação Brother Sam; Lula desfruta de prestígio internacional; o Brasil se tornou social e economicamente mais complexo e importante; o Brasil é hoje política e culturalmente diferente de décadas atrás.

Mas o que há em comum entre estes governos separados por décadas de história para provocar a mesma ira na elite nacional? Muito simples: assim como Getúlio e Jango, a vitória eleitoral e o governo Lula provocaram uma ruptura na velha ordem oligárquica da elite brasileira, formada pelos grandes latifundiários, a grande burguesia financeira, empresarial e industrial, aliada ao capital internacional, interessada em liberalismo econômico, mas não político.

No governo Vargas o Estado foi o indutor do crescimento econômico brasileiro através de um projeto nacional-estatista, e foi também responsável por avanços nos direitos trabalhistas e sociais. O Brasil adquiriu uma nova fisionomia com maior participação e influência dos movimentos populares, e uma maior independência nacional frente ao capital internacional, representada, por exemplo, pela criação da Petrobrás e Eletrobrás.

O governo Goulart retomou a política de soberania nacional e maior democratização das riquezas nacionais (processo de reforma agrária e limitações na remessa de lucros para o exterior), houve maior e mais organizada participação popular, criatividade inédita do conjunto do mundo artístico – cinema novo, bossa nova, teatro político, entre outras expressões.Porém, isto foi bruscamente interrompido com o golpe de 64 e o sufocamento de todo e qualquer movimento popular organizado.

Fruto de um longo período de amadurecimento político, um novo e revigorado movimento social - assentado num movimento sindical combativo, de mulheres, de negros, de indígenas, de luta contra a carestia, das comunidades eclesiais de base, entre outros - surgiu no Brasil um novo cenário social e político de onde emergiram partidos e organizações comprometidos com as lutas populares, dentre eles o PT, CUT e o MST, que ajudaram na derrocada final do regime ditatorial.

Novamente a elite política e econômica brasileira se viu as voltas com a necessidade de fazer frente a um cenário que se mostrava potencialmente adverso aos seus interesses. A cena política não se apresentava propícia a um golpe de força e a solução, afinada com a então “nova” ordem mundial, foi o neoliberalismo, que encontrou na figura de FHC, depois do fiasco Collor, o seu mais adequado ator. O resultado é do conhecimento de todos.

Nestes dois mandatos do governo Lula o país voltou a ter o povo brasileiro como um protagonista ativo de seu destino, ainda que, frise-se, em um nível muito aquém do ideal. Num governo caracterizado por um amplo e necessário arco de alianças políticas, as contradições, erros e desvios foram inevitáveis.

Avizinha-se agora o processo eleitoral para escolha de novos Representantes Parlamentares, Governadores de Estado e do Presidente da República. O campo político e ideológico está claramente delimitado. De um lado os representantes das elites nacionais, personificados na figura de José Serra; de outro, os representantes do campo popular e democrático com Dilma Rousseff à frente. Resta saber se estes oito anos de governo Lula foram apenas um breve intervalo na longa história de exclusão da maioria dos brasileiros nas decisões dos destinos nacionais, ou se foram o prólogo de uma nova fase de desenvolvimento e afirmação do Brasil como uma nação democrática, soberana e socialmente mais justa.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O vendedor


Por Figurótico*

- Alô!

- Alô!

- Senhor Edson Flávio?

- Sim, mas se for para oferecer cartão de crédito, conta em novo banco, pode desligar, pois vai perder seu tempo. E pode excluir meu número daí, pois aqui somos todos desempregados, não fazemos compras no comércio para vocês dizerem que temos um bom nome na praça. Tudo mentira! A única coisa que compro são cordas de guitarra e violão, se a senhora acha que comprar cordas de guitarra e violão é ter bom nome, um abraço!

- Não, senhor... Aqui é da empresa que produziu sua colação de grau em março, no Monte Líbano, pela Estácio de Sá, confere?

- Ah, ops... Perdão, senhora. É que diariamente recebemos telefonemas aqui oferecendo cartões. Coisa que eu não tenho educação moral e cívica para usar. Vide que minha única nota baixa na faculdade foi justamente em economia. Portanto não suporto mais aquele silêncio do outro lado da linha (um segundo) precedido pelo falatório à volta de quem liga, típica do ambiente sonoro no tele-marketing.

- Compreendo, senhor Edson. O motivo de meu telefonema é para agendarmos uma visita de nosso representante à sua casa, a fim de lhe mostrar as fotos que foram tiradas na sua colação, para ver se o senhor se interessa. Sem compromisso.

- Tudo bem, mas não sou obrigado a comprar uma foto se quer se achar alto o preço, sim?

- Exato, é uma visita – já dita – sem compromisso.

- Sim, e eu posso ter uma idéia do preço desse álbum, dessas fotos?

- Olha, senhor... Nós não podemos passar esse tipo de informação por telefone. E já lhe adianto que não é permitido comprar uma ou duas fotos, somente o álbum inteiro, se for de sua vontade. Somente com o representante que irá à sua casa é que terá todas as informações. O nome dele é Matoso. Posso agendar para sexta-feira? Pela manhã ou pela tarde?

- Matoso da Rua do Matoso?

- Como?

- Brincadeira... rs Pode marcar para o horário da manhã, às 10.

- Tudo bem, agendado. Um abraço, senhor Edson.

Na quita-feria à noite recebo um telefonema do Matoso. Confirmando sua visita, e perguntando se teria problema em atrasar uma hora e meia. Tudo combinado, e às onze e meia da manhã a campainha toca.

- Senhor Edson?

- Matoso? O da Rua do Matoso??? rs

- Sim, já ouvi muito isso, mas não sou tão importante assim...

Pois bem, entre senhor Matoso. Fique à vontade!

- Ah, rapaz... Uma correria danada. Estou vindo de Angra, Resende, ainda vou à Barra do Piraí e adiante. Tudo entregando os álbuns de formandos. O joelho de um velho senhor já não suporta tanta correria. Mas vamos que vamos!

- E o que é que o senhor tem pra mim? – Perguntei, com medo. Pois ele chegou com tanta coisa que me espantei.

- Bom, vamos lá, são muitos itens... Deixa eu abrir aqui, pa-rá-rá... (com uma calma invejosa). Pronto, senhor Edson! ESTE AQUI... É O SEU ÁLBUM! (Vi-me num filme. O vendedor com o produto pronto, um sorriso no rosto e uma facada que eu levaria naquele momento).

- Meu álbum??? Já pronto??? Eu não pedi por isso, certo???

- Sim, senhor. Você tem a opção de ficar com ele ou não. Em caso do senhor não querer, ele será devolvido para a empresa, sem problemas.

- Ah, sim... – alívio total!

Fui folheando o tal álbum, meu nome já impresso com efeitos especiais, fotos coloridas e em preto e branco. Montagem com o cenário do Cristo Redentor ao fundo. E eu não conseguia pensar em outra coisa: “quanto custaria essa porra?”. Folheei tão rápido que o grande Matoso intercedeu: “vá com calma, Edson. Olhe sem pressa”.

- Não é pressa, cara – a formalidade já tinha ido pro beleléu. Quero saber o preço!!!

- Calma, deixa eu te mostrar os outros produtos. Esse aqui é um porta-retrato. Um não, três, olhe no verso! É um bem grande, e outros dois menores, com suas melhores fotos.

Passei o olho e disse, “obrigado, mas não quero”.

- Ok. Deixa eu te explicar: você não pagou nada pelo diploma, pela colação no Monte Líbano, um dos mais tradicionais clubes do Rio de Janeiro, a Estácio não cobra nada dos formandos pra esse tipo de coisa. Nós é que montamos e produzimos aquela estrutura para vocês. O nosso lucro é com a venda de produtos como estes. Os demais que eu te mostrar só podem ser levados juntos do álbum. Não é possível comprar avulsamente estes. Leva-se o álbum, e opta-se por outros que desejar. Lembrando que o senhor não tem a obrigação de levar coisa alguma.

Realmente, o cara era simpático e sabia vender. Não estava me enganando em nada. Eu comprava ou não. A decisão era minha. De repente ele puxa um troço gigante de uma bolsa. "Este é seu quadro, estilizado. Veja só! É impresso em papel de banner, com espuma por baixo, sem vidros. Nós não trabalhamos com vidros! Nessa moldura linda, veja, Edson!"

Eu passei o olho num segundo e lhe devolvi, “esse eu também não quero”. Não sou vaidoso a esse ponto, se fosse uma foto em que eu estivesse tocando num Canecão, num Rock in Rio, aí sim! Mas com beca de formando? Sem chance...

- Matoso, o preço do álbum!

- Deixa eu pegar aqui... Um caderninho e te explicar. Você tem duas opções. Levar o álbum inteiro, ou excluir nove fotos, barateando-o.

- Sim, tirarei! Quanto?

- O álbum completo sair por esse preço, e o sem nove fotos, por esse – entregando a mim o caderno com sua anotação à caneta.

O baque era inevitável. O primeiro preço não vinha à mostra (outra tática dos vendedores). 12 x de cento e cassetada e meia, e o seguinte 12 x cento e cassetada. Caríssimo! Eu não esperava por outra coisa. Disse, “muito caro haha. Não levo!”

- Calma senhor Edson, temos um desconto à vista, e que matemos esse preço de à vista, dividindo-o em cinco vezes.

- Matoso, não quero ver o preço dividido. Quero vê-lo inteiro, na íntegra!

- Você prefere assim, não? Ok.

Todos os preços eram de mil e muita coisa, nem me lembro. Quando minha mãe chegou e viu o álbum adorou, óbvio. E disse para eu comprá-lo, da forma mais barata possível. Depois de muito papo, o dividimos em cinco prestações e abaixamos consideravelmente o (abusivo!) preço inicial. Tive de comprá-lo. Sou um ser que não anda com câmeras, nem as tenho. No dia da colação, cheguei a pedir emprestado para levar ao Rio, mas sem sucesso. Como é ruim pedir coisas, não? Fui sem máquina alguma, colar grau com uma turma que não era a minha, dos mais de 50 formados, conhecia dois ou três. Cheguei a tirar fotos com algumas meninas que fizeram uma matéria ou outra comigo. Trocamos e-mails, telefones, e... nada. Reenvie o e-mail, sem sucesso. Impressionante era a resposta: “não me esqueci de você! Sabe o que é? Estou numa correria danada e não deu tempo de descarregar a máquina”. Um mês depois da colação, a moça não havia descarregado a máquina? Faça-me rir! Ainda por cima mulher, “né não”?

Teve uma que se sentou ao meu lado o tempo inteiro da colação, por ordem alfabética. Não a conhecia, expliquei: “me passa seu e-mail ou Orkut? Não trouxe máquina, quando você postar as fotos no Orkut, roubarei algumas pois estarei ao seu lado, certo?”. “Ihhh, menino... Não tenho Orkut. Anota meu e-mail do trabalho que eu te passo, sem problemas”.

Estou esperando até hoje...

Mais do que aprender jornalismo na faculdade, aprendi como o carioca é desconfiado, o tempo inteiro se vê isso. Cabreiragem total, se não tem um mínimo grau de intimidade com você, querem que se dane!

Queria encontrá-las agora e dizer, como uma criança: “compraram o álbum??? Não??? Estava caro, né? Também vocês tiraram tantas fotos “profissionais” em suas máquinas que nem precisaram, né? Entendi... Eu comprei!”.

*Figurótico odeia ser importunado por vendedores, mas reconhece que é preciso talento para isso. Coisa que nunca terá...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Diga-me com que andas que direi quem és.


por Mozart Valle Neto*

Nestes tempos que antecedem as eleições, os candidatos fazem o possível e o impossível para se elegerem. Sua principal arma é a propaganda. A arte de vender idéias, ou ciência, como queiram. Gasta-se muito dinheiro e esforço.

Antigamente podia-se tudo. Nossas cidades ficavam amontoados de cartazes e galhardetes pelos postes provocando uma enorme poluição visual. Hoje graças a algumas leis ela esta bem reduzida. Só sendo possível a colocação de placas móveis e placas fixas com autorização do proprietário.

Gostaria de me prender a este tipo de propaganda em específico: A visual. Não vou citar nomes de políticos para evitar retaliações anônimas. Quando falo, refiro-me a grande maioria.

Primeiro vamos as placas móveis. Essa solução se tornou possível através da idéia de colocar uma pessoa responsável pela placa. Essas pessoas trabalham por alguns trocados. As diárias giram em torno de dez a vinte reais mais uma quentinha na hora do almoço. Se for pensar bem é uma boa grana, afinal não precisa fazer nada, apenas ficar do lado da placa. Aí que está o problema. As pessoas ficam, mas ficam com caras terríveis. A maioria que vejo está com a cara amarrada. Visivelmente a pessoa não queria estar ali. Nascendo então um paradoxo: O candidato sorri e o carregador está triste. Assim fica difícil votar em um cidadão que esta feliz na tristeza do outro.

Já as placas autorizadas não tem o problema de ter um guardião ao seu lado. Mas o próprio imóvel e seu proprietário são seus cartões de visita. Nas grandes cidades isto não influência muito. Mas nas pequenas...

Isso funciona como uma sociedade. O candidato e o dono do imóvel selam um trato. Se esta pessoa for querida na comunidade, tiro dentro. Agora se não for....

Outra coisa é a falta de conhecimento da equipe de coloção. Dia desses indo para o sítio dei de cara com uma placa, colocada no meio de um pasto. Pensei: tá de olho nos eleitores da roça. Ledo engando. Pois colocaram a dita no meio de um pasto sujo e abandonado. A placa tinha visibilidade sim, mas estava num lugar que para uma pessoa do meio rural estaria como numa lixeira para os urbanos.

Mas nem tudo esta perdido! Tenho visto algumas soluções muito criativas para driblar estes problemas. Uma delas é uma placa na placa. Explico melhor. Uma imagem do candidato em pessoa, em tamanho natural, segurando a sua própria placa. E o responsável só tem que conseguir umas pedras para segurar o modelo. E fica de longe e não influência a cena.

Outra muito interessante vi na semana passada. Em um sinal de trânsito de uma cidade da região metropolitana do Rio. Vermelho, carros param e na faixa de pedestre surgem alguns atores vestidos como corações. Eles vem de mãos dadas, fazem uma engraçada coreografia. No peito de cada um uma letra que forma o nome do dito cujo e nas costas seu número. Muito legal.

Post scriptum: este final de semana assisti A ORIGEM, um dos melhores filmes que já vi na minha vida. Assistam, é fundamental!

*Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) tem 38 anos.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Segredo dos Seus Olhos



por Carlos Vinicius Rosenburg*


Tempo fechado, frio de doer os ossos, bom para ficar sob os edredons e ver um filme. E uma boa dica é o argentino “O Segredo dos Seus Olhos”, do diretor Juan José Campanella, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.

O filme é centrado na figura de um oficial de justiça, Benjamin Esposito, interpretado pelo ator Ricardo Darín (grande atuação), que após se aposentar, gasta seu tempo escrevendo um livro, tendo como base um violento caso que acompanhou em 1974. Neste longínquo ano, o oficial de justiça Esposito trabalha em um tribunal penal, em Buenos Aires, e se depara com um brutal estupro e assassinato de uma garota, esposa de Ricardo Morales (Pablo Rago). O personagem de Darín se comove com o caso e, principalmente, com o drama do marido da vítima, e parte em uma cruzada para descobrir o assassino. Na empreitada, onde conta com a ajuda do colega de trabalho e melhor amigo, Pablo Sandoval (Guillermo Francella, em magistral atuação), Esposito tem ainda de lidar com a paixão quase platônica que nutre por sua chefe, a bela Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil). E assim acompanhamos a alternância entre passado e presente, a história sendo contada, detalhes aparecendo em doses homeopáticas, referências a lugares tipicamente argentinos – a sequência de perseguição no estádio de Huracán, em um jogo do Racing Club, é antológica –, novos dados que deixam a trama ainda mais misteriosa. Apesar de poder ser classificado como filme policial, não há tiros, explosões e carros capotando.

A câmera do diretor acompanha as idas e vindas no tempo, trazendo uma lente mais escura, sufocante, quando a ação se passa em 1974 (clara referência ao cinema noir). Passa-se a ideia de um clima pesado, situação difícil, exatamente como era a Argentina em tal época – governo de Isabel Perón, às vésperas do golpe militar de 1976, mas tudo com sutileza, sem dramas baratos ou pieguices – tão comuns no cinema brasileiro, quando tais temas são abordados. E o drama do marido da vítima e seu amor incondicional vai envolvendo Esposito, marcando definitivamente sua vida, a ponto de fazê-lo escrever um livro sobre o tema.

Ao final da densa projeção, saímos do cinema com alguns questionamentos e várias marcas, pensando na questão do tempo na vida das pessoas, de sua capacidade de apagar cicatrizes e feridas, bem como no sentido da vingança, na necessidade do ser humano por justiça e o que esse sentimento provoca na mente do homem.

Mais do que tudo isso, “O Segredo dos Seus Olhos” conta uma bela história, que é o principal componente da sétima arte, algo óbvio de se dizer, mas nem sempre entendido quando o assunto é cinema. Méritos para Juan José Campanella.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 37 anos, é oficial de justiça e, assim como o personagem Esposito, gostaria de reescrever algumas páginas de sua história.