quinta-feira, 30 de setembro de 2010

FILOSOFIA 3

Jorge Couto


Continuando na nossa arenga filosófica, vamos falar dos últimos filósofos antigos e alguma coisa da Idade Média; época em que com o domínio religioso no mundo ocidental, passou-se a misturar e confundir religião e filosofia, com graves prejuízos para a última. Curioso é que esta tolice ainda persiste até os dias de hoje, como já foi demonstrado em comentários neste blog.

Os estóicos acreditavam perversamente numa Providência Divina que tudo abarcava, apesar de todos os dados em contrário, tais como a ocorrência de desastres naturais, o triunfo das injustiças e a existência de hemorróidas. Crisipo, talvez o mais proeminente, e sem dúvida o mais palavroso dos estóicos, argumentou que as pulgas tinham sido criadas por um Providente Benevolente para não deixar as pessoas dormirem demais. Os estóicos contribuíram também com alguns desenvolvimentos importantes na teoria da lógica, o que lhes permitiu formular alguns tipos de argumentos que tinham escapado a Aristóteles. Mas o aluno iniciante não deve preocupar-se muito com isso.

Os epicuristas, assim chamados em nome do seu fundador, Epicuro (342-270) defendiam que o nosso Fim era o prazer, consistindo este na satisfação dos desejos, o que era um bom começo. Mas depois deram a volta nas coisas, afirmando que isto não significava que ter muito prazer era uma coisa boa; pelo contrário, uma pessoa devia limitar o número dos seus desejos, para que assim não acabasse por ficar com muitos desejos por satisfazer — um projeto que tem como consequência uma vida miseravelmente chata (e que, a ser cumprido, implicaria a completa reestruturação das fantasias do adolescente típico). Este ponto de vista é lógico, e ainda mais divertido, e, é claro, completamente oposto àquela idéia da filosofia como a procura do Inefável e do Inatingível — a União Mística com o Criador, a Empatia Total com o Cosmos, etc.

Assim, por prazer entendemos a ausência de dor física e mental. Não se trata de beber, nem de festas orgiásticas, nem da satisfação com mulheres, rapazes ou peixe. (Extraído de Carta a Meneceu).Não sei aonde foi ele buscar a idéia do peixe, mas asseguro que está no texto.

A outra característica importante do epicurismo era a sua versão da Teoria Atômica, que era como a de Demócrito, exceto que, para preservar o Livre Arbítrio, os epicuristas defendiam que de vez em quando os átomos davam uma guinada imprevisível, causando colisões, mais ou menos como os motoqueiros nas ruas. Defendiam também que apesar de os deuses existirem, eles estão pouco se lichando para os homens porque têm mais que fazer.

A outra grande escola deste período, os céticos, não acreditava em nada. O seu fundador, Pirro de Elis (c. 360-270), não escreveu quaisquer livros (presumivelmente porque não acreditava que alguém os leria, se acaso os escrevesse), apesar de alguns céticos posteriores — inutilmente, poderemos pensar — o terem feito, sendo de notar Tímon, que escreveu um livro de sátiras.A linha de argumento principal consistia em afirmar que nenhum dado dos sentidos era digno de confiança, apesar de poder ser agradável, e que, consequentemente, ninguém podia ter a certeza fosse do que fosse. Na verdade, ninguém podia ter a certeza que não se podia ter a certeza fosse do que fosse. Para sustentar esta idéia, ofereceram algumas versões do Argumento da Ilusão, que Descartes iria usar mais tarde.

Diz-se que o ceticismo de Pirro era tal que os amigos tinham de impedi-lo, repetidamente, de cair nos precipícios e nos rios e de caminhar de encontro a carros em movimento, o que não devia lhes dar qualquer descanso, apesar terem sido aparentemente muito eficientes, pois Pirro morreu com uma idade bastante avançada. Conta-se que visitou os gimno-sofistas indianos, ou “filósofos nus”, assim chamados devido ao hábito de fazerem seminários em pêlo. Uma vez ficou tão irritado com as perguntas insistentes que lhe dirigiam em público que se despiu completamente (talvez por influência dos gimno-sofistas), mergulhou no ilusório Rio Alfeu, e nadou vigorosamente para longe, uma tática que o jovem filósofo iniciante fortemente pressionado pode considerar imitar.

Havia mais algumas escolas menores que tentavam alcançar o centro do palco, nomeadamente os cínicos, que eram os mestres do comentário sarcástico, e uma desgraça se apareciam para jantar. Um deles, Crates, era conhecido por irromper nas casas das pessoas para as insultar. O cínico mais famoso foi Diógenes, que vivia numa barrica para fugir aos impostos, e que ficou conhecido por ter uma vez dito a Alexandre Magno, com uma certa aspereza, para sair de sua frente para não lhe tapar o sol. Costumava também escandalizar as pessoas por comer, fazer amor e masturbar-se em locais públicos, quando e onde lhe dava vontade.

Pode ser útil fingir um certo afeto pelos cínicos: pouco se importavam para o que as outras pessoas pensavam deles, sendo por isso modelos da Temperança Filosófica, ou idiotas chapados, dependendo do seu ponto de vista. É irrelevante o ponto de vista adotado, mas certifique-se de que adota um qualquer.

A filosofia vagueou no mundo greco-romano sob da proteção imprevisível dos imperadores romanos, cujas atitudes para com os filósofos variavam consideravelmente. Marco Aurélio, por exemplo, foi ele próprio um filósofo; Nero, por outro lado, tinha o hábito de matá-los. A influência do cristianismo começou a se fazer sentir neste período, e a filosofia sofreu com isso.

Agostinho, que por qualquer razão bizarra se tornou um santo, apesar da sua pródiga vida sexual e da sua famosa oração a Deus (“faz-me casto — mas ainda não”) teve algumas idéias interessantes: antecipou o Cogito de Descartes (penso, logo existo; refira-se sempre a isto como “o Cogito”), e desenvolveu uma teoria do tempo segundo a qual Deus está fora da corrente temporal de acontecimentos (sendo Eterno e Imutável, não tinha outra saída), o que quer dizer que o Todo-Poderoso nunca sabe a que horas são as coisas, mais ou menos como os motoristas de ônibus.

Havia também os neoplatônicos, alguns dos quais eram cristãos, enquanto outros não, mas cujos nomes parecem todos começar por P. Os que eram cristãos dedicavam-se a mostrar que Platão tinha na realidade sido cristão, uma idéia que exige uma reorganização temporal surpreendente, para não dizer implausível. Os neoplatônicos tinham a tendência para falar de Coisas Abstratas com Letras Maiúsculas, tais como o Uno e o Ser, de uma maneira que ninguém percebia. Isto não é um problema exclusivo deles: Heidegger fez o mesmo, mas é claro que ele era alemão, e isso é o tipo de coisa que se espera de um alemão. Você encontrará talvez pessoas que cultivam alguma admiração por esta gente; não hesite em afastá-los sumariamente, especialmente Plotino, Porfírio e Proclo, apesar de poder admitir relutantemente que o último tinha umas idéias interessantes sobre Causas.

Depois disso veio a Idade das Trevas, e a chama da filosofia, como os historiadores palavrosos gostam de dizer, foi mantida no mundo árabe, e em mosteiros que ou eram tão remotos ou tão pobres que não valia a pena saquear. A pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se sobre disputas tais como se Deus era Uma pessoa em Três ou Três pessoas Numa, a natureza exata da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo).

Vale talvez a pena chamar a atenção para Córdova, no sul de Espanha, que estava ocupada pelos árabes, e que era o país natal do maior filósofo judeu, Maimônides, e do grande filósofo árabe, Averróis. Algumas pessoas dirão que o maior filósofo árabe foi Avicena, e não Averróis — mas não se renda (o dogmatismo compensa). Durante várias centenas de anos, os judeus, os árabes e os cristãos conseguiram viver todos juntos. A intolerância religiosa, apesar de ser perene, não tem sido um fato invariável da vida.

Na Europa, a filosofia começou a renascer no século XI com Anselmo, outro dos santos filosóficos, que ficou famoso por ter inventado o enganadoramente chamado Argumento Ontológico da existência de Deus, que é notável pela sua implausibilidade, pela sua longevidade, e pela dificuldade em ser refutado. É assim: pense numa coisa maior do que a qual nada pode existir; e que a sua existência é ela própria uma propriedade que torna esta coisa melhor. (Esta alegação, implausível quando aplicada à halitose e aos bebês, torna-se mais persuasiva se a entidade em questão for boa em todos os outros aspectos.) Logo, se esta coisa maior do que a qual nada pode ser pensada (i.e., Deus) não existisse, poderíamos imaginar a existência de outra coisa ainda maior, nomeadamente, um Deus existente, que teria todas as propriedades do primeiro, mais a existência como bônus. Mas nós podemos conceber este último. Logo, Deus tem de existir (Complicado? Também acho). O próprio Anselmo afirma que foi Deus que lhe enviou uma visão com o argumento pouco depois do pequeno almoço, no dia 13 de Julho de 1087, numa altura em que ele estava passando um mau momento com a sua fé. Este é assim o único grande argumento da história da filosofia cuja descoberta pode ser datada com precisão. A não ser, claro, que Anselmo estivesse bêbado.

O próximo santo filosoficamente importante foi Tomás de Aquino (1225-74), que foi responsável em grande parte pela reintrodução de Aristóteles no mundo ocidental. (Aristóteles foi delicadamente ignorado durante séculos por acadêmicos que não gostavam de admitir que não sabiam gregos.) São Tomás é também o único filósofo oficialmente reconhecido pela Igreja Católica. Tornou-se conhecido por propor as Cinco Vias para provar a existência de Deus — não tinha ficado muito impressionado com Anselmo. Você não precisa saber quais são essas Cinco Vias, mas pode talvez fazer notar que não existe qualquer diferença significativa entre as primeiras três, de maneira que Tomás de Aquino andou exagerando.

Ele é também o autor de dois argumentos interessantes contra o incesto. Em primeiro lugar, o incesto tornaria a vida familiar ainda mais infernalmente complexa do que já é; em segundo lugar, o incesto entre irmãos devia ser proibido porque se ao amor típico dos casais se juntasse o amor típico dos irmãos, o vínculo resultante seria de tal maneira poderoso que resultaria em relações sexuais anormalmente frequentes. É uma infelicidade que São Tomás não defina este último conceito intrigante. Podemos também duvidar seriamente se teve realmente irmãos ou irmãs.

Quanto ao resto dos escolásticos medievais, como são conhecidos devido à sua predileção pedagógica para o intenso pedantismo, a maioria dos mais importantes parece ter sido franciscanos. Deve-se afastar decididamente deles, ou pelo menos dos pormenores. Você pode recordar que Duns Escoto (1270-1308) era na verdade irlandês, e que era, além disso, segundo Gerard Manley Hopkins, “o mais dotado decifrador do real”, seja o que for que isso queira dizer. Outro nome que vale a pena usar é o de Guilherme de Ockham (c. 1290-1349), considerado universalmente o maior lógico medieval, e conhecido, sobretudo, pela “Navalha de Ockham”, com a qual pôs fim a séculos de filosofia hirsuta. A Navalha é usualmente citada segundo a fórmula “As Entidades não devem ser Multiplicadas sem Necessidade”, ou, melhor ainda, em latim: “Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem” (i.e., Não Inventes). O jovem iniciante ganha alguns pontos extras se comentar que esta formulação não se encontra, na verdade, em parte alguma da “oeuvre” extraordinariamente logorreica de Ockham.

Bem, na próxima semana, dependendo do resultado eleitoral e de minha paciência, falaremos sobre a idade moderna da filosofia; começando por Descartes.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu vou?



Por Figurótico*

Nos últimos anos a escassez de shows de grande porte foi grande, sobretudo no Rio de Janeiro. Muito comum no início do ano são os boatos de quem virá ao Brasil no ano corrente. Segundo foi noticiado, "boatado", Paul McCartney já veio ao país umas três vezes esse ano e ainda virá mais uma no fim, segundo últimos fatos. Como é de conhecimento de todos, o Rio tem ficado para trás direto, com shows vazios, em lugares enormes, com erro de logística, preço alto e tudo o mais. E não é que a cidade resolveu cometer a proeza de numa tacada só afunilar todos os estrangeiros na mesma semana?

Vejamos: semana que vem no Rio teremos Bon Jovi e Dave Matthews Band no mesmo dia. Dois dias depois o Rush. Cinco dias depois o Green Day. E eu te pergunto, e aí? Pra complicar e derrotar de vez as opções cariocas, na Fazenda Maeda, no município de Itu (SP) acontecerá o SWU Music & Arts Festival, nos dias 9, 10 e 11 de outubro. No maior clima Woodstock (aliás, este seria o nome do evento brasileiro à princípio), São Paulo veio com tudo e arrastará uma multidão para Itu, inclusive de cariocas, que já se anteciparam e alugaram pousadas, camping e tudo o mais para curtir o evento - nos sites de relacionamento essa movimentação é nítida.

Rage Against The Machine, Dave Matthews, Kings of Leon, Pixies, Los Hermanos, The Mars Volta, Mutantes, Sublime With Rome, Queens Of The Stone Age, Linkin Park, Cavalera Conspiracy, ufa… Sem falar em Fórum Sustentável, tendas eletrônicas, área de acampamento. O ideal libertário de Woodstock estará por lá, mais organizado e sem os hippies de outrora – e claro, tudo por um bom dinheiro.

Festivais trazem em si um ritual que vai além dos próprios shows, e por vezes esse ritual acaba se saindo mais valioso que as apresentações musicais reunidas. A viagem, a estrada, o caminho, a parada, a chegada, a emboscada, a quebrada, a biritada, a cachaça, a mulherada... Jovens de muitas idades, muita idade se sentindo jovem, tudo (supõe-se) na maior da harmonia. O coletivo unido através da música, isso é o esperado, mesmo que os jovens de hoje não sejam como a juventude exxxperta do primeiro Rock in Rio e milhas e milhas distante da de Woodstock!

Mas festivais assim servem para isso, formam jovens mais espertos, mais tranqüilos, mostram aos novatos que o mundo não precisa de micareta o ano todo, que só o rock – rock mesmo – é capaz de transformar esses mega eventos em mitos, em coisa grandiosa, libertária. Já que não somos tão jovens, sejamos jovens e nos iludamos com isso, com prazer, por favor.

Ray Manzareck, tecladista e grande figura dos Doors, disse isso: “que as pessoas percebam que após o concerto de rock, quando elas vão para casa, que continuam juntas, ligadas, que isso avance, e adquira sentido de unidade, comunidade”. O Rock in Rio mudou minha vida, um soco na cara, uma alternativa de vida saltou aos meus olhos aos dez anos de idade. Que este festival sirva, assim, a muitos jovens. “Starts With You”, SWU. Então, está esperando o que?

Figurótico é..."o quê??? Sim, eu vou!".

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Democracia e internet


por Mozart Valle Neto*

Esta semana folheando a Revista Galileu deparei-me com uma matéria, muito interessante, que falava sobre as maneiras de ser cidadão através da internet. Infelizmente o conteúdo está somente na versão impressa. Vou resumir para debatermos sobre a situação:

Segundo a publicação a juventude de hoje trocou o ativismo político por um copo de chopp. E a internet está facilitando a vida dos “preguiçosos”. Até mesmo está criando uma nova maneira de ser cidadão. Pois para eles uma enxurrada de e-mails tem o mesmo peso que uma passeata. Eles listam alguns sites onde podemos reclamar da atuação de parlamentares. Outros que denunciam problemas nas cidades. Tipo buraco no asfalto ou vazamento de rede. Ao final chegam a fazer uma piadinha que inclusive dá para reclamar de um buraco na rua de casa na mesa do bar, acompanhado do chopp.

Tive curiosidade e fui visitar alguns destes sites. A maioria tem uma idéia excelente, mas não tem continuidade. Ou seja, puro fogo de palha. Por exemplo o http://vereadores.wikia.com trabalha com a hipótese que cada pessoa inscrita no site fica de olho em um vereador do seu município. Muito legal, mas o wiki está paradinho, mesmo nesta época pré-eleitoral.

Citam como exemplo a estrondosa campanha do Obama na internet. Mas na mesma revista, em uma nota, ressaltam o fracasso total da campanha para presidente do Brasil na internet. Por aqui a rede só serviu para divulgar gafes e ações ridículas dos candidatos. Na mesma matéria deram um dado revelador: Dilma contratou a mesma dupla que realizou o trabalho para o presidente estadunidense. A pergunta que não quer calar: Será que eles cobraram o mesmo preço para atuar em terras tupiniquins?

Para encerrar vou partilhar com vocês uma lição que meu sábio avô me deu. Eu devia ter uns doze anos, ele reclamava por ter que escolher candidatos do mesmo partido. O voto nesta época era vinculado, tinha que votar em todos os cargos com o mesmo partido. Eu perguntei para ele, mas não é mais fácil votar em todos que tem idéias parecidas. Ele falou: Sim, mas é mais difícil de controlar. Se todos são aliados é fácil desvirtuar o caminho. Desde então adoto uma prática. Voto para o executivo de um lado e do legislativo de outro. Sei que alguns por aqui vão me chamar de atrasado. Que isso atrapalha governar. Mas na verdade acho que este atrapalhamento é que proporciona o crescimento sustentável.

*Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) é mesário voluntário e faz questão de participar do processo democrático da maneira tradicional.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Michael Moore e o capitalismo: uma história de amor



por Carlos Vinicius Rosenburg*

A câmera, em filmagem caseira, está no interior de uma típica casa de subúrbio americano, acompanhando os passos de um xerife e sua equipe, que chegam para despejar uma família de seu imóvel. Assim começa o documentário “Capitalismo: Uma História de Amor”, do cineasta americano Michael Moore.

Tornei-me fã do Moore quando vi o filme “Tiros em Columbine”. Seu estilo de fazer documentário, em tom bem humorado, sem pretensões de neutralidade – como é comum no cinema brasileiro –, me ganhou nas primeiras cenas – tem-se a impressão de não ser um documentário, não há tom professoral ou acadêmico. Depois, com “Fahrenheit 911”, a admiração só aumentou. O talento para abordar com leveza temas ásperos, duros e tristes, ainda mais em tempos de falcões no poder, é digno de nota. Muitos o criticam, taxando-o de tendencioso, partidário, mas encaro isso como qualidade. E Moore demonstrou que a palavra conformismo não faz parte de seu vocabulário.

Há cerca de um mês, nosso querido amigo Erick Leal, monstruoso batera do power trio Figurótico, me emprestou o DVD do filme citado: nele, o diretor gordinho, com seu inseparável boné, expõe as entranhas do capitalismo de Wall Street, das grandes corporações, mais particularmente, a crise imobiliária de 2008, que assolou os EUA.

Para chegar até ali, Moore retorna aos anos do pós-2ª Guerra Mundial, período em que a economia em frangalhos da Europa e Japão proporcionaram os famosos “anos dourados” aos EUA. Faz também um interessante paralelo entre a decadência do Império Romano e os EUA contemporâneos. E mostra o momento em que as grandes corporações financeiras tomam a Casa Branca: a eleição de Ronald Reagan. Antes da primeira cena com Reagan, porém, há um discurso do então presidente democrata Jimmy Carter, que é emblemático. Fala no perigo de tempos consumistas, da exaltação do ter sobre o ser etc. Parecer ter sido redigido ontem, mas é de 1979!

Pois bem. O medíocre ator de Hollywood, Ronald Reagan, é eleito em 1980, com a missão de fazer o trabalho sujo – a imagem de xerife dos filmes de faroeste não é aleatória – Reagan foi escolhido a dedo. E com ele, Wall Street abocanha o governo, mais precisamente, a Secretaria de Fazenda. É a raposa dentro do galinheiro. Em outra das cenas emblemáticas, Reagan diz que soltará o touro (o bicho é o símbolo de Wall Street), recebendo de seu secretário (que foi presidente da Merill Lynch), ordens para se apressar. Isso mesmo, um presidente recebendo ordens de um secretário, com imagens transmitidas ao vivo pela televisão. Isso dá uma ideia de como as coisas foram acontecendo. Culminaram no governo Bush, com a total desregulamentação do sistema financeiro. Ou seja, a regra passou a ser: não há mais regras! Capitalismo selvagem e predador, com todas as garras de fora e sem lavar as mãos. E quem pagou essa conta podre? Os proprietários de imóveis de renda mais baixa, principalmente aposentados. Foram incentivados por toneladas de propaganda e incentivos do governo, a hipotecarem suas casas. Ficariam com dinheiro no bolso para comprarem outras coisas (televisões de plasma, carros, celulares, computadores etc.), pagando a hipoteca em suaves prestações. Bem, as prestações, descobriram depois, não eram tão suaves assim. E descobriram também que o dinheiro para empréstimos, que para o povo comum era cobrado em altas prestações, era dado de bandeja para grandes executivos, políticos e pessoas com trânsito em Washington. Um ciranda sórdida que acabou cobrando sua conta – paga com a tomada das casas das pessoas comuns.

Mas o filme não fica aí. Mostra também como gigantes como Nestlé, Bank of America, Procter & Gamble, Wal Mart e outras faziam seguros de vida milionários em nome de funcionários, sem o conhecimento destes. Quando os empregados morriam, as corporações ficavam mais ricas. É difícil imaginar algo mais baixo.

Moore vai atrás de todas essas pessoas, de seus algozes, em seu já conhecido estilo fanfarrão, bem humorado, sem papas na língua. Ouve congressistas, coloca imagens de seu alvo favorito (George W. Bush), mostra a indignação das pessoas. Chega a quase perder a mão e esbarrar na pieguice, mas é preciso fazer sua defesa: quando vemos estatísticas e gráficos, não há rosto, apenas números – Stálin já dizia que um homicídio é uma tragédia; milhares deles, uma estatística. Pois bem, Moore dá um rosto à crise. Falar de milhares de pessoas perdendo suas casas para bancos é triste, mas é apenas mais uma notícia no meio de tantas. Mas ver as imagens das pessoas sendo despejadas é completamente diferente. Ou ouvir a viúva de um empregado das lojas Wal Mart falando do seguro de 1,5 milhão de dólares que empresa fez em nome de seu marido. Há ali dramas humanos, universais, há algo familiar quando vemos um senhor de cabelos brancos em situação desesperadora, sendo despejado de sua casa. Assim, o que poderia parecer piegas, é exatamente o que vale à pena no filme.

Moore mostra, por fim, que o governo de Bush Filho usa sua mais tradicional arma, o pânico, para tentar aprovar a ajuda às instituições financeiras falidas. Num primeiro momento, é derrotado, mas não desiste e consegue “convencer” congressistas democratas a aprovarem a modesta ajuda de 700 BILHÕES de dólares àqueles que foram responsáveis por toda a crise.

No final, vemos a população se unindo, ainda que timidamente, para exigir que o dinheiro seja dado a quem é o legítimo dono: o povo. Povo este que já fora lembrado em documento do Citibank, quando a poderosa instituição financeira diz que os 99% da população que não possuem a riqueza são perigosos, pois têm 99% dos votos. Moore mostra este documento no início do filme, e relembra no final, quando a população começa a sair às ruas e a retomar o que é seu.

No recado final, Moore prega o fim do capitalismo, com sua substituição pelo que chamou democracia. Há um pouco de simplismo no raciocínio de Moore. Imaginar que acabando o capitalismo e implantando-se uma democracia (seja lá o que isso signifique para o cineasta – pelo que vemos no filme, o sonho dele é a social-democracia européia), da noite para o dia, teremos todos os problemas resolvidos é mais que simplismo, chega a ser infantil. Há todo um sistema aí, gente trabalhando, sendo alimentada (mesmo que mal), coisas acontecendo. Mudar tudo, de uma hora para outra, sem alternativa viável, gerará problemas muito maiores do que os que temos atualmente. As experiências com a alternativa que foi passada ao mundo não foram muito bem sucedidas. Ficou provado que o ser humano é movido por desafios, por liberdade para agir. O próprio filme de Moore é distribuído pela Paramount, gigante do mundo do entretenimento hollywoodiano.

Por sua vez, e aí está o grande mérito de Moore, fica claro que o atual modelo é inviável, está nos levando para o abismo, é questão de tempo, só não sabemos quando. O planeta e a vida nele existente não podem ficar à mercê de pessoas viciadas na jogatina promovida pelo cassino de Wall Street. Moore tocou na ferida, e por isso seu estilo de fazer documentário deve ser louvado. Como dito acima, sem pretensões de neutralidade (aliás, existe neutralidade?) ou academicismos. Direto ao assunto, sem meias-palavras. Michael Moore.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 38 anos e pede desculpas antecipadas por eventuais erros, pois o texto de hoje não sofreu nenhuma revisão.

domingo, 26 de setembro de 2010

24 COISAS SEM NENHUMA IMPORTANCIA E UMA CONCLUSÃO LÓGICA.

Por Valério Cortez


01) Ratos não vomitam.

02) "J" = E a única letra que não aparece na tabela periódica dos elementos.

03) A maneira mais fácil de diferenciar um animal carnívoro de um herbívoro é olhando nos seus olhos. Os carnívoros (cachorros, leões) possuem os olhos na parte da frente da cabeça, o que facilita a localização do alimento. Já os herbívoros (aves, coelhos) possuem os olhos do lado da cabeça para perceber a aproximação de > um possível predador.

04) Você pisca aproximadamente 25 mil vezes por dia.

05) Os CDs foram concebidos para comportar 74 minutos de musica porque essa é a duração da Nona Sinfonia de Bethoven.

06) Está provado que o cigarro é a maior fonte de pesquisas e estatísticas.

07) Relâmpagos matam mais do que vulcões, furacões e terremotos.

08) O material mais resistente criado pela natureza é a teia de aranha.

09) O forno de microondas surgiu quando um pesquisador que estudava as microondas percebeu que elas haviam derretido o chocolate que estava em seu bolso.

10) Meninos com nomes estranhos geralmente tem mais problemas mentais que as meninas.

11) Os russos atendem ao telefone dizendo "Estou ouvindo".

12) 15% das mulheres americanas mandam flores para si mesmas no dia dos namorados.

13) As mulheres são as maiores compradoras de cuecas e barbeadores elétricos.

14) Se as doenças do coração, o câncer e a diabete fossem erradicados, a expectativa de vida do homem seria 99,2 anos.

15) A filha de Shakespeare era analfabeta.

16) Antes de 1800, os sapatos para os pés direito e esquerdo eram iguais.

17) O Oceano Atlântico é mais salgado que o Pacífico.

18) O elefante é o único animal com quatro joelhos.

19) Uma gota de óleo torna 25 litros de água imprópria para o consumo.

20) A cada ano, 98% dos átomos do seu corpo são substituídos.

21) Ovelhas não bebem água corrente.

22) Os americanos gastam mais com comida de cachorro que com comida de bebê.

23) Seu cabelo cresce mais rápido a noite, e você perde em media 100 fios por dia.

24) Rir durante o dia faz com que você durma melhor a noite.

25) E Não importa o que aconteça, o FLAMENGO sempre será melhor que o BOTAFOGO.


Um bom domingo a todos.

sábado, 25 de setembro de 2010

PURA SACANAGEM


*por Heleno Guanabara

Como já deve ser do conhecimento de todos os três ou quatro leitores que se aventuram por estas bandas, semana passada a família Guanabara sofreu a lastimável perda de seu provecto filho Heráclito Guanabara de Viveiros, extinto aos 81 anos, mas que, segundo relatos que se ouviu no próprio cortejo, vendia saúde como se ainda estivesse no auge dos 76.

Terminadas as exéquias, já me preparava para a despedida dos parentes e retornar ao lar, quando minha cunhada Erothides me informou que havia uma caixa que Heráclito pediu que me fosse entregue após sua morte. Segundo ela, era uma espécie de herança que o marido a fez promotor que chegaria as minhas mãos.

Recebi a caixa de papelão muito bem lacrada e, apesar da curiosidade ser grande, decidi por abri-la somente em casa, pois tive a forte sensação que a vontade de meu irmão era que seu conteúdo não fosse revelado assim, indiscriminadamente, na frente dos demais familiares.

Já em casa não havia mais razão para manter segredo, abri a caixa e eis que me deparo com o tesouro de Heráclito: dezenas e dezenas, talvez centenas dos famosos “catecismos” de Carlos Zéfiro, tudo em bom estado de conservação, talvez uma manchinha aqui e acolá – acidentes acontecem –, mas com a evidente impressão de que alguém se dedicara, com razoável sucesso, a evitar a deterioração das pequenas e importantes obras.


Carlos Zéfiro é considerado o mestre dos quadrinhos porno-eróticos no Brasil. Sua obra consistia em revistinhas com desenhos feitos em preto e branco, com tamanho de 1/4 de folha tamanho ofício, de cerca de 24 a 32 páginas, que circulavam clandestinamente na década de 60, nas bancas de jornais.

Ironicamente, suas publicações eram chamadas pelos “fiéis” leitores de catecismos, verdadeiro sucesso entre os garotos que estavam no começo da puberdade, ávidos por saciar suas angústias sexuais, precisando de inspiração num Brasil ainda pré-revistas suecas e Playboy.


Carlos Zéfiro é o pseudônimo do funcionário público Alcides Aguiar Caminha, carioca, nascido em 25 de setembro de 1921, e que veio a falecer em 5 de julho de 1992. Passou praticamente toda a sua carreira de desenhista no anonimato, exercendo sua criatividade concupiscente na clandestinidade, pois queria resguardar a família da maledicência alheia, bem como o emprego no setor de Imigração do Ministério do Trabalho de uma eventual acusação de “incontinência pública escandalosa", ou alguma bobagem subversiva do tipo.

Soube como poucos retratar o sexo como ele o é na vida real, sem falsos pudores, sem hipocrisia, com tesão, com poesia, não respeitando tabus e descortinando-nos todas as fantasias possíveis.

Uma curiosidade é o fato de que Zéfiro não era desenhista. Contudo, conseguia manipular bem os materiais de desenho, e tinha um grande dom criativo para escrever os roteiros. Produzia uma história de quadrinhos decalcando, em papel vegetal, posições de revistas de fotonovelas, além das fotos eróticas que conseguia reunir.

Quanto não havia referências de imagem para decalcar, os desenhos de uma página para outra ficavam nitidamente mais toscos, o que não impediu o sucesso de sua obra.

Após sua morte, Alcides Aguiar Caminha recebeu várias homenagens em reconhecimento à importância de sua obra, sendo que a mais conhecida está na capa e no encarte do disco Barulhinho Bom, de Marisa Monte, lançado em 1997.



Deixo vocês por aqui, pois ainda tenho muito o que “ler” neste final de semana. Espero que tenham gozado, ou melhor, gostado.


*Heleno Guanabara é adepto do onanismo inveterado.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010


"A arte de envelhecer."

*Por Flavia Alvaro Porto

Envelhecer é mesmo uma arte muito grande.


Hoje, quarta-feira (dia que escrevi o texto), abri a página da IG e dei de cara com uma declaração da Suzana Vieira: “Não quero fazer papel de vovozinha”. Tudo bem que ela está com 60 anos e “inteirona”. Mas , daqui a pouco tempo, vai fazer papel de que? Até entendo o que ela quis dizer quando fez essa declaração. Ela disse isso em relação aos papéis daquelas antigas vovós do tipo “Dona Benta”, mas , no meu entendimento, falta um pouco de aceitação quando o assunto é “envelhecer”. Hoje em dia a coisa mais normal do mundo é ver uma pessoa da terceira idade, que é a dela, curtindo seus netos por aí. E mulheres lindas, muito bem para a idade, tanto que nem parecem ter seus 60 e poucos anos.


Percebo que essa questão se torna um problema quando vejo mulheres mais velhas usando roupas voltadas para um público mais jovem. Não acho mesmo que as mulheres da terceira idade tenham que vestir que nem freiras, mas bom senso é sempre necessário. Fica feio usar roupas teen quando se tem mais de 50 anos. Tudo tem seu tempo, tudo tem a sua hora. E, se é hora de envelhecer, por que não aceitar-se e envelhecer com classe e elegância?


Outra coisa: mentir a idade. Tudo bem que eu tenho 37 anos e vivem me dizendo que não aparento, mas nem por isso saio por aí dizendo que tenho 32 (que é a idade que geralmente ganho por aí). E se aparentasse também, qual o problema? Nenhum! Nem hoje com 37 (confesso que me olhando no espelho não consigo me ver com menos de 37), nem amanhã quando eu tiver com 60. E eu quero chegar lá sim! Fora que quero chegar aos 100 anos, olhar para trás, isso se a minha sanidade me permitir, lógico, e dizer: eu vivi!


Aceitação: essa é a palavra! Quer coisa melhor do que saber que você está envelhecendo? Você está vivo! Curta mais essa etapa pois não são todos que tem essa oportunidade.


Lembro até hoje quando a Daniela Perez, filha da Glória Perez, foi assassinada. A atriz Beatriz Segall, com mais de 60 anos naquela época, deu um depoimento dizendo que ela passou pela idade da Daniela mas que a Daniela não teria mais essa oportunidade de chegar na sua idade.


Triste. Mas dá pra perceber claramente a aceitação da idade nessas poucas palavras.


Plástica, ginástica, tudo muito bom até que não se torne um exagero e vire algo do tipo “faço tudo em nome da vaidade”.


Pra quem não sabe um dos motivos, entre vários outros, que nos leva ao envelhecimento é a oxidação. De certo modo, o oxigênio “enferruja” nosso organismo. Afinal, ficamos expostos à ele durante todo o tempo e ele faz parte da mistura de gases que respiramos, sendo o principal elemento que nos mantem vivos. Portanto, já que não quer envelhecer, você pode tentar encontrar uma forma de se proteger do oxigênio. Ou seja, impossível!


Envelhecer então se torna uma arte.


Essa questão da falta de aceitação sobre o envelhecimento não acomete apenas mulheres. Outro dia eu conversava com um rapaz, que, achando que eu tivesse menos idade, me disse ter 34. Detalhe: eu achei q ele tivesse uns 42. Logo após eu dizer a minha idade, ele me pediu mil perdões e disse ter 38, porém, sempre afirmando (pra ele mesmo) que parecia ter menos. Pra que isso? Imaturidade total! Medo do envelhecimento ou sei lá o que.


Penso que a gente deve passar muito bem por cada etapa de nossas vidas, para que problemas de identidade como esse não surjam, evitando que passemos por situações que até nos ridicularize.


É claro que todos nós gostaríamos de não envelhecer, mas já isso não nos é permitido, podemos ao menos tentar manter a mente sempre jovem. Aceitar a velhice com naturalidade é o caminho, por isso encare o espelho sem medo e desfrute o passar do tempo com muita saúde!


*Flavia Alvaro Porto é a flavinha. (flport@ig.com.br)

Tenho 37 anos e quero chegar aos 100. E ai de quem me contrariar!!!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

FILOSOFIA 2

As vidas dos filósofos

Jorge Couto

A filosofia é um assunto (perdão, uma atividade) que tem uma história; e como progride tão pouco, se é que progride realmente alguma coisa, a sua história é muito importante.O iniciante bem sucedido tem de se equipar com um conhecimento prático desta história, se quiser singrar na charlatanice.

Portanto, esta seção contém fatos mais ou menos interessantes sobre alguns filósofos mais ou menos famosos, fatos esses de natureza tanto biográfica como filosófica, dispostos de maneira mais ou menos cronológica.

Os primeiros filósofos gregos são geralmente conhecidos por pré-socráticos, apesar de isto ser enganador: nem todos viveram antes de Sócrates, e, em qualquer caso, não constituíram uma escola coerente; na verdade, a maioria deles não se constituiu sequer de indivíduos coerentes.

Ninguém sabe por que começou a filosofia e quando começou; o aluno iniciante ambicioso com inclinações marxistas pode tentar oferecer uma explicação em termos de uma dialética inexorável de forças históricas, mas nós não o recomendamos.

Uma característica notável de muitos pré-socráticos é a sua tentativa de reduzir os constituintes materiais do Universo a uma ou mais Substâncias básicas, tais como a Terra, o Ar, o Fogo, as Sardinhas, os Gorros de Lã Velhos, etc.

Tales de Mileto (620-550 a.C.) foi o primeiro filósofo reconhecido. Poderão ter existido outros antes dele, mas ninguém sabe quem foram. Ele ficou conhecido principalmente por defender duas coisas:

1. Tudo é feito de Água; e

2. Os ímanes têm alma.

O leitor poderá pensar que não foi um princípio muito promissor.

Anaximandro (c. 610-550) pensava que tudo era feito do Apeíron, uma concepção que tem um certo encanto espúrio, até percebermos que não quer realmente dizer coisa alguma.

Anaxímenes (c. 570-510) aventurou-se corajosamente numa direção completamente nova, apesar de não menos arbitrária, ao afirmar que na realidade tudo era feito de Ar, uma perspectiva talvez mais plausível na Grécia do que, por exemplo, em São Paulo.

Heráclito (c. 540-490) discordou, defendendo que tudo era feito de Fogo. Mas ele avançou um passo mais, afirmando que tudo estava num estado de fluxo e que tudo era idêntico ao seu oposto, acrescentando que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, e que não existe qualquer diferença entre o Caminho a Subir e o Caminho a Descer, o que mostra que ele nunca foi obrigado a visitar alguém na rua São João ou na rua da Pedreira. Vale por vezes a pena referir de passagem (o que constitui sempre a melhor maneira de nos referirmos ao que quer que seja em filosofia) a “Metafísica de Heráclito”, para falar da sua doutrina do fluxo, desde que não tenhamos de explicar seja o que for. Heráclito era muito admirado pelo alemão Hegel, o que nos diz talvez mais sobre Hegel do que sobre Heráclito.

Pitágoras (c. 570-10), como qualquer aluno do primário sabe, inventou o triângulo retângulo; na verdade foi mais longe, ao acreditar que tudo era feito de números. Acreditava também numa forma extrema de reencarnação, defendendo que uma larga gama de coisas improváveis, incluindo os arbustos e os feijões, têm alma, o que tornava a sua dieta bastante problemática.

Empédocles (c. 500-430), um notável médico e político siciliano do século V, completamente doido, pensava que tudo era feito de Terra, Ar, Fogo e Água, misturando-se ou separando-se tudo através do Amor e da Discórdia, ganhando cada um, à vez, a proeminência no ciclo do eterno retorno, espelhando assim o cosmos e o casamento típico.

Depois vêm os eleatas, Parmênides (520-430) e Melisso (480-420), que foram ainda mais além. Em vez de afirmarem que tudo era na realidade feito de uma substância, defenderam antes que na realidade só havia uma única Coisa, grande, esférica, infinita, imóvel e imutável. Toda a aparência de variedade, movimento, separação entre objetos, etc., era uma Ilusão. Esta teoria extraordinariamente contra-intuitiva (por vezes conhecida por Monismo, da palavra grega “mono”, que quer dizer “dispositivo antiquado de gravação”) revelou-se surpreendentemente popular, sem dúvida por estar de acordo com a experiência que as pessoas têm com algumas instituições, como os Correios e Bancos.

O seu sucessor, Zenão (500-440), avançou um conjunto de argumentos paradoxais para mostrar que nada pode mover-se. Aquiles e a Tartaruga são ainda discutidos, tal como a Flecha: argumentou ele que esta não podia realmente mover-se, o que, a ser verdade, teria sido uma boa notícia para São Sebastião. Os argumentos tratam de saber em grande parte se o Espaço e o Tempo são infinitamente divisíveis, ou se um deles, ou ambos, é feito, ou são feitos, de quanta indivisíveis — mencione isto para dar a Zenão um ar moderno; se lhe pedirem explicações, mude de assunto.

Os últimos dos pré-socráticos são os atomistas Demócrito (c. 450-360) e Leucipo (450-390). Costuma-se dizer que eles anteciparam a teoria atômica moderna. Isto é completamente falso, e o jovem aluno ganha alguns pontos ao afirmar isto, pela simples razão que o que há de crucial nos átomos democritianos é a sua indivisibilidade, ao passo que o que há de crucial nos átomos modernos é o fato de não serem indivisíveis. O leitor pode também fazer notar que Demócrito não gostava de sexo, apesar de não se saber se tal se devia a razões teóricas ou a algum infeliz revés pessoal.

É tudo quanto aos pré-socráticos; vamos agora ao próprio homem que lhes deu o nome, Sócrates (469-399). Sócrates não escreveu coisa alguma: dependemos de Platão no que respeita a qualquer informação sobre ele, e é uma vexata quaestio (uma boa expressão) saber até que ponto Platão reproduziu as idéias de Sócrates, ou se limitou unicamente a usar o seu nome. Não se deixe enredar nesta questão: uma boa manobra é afirmar, com um certo desdém arrogante, que o que conta é o conteúdo filosófico, e não a sua origem histórica.

Platão (427-347) acreditava que os objetos comuns do quotidiano, como as mesas e as cadeiras, eram meras cópias “fenomênicas” imperfeitas de Originais perfeitos que existiam no Céu para serem apreciadas pelo intelecto, as chamadas Formas. Também há formas de itens abstratos tais como a Verdade, a Beleza, o Bem, o Amor, os cheques sem fundos, etc. Esta posição trouxe algumas dificuldades a Platão: se tudo o que vemos, sentimos, tocamos, etc., deve a sua existência a uma Forma Perfeitamente Boa, têm de haver Formas Perfeitamente Boas de Coisas Perfeitamente Horríveis. O próprio Platão menciona o cabelo, a lama e a sujidade; mas nós podemos pensar em exemplos muito melhores, tais como leitores de “VEJA”, flamenguistas, roqueiros, filiados do DEM, etc.

Platão parece ser imensamente sobreestimado como filósofo; se não acredita em mim, veja o seguinte argumento tipicamente platônico, tirado do Livro II da República:

Aquele que distingue as coisas com base no conhecimento (presumivelmente, em vez de ser com base no mero preconceito) é um filósofo;

Os cães de guarda distinguem as coisas (neste caso, os visitantes) consoante os conhecem ou não (esta é uma verdade cara aos carteiros);

Todos os cães de guarda são filósofos.

Experimente usar de vez em quando este argumento, para ver como se sai.

Outra manobra útil de aproximação a Platão é argumentar uma das duas idéias seguintes:

1)que ele era um feminista;

2)que não era.

Ambas as afirmações podem ser sustentadas e acabar por revelarem-se úteis (em ocasiões diferentes, é claro). A favor de 1) é o fato de Platão afirmar no Livro 3 da República que as mulheres não devem ser discriminadas em questões de emprego unicamente por serem mulheres. A favor de 2) é o fato de, imediatamente a seguir, Platão comentar que uma vez que as mulheres são por natureza muito menos talentosas do que os homens, esta “liberalização” não faz de qualquer maneira diferença alguma.

Depois de Platão vem Aristóteles (382-322), por vezes conhecido como o Estagirita, que ao contrário do que pode parecer não é o embrião de um estagiário, mas um nativo de Estagira, na Macedônia. Foi aluno de Platão e esperava suceder-lhe como diretor da Academia. Sentiu-se, por isso, ultrapassado quando Espeusipo (não é necessário saber seja o que for sobre ele) ficou com o lugar, abandonando ofendido a Academia para fundar a sua própria escola, o Liceu — que não deve ser confundido com o lugar misterioso onde os nossos avós perderam a inocência.

Aristóteles era estupidamente brilhante. Desenvolveu a Lógica (na verdade, inventou-a), a Filosofia da Ciência (que também inventou), a Taxonomia Biológica (sim, também foi inventada por ele), a Ética, a Filosofia Política, a Semântica, a Estética, a Teoria da Retórica, a Cosmologia, a Meteorologia, a Dinâmica, a Hidrostática, a Teoria da Matemática e a Economia Doméstica. Não é aconselhável dizer seja o que for que não seja elogioso em relação a ele, mas o iniciante atrevido pode aventurar-se a lamentar a inclinação excessivamente Teleológica da sua Biologia, ou comentar que apesar de a sua teoria lógica ser um feito notável, ela foi no entanto, como é óbvio, ultrapassada pelos desenvolvimentos modernos devidos a Frege e Russell. Mas tenha cuidado com estas afirmações, e nunca as cite se estiver falando com um matemático, mesmo que este seja muito jovem. Uma linha de abordagem muito mais segura consiste em depreciar moderadamente os aspectos mais caricatos da Biologia de Aristóteles, dos quais o seguinte argumento sobre a estrutura dos genitais das cobras é um exemplo:

As cobras não têm pênis porque não têm pernas; e não têm testículos por serem tão compridas. (De Generatione Animalum)

Aristóteles não oferece qualquer argumento para sustentar a sua primeira alegação, a não ser a suposição geral a que somos conduzidos de que caso contrário o órgão em causa seria penosamente arrastado pelo chão; mas a segunda deriva da sua teoria da reprodução. Para Aristóteles, o sêmen não é produzido nos testículos, mas na medula espinhal (os testículos funcionam aparentemente como uma espécie de sala de espera do esperma vagabundo); além disso, o sêmen frio é estéril, e quanto mais tiver de viajar, mais arrefece (daí o fato conhecido, comenta ele, de os homens com pênis compridos serem estéreis). Assim, uma vez que as cobras são tão compridas, se o sêmen parasse em algum lugar no caminho, as cobras seriam estéreis; mas as cobras não são estéreis; logo, não têm testículos. Este esplêndido argumento é um exemplo de Teleologia Excessiva, ou de uma explicação em termos de fins e objetivos, que neste caso põe na verdade tudo de pernas para o ar.

Depois de Aristóteles a filosofia fragmentou-se cada vez mais. Fundaram-se várias escolas rivais para complementar, e desancar, as já existentes Academia e Liceu. As grandes novidades do princípio do século III a.C. são os estóicos, os epicuristas e os céticos, de quem falaremos na próxima quinta-feira.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Punk


Ajudei uma amiga com dicas de onde ela poderia tirar argumentos para um trabalho acadêmico sobre a origem do punk no Brasil. Passei tudo o que eu sabia, livros que continham a história completa; entrevistamos Clemente, dos Inocentes; além, é claro, de fazê-la assistir o filme "Botinada, A História do Punk no Brasil".
Disponível em:

Dessas experiências, saiu um belo texto da moça, apreciem-no:

Por Camila Soares*

O punk no Brasil

O Brasil sentiu o baque causado no exterior oriundo das bandas Ramones e Sex Pistols. Suas raízes tupiniquins causam controvérsias até os dias de hoje, com relação aonde teria surgido o primeiro movimento punk no país. São Paulo e Brasília estão na disputa de qual seria a embrionária do punk brasileiro. Assim como Inglaterra e Estados Unidos duelaram ao longo dos anos com suas bandas de sucesso, essas duas cidades deram ao país as primeiras bandas punks que influenciaram as das gerações seguintes.

A forma como os jovens das duas cidades conseguiam seus discos do exterior é distinta. Enquanto os brasilienses traziam as novidades de fora, os paulistanos tinham de comprar na loja de discos Wop Bop, que era especializada em discos importados. Com isso gastavam parte de seus salários de contínuo (office-boy) só para terem o registro do que acontecia, principalmente, em Londres. Visto que os primeiros punks da capital federal eram, em sua maioria, filhos de diplomatas, políticos; e os da capital paulista eram da periferia, o que acabou se tornando uma qualidade nos primeiros lugares onde se escutava punk rock. Como os discos eram caros, a solução era transformá-los em fitas K-7 e levar onde pudesse se ouvir a nova música. A esses novos lugares deram um nome: salões. Eram nos salões que os primeiros shows foram realizados, nos anos de 1977 e 1978. Onde antes se tocava apenas rock, o público fez com que se transformassem em salões exclusivos de punk.

Nos bairros de Vila Carolina, Vila Armazém, eram um dos locais onde se encontrava esses salões. O primeiro deles, o Construção ficou na história do punk pelas bandas que por lá passaram, assim como a E.E.T.A.L. (Escola Estadual Tarcísio Álvares Lobo) onde a maioria dos integrantes das bandas se conheceu. As primeiras a ganharem destaque no cenário foram Restos de Nada, AI-5, Cólera e Condutores de Cadáver, como visto no documentário “Botinada: a origem do punk no Brasil”[1]. O estranhamento causado pelo ritmo pode ser visto em algumas das matérias de jornal da época: “Jovens, desempregados, pregam agressão cultural” dizia uma delas, apresentada no Botinada.

Para Zorro, integrante da M-19, os punks “em plena ditadura militar romperam não só com uma estética visual, mas com uma estética musical, comportamental”[2]. Índio, dos Condutores de Cadáver, apresenta um conceito do punk dizendo que “não queriam mais do que tinham, e sim que a sociedade devolvesse a eles tudo que lhes tinha tirado”[3].

Outras bandas de São Paulo foram surgindo, como Garotos Podres, Olho Seco, Ratos de Porão e Inocentes (aclamada pelo jornalista Arthur Dapieve, que a considerou a principal do movimento nos anos 80)[4] cujo líder, Clemente, proferiu uma frase direta à MPB e ao que sentiam quanto aos artistas da época: “Nós estamos aqui para revolucionar a MPB. Pra pintar de negro a Asa Branca, atrasar o Trem das Onze, pisar nas Flores do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.

A resposta veio de um medalhão da MPB, Chico Buarque, mostrando o que achava da tão amedrontadora à época, a palavra punk. “Se o punk é o lixo, a miséria, a violência, então não precisamos importá-lo da Europa, pois já somos a vanguarda do punk em todo o mundo”[5].

Tal disseminação do ritmo só foi possível graças à atitude de se começar a tocar punk no rádio. Em programas isolados no meio da programação, como fazia Kid Vinil na Rádio Excelsior, em 1979. No início dos anos 80 outras bandas vieram a aparecer influenciadas por The Clash, Sex Pistols, The Jam. A mais bem sucedida foi o Ira! Que no início da carreira chegou a ser taxada de punk, mas adiante seus integrantes disseram que se identificavam mais com os Mods (abreviatura para Modernismo, subcultura dos anos 50 e 60 em Londres, e que foi usada pelo The Who, outra influencia do Ira!).

Outro local que teve também seu divulgador do punk foi Salvador. Em 1978, Marcelo Nova – que montou a bem sucedida banda de punk rock baiano, Camisa de Vênus – mantinha um programa de rádio onde se ouvia The Clash, Sex Pistols, etc. Do sul do país apareceram Os Replicantes no início dos anos 80, liderada por Wander Wildner, compositor atuante até hoje, porém não mais punk como antigamente.

Já no centro do país a cena punk assolou a capital federal e fez surgiu uma gama de bandas que entraram para a história. No cerne de todas elas aparecia o Aborto Elétrico, banda que gerou o Capital Inicial e a Legião Urbana – que até seu terceiro disco há canções punk, da época do Aborto Elétrico. Renato Russo era tido como um líder da “Turma da Colina”, pois se reuniam na Colina, um conjunto de prédios habitacionais localizados na UnB, em Brasília[6]. Russo, por ter morado com os pais na Europa, trouxe discos, revistas e tudo o que via com relação à música para seus amigos em Brasília. Chegou a provocar os amigos numa festa dizendo: “O que é ser punk? É enfiar um alfinete no nariz?”[7]. No que sem pensar espetou um no rosto e, sangrando, continuou na festa.

Outras bandas do cenário brasiliense foram Blitx 64, Escola de Escândalos, Detrito Federal e Plebe Rude. São também de Brasília as famosas (não punks) Paralamas do Sucesso, Finis Africae e Raimundos.

Até o fim dos anos 90 nem todas sobreviveram por décadas como outras. Inocentes e Plebe Rude não só continuam em atividade desde então, como se uniram. Clemente foi chamado para integrar a Plebe Rude em 2003 e hoje divide os vocais com Philippe Seabra. Em um show realizado no Circo Voador, em 2005, no Rio de Janeiro, Philippe declarou em pleno palco e diante de uma platéia carioca o que pensa sobre o rock e o punk no Brasil. “Eu achava que o cérebro e o coração do rock estavam em Brasília. Mas eu me enganei... Ambos se dividem entre Brasília e São Paulo”.


Referências:

Botinada: a origem do punk no Brasil – produzido por Gastão Moreira, pela ST2 em 2006.

Dapieve, ARTHUR. BRock – O ROCK BRASILEIRO DOS ANOS 80. Editora 34, 2000.

O Diário da Turma 1976/1986: A História do Rock de Brasília, Paulo Marchetti, 2001.

*Camila Soares é pós-graduada em Produção de moda e Stylist, além de curtir um puta rock'n roll!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os primeiros discos


por Mozart Valle Neto *

Ontem o Bujão colocou uma lista dos 30 discos da sua vida. Gostei da idéia, mas não de um número, muito menos de quinze minutos. Então aí vai a lista de alguns discos que tiveram importância na minha história. Que ainda está sendo escrita...

O primeiro disco que lembro que tive em minhas mãos foi um compacto do Capitão Aza.

Quem lembra do bordão: Alô, alô Sumaré! : Alô, alô Embratel! : Alô, alô Intelsat 4! : Alô, alô Criançada do meu Brasil! Aqui quem fala é o comandante e chefe das forças armadas infantis deste Brasil! Tudo bem que era cria da ditadura, mas que era legal, isso era.

Depois vem os disquinhos de histórias. Chapeuzinho Vermelho, Patinho Feio, João e Maria, Dona Baratinha...

Quem quer casar?

com a dona Baratinha

Ela tem (esqueci)

E dinheiro na caixinha!

Lembro também das vitrolas que tocavam estes discos: A laranja da foto foi a segunda que eu e minha irmã tivemos. A primeira era azul e tinha o mesmo estilo, mas menor.

Outra lembrança boa foi o primeiro rádio que minha irmã ganhou. Lembro que ela bateu o pé que queria um rádio AM. Para ela ela estava abafando, rs. Com isso fomos obrigados a passar um verão inteiro na fazenda ouvindo a Rádio Mundial AM. O principal sucesso da época, na rádio, era Meu Ursinho Blau Blau.

Eu aprendi a lição e no ano seguinte pedi um FM. Só dava Transamérica FM. Com este rádinho eu conheci a falecida Maldita FM. O meu só diferenciava da foto pela cor, era preto, mas tinha o mesmo esquema de dial desse aí.

Voltando aos discos lembrei de dois muito especiais: Arca de Noé I e II.

Era uma casa

Muito engraçada...


Aí vieram o disco da Blitz. Tinham duas faixas riscadas pela censura. Como a gente tentava ficar segurando a agulha para entender alguma coisa.

Lembro também do Rádio Pirata do RPM; Vamos invadir sua praia do Ultraje; Dois do Legião. Eu também passei pela era das fitas cassete. Um exemplar do Concreto Já Rachou da Plebe Rude arrebentou de tanto tocar. Rolava também Léo Jaime e João Penca. Eitá anos oitenta.

Nessa época tinha um rádio gravador com caixa de som destacável, não encontrei imagem do que possuía. Mas quem lembra desse aí da foto que vinha do Paraguai?

Chega de nostálgia. Semana que vem tem mais.

*por Mozart Valle Neto (mozart.valle@hotmail.com) está nostálgico esta semana!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

OS 15 DISCOS DA MINHA VIDA



por Carlos Vinicius Rosenburg*


Na rede social Facebook está rolando uma brincadeira interessante. Você recebe uma mensagem de algum amigo em que ele lista os 15 discos inesquecíveis da vida dele, que ele conseguiu lembrar em 15 minutos e mandou para 15 amigos. A mensagem vem com instruções para você fazer o mesmo - mandar a lista para mais catorze pessoas e o remetente original. Não há ordem de preferência, apenas aquilo que você lembra em 15 minutos.

Como em qualquer lista, há injustiças, muita coisa fica de fora, acabamos esquecendo coisas que jamais deixaríamos sobrando, isso é inevitável, e aí está o grande lance da brincadeira.

Resolvi trazer a ideia aqui para o blog, mas vou ampliá-la um pouco, fazendo duas listas, uma com quinze discos nacionais, outra com 15 internacionais. O resto fica mantido: 15 minutos para lembrar e listar aquilo que primeiro vem na memória, aqueles discos que você levaria para uma ilha deserta.

Seguem as listas (não há ordem de preferência – a ordem é de lembrança):


15 NACIONAIS

1) Transa – Caetano Veloso

2) Construção – Chico Buarque

3) Secos & Molhados – Secos & Molhados

4) Espelho Cristalino - Alceu Valença

5) Fruto Proibido – Rita Lee & Tutti Frutti

6) Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas – Titãs

7) Que País É Esse? – Legião Urbana

8) Afro-sambas – Vinicius de Moraes e Baden Powell

9) Elo Perdido – Arnaldo Baptista & Patrulha do Espaço

10) Ao Vivo em Montreux – A Cor do Som

11) Clube da Esquina – Milton Nascimento & Lô Borges

12) Bora-Bora – Paralamas do Sucesso

13) Barão Vermelho – Barão Vermelho

14) Jorge Ben – Jorge Ben

15) O Rock Errou - Lobão


15 INTERNACIONAIS

1) Dark Side Of The Moon – Pink Floyd

2) The Beatles (White Album) – The Beatles

3) Led Zeppelin – Led Zeppelin

4) Machine Head – Deep Purple

5) Are You Experienced? – Jimi Hendrix

6) Disraeli Gears – Cream

7) Santana – Santana

8) Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band – The Beatles

9) Wish You Were Here – Pink Floyd

10) Benefit – Jethro Tull

11) Slade Alive – Slade

12) Vol. 4 – Black Sabbath

13) The Doors – The Doors

14) With a Little Help From My Friends – Joe Cocker

15) Exile On Main St. – Rolling Stones


E aí, gostaram? Deixem a(s) sua(s) também nos comentários – são apenas 15 minutos.

Até a próxima.


*Carlos Vinicius Rosenburg tem 38 anos, é pai de uma menina linda e sabe que esqueceu coisas fundamentais nas listas acima – faz parte da brincadeira.

domingo, 19 de setembro de 2010

As folhas que caem e nunca chegam ao chão

Uma ministra caiu, o Flamengo ganhou, e o Outono resiste derrubando as folhas das árvores. E a gente vai levando. Como disse o Chico Buarque, a gente vai levando.

Andei te procurando. Na última quarta feira, bem cedo, ainda não eram sete horas da manhã, parei meu carro na porta do Verbo Divino, e como já esta virando costume, comecei minha procura, enquanto o passado mordia ferozmente meu calcanhar.

Olhei insistentemente para o lado esquerdo do portão de entrada, pois eu me lembro que era ali que você e seus amigos costumavam ficar. Você e seus amigos, cheios de sono e hálito de pasta de dente, falando alto e olhando as coxas das meninas. Mas como todos os dias, antes que eu conseguisse achá-lo, o sinal tocou, e você e os outros sumiram em meio a tantos.

Andei te procurando, e essa saudade que tenho sentido de você, tem me feito procurá-lo e achá-lo e perde-lo por toda a cidade.

Um dia desses, te vi dirigindo sem carteira, depois te vi bebendo a sua primeira cerveja, fumando seu primeiro Hollywood.

Eu te vi na quadra do Barão de Aiuruoca, na porta de um baile no Municipal e na fila do cine Riviera. Eu te vi também, dando sua primeira trepada.

Costumava vê-lo nas madrugadas, com alguns poucos amigos, providenciando a salvação do mundo.

Outro dia, passei por você na Joaquim leite, você tinha os cabelos compridos e falava alto e gesticulava muito e parecia feliz, quando me aproximei, você atravessou meu corpo feito um fantasma de filme americano.

Para dizer a verdade, depois de tanto tempo, eu acho que não saberia sequer o que te dizer. Talvez lhe pedisse desculpas por as coisas não terem saído como você queria, ou talvez te mostrasse orgulhoso, as cicatrizes e medalhas conquistadas nestes tantos anos de guerra. Talvez não dissesse nada, porque no fundo, talvez não haja nada a dizer.

Mas tudo bem, quando as folhas acabarem de cair, chegará o Verão, que não é uma estação muito dada a saudades e melancolias.

Um bom domingo a todos


O Zeca, que por ser cachorro não sofre de melancolia, cutuca minha perna me lembrando que hoje tem Fla-Flu. Que os deuses do futebol nos ajudem.