
Jorge Couto
Continuando na nossa arenga filosófica, vamos falar dos últimos filósofos antigos e alguma coisa da Idade Média; época em que com o domínio religioso no mundo ocidental, passou-se a misturar e confundir religião e filosofia, com graves prejuízos para a última. Curioso é que esta tolice ainda persiste até os dias de hoje, como já foi demonstrado em comentários neste blog.
Os estóicos acreditavam perversamente numa Providência Divina que tudo abarcava, apesar de todos os dados em contrário, tais como a ocorrência de desastres naturais, o triunfo das injustiças e a existência de hemorróidas. Crisipo, talvez o mais proeminente, e sem dúvida o mais palavroso dos estóicos, argumentou que as pulgas tinham sido criadas por um Providente Benevolente para não deixar as pessoas dormirem demais. Os estóicos contribuíram também com alguns desenvolvimentos importantes na teoria da lógica, o que lhes permitiu formular alguns tipos de argumentos que tinham escapado a Aristóteles. Mas o aluno iniciante não deve preocupar-se muito com isso.
Os epicuristas, assim chamados em nome do seu fundador, Epicuro (342-270) defendiam que o nosso Fim era o prazer, consistindo este na satisfação dos desejos, o que era um bom começo. Mas depois deram a volta nas coisas, afirmando que isto não significava que ter muito prazer era uma coisa boa; pelo contrário, uma pessoa devia limitar o número dos seus desejos, para que assim não acabasse por ficar com muitos desejos por satisfazer — um projeto que tem como consequência uma vida miseravelmente chata (e que, a ser cumprido, implicaria a completa reestruturação das fantasias do adolescente típico). Este ponto de vista é lógico, e ainda mais divertido, e, é claro, completamente oposto àquela idéia da filosofia como a procura do Inefável e do Inatingível — a União Mística com o Criador, a Empatia Total com o Cosmos, etc.
Assim, por prazer entendemos a ausência de dor física e mental. Não se trata de beber, nem de festas orgiásticas, nem da satisfação com mulheres, rapazes ou peixe. (Extraído de Carta a Meneceu).Não sei aonde foi ele buscar a idéia do peixe, mas asseguro que está no texto.
A outra característica importante do epicurismo era a sua versão da Teoria Atômica, que era como a de Demócrito, exceto que, para preservar o Livre Arbítrio, os epicuristas defendiam que de vez em quando os átomos davam uma guinada imprevisível, causando colisões, mais ou menos como os motoqueiros nas ruas. Defendiam também que apesar de os deuses existirem, eles estão pouco se lichando para os homens porque têm mais que fazer.
A outra grande escola deste período, os céticos, não acreditava em nada. O seu fundador, Pirro de Elis (c. 360-270), não escreveu quaisquer livros (presumivelmente porque não acreditava que alguém os leria, se acaso os escrevesse), apesar de alguns céticos posteriores — inutilmente, poderemos pensar — o terem feito, sendo de notar Tímon, que escreveu um livro de sátiras.A linha de argumento principal consistia em afirmar que nenhum dado dos sentidos era digno de confiança, apesar de poder ser agradável, e que, consequentemente, ninguém podia ter a certeza fosse do que fosse. Na verdade, ninguém podia ter a certeza que não se podia ter a certeza fosse do que fosse. Para sustentar esta idéia, ofereceram algumas versões do Argumento da Ilusão, que Descartes iria usar mais tarde.
Diz-se que o ceticismo de Pirro era tal que os amigos tinham de impedi-lo, repetidamente, de cair nos precipícios e nos rios e de caminhar de encontro a carros em movimento, o que não devia lhes dar qualquer descanso, apesar terem sido aparentemente muito eficientes, pois Pirro morreu com uma idade bastante avançada. Conta-se que visitou os gimno-sofistas indianos, ou “filósofos nus”, assim chamados devido ao hábito de fazerem seminários em pêlo. Uma vez ficou tão irritado com as perguntas insistentes que lhe dirigiam em público que se despiu completamente (talvez por influência dos gimno-sofistas), mergulhou no ilusório Rio Alfeu, e nadou vigorosamente para longe, uma tática que o jovem filósofo iniciante fortemente pressionado pode considerar imitar.
Havia mais algumas escolas menores que tentavam alcançar o centro do palco, nomeadamente os cínicos, que eram os mestres do comentário sarcástico, e uma desgraça se apareciam para jantar. Um deles, Crates, era conhecido por irromper nas casas das pessoas para as insultar. O cínico mais famoso foi Diógenes, que vivia numa barrica para fugir aos impostos, e que ficou conhecido por ter uma vez dito a Alexandre Magno, com uma certa aspereza, para sair de sua frente para não lhe tapar o sol. Costumava também escandalizar as pessoas por comer, fazer amor e masturbar-se em locais públicos, quando e onde lhe dava vontade.
Pode ser útil fingir um certo afeto pelos cínicos: pouco se importavam para o que as outras pessoas pensavam deles, sendo por isso modelos da Temperança Filosófica, ou idiotas chapados, dependendo do seu ponto de vista. É irrelevante o ponto de vista adotado, mas certifique-se de que adota um qualquer.
A filosofia vagueou no mundo greco-romano sob da proteção imprevisível dos imperadores romanos, cujas atitudes para com os filósofos variavam consideravelmente. Marco Aurélio, por exemplo, foi ele próprio um filósofo; Nero, por outro lado, tinha o hábito de matá-los. A influência do cristianismo começou a se fazer sentir neste período, e a filosofia sofreu com isso.
Agostinho, que por qualquer razão bizarra se tornou um santo, apesar da sua pródiga vida sexual e da sua famosa oração a Deus (“faz-me casto — mas ainda não”) teve algumas idéias interessantes: antecipou o Cogito de Descartes (penso, logo existo; refira-se sempre a isto como “o Cogito”), e desenvolveu uma teoria do tempo segundo a qual Deus está fora da corrente temporal de acontecimentos (sendo Eterno e Imutável, não tinha outra saída), o que quer dizer que o Todo-Poderoso nunca sabe a que horas são as coisas, mais ou menos como os motoristas de ônibus.
Havia também os neoplatônicos, alguns dos quais eram cristãos, enquanto outros não, mas cujos nomes parecem todos começar por P. Os que eram cristãos dedicavam-se a mostrar que Platão tinha na realidade sido cristão, uma idéia que exige uma reorganização temporal surpreendente, para não dizer implausível. Os neoplatônicos tinham a tendência para falar de Coisas Abstratas com Letras Maiúsculas, tais como o Uno e o Ser, de uma maneira que ninguém percebia. Isto não é um problema exclusivo deles: Heidegger fez o mesmo, mas é claro que ele era alemão, e isso é o tipo de coisa que se espera de um alemão. Você encontrará talvez pessoas que cultivam alguma admiração por esta gente; não hesite em afastá-los sumariamente, especialmente Plotino, Porfírio e Proclo, apesar de poder admitir relutantemente que o último tinha umas idéias interessantes sobre Causas.
Depois disso veio a Idade das Trevas, e a chama da filosofia, como os historiadores palavrosos gostam de dizer, foi mantida no mundo árabe, e em mosteiros que ou eram tão remotos ou tão pobres que não valia a pena saquear. A pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se sobre disputas tais como se Deus era Uma pessoa em Três ou Três pessoas Numa, a natureza exata da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo).
Vale talvez a pena chamar a atenção para Córdova, no sul de Espanha, que estava ocupada pelos árabes, e que era o país natal do maior filósofo judeu, Maimônides, e do grande filósofo árabe, Averróis. Algumas pessoas dirão que o maior filósofo árabe foi Avicena, e não Averróis — mas não se renda (o dogmatismo compensa). Durante várias centenas de anos, os judeus, os árabes e os cristãos conseguiram viver todos juntos. A intolerância religiosa, apesar de ser perene, não tem sido um fato invariável da vida.
Na Europa, a filosofia começou a renascer no século XI com Anselmo, outro dos santos filosóficos, que ficou famoso por ter inventado o enganadoramente chamado Argumento Ontológico da existência de Deus, que é notável pela sua implausibilidade, pela sua longevidade, e pela dificuldade em ser refutado. É assim: pense numa coisa maior do que a qual nada pode existir; e que a sua existência é ela própria uma propriedade que torna esta coisa melhor. (Esta alegação, implausível quando aplicada à halitose e aos bebês, torna-se mais persuasiva se a entidade em questão for boa em todos os outros aspectos.) Logo, se esta coisa maior do que a qual nada pode ser pensada (i.e., Deus) não existisse, poderíamos imaginar a existência de outra coisa ainda maior, nomeadamente, um Deus existente, que teria todas as propriedades do primeiro, mais a existência como bônus. Mas nós podemos conceber este último. Logo, Deus tem de existir (Complicado? Também acho). O próprio Anselmo afirma que foi Deus que lhe enviou uma visão com o argumento pouco depois do pequeno almoço, no dia 13 de Julho de 1087, numa altura em que ele estava passando um mau momento com a sua fé. Este é assim o único grande argumento da história da filosofia cuja descoberta pode ser datada com precisão. A não ser, claro, que Anselmo estivesse bêbado.
O próximo santo filosoficamente importante foi Tomás de Aquino (1225-74), que foi responsável em grande parte pela reintrodução de Aristóteles no mundo ocidental. (Aristóteles foi delicadamente ignorado durante séculos por acadêmicos que não gostavam de admitir que não sabiam gregos.) São Tomás é também o único filósofo oficialmente reconhecido pela Igreja Católica. Tornou-se conhecido por propor as Cinco Vias para provar a existência de Deus — não tinha ficado muito impressionado com Anselmo. Você não precisa saber quais são essas Cinco Vias, mas pode talvez fazer notar que não existe qualquer diferença significativa entre as primeiras três, de maneira que Tomás de Aquino andou exagerando.
Ele é também o autor de dois argumentos interessantes contra o incesto. Em primeiro lugar, o incesto tornaria a vida familiar ainda mais infernalmente complexa do que já é; em segundo lugar, o incesto entre irmãos devia ser proibido porque se ao amor típico dos casais se juntasse o amor típico dos irmãos, o vínculo resultante seria de tal maneira poderoso que resultaria em relações sexuais anormalmente frequentes. É uma infelicidade que São Tomás não defina este último conceito intrigante. Podemos também duvidar seriamente se teve realmente irmãos ou irmãs.
Quanto ao resto dos escolásticos medievais, como são conhecidos devido à sua predileção pedagógica para o intenso pedantismo, a maioria dos mais importantes parece ter sido franciscanos. Deve-se afastar decididamente deles, ou pelo menos dos pormenores. Você pode recordar que Duns Escoto (1270-1308) era na verdade irlandês, e que era, além disso, segundo Gerard Manley Hopkins, “o mais dotado decifrador do real”, seja o que for que isso queira dizer. Outro nome que vale a pena usar é o de Guilherme de Ockham (c. 1290-1349), considerado universalmente o maior lógico medieval, e conhecido, sobretudo, pela “Navalha de Ockham”, com a qual pôs fim a séculos de filosofia hirsuta. A Navalha é usualmente citada segundo a fórmula “As Entidades não devem ser Multiplicadas sem Necessidade”, ou, melhor ainda, em latim: “Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem” (i.e., Não Inventes). O jovem iniciante ganha alguns pontos extras se comentar que esta formulação não se encontra, na verdade, em parte alguma da “oeuvre” extraordinariamente logorreica de Ockham.
Bem, na próxima semana, dependendo do resultado eleitoral e de minha paciência, falaremos sobre a idade moderna da filosofia; começando por Descartes.












