segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O deserto barramansense



por Carlos Vinicius Rosenburg*

Num dia desses, daqueles bem corriqueiros, ordinários, comuns, desses que passam e nem percebemos – acho que todos já tiveram algum dia assim, não?, bem, num desses dias eu estava dirigindo e vi uma placa grande, colocada às margens da linha de trem, que alardeava as obras da retirada do famigerado “pátio de manobras” – algum gaiato chegou e pichou “KD?”, em letras garrafais – mas isso é outra história, que merece uma coluna específica.

Naquele momento a minha cabeça foi levada para um livro que li na adolescência, quando era associado do “Círculo do Livro” (alguém lembra do Círculo do Livro?). Como associado, comprava (e lia) livros com certa periodicidade, uns bons, outros nem tanto. Alguns, porém, marcaram a minha vida. Entre eles está o belíssimo “O Deserto dos Tártaros”, do escritor italiano Dino Buzzati.

A obra narra a história de um rapaz, Giovanni Drogo, que faz academia militar, cheio de sonhos, mas ao se formar é convocado para servir em um forte isolado, em um lugar remoto, longe de tudo, de onde avistavam uma grande planície (chamada de deserto dos tártaros). Tal planície era a razão de ser do destacamento, pois havia sempre a ameaça de que os inimigos, os tártaros, atacassem a partir daquele ponto. E aí o livro se desenvolve narrando a vida do jovem oficial nesse forte, suas expectativas, a eterna espera pelo inimigo que... nunca aparece. E aí vão surgindo as angústias, o desencanto, a melancolia e a solidão. Passam-se horas, dias, meses, anos, a vida, os sonhos. Quando finalmente o inimigo surge, o já nem tão jovem oficial (com mais de 50 anos), está doente, moribundo, não pode mais lutar e acaba morrendo sozinho.

De aparente argumento militar, o livro, na verdade, trata de um dos grandes dramas humanos, a questão do tempo, do dilema de ser figurante ou assumir um papel principal em nossas vidas, de tomar as rédeas e construir, hoje, o futuro. Fala desse medo que nos cerca, de chegarmos lá na frente e, ao olharmos para trás, descobrirmos que fizemos as escolhas erradas.

E aí você deve estar perguntando: o que esse angustiante livro tem a ver com a questão do pátio de manobras em Barra Mansa? Aparentemente, nada. Mas Barra Mansa também espera por tártaros em um deserto.

Há anos, décadas talvez, Barra Mansa aguarda a chegada de seu grande dia: a retirada do pátio de manobras. E só ouvimos falar nisso. Nesse samba de uma nota só, os barramansenses são embalados por uma espécie de mantra, um discurso inebriante, um conto com inúmeros vigários. E os anos passam, a vida segue, outras cidades tocam o barco, planejam a vida, desenham o futuro, crescem sabendo que o futuro é moldado hoje. Não se apegam a um passado (nem tão) glorioso nem àquilo que não sabem se chegará.

Nossa cidade preferiu outro caminho: espera sentada o desfecho da questão do pátio de manobras. Jamais buscou alternativas, soluções ou alguma espécie de planejamento. Parou no tempo e aceitou, submissa, a posição de mero dormitório entre Resende e Volta Redonda.

Da mesma forma que no livro, é provável que o grande dia chegue e o pátio de manobras seja retirado do miolo da cidade. Mas também é muito provável que, nesse grande dia, não haja mais nada a ser feito.

A vida teima em imitar a arte.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 38 anos, é barramansense e espera que o futuro de Barra Mansa comece a ser construído hoje, com a existência ou não do pátio de manobras.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O último dia do último Carnaval ou Uma desculpa esfarrapada e surrealista para o declínio de uma cidade

O último dia do último Carnaval ou Uma desculpa esfarrapada e surrealista para o declínio de uma cidade.

Por Valério Cortez

Não me é possível precisar o dia, muito menos a hora. Talvez fosse algum daqueles instantes perdidos entre a hora passada e a hora porvir. Talvez fosse carnaval. E era carnaval. E era noite. E também era dia.

Nesta época, muito antes do início das obras, se você descesse a Mário Ramos e dobra-se a direita, iria dar de cara com o Jardim Botânico, se dobra-se a esquerda, pegaria a Avenida Nossa Senhora de Copacabana e se seguisse em frente, chegaria ao Cais do Porto.

Antes da construção do Pio XXII, ainda era possível, da Praça da Matriz, ver os Arcos da Lapa, próximos ao Parque Centenário, onde o samba se misturava as preguiças e as putas do local.

E como era carnaval, a Rosa dos Vergéis estava tomada por turistas americanos fantasiados de Super Homens, por turistas argentinos fantasiados de argentinos e por muitos e muitos caipiras mineiros fantasiados de caipiras mineiros.

Enquanto nós, que tínhamos nas veias o sangue do Barão de Aiuruoca, nos fantasiávamos de Marias Bacias, de Nônos do Reco-Reco, de Girões e Malocas.

Todos bebiam. Todos bebiam muito. Eram taças enormes de Gim-Tônica, Grapette e Red Bull, tudo em meio a uma espessa e adocicada névoa de marijuana e Lança Perfume paraguaio.

Todos bebiam e dançavam ao som do Big boy, dos Batokens, do Blue Angels, do Pôr do Sol, dos Brothers e da banda Coronel Antonio Bento.

Das enormes janelas do Municipal era possível ver O Deixa Falar, o Bar do Zé Maria, as Marrecas, o Ilha Clube, o Bar do Kalil, o Cana, a Esquina do Castelinho, o Balsa Bar, o Postinho e o Bloco do Boi, tendo a frente o Omar Careca.

E todos eram felizes, mesmo que não houvesse tanto motivo para tanto.

Mas como não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, acabou. Pois todo carnaval tem seu fim, e os homens e as cidades também.

Ninguém sabe ao certo porque nunca mais houve carnaval em Rosa dos Vergéis. Alguns acham que foi por causa das obras do Pátio de Manobras, outros, que foi por causa da passagem do Trem Bala, mas eu, sinceramente, continuo achando que nossa decadência começou no dia em que se inaugurou a Boate Porão em Volta Redonda e prosperou por todos esses os anos, nas liquidações no Sider Shopping.

Parece que depois disso, os americanos e os argentinos foram embora, há quem diga que eles nunca estiveram aqui, e os caipiras mineiros, ao que se sabe, voltaram todos para as suas Passa Vintes e Andrelândias.

Depois que tudo e todos foram embora, a Rosa dos Vergéis foi tomada de lojinhas de R$ 1,99, de Pet Shops de banho & tosa e de Estacionamentos a R$ 2,00 a hora.

E hoje, se descermos a Mário Ramos e dobrarmos a direita, iremos em direção a Rodoviária, se seguirmos em frente, alcançaremos a Dario Aragão e se dobramos a esquerda, provavelmente seremos multados.

No mais, é como disse monteiro Lobato - Aqui tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito

Como será amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Como será?...

Um bom domingo para todos

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mundo Bizarro ou nu com a mão no bolso




Mundo Bizarro ou nu com a mão no bolso
                                                                  *Por Renata Klotz


Você já viu a nova edição do BBB ?  Dá uma espiada. Pelo menos tenho certeza de que algumas risadas você vai dar. Não gosto do programa, mas o que está ali é retrato de uma nova sociedade, uma babilônia moderna. Os participantes não falam a mesma língua, mas certamente têm algumas coisas em comum. O amor à própria imagem,ao sexo e ao dinheiro fácil, isso sem dúvida está presente em todos eles.Tem diversos personagens que se dizem bissexuais,tem uma até que é tri ,seja lá o que for que isso venha a significar.

Não vim aqui falar de BBB especificamente. Não tenho preconceito contra nenhuma opção sexual, sexo é bom pra c... e dinheiro fácil também não é uma má pedida.
Mas o que me intriga é o seguinte: Por que a  excessiva liberdade está levando o homem a tamanha falta de consistência, tanto moral,quanto intelectual ? Eu gostaria de saber que diabos houve com a sociedade. Alguém pode me dizer o que aconteceu, e em que ponto perdemos o fio da meada?


Esse texto é sobre atualidades. Entro no G1 ontem e leio: Homem faz protesto por ter que esperar horas (14) pra comprar um bilhete de trem. De cueca. Um chinês de cueca na sala do diretor da estação de trem cobrando respostas.
 Parece piada pronta, mas não é, é sério.
Isso mesmo. O cara tirou a roupa e ficou de cueca pra protestar contra um estado de coisas que lhe incomodava, com razão até. Mas qual é a de ficar de cueca pra isso?

Na mesma página outros links de situações parecidas no mundo :

Por votos vereadora quer ir a reunião do partido nua. Jovem é flagrado nu em biblioteca americana. Motorista é preso após dirigir nu e praticar ato sexual ao volante. E por aí vai.

O que está se passando na cabeça das pessoas, alguém pode por gentileza me explicar?

Nessa hora lembro do meu avô. Ele dizia: demoramos tanto pra implementar as roupas no nosso cotidiano e agora vamos abolir do dia pra noite por qual razão...

Mas e principalmente, o que me intriga mais uma vez  e  preocupa é o seguinte :
Qual a razão de o apelo do nudismo estar tão forte ? Será que as pessoas entendem que só assim serão ouvidas e alguém lhes dará alguma atenção ?

Passamos de melancia na cabeça à bunda de fora...

O problema agora é que está tão banal ficar pelado que daqui a pouco pra ser notados teremos que nos vestir. O streap tease moderno será : Coloca a roupa amor,isso me deixa loucoooo!!!

  ......

Infelizmente assim prosseguimos, sem nos darmos conta do absurdo, entre mulheres frutas , bundas excessivamente expostas  e exploração do sexo cada vez mais explícita e banalizada..
Só dá pra dizer mesmo: Êta povinho bunda!

E alguns ainda se preocupam com a revista CARAS. A essa altura do campeonato Caras é literatura pra semi- intelectuais. E Renato Russo já previa...Que país é esse....
Podemos globalizar pra: QUE MUNDO É ESSE....

Pra piorar, nos despimos de tudo, inclusive de nossos valores. Parece que é a moda agora é essa. Eu, tolinha que sou, continuo achando que o clássico é melhor que qualquer moda. Principalmente nesse assunto.

Mundo Bizarro?!?  Nãoooo, você acha...?



*Essa coluna está escrita a mais de um mês. Nesse último domingo mais um exemplo dessa loucura coletiva nudista foi descrito ,na revista de domingo do Globo.O Femen, um grupo de ucranianas que fazem protestos generalizados com os peitos de fora.Inclusive contra exploração sexual. Hilariante .Ou deprimente,como queiram.


** Plagiando o Valério: Vocês têm um plano, não tem? Se tiverem, compartilhem comigo, porque o meu... já era!


***Renata está de cara com o retrato da sociedade

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

De poemas, histórias e estações

* Por Sérgio Soares

O blog segue de vento em popa. Cada vez mais diversificado, com pessoas e visões diferentes, convivendo em um ambiente de troca de ideias, confraternização e discussão, trazendo ao mundo virtual um sentido descontraído, lembrando um botequim virtual. Seja na literatura, música, cinema, política ou gastronomia, há sempre algo novo, uma história por contar.

Uma singela navegada pela internet é suficiente a demonstrar que não são assim tantos os ambientes em que podemos acessar uma crítica da biografia do Lobão, uma exposição da obra de Huberto Rhoden e uma análise da figura de Castro Alves, no mesmo local.

É natural que nem todos se identifiquem com todos os textos e autores, já que somos vários, cada qual com seus interesses particulares e personalíssimos. E talvez aí resida a riqueza desta espécie de comunicação virtual, que possibilita a filtragem e absorção de pensamentos distintos, de forma que cada um possa extrair da experiência algo de útil.

Como falamos de ideias, fecho essa reflexão de hoje na ilustre companhia do paraibano Augusto dos Anjos, conhecido pela métrica precisa aliada ao vocabulário científico, originando espécie de poesia quase musical. O poeta, vitimado pela pneumonia, morreu precocemente aos 30 anos de idade em Leopoldina/MG, deixando um único, mas precioso livro, intitulado singelamente de “Eu”, publicado em 1912.


A IDÉIA

“ De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.”



* Sérgio Soares é barramansense e sempre que pode faz questão de embarcar nessa estação.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Eu tô voltando pra casa

Podem me chamar de Tande. Faz alguns anos – não lembro quantos, exatamente – tendo no bolso poucos trocados e nada de interessante pra fazer em Barra Mansa, achei por bem cair no mundo e tentar a sorte em outras bandas. Confesso que não deixei muita coisa pra trás. Alguns parentes malucos, alguns amigos que nem sempre conseguia encontrar e algumas lembranças boas de um tempo que já havia passado. “Eu sou aquilo que perdi”. A frase de Fernando Pessoa costumava me consolar nos raros momentos em que essas memórias me acertavam. Mas, ultimamente, elas retornaram com força. E me acertaram em cheio.

Descobri o Estação por acaso, através de um comentário que li em outro blog. E, pra minha surpresa, a leitura dos textos e seus autores me fizeram voltar a lugares que eu já havia esquecido. Como aprendi com estes caras.

Aprendi a ser mais cara-de-pau com o Alex, ao lembrar dele, com cara de triste, dizendo a quem debochava do seu buraco no cabelo que aquilo era seqüela de um acidente de moto onde sua namorada havia morrido.

Aprendi a debater e a raciocinar melhor com o Bujão. Uma das melhores cabeças da minha geração. Se o Buja fosse grego e tivesse vivido a dois mil anos atrás, a gente ia ver umas estátuas mais redondinhas por aí.

Aprendi o que é deboche e sarcasmo com o Boi, nas brincadeiras do pátio ao lado da casa dele.

Aprendi a confiar mais em mim, vendo o Geraldinho rompendo barreiras e abrindo portas que pareciam lacradas.

Aprendi com o Mozart a vencer a timidez e a tratar todo mundo com carinho.

Aprendi a ser mais coerente e objetivo vendo o Jorge Couto expondo sua opinião nas intermináveis reuniões do PT.

Aprendi a gostar mais de música, vendo o Figurótico, ainda criança, tocando e aturando as manias de Geraldinho e Dario.

E ainda aprendi a arte de vender, sendo convencido pelo Júlio da Gless a comprar as roupas mais caras da loja pra impressionar minhas antigas namoradas.

Caramba, ainda tem muito mais. Mas, enfim, vou ficando por aqui. Muito obrigado pelo convite. É uma honra poder estar aqui com vocês. Acho que embarquei nesse trem e, de certa forma, eu tô voltando pra casa.

Tande Vieira é sociólogo e está fora de Barra Mansa há quase quinze anos. Mas Barra Mansa ainda está dentro dele.

Abri a porta......apareci..... a mais bonita .... sorriu para mim.......


Caros amigos,

nossos novos colunistas das quintas-feiras ainda não apareceram no blog - sentimos muito, pois aguardamos ansiosos os seus textos.

Porém, sempre há o lado bom da história: teremos o prazer de ler mais um belo texto do querido amigo e colaborador eventual Luiz Correia, sócio-proprietário do Estação BM.

Aproveitem o (belo) texto.

Abri a porta......apareci..... a mais bonita .... sorriu para mim.......

por Luiz Correia*


Voltando da praia no sábado parei para um lanche no boteco. Um lanche rápido de cervejetariano. Afinal carnes e gorduras fazem mal a saúde, principalmente refrigerantes.

Vejo uma pessoa vindo de bicicleta com cara familiar que para e entra na casa lotérica ao lado do boteco. Era o Dadi, baixista da Cor do Som.

Não resisti e fui conversar com ele.

No fim dos anos 70 ou início dos 80, não importa, fui ao show da Cor do Som no teatro Ipanema. Bom lugar para shows na época, pequeno com lotação limitada e principalmente muitas garotas bonitas.

No final do show, antes da música derradeira, anunciaram que iam jogar para a platéia a capa do disco da banda (não lembrava quem jogou e o Dadi me disse que foi o Gustavo

baterista). Quem pegasse a capa iria ao camarim pegar o disco e os autógrafos da banda. Toda platéia se levantou e ficaram com as mãos para o alto, não era assalto, todos queriam pegar a capa, com o disco e os autógrafos.

Estava no meio do teatro, quando vi aquela quantidade de mãos na minha frente e ao meu lado o Ivimar (Bolão), o dobro do meu tamanho, desisti e sentei. Sem chances de disputar esta capa.

Fiquei sentado, e em um momento muito rápido a capa do disco caiu em meu colo. Sim, no meu colo, sentado na cadeira. O Ivimar tentou questionar que tinha batido na mão dele antes de cair no meu colo. Só fiz colocar as duas mãos sobre a capa do disco e dizer - “É meu”.

Fui ao camarim pegar o disco e todos da banda autografaram . Fiquei com o disco muito tempo e de tanto o Ivimar me encher o saco, acabei “empresdando” o disco a ele.

Na saída do show encontrei a Cris, que só conhecia de vista. Nos falamos formalmente e ela me deu um sorriso. Ela sorriu para mim e hoje a chamo de minha linda. Namoramos seis anos e fizemos agora em janeiro 25 anos de casados.

Como diz meu amigo Afonso, “ A vida é Bela “.

*Luiz Correia escreveu este pequeno texto com saudades da minha linda que está viajando e ouvindo Gentle Giant.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Eppur si muove

Por Jorge Couto

Durante as últimas décadas os senhores do mundo se empenharam em convencer o restante do planeta que se vivia no melhor dos mundos. Uma nova ordem mundial, mais justa e com oportunidades para todos, tinha nascido. Com entusiasmo estes senhores anunciaram que com a globalização, finalmente, a humanidade atingia o ápice de seu desenvolvimento. Até o fim da história chegaram a proclamar. A nova ordem guiada pelo deus mercado tudo resolveria. Fronteiras nacionais eram coisas do passado. As grandes empresas transnacionais engolfaram todo o mundo. A nova “ética” era a do lucro a qualquer preço; com ela substituiu-se a solidariedade, a utopia e o sonho de um mundo mais justo e humano pelo salve-se quem puder. Através do planeta se viu surgir governantes que nada mais eram (são) que gerentes locais dos grandes interesses econômicos internacionais. Por todos os lados brotaram os Menens, os Fernando Henriques, os Fujimores, os De la Rua, a maioria deles eleita em eleições “democráticas” com o apoio de uma mídia subserviente aos interesses do mercado financeiro nacional e internacional, e sempre de costas para as populações locais. Estes gerentes venderam as riquezas nacionais de seus países, promoveram uma política de arrocho salarial e desemprego em massa, de acordo com o receituário da Santa Trindade do Mal (FMI, Banco Mundial e Organização Internacional do Comércio), empobrecendo ainda mais populações já tão sofridas. Onde havia resistência os senhores do mundo lançaram mão de governos autoritários e cruéis, transfigurados em amigos do mundo “livre e democrático”, ou de guerras brutais com massacres de populações civis. Com o auxílio da mídia, correia de transmissão da moral e interesses dos senhores globais, povos inteiros foram reduzidos a condição de semi-bárbaros. No dizer desta mídia, os árabes são um povo despreparado para a democracia, com tendência ao fanatismo islâmico, gerando pencas de terroristas prontos a se imolarem por Alá e destruir a civilização ocidental e cristã. A América Latina é uma região de analfabetos e imbecis, onde se gera ditadores cruéis e populistas, que também ameaçam as ações das bolsas de valores. A África...ora, a África. Portanto, nada mais justo que serem mantidos sob a tutela do mundo livre, democrático e cristão e tudo ficaria como sempre foi, ou não ficaria?

Depois de tanta violência,bombas e mentiras, para a surpresa de muitos, surgiram revoltas e governos contrários ao receituário do grande capital. Bolívia, Venezuela, Equador, Chile, Argentina, Paraguai, Brasil elegeram governos populares. Cuba resistiu a todas as agressões. O povo Palestino continuou na sua luta pelo direito de ter uma pátria. Distúrbios sociais surgiram nos subúrbios de capitais européias. Criou-se o Fórum Social Mundial - sistematicamente menosprezado e boicotado pela grande imprensa - reunindo sindicalistas, ecologistas, movimentos das ditas minorias, etc, como um contra-ponto as reuniões dos milionários e governantes das potencias mundiais, estas sim, merecedoras das mais amplas e simpáticas coberturas midiáticas. A farsa do mundo globalizado caiu por terra com a crise econômica de 2009, pondo a nu o verdadeiro cassino que o neoliberalismo transformou o mundo.

Agora a história prega mais uma peça nos senhores do mundo. O mundo árabe explodiu. É de se rir assistir o malabarismo verbal que os governantes das potencias mundiais se vêem forçados a fazer para tentar explicar o que está acontecendo. Como explicar ao distinto público que os governos amigos do mundo árabe são odiados por seus povos? Claro, a imprensa mundial,incluindo a nossa intrépida mídia nacional, vocalizando os poderosos do mundo, tenta ainda, como último recurso, agitar o fantasma do fundamentalismo religioso e seus perigos (fundamentalismo islâmico, é claro. O fundamentalismo cristão ocidental de um George W. Bush ou de um Tea Party, nada tem de perigoso ou condenável aos olhos desta gente). Mas não é o que se vê na realidade. A revolução que varre os países árabes tem se caracterizado pelo ecumenismo. São manifestantes,jovens em sua maioria,que protestam e exigem liberdade e uma vida com mais dignidade, o direito de trabalhar, ter saúde, educação, etc. O que não é dito pela mídia é que no fundo esta revolução é consequência da política neoliberal adotada por estes países nas últimas décadas, que só fez empobrecer, alienar e brutalizar estas populações.

Os senhores do mundo de tudo fizeram para nos convencer que nada mais aconteceria; usaram de todos os recursos para nos fazer crer que a história estava morta e nada mais se moveria para a mudança.

Conta a lenda que Galileu para escapar do Santo Ofício da Igreja Católica, após ter renegado a teoria de que a terra se movia ao redor do sol, teria murmurado para si mesmo “Eppur si muove”, ou seja, no entanto ela se move. É isto senhores do mundo, como disse o saudoso Cazuza: - O tempo não para.


Jorge Couto - É médico, botafoguense e criador de caso.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

The Englishman in New York - De volta às origens



por Geraldo Costa*

Se me perguntarem se eu tenho inveja de alguém, a resposta é fácil (e há muitos anos): Mr. Gordon Sumner, mas conhecido como Sting. Bonito, charmoso, culto, multinstrumentista e um dos músicos mais criativos da música contemporânea.

Desde o final do início dos anos 80, acompanha sua carreira e a sua vida. Bem, mais por que estou escrevendo sobre ele agora?

Ontem, após chegar de mais uma viagem cansativa de trabalho, deitei no sofá e “zappeando” na TV à cabo, me lembrei que tinha programado para gravar na noite de natal um documentário do Sting. Nem sabia qual era o assunto. Mas se era Sting, me interessava.

Pois bem. Descubro que o tal documentário é uma entrevista e um “making off” da gravação do seu último CD / DVD: If On a Winter’s night…

O projeto é uma encomenda da gravadora. Inicialmente era sobre o natal, que ele transformou sobre o inverno, que nas memórias dele, incluía o natal, obviamente. Estamos falando de um cidadão inglês.

Ele misturou música clássica, folclórica e sacra. E os músicos idem. Uma harpista escocesa, um percussionista marroquino, um violoncelista francês, uma backing dos Rolling Stones, um gaitista de foles, um nerd que toca melodeon (uma outra espécie de sanfona de oito baixos) e Dominic Miller - velho parceiro, que ele define como seu braço direito e esquerdo há mais de 20 anos. Uma babel de criativos, reunidos e comandados por Sting.

O show foi realizado em Wallsend, sua cidade natal. Gravou na medieval Catedral de Durhan. Enfim voltou às origens.

Anda pelas ruas da sua cidade com o produtor musical do CD, cujo primeiro nome é Bob. Um maluco identificável já na primeira cena.

Pra não me alongar vou citar só duas histórias. A primeira ele andando por uma feira de rua e em uma banca de livros (olha a diferença) encontra um com uma biografia dele não autorizada. Hilário.

A outra cena, emocionado e contemplativo, ele literalmente viaja no tempo em um típico pub inglês, chamado “The Ship Inn” - o primeiro lugar onde tocou. A primeira banda... Hoje, senhores cheios de cabelos brancos. Uma banda de jazz tradicional, cujo trombonista lhe deu o famoso apelido. Aí, lá mesmo, ele decide que à noite iria fazer uma apresentação naquele minúsculo palco daquele decadente estabelecimento. Imaginem... Uns 20, dos 30 músicos do projeto. Maravilhoso.

Mais uma vez, Sting, como sempre, está com visual diferente. O camaleão está com uma barba bem razoável, que lhe deu uma aparência mais velha e serena.

Senhores e senhoritas. Amanhã saio a procura do meu exemplar do CD / DVD: If On a Winter’s night… nas melhores (e cada vez mais raras) casas dos ramo. É a minha sina.

*Geraldo Costa é músico e no dia 08 de dezembro de 2007 – seu aniversário, assistiu no Maracanã, o show do The Police.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Meu nome não é johnny

É Valério. Valério Cortez. Além de não ser o Johnny, também não trago a pessoa amada em três dias. Levo seis ou sete. Sou meio lerdo. Tão lerdo que até agora não tenho a mínima idéia sobre o que escrever para amanhã.

Não sou o Johnny mas também não sou Heleno Guanabara.

Digo isso, porque ta rolando no Facebook, uma lista de apostas para ver quem acerta a verdadeira identidade do nosso companheiro Heleno Guanabara. Conforme eu já disse acima, não sou o Heleno, na verdade, acho que o Heleno é o Heleno mesmo. Mas, todavia, como todo mundo acha que o Heleno não é o Heleno, resolvi meter minha mão nessa cumbuca e dar um palpite também.

Eu acho que o Heleno Guanabara é aquele velho safado que fica toda manhã ali perto do Parque das Preguiças, com um espelhinho amarrado no sapato, para ver a calcinha das meninas que passam de vestido. Pronto, votei.

Mas, até que me provem o contrario, o Heleno é o Heleno mesmo.

Pois bem, daqui a algumas horas já vai ser domingo novamente, e a semana vai terminar – terminar ou começar? – junto com o término do horário de verão, na verdade, termina o horário de verão, mas não termina o verão. E assim, a partir de amanhã, passamos a ter mais uma hora para sentir calor.

Além do término do horário de verão, outro fato a se registrar, é que estaremos inaugurando uma nova temporada aqui no Estação. Com novo formato, novos colaboradores e com a velha e generosa paciência e compreensão de vocês.

Organizamos uma nova escala de dias e pessoas. Passamos a ter dois cronistas por cada dia da semana. Eu caí no domingo. Portanto, a partir de amanhã, passo a dividir o domingo comigo mesmo, pois meu parceiro, o Figurótico, ainda não foi liberado pelo departamento médico. Mas tudo bem, sou geminiano, mesmo que isso não queira dizer absolutamente nada.

Para finalizar, o genial Pablo Neruda, dizia que "Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca idéias." Simples não? Mas parece que hoje, infelizmente, eu só tenho em meu bolso a letra maiúscula e o ponto final.

Um bom domingo a todos e todas.


Corações e mentes

Parece que o Heleno Guanabara vem realmente conquistando corações e mentes em nossa cidade. Tanto é que rolou na noite da ultima 6°feira, no Fronteiras, o 1° Grande Encontro dos Amigos do Heleno Guanabara, subseção Barra Mansa. Presentes diversos escribas, comentaristas e amigos do Estação BM.

Para decepção de todos, o Heleno não apareceu, mas enviou um telegrama (isso mesmo, ele ainda se comunica através de telegramas) se desculpando e confirmando o envio de um novo texto seu, para a publicação na próxima 4°feira.

Valeu Heleno.

Choveu na minha horta

Nosso amigo Serginho, de passagem por Barra Mansa para o encontro dos amigos do Heleno na sexta, me presenteou com uma caixa de 4 garrafas de cerveja, da famosa cervejaria Backer de Belo Horizonte. Uma Pilsen, uma Pale Ale, uma de trigo e uma Brow com aroma de chocolate. Cerveja com aroma de chocolate é brincadeira.

O único problema é que eu estou com pena de bebê-las.

Valeu Serginho.

Abraços e beijos

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Esse sou eu: Heleno Guanabara


Minha vida tem sido frenética nesses dias de Barra Mansa (desculpem o trocadilho). Faço xixi às 6h, cocô às 6:15 e às 6 e meia eu saio da cama. Barra Mansa não tem me deixado dormir nem escrever posts para o Estação BM.

Por conta disso, e também por saber que ganhei novas leitoras (e alguns leitores), vou colocar meu texto de apresentação, quando entrei no blog, para que as meninas que leem o blog possam me conhecer melhor.

Na próxima quarta estarei aqui, na desagradável companhia do Sr. Jorge Couto - quem me colocou no mesmo dia desse homem?

Alguém quer ir ao bar do Tomás?



Guanabara agora é aqui


*por Heleno Guanabara



Primeiramente, gostaria de desejar a todos um bom dia.

Meu nome é Heleno Guanabara, mais precisamente Heleno Guanabara de Viveiros. O Heleno é uma homenagem de meu pai, ao grande jogador de futebol Heleno de Freitas; o Guanabara é uma homenagem de minha mãe ao estado da federação onde fui concebido – segundo ela – e nasci; e o Viveiros é o preço que pago pelos idiotas dos meus pais terem vindo de Portugal.

Providas as necessárias apresentações, pulemos ao que realmente interessa e nos trouxe a bordo.

Quando das tratativas que mantive com o interlocutor deste blog, o Sr. Carlos Vinicius Rosenburg, apressei-me em tomar conhecimento dos temas mais ao gosto de seus participantes e afiliados e, evidentemente, como se faz necessário, coloquei minhas condições sem as quais não poderia aceitar o convite.

Das condições tratarei mais adiante, pois neste momento pretendo externar minha opinião sobre alguns dos temas que tenho visto serem mais recorrentes neste blog.

Futebol – Como nasci na Rua Campos Sales, na Tijuca, tornei-me ainda criança um ferrenho torcedor do América Football Club, o Diabo Rubro, que atualmente ocupa a segunda posição do Brasileirão (Série D), atrás apenas do Uberaba-MG. Sobre a seleção brasileira e a copa do mundo, acho que o Dunga estava certo, sem disciplina e comprometimento nada é possível. Acho que ele apenas errou ao confiar tanto em um atleta que, a olhos vistos, mostrou comportamento totalmente divorciado da postura viril exigida para integrar o escrete brasileiro, aquele tal de Kaká. Nas palavras de Maria da Gloria: “Ô nhô Leno, pricisava di tê mais gente nesse timi qui nem o Felipe Melo. Quiria vê só.”

Música – Adoro todos os ritmos, das guarânias e maxixes aos clássicos, passando pelo Rock and roll, sendo que este, em minha abalizada opinião, após seu apogeu, morreu junto com Bill Haley & his Comets. Gosto muito da música popular brasileira, apesar de repugnar esse antro de pederastia e sapatose.

Política – Sou, na essência, um liberal e tenho como grande ídolo político, Toninho do Posto, vereador de Porciúncula, cidade onde eu tenho um pequeno sitio de lazer, onde realizamos reuniões políticas com algumas desinibidas moças de uma cidade vizinha, que por vezes se deixam levar pelos transportes da carne e outras extravagâncias, mas sem nunca perder o foco na porneia que move o atual cenário nacional.
Quanto ao país, entendo que o Brasil está indo bem, porém acho que se o Lula ainda estivesse de macacão e espremendo seus dedos na prensa de uma metalúrgica, teríamos mais chance de sair do lodaçal antes do final deste século.

Literatura – Sou um homem de letras, leitor contumaz e escritor compulsivo. Tenho 14 livros publicados: um de poesias (Girândolas do Coração); um de contos (Um Conto no Canto); um de biologia e reprodução (O Difícil Coito do Bicho Preguiça no Parque Centenário); cinco sobre posições sexuais para sexo entre normais (Do papai e mamãe ao Cabana do Pai Tomaz, com ênfase na Gravata Chinesa); cinco sobre sexo exótico (Na busca do prazer vale tudo, cães, metazoários e botafoguenses); e, finalmente, minha autobiografia não autorizada, onde, dentre muitas histórias, apresento minhas razões sobre os cinco absurdos processos a que respondo por tentativa de homicídio contra minha ex-consorte. Sou covardemente processado e a piranha continua me corneando por aí.

Quanto à questão das minhas exigências para me incluir no panteão de colunistas fixos deste blog, acreditem, são bem menores do que a de qualquer popstar juvenil sertanejo de 5° categoria.

Por exemplo:

Não posso precisar com exatidão o horário de minhas postagens, pois como não manuseio o computador, dependo da Maria da Glória, minha empregada, que entre outras atividades, digita e envia meus textos manuscritos.

Exigi também que o blog não tivesse dentre seus membros, pessoas com desvios de conduta de caráter sexual, pois apesar de ter um filho arquiteto e uma filha que toca atabaque na banda da Mart’nália, possuo absoluta dificuldade de me relacionar com viados, sapatões e adjacências. No meu tempo, GLS era o melhor modelo da série e mais nada.

O Sr. Carlos Vinicius me assegurou que não existem pessoas com tais desvios neste blog, apesar das desconfianças – palavras dele – que pesam sobre um colaborador de uma cidade vizinha, Barra do Piraí, se não me engano.

Exigi também que eu não fosse arguido a respeito do término do “Blog dos esquisitos”, sobre o qual pretendo falar uma única e derradeira vez: as divergências começaram no futebol, avançaram pela política, adentraram a sexualidade dos participantes e terminaram em porradaria. Fomos tirados do ar e ponto final.

Acredito ter sido satisfatório este nosso primeiro encontro, em que tive a oportunidade de introduzir em vocês uma pequena parte do meu vasto e principalmente largo conhecimento. E foi gostoso, podem acreditar. Foi bom para vocês?

Quanto as minhas opiniões sobre católicosmuçulmanosejudeus, Belchior, os meninos da Vila, Caetano Veloso, Cerrate e Mumia Abu-Jamal, o bom senso recomenda que eu as guarde para mim.

Até o próximo sábado.

Obs. As questões relativas à remuneração e direitos autorais, tratarei diretamente com o Sr. Carlos Vinicius.

*Heleno Guanabara é funcionário público do estado (aposentado a bem do serviço público), escritor e poeta de rua, ponta direita e atualmente faz um bico aos sábados** no EstaçãoBM.

** A partir da próxima semana, às quartas.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Todo carnaval tem seu fim"



*Por Sérgio Soares

Puxo pela memória e não me recordo quando deixei de gostar de carnaval. Ao menos desse carnaval que vendem na TV como a maior festa popular do mundo, repleto de excessos, longe daquele carnaval dos sambas, marchas, bonecos populares.

Na época dos meus vinte e poucos anos, parafraseando o Fábio Júnior, o cantor romântico pai daquele menino esquisito de nome esquisito, e não o jogador de futebol que hoje desfila seu talento no América-MG, lembro de ter vivido ao menos dois carnavais na esbórnia, como diria o Figurótico. Um deles foi em Conceição de Jacareí, norte do Espírito Santo. Tinha 21 anos e até atrás de trio elétrico eu fui (embora à distância, pra ser sincero). O outro foi em Andrelândia/MG, época em que eu gostava de parar o carro na rua e ligar o som, ficar por ali curtindo. Essas coisas que a gente faz quando é bem jovem e depois que envelhece parece que se esquece e adora criticar quem faz. Bom, pensando bem, na minha época eu ouvia Bob Marley, Peter Tosh e Barão Vermelho. Não me recordo de algum CD do Garota Safada, Calcinha Preta ou Deise Tigrona no meu carro. Ah, mas os tempos eram outros diriam alguns. Certo. Tempos melhores. Sabe aquela conversa do Lulu, de que eu vejo a vida melhor no futuro, tá difícil de acreditar meu caro, especialmente quanto à música...

Pois bem, deixe-me voltar pro Carnaval.

Todo ano é a mesma coisa. Alguns canais de TV fazem a cobertura em tempo real dos acontecimentos. É tudo tão bem feito que você se sente até constrangido de não achar o máximo aquele povo espremido sob um sol escaldante, se empurrando atrás de um trio elétrico em Salvador pra curtir o último grande artista do momento com sua extravagante música que, invariavelmente, será referente a: a) uma nova dancinha; b) uma nova palavra especialmente inventada para ser repetida à exaustão; c) um exercício aeróbico disfarçado de música; d) uma porcaria qualquer embalada pelo pavoroso “tira o pé do chão galera”; e) uma esculhambação com as mulheres; f) todas as respostas anteriores.

Vejam bem. Não tenho preconceitos quanto à música. Na verdade sou muito eclético. Minha coleção de CDs (sim, ainda sou daqueles que compram vários CDs por mês) tem de tudo: rock, blues, jazz, pop, samba, MPB, reggae. Em minha estante Miles Davis convive numa boa com Almir Sater. Bob Marley troca figurinhas com Michael Jackson, enquanto Mick Jagger canta sua satisfação para Paulinho da Viola, observado por Muddy Waters. Tudo numa boa, sem conflitos. Gosto de música, não de rótulos. Há hora pra tudo. Só não gosto de música ruim. Essa me dá calafrios.

Há alguns anos um casal de amigos viveu uma temporada em Salvador. Acharam o máximo. Certa vez esta minha amiga revelou o que foi para ela um dia de felicidade no carnaval baiano. Foi mais ou menos o seguinte: “Aí Serginho, tava bom demais. Primeiro entrou o Harmonia do Samba, depois o Tchan, ainda veio o Chiclete com Banana. A Ivete também estava lá. Tudo lotado, o povo pulando, calor, sol...” Não me lembro bem se os artistas eram exatamente esses (no fundo no fundo são quase todos iguais, já que exceções como o Olodum apenas reforçam a regra). Fiz questão de não registrar com perfeição o teor da conversa. Mas o engraçado foi o comentário de outro amigo que acompanhava de perto o diálogo, o João Carlos, ou Professor JC para seus alunos, que do alto de sua sabedoria emendou: “Isso não é carnaval. Isso é a visão do inferno!”. Boa João, muito boa.

Na verdade, o que percebo hoje no carnaval é que muitas pessoas o encaram como uma desculpa para a liberação dos mais primitivos e atrasados instintos, como se nessa época tudo fosse lícito. Ora, marmanjos agarrando meninas à força em meio à multidão pra mim não é diversão. Pra mim é crime. E não me venham com a historinha generalizada de que se a moça está lá é porque tacitamente concorda com isso. Isso é inversão de valores, típica tática defensiva que comigo não cola. Ela é a vítima. Sua vontade deve ser respeitada onde quer que esteja.

Posso estar parecendo um pouco ranzinza, desgostoso com o carnaval. Não é isso, gosto de assistir os desfiles do sambódromo (já estive lá pessoalmente), ouvir um sambinha, assistir às manifestações culturais, os bonecos de Olinda e coisa e tal. O que não gosto é do clima de liberou geral, pode tudo e que cada vez mais parece tomar conta do carnaval. Diversão pra mim deve vir acompanhada de responsabilidade. Se puder rolar um churrasquinho, uma cerveja gelada e um rock ‘n’ roll, melhor ainda.

Sérgio Soares, 37, vai curtir o carnaval ao lado da família e amigos. Esse ano vai controlar seus instintos e não vai atrás do trio elétrico.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Guerrilheiro do Absurdo



Guerrilheiro do Absurdo

por Geraldo Costa*


Nos últimos meses tenho lido muitas biografias de músicos ou livros sobre música. Puxando na memória, citaria os livros de Nelson Mota: Tim Maia e Noites Tropicais, Eric Clapton, Sting, Barão Vermelho, RPM, Simonal e Keith Richards.

A instantes, terminei de ler a autobiografia do Lobão: “50 anos a mil” e quis dividir minha opinião com os nobres leitores do EBM.

Fiquei com dois sentimentos distintos: um que ele é muito corajoso em se expor tanto e outro mente descaradamente em algumas passagens – completamente inverossímeis, como a da morte de sua mãe.

Lobão fez e faz parte do meu DNA musical e de toda a minha geração. Como todo adolescente, adorava toda a sua iconoclastia, sua rebeldia contra tudo que estava de pé. Como ele disse certa vez: “derrubar tudo para ficar estável”.

Desde o seu primeiro LP – Cena de Cinema, Lobão carrega a pecha de encrenqueiro, maluco e maconheiro, o que ele orgulhosamente (ao que parece) sustenta até hoje.

O livro narra - sob a ótica da excentricidade de Lobão, uma sucessão de equívocos, agressões verbais e físicas, drogas, sexo, prisões, tentativas de suicídios, sucessos e fracassos.

Pra quem também viveu muito acelerado aquela época, “50 anos a mil” contem histórias saborosas. Da formação da Blitz e da Gang 90, passando pela implicância com Herbert Vianna do Paralamas, as gravações dos seus discos e os encontros com Elza Soares e Nélson Gonçalves.

Mas pra não me alongar muito, vou destacar só quatro:

A primeira é a história do grupo Vímana, contada por um de seus integrantes. E olha que alguns dos outros componentes eram só o Ritchie e o Lulu Santos. Uma aula de Rock Brasil.

A segunda é a maneira fracionada que ele compôs “Me Chama”, um dos hinos de uma geração e que chegou a ser regravada por João Gilberto.

A terceira é a relação dele com Cazuza e Júlio Barroso. Dois poetas muito loucos e muito criativos. É aquela velha história: gambá cheira gambá...

E a quarta, contada e comentada pela Maria Juçá – uma das fundadoras do Circo Voador, é o dia que ela apresentou Lobão ao Raul Seixas em um show do Marcelo Nova - o “Marceleza” do Camisa de Vênus. Imaginem os três no palco...

Enfim, “50 anos a mil” é uma leitura prazerosa que mexe com a memória de quem tem mais de 30 ou seria 35 anos? Uma narrativa “de uma intensa e tempestuosa existência”.

Obrigado e vida longa ao grande lobo.

*Geraldo Costa é músico e já viveu a mil por alguns anos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um brinde ao novo formato do Estação BM



Caros amigos,

finalmente conseguimos fechar a grade de colunistas do Estação BM. Serão 14 pessoas escrevendo, duas para cada dia da semana, que se alternarão e, eventualmente, poderão ocupar o mesmo dia.

Assim, esperamos que o blog ganhe em qualidade e visibilidade. Mas tudo isso depende de vocês e de sua participação, opinando, elogiando, criticando e, também, colaborando com textos.

Segue a lista de colunistas e o novo formato, que terá início no próximo domingo, dia 20/2/11.

Um brinde ao novo Estação BM!

Domingo

Valério Cortez (1o e 3o)

Figurótico (2o e 4o) - Figurótico, por questões de saúde, está licenciado do blog.

Segunda

Carlos Vinicius Rosenburg (1a e 3a)

Geraldo Costa (2o e 4o)

Terça

Júlio Monteiro (1a e 3a)

Camila Cací (2a e 4a)

Quarta

Heleno Guanabara (1a e 3a)

Jorge Couto (2a e 4a)

Quinta

Marcos Carvalho (1a e 3a)

Alexandre Sérgio (Tande) (2a e 4a)

Sexta

Sérgio Soares (1a e 3a)

Dielena (2a e 4a)

Sábado

Renata Klotz (1a e 3a)

Flavinha Porto (2a e 4a)


Esperamos que gostem.

Leiam, opinem, comentem, escrevam. Embarquem no Estação.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Mágica no absurdo


















por Carlos Vinicius Rosenburg*


Eu sou o tenebroso, o irmão sem irmão,
O abandono, inconsolado,
O sol negro da melancolia

(El Desdichado** – Lobão)


Sexta-feira, Lobão no Circo Voador. Já havia decidido que não iria mais. Calor desumano, trânsito caótico, problemas para resolver, sei lá, deve ser a tal crise dos 38 anos que o Valério retratou ontem aqui. Mas aí aconteceu uma coisa que mudou tudo isso. Algo que, à primeira vista, não possui qualquer ligação com um show de música pop: Hosni Mubarak havia caído no Egito.

O Cairo tomado pelo povo, a derrubada de um regime ditatorial, marionete de EUA e Israel. A praça Tahri cheia, velhos, crianças, todos em êxtase, um momento mágico. Absurdamente mágico.

Não, eu não poderia deixar de ir ao show. Não agora. Lá, naquela terra mítica dos faraós e pirâmides, no centro do mundo, o povo clamava por liberdade. Do outro lado do planeta, a pouco mais de 100 quilômetros da minha casa, um autêntico artista gritaria, mais uma vez, por sua arte.

Show perfeito, no lugar perfeito (quem já foi ao Circo Voador sabe do que estou falando). Repertório impecável, banda enxuta (duas guitarras, baixo e bateria), plateia ensandecida. Mais um momento mágico na sexta-feira. Arte pura, arte que incomoda, coloca o dedo na ferida, fala verdades indigestas. Arte que faz com que o artista sofra, seja execrado, deixado de lado, reprimido pelo Estado, taxado de louco, bandido, egocêntrico. Mas a arte é feita, principalmente, para emocionar. E Lobão fez/faz isso. Compositor muitas vezes subestimado, autor de pérolas como “Me Chama”, “Mal Nenhum” e “A Queda”, instrumentista de mão cheia. Artista verdadeiro, daqueles que não se vendem por qualquer troco das teles ou do dinheiro do contribuinte.

Marcelo Yuka, ex-O Rappa, estava lá e viu tudo isso. Subiu ao palco numa cadeira de rodas, deixando muita gente com os olhos marejados – Lobão, inclusive. Yuka pegou o microfone e disse apenas que estava feliz por estar ali, diante de um verdadeiro... artista. Valeu o ingresso.

Ao voltar para casa, fiquei pensando na imensa quantidade de Lobões que são reprimidos em seus próprios países, por ditaduras cruéis, por homens que se perpetuam no poder, se autoproclamam enviados de Deus. Voltei a pensar no Egito, em seu povo, seus artistas, personagens sempre odiados por ditadores. Torço para que possam mostrar sua voz e escolher seu destino, sem interferência de quem quer que seja (EUA, Israel ou Liga Muçulmana). O direito de escolha tem apenas um dono: o povo.

11 de fevereiro de 2011: dia de momentos mágicos, pura mágica. Mágica no absurdo.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 38 anos e acha que infeliz é quem está triste no meio dessa confusão.

**Letra inspirada no poema "El Desdichado", do poeta francês Gérard de Nerval - tradução de Manuel Bandeira.

(Link para o vídeo de "Me Chama", no show de sexta-feira, no Circo Voador -http://www.youtube.com/watch?v=2kgf6A34aTo ).

domingo, 13 de fevereiro de 2011

No bonde da meia-idade

Por Valério Cortez

Parapapapapapara. Lalalalalalalala. Acordei com uma música na cabeça, ou melhor, com um fiapo de música na cabeça, pequenos fragmentos de uma canção, um ou dois acordes, duas ou três frases soltas. Mas que porra de musica é essa?

Segundo estudos e pesquisas desenvolvidas na universidade de Kent, na Grã Bretanha, a juventude termina aos 35 anos e a terceira idade começa aos 58 anos. Há estes 23 anos que separam as duas fases, chamamos de meia-idade. Tenho lá minhas dúvidas.

Dizem que a meia-idade se inicia quando você começa a esquecer o nome das pessoas, depois o rosto delas e finalmente de fechar o zíper de suas próprias calças.

É muito comum associar-se este período de nossas vidas, a uma serie interminável de crises, existenciais, psicológicas, hormonais, dos 30, dos 40, dos 50 anos e, sobretudo, a temida crise do espelho. Você se lembra que quando era criança ficava fazendo caretas na frente do espelho, pois é, agora chegou a hora da vingança dele.

Para quem não sabe, espelho é aquele lugar onde mora um sujeito muito parecido com a gente, só que bem mais velho.

Para nós homens, a chegada à meia-idade é precedida de diversos “sintomas”, tais como: Perda de massa de muscular, diminuição da memória, vontade de se divorciar, de renovar o guarda roupa, de virar roadie de uma banda de rock alternativo, de malhar na academia, de mandar o chefe se fuder, de largar tudo e montar uma pousada em Mauá, de fazer uma tatuagem, de comer um monte de menininhas, de pegar onda em Noronha, defazer um perfil no Facebook... etc. etc.

Mas, o sintoma mais característico e que abrange o maior número de meiaidadistas, é o surgimento de pequenas, disseminadas e inexplicáveis dores por todo o corpo. Pequenas, disseminadas e inexplicáveis dores. Dói tudo.

Como explicar ao médico, aquela dorzinha que começou no dedinho mínimo do pé esquerdo, subiu pela perna, passou pelo peito e agora causa dormência em nossa orelha direita? É foda.

Creio que no caso das mulheres, os sintomas sejam mais ou menos os mesmos, apenas acrescidos de uma vontade incontrolável de chorar.

Na verdade, você sabe que está chegando à meia-idade quando tudo dói e o que não dói não funciona.

Caro amigo, se você se encontra na meia idade, comemore, pois o pior ainda esta por vir.

Um bom domingo a todos e todas

Antes que eu me esqueça

**Finalmente lembrei o nome da música lá de cima. Chama-se Tô tenso e faz parte do disco Corredor Polonês, gravado em 1986 pela Patif Band.

A Patif Band foi uma banda criada nos anos 80 em São Paulo pelo batera Paulo Barnabé, irmão do dodecafônico Arrigo Barnabé.

**O que me consola é que o Gui, meu filho de 12 anos, um dia também vai dizer: Aquela música era de quem mesmo? Do Restart? Não, não, era do ....como era mesmo o nome?

E toma de calor rapaziada.