quinta-feira, 31 de março de 2011

A REDENTORA


Jorge Couto



Texto do professor Emir Sader, publicado no sítio Agencia Carta Maior em 29/03/11.




A cada ano, quando nos aproximamos da data do golpe de 1964, uma sensação incômoda se apossa da direita – dos partidos, políticos e dos seus meios de comunicação. O que fazer? Que atitude tomar? Fingir que não acontece nada, abordar de maneira “objetiva”, como se eles não tivessem estado comprometidos com a brutal ruptura da democracia no momento mais negativo da história brasileira ou abordar como se tivessem sido vítimas do regime que ajudaram a criar? Difícil e incômoda a situação, porque a imprensa participou ativamente, como militância politica, da preparação do golpe, ajudando a criar um falso clima tanto de que o Brasil estivesse sob risco iminente de uma ruptura da democracia por parte da esquerda, como do falso isolamento do governo Jango. Pregaram o golpe, mobilizaram para as Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, convocadas pela Igreja, tentaram passar a ideia de que se tratava de um movimento democrático contra riscos de ditadura e promoveram a maior ruptura da democracia que o Brasil conheceu e a chegada ao poder da pior ditadura que conhecemos. Na guerra fria, a imprensa brasileira esteve plenamente alinhada com a politica norteamericana da luta contra a “subversão” contra o “comunismo”, isto é, com o radicalismo de direita, com as posições obscurantistas e contrárias à democracia, estabelecida com grande esforço no Brasil. Estiveram em todas as tentativas de golpe contra Getúlio e contra JK. Em suma, a posição golpista da imprensa brasileira em 1964 não foi um erro ocasional, um acidente de percurso, mas a decorrência natural do alinhamento na guerra fria com as forças pró-EUA e que se opuseram com todo empenho ao processo de democratização que o Brasil viveu na década de 1950. Deve prevalecer um misto de atitude envergonhada de não dar muito destaque ao tema, com matérias que pretendam renovar a ideia equivocada de que a imprensa foi vitima da ditadura – quando foi algoz, aliado, fator no desencadeamento do golpe e da ditadura. (O livro de Beatriz Kushnir, Cães de guarda, da Boitempo, continua a ser leitura indispensável para uma visão real do papel da mídia no golpe e na ditadura.) Promoveu o golpe, saudou a instalação da ditadura e a ruptura da democracia, tratou de acobertar isso como se tivesse sido um movimento democrático, encobriu a repressão fazendo circular as versões falsas da ditadura, elogiou os ditadores, escondeu a resistência democrática, classificou as ações desta resistência como terroristas – em suma, foi instrumento do regime de terror contra a democracia. Por isso a data é incômoda para a direita, mas especialmente para a imprensa, que quer passar por arauto da democracia, por ombudsman das liberdades politicas. Quem são os Mesquitas, os Frias, os Marinhos, os Civitas, para falar em nome da democracia? Por isso escondem, envergonhados, seu passado, buscam a falta de memória do povo, para que não saibam seu papel a favor da ditadura e contra a democracia, no momento mais importante da história brasileira. Por isso tem que ressoar sempre nos ouvidos de todos a pergunta: Onde você estava no golpe de 1964?




quarta-feira, 30 de março de 2011

O Abutre - Franz Kafka



Um conto de Franz Kafka.


O Abutre

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.

— É que estou sem defesa – respondi. - Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.

— Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. — Basta um tiro e pronto!

— Acha que sim? – disse eu. — Quer o senhor disparar o tiro?

— Certamente – disse o senhor. — É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora?

— Não sei lhe dizer – respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:

— De qualquer modo, vá, peço-lhe.

— Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa possível.

O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.

(Franz Kafka)

segunda-feira, 28 de março de 2011

O jeitinho brasileiro



por Carlos Vinicius Rosenburg*

É uma cena comum: você está na fila de um restaurante de comida a quilo, coloca o prato na balança, escolhe alguma mesa e, quando vai ocupar o seu lugar, alguém chega e fala:

- Eu guardei esse lugar!, diz a pessoa com uma certa irritação, como se você estivesse tomando o que é dela.

Acontece com certa freqüência. Dia desses, uma senhora veio falar comigo. Não quis criar problemas na hora do almoço, mas fiz questão de pegar o prato, calmamente, e dizer que ela estava com a razão, pois foi “esperta” e conseguiu passar na minha frente. O sorriso da moça não poderia ser mais amarelo.

Parece que as pessoas nem percebem que o que estão fazendo é simplesmente passar sobre o outro, trapacear, fazer uso do lamentável “jeitinho”. Num pequeno gesto inocente, coloca-se uma bolsa, um livro, um pacote, qualquer coisa, sem a menor preocupação com as pessoas que estão mais à frente.

É um caso banal que mostra como é nosso relacionamento com o outro. Todos sabem que a sociedade nasce quando o outro entra em cena. Nós brasileiros, estranhamente, parecemos fingir que o outro não existe. E são pequenas atitudes como essa que vão formando nossa escala de valores, nosso padrão de comportamento, nossa cara como sociedade.

Os exemplos são inúmeros. Vão desde cortar uma fila de carros para chegar a uma determinada rua, ou passar pelo acostamento em um engarrafamento (“não tem nenhum carro ali...”), a dar só uma paradinha em fila dupla ou na vaga do deficiente. E o outro? “Ah, mas é só um minutinho...”.

O que precisamos entender é que, se quisermos viver em uma verdadeira sociedade regrada – e não em um aglomerado de pessoas, sem lei –, devemos seguir regras de convivência. Mais do que seguir, devemos cumpri-las inteiramente, sem buscar brechas, exceções, jeitinhos. Em uma sociedade que se preocupa com o outro, que se pauta pela alteridade, não existe “é só um minutinho”, “eu vou ali rapidinho”, “guardei esse lugar” (no restaurante) ou começar a acelerar quando o sinal está amarelo (quando deveria ser o contrário). Em uma sociedade que se pretenda civilizada, é fundamental que se respeitem as regras – a frase é absurda, mas no Brasil é preciso dizer o óbvio, o que é mais absurdo ainda.

Já se falou que uma sociedade pode ser identificada por sua culinária. É verdade. Mas passo a acreditar, também, que ela pode ser identificada pelos caminhos que as pessoas utilizam para chegarem até a mesa.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 38 anos e concorda com Tom Jobim: o Brasil não é para principiantes.

domingo, 27 de março de 2011

Da Neném da Novacap a Bruna Surfistinha


Pagando bem, que mal tem?

Por Valério Cortez


Insistentemente apontada como a profissão mais antiga do mundo, a prostituição já prosperava na Atenas do século VI AC, onde a atividade das meretrizes era regulamentada e elas eram obrigadas a pagar impostos ao Estado.

A forma mais antiga de prostituição talvez seja a religiosa. O sexo fazia parte das atribuições das sacerdotisas em muitas religiões pagãs da antigüidade. O que deve explicar as enormes filas que se formavam nas portas dos templos.

Na Babilônia, dois milênios antes de Cristo, todas as mulheres eram obrigadas, antes do casamento, a servir durante pelo menos um dia como prostituta no templo de Ishtar, a deusa do amor. Tem- se noticias de algumas que ficavam meses no templo.

Como podemos ver, esse trampo vem de longe.

Desde que o mundo é mundo, freqüentar casas de tolerância faz parte da cultura masculina, e assim como seu bisavô, seu avô, seu pai e você, seu filho um dia também ira conhecer um destes cafofos.

O sexo, sem o pedágio do amor, a sensação de poder de quem ta pagando, a praticidade e perversões variadas, tudo isso junto ou misturado, há séculos vem arrastando os homens para os prostíbulos.

Pois como todo mundo sabe, as mulheres precisam de uma razão pra fazer sexo, os homens apenas de um lugar*.

E existem lugares, ambientes e profissionais para todos os gostos e bolsos.

Dos antigos bordéis e cabarés, passando pelas zonas e puteiros do interior e chegando até as thermas e boates das grandes cidades, a prostituição come solta. E nesse caso, quem come tem que pagar.

Prostituta pobre é piranha, prostituta gatinha é garota de programa, prostituta de classe é acompanhante. Uma cobra vintinho, outra cenzinho e a outra quinhentinho e nenhuma delas considera o sexo uma conseqüência do relacionamento.

Puta é puta, cliente é cliente e dinheiro é dinheiro.

Tudo cartesianamente masculino.

Há muitos anos atrás, era comum os adolescentes, levados por seus pais, perderem a virgindade na zona, nas mãos de uma profissional.

Hoje, nestes tempos surfistinhos, eles acabam perdendo a virgindade com o Playstation II, com a Sky ou com o teclado já melequento do computador.

Mas não se iludam, pois mesmo assim, um dia eles irão à zona, pois lá o sexo é fácil, o prazer é garantido e ninguém te liga no dia seguinte.

Classificados Inclassificáveis

















A política e a prostituição são os únicos empregos que não exigem experiência anterior*.

Um bom domingo a todos, inclusive aos filhos delas.

sábado, 26 de março de 2011

Tietando grandes mulheres

                                         Tietando grandes mulheres
                                                                                  *Por Renata Klotz


Eu descobri Martha Medeiros na revista do jornal O Globo há alguns anos atrás. Ela não tinha lançado ainda o livro Divã, que a tornou conhecida no Brasil inteiro e que virou filme de sucesso. Desde que li a primeira crônica dessa gaúcha sensível e inteligente, virei fã de carteirinha. Ela tem um jeito muito peculiar de escrever, aquele que parece trazer o leitor pra dentro do texto, puxá-lo pela mão, e garantir o direito ao autor de escrever sobre qualquer assunto. Sabe como imprimir sua personalidade sem roubar a cena do assunto que quer tratar.
Ela tem quarenta anos, 18 livros publicados, entre eles alguns de poesia.
A Tristeza Permitida
Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
.........

Jussara Soares é jornalista, poetisa, minha amiga, e talento não lhe falta pro que mais ela quiser ser. Jussara é natural de Itatiaia.
Por ela mesma:
Jussara Soares  é jornalista e repórter para assuntos aleatórios. Não tem muito senso do ridículo, nem de direção, mas é destra e tem o pensamento à esquerda. Já quis mudar o mundo e, hoje, faz suas próprias revoluções. Gosta de prosa, poesia, futebol, rock'n roll e sexta-feira. É dada a filosofias vãs, pensamentos insensatos, distrações súbitas e momentos de libertação.

Qualquer dia

Qualquer dia, qualquer um desses, eu atiço fogo no mundo e escarro na cara daqueles que se acham donos dele.

Qualquer dia, quando acharem que não sou capaz de esboçar mais nenhuma reação, eu faço a revolução. Mudo minhas coisas de lugar e pinto uma parede de vermelho.

Qualquer desses dias - todos sempre iguais e intermináveis - eu testo a morte só pra ver como é: vou cortar as unhas depois do almoço e tomar manga com leite.

Em qualquer dia desses em que não há nada que fazer eu grito minha dor no ouvido de um surdo e peço para um mudo falar da minha tristeza para o mundo.

Quando menos se esperar, num dia qualquer de horas previsíveis, eu conto o que sei. Se não souber de nada - e eu nunca sei mesmo - eu invento o que não sei só para ter o que dizer.

Num dia que pode ser qualquer um não só farei de besta, como viro eu mesma a própria besta do apocalipse em carne e osso.

Qualquer dia quando estiver sentada na areia de uma praia que também pode ser qualquer uma eu me levanto e nado até onde o céu toca o mar.

Em qualquer dos 365 dias de qualquer ano eu vou de São Tomé das Letras a Machu Picchu atravessando uma caverna.

Qualquer dia eu componho uma música em compasso quartenário, faço uma poesia com rimas ricas e volto a tocar piano.

Qualquer dia eu te dou ouvidos. Qualquer dia tenho uma conversa franca com a lua. Qualquer dia eu me levo a sério. Qualquer dia eu digo que amo. Qualquer dia eu volto a rasgar páginas.

Qualquer dia pode ser daqui a cem anos. Qualquer dia pode ser ano que vem, na próxima semana ou amanhã. Qualquer dia pode não ser nunca, mas qualquer dia pode ser hoje também.


*Renata hoje não quer escrever,escolheu só ler.

sexta-feira, 25 de março de 2011

EU VOLTEI... AGORA PRA FICAR!

Heleno Guanabara e sua fiel secretária na folia barramansense


por Heleno Guanabara*

Senhoras e senhores do Estação BM. Não tinha ninguém pra escrever hoje, então eu apareci. Como devem saber, passei uma temporada em Barra Mansa, a convite do Sombra. Conheci a cidade e sua riquíssima estrutura cultural, gastronômica e ambiental, sem falar no inesquecível carnaval, que deixou muitas lembranças – e me impediu de escrever com regularidade para este dileto blog.

Mas tive que voltar para a minha Porciúncula. Contudo, aqui chegando, vi que não poderia continuar longe de Barra Mansa. Vendi tudo, juntei os trapos e parti de mala e cuia para o Sul Fluminense, onde quero ser enterrado – morto eu já estou, só falta o enterro...

Consegui comprar um sítio em um simpático subúrbio, no bairro Vila Principal, em frente a uma churrascaria, na Via Dutra. A oferta foi do corretor de imóveis Válter, figura que domina o mercado imobiliário alternativo de Barra Mansa – o cara é tão alternativo que não possui escritório. Ele disse que seu escritório é na rua e ele tá sempre na área, mas não é da minha laia não... não consegui entender...

Pois bem, sítio comprado, começo a escrever sobre minha curta vida em Barra Mansa. Deus-Pai, como pude ficar tanto tempo distante deste lugar? Vou listar, para meus poucos amigos de blog, os motivos que me fizeram escolher Barra Mansa:

Bloco do Boi e o animado carnaval de rua de Barra Mansa


- onde mais eu poderia contar com os serviços de um homem honesto e transparente como o Sr. Helinho Pé-de-Couve?

- torcer por um time de futebol conhecido como Leão do Sul, que nunca ganhou absolutamente nada – e também nunca perdeu... na verdade, um time que nunca jogou;

- poder desfrutar da companhia de figuras de alto nível intelectual, como Luciana Amaral, Serrate, Tadeu Barros, Dezinho e Ademir Melo;

- conseguir um emprego na prefeitura apenas por conhecer alguém da família Chiesse (ou Coutinho?) – alô família Chiesse (ou Coutinho?), eu quero conhecer alguém aí para pegar minha boquinha na prefeitura de Barra Mansa – mamãe eu quero mamar!

- participar da Liga Barramansense de Desportos, que fica sob a passarela da linha de trem, perto do cartório do 1º Ofício, e que promove disputados campeonatos de carteado e dominó, sob a supervisão do insuspeito Fábio;

- comprar imóveis com um corretor próspero, hábil e de alto nível como o Válter;

- ouvir as vozes(?) de Julinho Marassi Gutemberg (nome comprido para um artista...), Toni Madeira (que cabelo!), Denise De León (parente do De León, ex-zagueiro do Grêmio – dizem que a Denise também é zagueira...), Joe Sanny (quase um Jece Valadão) e tantos outros.

Gente bonita na concentração do Bloco do Boi


Mas nada disso adiantaria ou me seduziria se eu não tivesse conhecido o carnaval de Barra Mansa. Sim, nunca vi nada igual. Os folguedos momescos foram fartamente comemorados em um quartel, coisa de gênio, digna de uma tese acadêmica. Gente bonita, juventude dourada de Barra Mansa, ambiente familiar – mataram um homem no primeiro dia, mas a Guarda Municipal atuou prontamente e retirou o corpo do local com rapidez, para não atrapalhar a passagem dos foliões.

E não pensem que Barra Mansa fica só nisso: tem carnaval de rua também! Saí no legendário Bloco do Boi, instituição do belo e tradicional bairro Várzea da Oficina. Mais gente bonita, mais juventude dourada (made in Várzea), mais samba no pé. O puxador de samba foi um show à parte. Talvez sofresse do Mal de Alzheimer, vai saber, o homem não conhecia nenhuma letra dos sambas, mas o que importava era a empolgação, e tome embromation, gente acenando das janelas, uma multidão seguindo o bloco, a coisa esquentando, e quando achei que o auge seria na Av. Joaquim Leite, surpresa!, tivemos que retornar no Bramil – a Guarda Municipal estava ali para proteger nosso belo patrimônio arquitetônico – “lugar de carnaval é no quartel!”, bradou o rude homem da lei.

Assim, todos os dias, após intensa folia, eu voltava para meus aposentos no Grande Hotel (que café da manhã...), na companhia da minha fiel secretária Maria da Glória, pessoa que eu quase não via durante a festa – não sei bem o motivo, mas ela sempre sumia...

E o melhor de tudo: apesar de ter o melhor carnaval do sul do Estado, Barra Mansa nos permite dormir em paz – não há ninguém nas ruas durante os dias de folia. Novamente, coisa de gênio. Tudo o que os cariocas da Zona Sul gostariam que o prefeito Eduardo Paes fizesse, Barra Mansa conseguiu há muitos anos – não há ninguém nas ruas!. Vim para a cidade certa, à frente de seu tempo e da própria capital.

Eu voltei, agora pra ficar!

*Heleno Guanabara tem 69 anos e acha que Barra Mansa é um hospício a céu aberto, sem cercas ou portões, mas ninguém foge...

quinta-feira, 24 de março de 2011

O PASTOR


Por Jorge Couto






Num meio no qual pululam instrumentistas talentosos, alguns verdadeiros virtuoses, John Coltrane provavelmente foi um dos saxofonistas mais influentes da história do jazz, juntamente com Coleman Hawkins, Lester Young e Sonny Rollins. Embora tenha morrido cedo, sua linguagem musical influenciou uma multidão de saxofonistas (tenores e sopranos) a partir dos anos 60. Na década de 50 fez parte de um dos quintetos de Miles Davis. Após deixar a parceria com Miles, Coltrane formou vários grupos e enveredou por um caminho próprio. Em 1959 lançou o álbum Giant steps; em 1960 foi à vez de My favorite things. Com uma expressividade cada vez mais livre e experimental, em 1964 lançou o místico álbum A love supreme, um dos discos mais importantes da história do Jazz. Coltrane foi o sumo-sacerdote do que ficou conhecido como o movimento avant-garde. Sua música era exigente, complexa e intrincada, mas sempre impregnada de lirismo e compaixão. Na verdade ele fazia uma música religiosa. Coltrane insistia que o jazz podia falar a alma das pessoas, que o jazz poderia salvar o mundo corrompido e torturado. Ele não brincava, era um sujeito sério e sua música de uma profunda honestidade. Com solos que chegavam a durar 40 minutos, como que possuído por espíritos, Coltrane parecia um pastor pregando sua fé, querendo convencer seu rebanho.
Em um filme do qual não me lembro o título, o pai adotivo de uma jovem prestes a se casar conversa com seu futuro genro. Diz a ele de seu temor de ver sua menina infeliz no casamento. Por fim presenteia o rapaz com um disco de John Coltrane, dizendo ao jovem que com aquela música ele poderia entender melhor a alma humana. Creio que era este o objetivo final de Coltrane, fazer de sua arte um instrumento de entendimento entre os homens, acima de raças e nacionalidades.
Em 1966 quando perguntado quais eram seus planos para a década seguinte, Coltrane sem saber que lhe restavam poucos meses de vida, brincou: -“ Vou tentar virar uma espécie de santo”. Em 16 de julho de 1967, com apenas 40 anos de idade, faleceu vítima de um câncer no fígado.
Como escreveu o crítico Doug Ramsey, Coltrane “disse que procurava o som universal, mas a tragédia é que o som por ele buscado não estava no universo”.


Dois links de vídeos com Coltrane:

1) Transcrição de um solo do músico

http://www.youtube.com/watch?v=2kotK9FNEYU

2) Coltrane e Miles Davis

http://www.youtube.com/watch?v=qlIU-2N7WY4

quarta-feira, 23 de março de 2011

Marqueteiro também sofre...

Cumprindo a promessa do meu texto anterior, o vídeo acima mostra um trecho do debate promovido pela TV Globo no 2° turno das eleições para a Prefeitura de Petrópolis em 2008.

Ao final do primeiro turno, Geraldinho foi convidado para ajudar na reorganização da campanha de Paulo Mustrangi, do PT, que, surpreendentemente, havia conseguido ir para o segundo contra o favorito Ronaldo Medeiros, do PSB.

Diagnóstico: campanha sem recursos, programas eleitorais de baixa qualidade e candidato extremamente inseguro, com verdadeiro pavor de debates e entrevistas na TV.

Bom, diversas providências foram tomadas e o candidato passou por um longo treinamento - coordenado pelo Geraldo - que seria encerrado nos dois últimos dias antes do debate da Globo.

Mas eis que, com as pesquisas ficando favoráveis, Mustrangi deixa a preparação final quase que de lado e gasta os dois últimos dias num misterioso processo de relaxamento que um amigo petista havia indicado. E o pior: muda toda a estratégia que havia sido combinada.

O resultado está no vídeo: respostas sem conteúdo, candidato mal vestido (ele mudou de roupa por conta própria entre o camarim e o estúdio), a já tradicional "vergonha alheia" e o Geraldo na dúvida entre arrancar os cabelos ou bater na esposa do candidato (que havia apoiado as mudanças). O início é chato mas não deixe de ver até o final.

Se eu estivesse lá, tudo seria diferente. Mas Mustrangi ainda ganhou a eleição e nos deixou duas lições: debate na véspera do pleito não muda resultado e, como já dizia o filósofo, não há limites para a ignorância, só a sabedoria é limitada.
Tande Vieira é sociólogo e também estava lá. Mas vai negar até a morte...

terça-feira, 22 de março de 2011

Razão ou coração




Razão ou coração

por Camila Cací*

Sou do tipo extremista.

Quando feliz, sorrio mostrando todos os dentes, quando triste não faço a menor questão de esconder minhas lágrimas de quem quer que seja, aonde for.

Quando zangada, sonho esfregar a cara de um no asfalto até sangrar mas, quando orgulhosa ou satisfeita, faço questão de gritar aos quatro cantos do mundo.


Quando amo, me entrego por inteiro, quando não gosto, detesto!

Ser assim, como tudo na vida, tem dois lados.

O bom é que realmente aproveito as coisas boas da vida numa intensidade absurda. A ruim é que, às vezes, dou valor e sofro demais por coisas que sei que não valem à pena.

É quando me deparo com a questão: seguir a razão ou o coração?

É muito difícil até porque tem hora que as duas opções se confundem.

Primeiro eu tento ser racional, tento! De repente, muitas vezes sem nem perceber, o coração começa a agir e, quando isso acontece, acreditem, é tarde demais.

É nessa hora que as atitudes estúpidas acontecem. A emoção cega a gente, faz-nos agir de formas surreais. Fazemos coisas totalmente reprováveis para nossa razão e para as pessoas que vêem de fora.

Mas... E daí?

É tão mais “bonito” saber que seu coração sente, age. Bonito é, prático jamais!

No fim das contas acabo percebendo e tento ouvir a minha razão. Paro, sumo, reflito... A voz do coração já não está tão ativa, talvez esteja sem forças, cansado.

É a parte que dói. E dói muito. Mas a certeza de que tudo passa é reconfortante. E, no fim, sempre dá para aprender algo.

O que não dá é pra sentir-se mal por ter tentado, não querer deixar o coração agir outras vezes. Afinal, ele é burro, mas é uma burrice boa, saudável, daquelas que fazem com que sintamo-nos vivos!

Sentir demais é uma forma de perceber que estamos vivos. Melhor ser alguém que vivo o que sente que ser alguém que tem medo de viver. Deve ser muito triste ser assim.

“Ninguém tem nada de bom sem sofrer.”

(Vinicius de Moraes)

http://www.youtube.com/watch?v=mrP_SU-ZGdo

*Camila Cací não tem medo de nada! Digo, só de altura e de morrer afogada!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Civilização ou Barbárie? Meu estômago se manifesta



por Geraldo Costa*


Os recentes movimentos pró-democratização em vários países do Norte da África e do Oriente Médio e a reação violenta de seus ditadores deveriam mexer com a consciência dos terráqueos. Como disse sabiamente o Jabor no Jornal da Globo, estamos falando da guerra da civilização contra a barbárie.

Sei que essa discussão é uma ferida, e inflamada. Uma inflamação com muito pus de religiões, de raças, de anos de mágoas e até discussões geográficas. São talibãs, xiitas, árabes, mulçumanos, islãs, minorias e maiorias, todos “lotados” até o nariz de razão. E ódios.

Aos 43 anos e com dois filhos, cada vez mais essas carnificinas me chocam. Me sinto agredido como ser humano.

Sting, em uma música chamada ‘Russians’ questionava a guerra fria e afirmava que ele duvidava do que escutava e que aquilo soava para ele como “uma atitude ignorante, se os russos amavam seus filhos também”. Pois é. Os Líbios também amam seus filhos. E nem consigo imaginar o que é perder um filho por uma causa absurda ou por um líder mesquinho. Ou seja perder um filho amado para a ignorância ou para a injustiça. E literalmente não ter com quem ou como reclamar. Por medo.

Feita essa introdução, vamos às apresentações. Quero falar de Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, Chefe (?) de Estado da Líbia desde 1969, aonde implantou o islamismo e a a nacionalização do petróleo. Esse Coronel foi o patrocinador, entre outras ações bondosas, do Massacre de Munique em 1972, pelo grupo Setembro Negro, quando onze atletas israelenses foram mortos. Também pelo ataque a alguns aviões da Pan am. Enfim, um terrorista financiador anti-americano, anti-ocidente e anti-israelita.

As sanções da ONU não são novidade para ele. Em 1992 / 1993 e durante 7 anos a Líbia e seu povo sofreram com sanções econômicas.

Mais ele sempre cagou e andou. Tentativas de golpe ou revoluções, também não são novidade. Em 1993 e 1998, arrasou com essas tentativas de “colocar a cabeça para fora”. Milhares de mortos, presos ou “convertidos” ao regime. Sem dó. Pra usar nosso know-how nacional, “às favas com os escrúpulos”.

Em 2003, mudou tudo. Quando percebeu que havia batido de frente com um, digamos singelamente, mais filho da puta que ele – George W. Bush, afinou, mas sem dar ponto sem nó.

Radicalizou e foi para o outro lado, declarando o fim das armas de destruição em massa e guerra ao terror. Ah, e abriu o petróleo para os EUA. Por uma pequena concidência, apenas dois anos depois - em 2005, um grupo de empresários líbios (HAHAHA!) montou uma parceria com empresas gigantes do setor petrolífero dos EUA: a US-Libia Business Association. Imaginem...

Assim, após 41 anos no poder, o filho de um beduíno humilde amealhou uma fortuna de, aproximadamente, 70 bilhões de dólares. Fruto de petróleo, corrupção, sangue e opressão. E esse dinheiro está espalhado no mundo todo. Aliás esfregado nas caras de todos nós. Cada vez mais. Em outras palavras, ligou o foda-se.

Resumindo: tem grana no jornal Financial Times - nos EUA, entre ‘trocentos’ outros investimentos. Na Inglaterra, onde compra de dúzias, prédios e mais prédios. Na Áustria e na Itália, aonde inclusive comprou 7,5% das ações da Juventus, só para o seu filho ganhar um lugar no time. E ainda em 3 ocasiões salvou a FIAT de dificuldades financeiras. Fora investimentos em toda África e na emergente China. E no Brasil, nada? Calmo amigos, chegou a nossa vez. O tal fundo líbio anunciou que tem 500 milhões de dólares para a América Latina. Mas temos que correr. O companheiro Chavez já se arrepiou.

Detalhe: sem distribuir as riquezas do petróleo à população, Kadafi elevou (hic) a Líbia ao “honroso” 53º lugar no índice de qualidade de vida da ONU, atrás dos majestosos Uruguai, Lituânia e Croácia. Como informação, nosso Brasil está em 73º lugar nessa corrida pela dignidade.

E como desgraça pouco é bobagem, assim como Sadam Hussein (que o diabo o tenha), Kadafi deixou sua parcela de multiplicação ao mundo através de filhos muito gentis, equilibrados e cordiais.

Seu filho e sucessor - Moutassim Kadafi, torrou a migalha de 2 milhões de dólares somente em um showzinho particular da Beyoncé. Festa privê. Só pros chegados. O filho da figura, como seus irmãos, estudou nos melhores colégios da Europa e tem uma longa ficha corrida, com inscrições diversas: ataque a mulheres, assassinatos, mansões com torneiras de ouro, entre outros pequenos pecados.

Sei que o petróleo é que determina as mudanças nesse xadrez. Mas temos que ter prioridades. Não podemos deixar que os filhos dos pais líbios continuem sendo assassinados por esse maluco. Milhares de civis. Gente simples e que não tem opção. As agências informam que quase 300 mil líbios já abandonaram o país. 8 mil já foram assassinados.

Não gosto de guerras. Sei o horror que elas representam. Mas entre a morte de civis em um genocídio e a queda da ‘entourage’ de Kadafi - o senhor crueldade, não tenho dúvidas. E o desgraçado já se cercou de fanáticos, que vão ser usados como escudos humanos. As chamadas forças leais...

A tempo: não posso deixar de externar minha vergonha com a omissão do Brasil na ONU. Pra quem não sabe, nosso país se absteve de votar. Nossa embaixadora Maria Luiza Viotti até tentou se explicar. Queria uma solução sem violência. Ela e todo mundo. Viramos às costas para o povo líbio que quer liberdade.

Por fim, Kadafi lançou um apelo pela união de “africanos, árabes, latino-americanos e asiáticos” contra o que ele chama de ‘Guerra contra o ocidente e a colonização’. Se depender de mim, quero que ele se dane.


*Geraldo Costa é - como Belchior, apenas um rapaz latino-americano. Se sente um idiota com as informações suspeitas da Al Jazeera, Frances Presse, Reuters e similares. Ama seus filhos, como Sting e os líbios.

P.S.: Acabei de ler que Saif al Islam, um dos filhos do ditador Muamar Kadhafi, disse à rede de televisão ABC que os ataques da ONU são um grande mal-entendido. Pelo visto, os filhos da figura são artistas também. Humoristas.

domingo, 20 de março de 2011

Invadiram nossa praia


Por Figurótico*

Repondo sono. Cochiladas intermediárias. Uma breve acordada. Disseram Rock in Rio na TV e algumas mais atrações confirmadas. Em vez da expectativa de outrora, o temor, o pavor de novos nomes a me afastarem de um local onde se deveria ser o encontro de uma “rapaziada ixpeeerta”, como disse Cazuza em 85. Claro que ouvi errado... Não se trata de Rock in Rio, mas de uma micareta lá no Riocentro, ou aquelas festas de rádio cariocas de pagode na Apoteose, Rio Axé, etc.

Não, sonhador. Ouviste certo os novos nomes do Rock in Rio. Com apenas um dia restando para a confirmação de atrações (02/10), é o esfacelamento de “um mundo melhor”, de um evento que marca, principalmente, a juventude debutante – é claro que eu sei que já deixou há muito de ser exclusivamente rock, nem o primeiro foi só de. Porém a atmosfera era outra e a intenção idem. Para o que estamos vendo, não há novidades.

Claudia Leitte, Capital Inicial, NX Zero, Jota Quest, Skank e Ivete Sangalo fazem parte de um mesmo pacote monopólico que atua ininterruptamente durante todo o ano pelo país. Vide Festival de Verão de Salvador, Carnaval na Bahia, Micaretas (o Word reconhece essa palavra!), EXPOs e aquela lengalenga de cidade pequena com o “maior show do ano” por todos os 365 dias.

Nós, rockeiros (muitos formados pela onda do primeiro Rock in Rio) temos poucos eventos do gênero. Tivemos um ótimo SWU, Planeta Terra, que às vezes traz bandas mais alternativas, TIM Festival com nomes de agora como The Killers. Mas quando ouvimos Rock in Rio queremos os medalhões, as lendas, as novas, porém boas surpresas (como The Killers, Wolfmother, etc.) esperamos dez anos por um evento (91, 2001, 2011) para encontrar gente do ramo, com a mesma necessidade. Não admito ouvir esses nomes por lá, fugirei deles. Não quero me sentir num Clube Comercial da vida, ou em outra casa noturna da cidade. Queria me sentir no Rock in Rio e essa turma vem pra invadir a nossa praia, tomar de assalto. Se bobear quando forem comprar ingressos não espantará gente dizendo: “este é meu ingresso? Mas onde está meu abadá?”.

São atrações de festivais banais, onde se misturam, e um mesmo público ama todos estes com a mesma intensidade. Basta que se peguem alguns panfletos de festas pelo Rio que se vê que atuam sempre juntos. São os queridinhos das festas. São da geração dos “shows bombados”, aliados é claro pelos sertanejos de ontem e pelos famigerados de hoje. São das expressões piegas “festa de todos os ritmos”. São os eventos da vodca e do energético (com aquela coisa horrível onde se coloca a vodca no centro e cinco compartimentos para energético ao lado, que ficam no centro das mesas para tentar impressionar garotas). Todos estes citados (somados ao O Rappa) já passaram por aqui. Juntos poderiam fazer uma festa da rádio local que é o mesmo perfil. O Rock in Rio do interior teria esses artistas.

Errados somos nós, os fora de moda. Os sedentos por um nome que engrandeça: um Eric Clapton, AC/DC, Roger Waters, Paul McCartney, nomes que são NOMES CRAVADOS DE HISTÓRIA. Não Lenny Kravitz, Shakira, Rihanna (?).

Essa tal mistura tão em voga, da boca pra fora destes artistas não passa de urina e fezes, no que diz respeito a um evento cujo nome é Rock in Rio. Se fosse pra misturar estilos verdadeiramente brasileiros num contexto de rock (não os que dizem axé, samba, funk) que colocassem o Tom Zé (tocará no Palco Sunset) no palco mundo com o Lobão. Pois se trata não apenas de ser o artista de rock brasileiro que mais produziu na história, como o único que ainda faz músicas boas, ainda é rock’n roll (isso é o mais raro) excursiona até hoje, sem parar.

Começo a estranhar que o último dia possa ser dedicado ao sertanejo, pois não há um nome confirmado. Já pensou? “E para fechar o último dia do Rock in Rio, as últimas cinco atrações: Bruno e Marrone, Victor e Léo, Zezé Di Camargo e Luciano (e se fosse num noticiário local) e ‘a febre do ano’, Luaaan Santanaaa!!!”. Parafraseando um amigo: “to mentindo?!”.

*Figurótico está retornado às atividades lentamente, devagar, aprendendo a viver com seis pinos na coluna. E tudo está correndo bem. Menos essa escalação do Rock in Rio.

sábado, 19 de março de 2011

“Igreja Ecumênica dos Livres Seguidores do Estação Barra Mansa, O Blog.”


“Igreja Ecumênica dos Livres Seguidores do Estação Barra Mansa, O Blog.”

* Flavia Alvaro Porto

Há umas 2 semanas atrás eu li uma reportagem na internet que no Brasil, só em 2010, 4 mil igrejas foram fundadas.
Diante de tamanho espanto fiquei pensando: por que motivo? Qual a real intenção por trás dessa grande demonstração de fé?
Certamente um desses motivos é que é bem mais fácil abrir uma igreja do que um “pé sujo” naquele "puxadinho" vazio na frente de casa.
Vamos lá: escolha um nome, algo do tipo “ Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo” (essa foi uma das que foram fundadas em São Paulo ano passado), pague algo em torno de R$ 420,00 por taxas e emolumentos (?) e em 5 dias úteis a sua igreja está aberta.
Mas não é nada diante do que pesquisei.

Descobri que não é preciso ter nenhum fiel seguidor, muito menos seguir alguma doutrina, crer em algo ou em alguma coisa . Abre-se e pronto.
Em seguida você ainda pode abrir uma conta bancária e esta fica isenta da cobrança de taxas. Tem mais: qualquer bem que você tenha em nome da sua igreja fica livre de IPVA, IPTU, ISS, ITR , etc, etc, etc.

Isso está previso em nossa Constituição nos termos do artigo 150 da Constituição, onde diz que “Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: VI - instituir impostos sobre: a)... b) templos de qualquer culto; c)...§ 4º - As vedações expressas no inciso VI, alíneas "b" e "c", compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas.”
Li ainda que há juristas que discordam desse artigo devido ao parágrafo 4º, mas isso é outra história pois como a lei não foi mudada fica valendo o que está escrito.
Ainda não acabou: você pode escolher os sacerdotes da sua igreja e nomeá-los sem maiores problemas, sem que tenham algum conhecimento para “tal cargo” e ele fica livre do serviço militar obrigatório e ainda tem direito à prisão especial, caso necessite.
Em São Paulo, no ano de 2010, foram fundadas as seguintes igrejas:

Congregação Anti-Blasfêmias
Igreja Evangélica de Abominação à Vida Torta
Igreja Pentecostal Jesus Nasceu em Belém
Igreja Evangélica Pentecostal a Última Embarcação Para Cristo
Igreja Automotiva do Fogo Sagrado
Associação Evangélica Fiel Até Debaixo D'Água
Igreja Batista Ponte para o Céu
Cruzada Evangélica do Pastor Waldevino Coelho, a Sumidade
Igreja Filho do Varão
Igreja Pentecostal do Pastor Sassá
Igreja E.T.Q.B. (**não quero nem imaginar o que isso significa!)
Igreja Evangélica Batista Barranco Sagrado
Igreja Pentecostal Jesus Vem, Você Fica
Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo
Igreja Evangélica O Senhor Vem no Fim
Igreja Abre-te-Sésamo
Igreja Bailarinas da Valsa Divina
Igreja Batista Floresta Encantada
Igreja da Bênção Mundial Pegando Fogo do Poder
Igreja do Louvre
Igreja Evangélica do Pastor Paulo Andrade, o Homem que Vive sem Pecados

Riu bastante? Eu também! Realmente parece comédia, mas diante disso tudo fiquei pensando a que tal ponto a fé do povo é explorada. Claro que uma ou outra igreja é aberta com a finalidade de ajudar, agregar valores e pensamentos, mas sabemos que a grande maioria, além de ser em benefício próprio de seu fundador, como no caso da isenção de impostos, é aberta sim para explorar a fé do povo, cuja massa absoluta necessita da Palavra de Deus para se nortear.

Dúvidas: não seria isso uma “exploração lícita” ?
Isso tem condição de ser mudado? Sinceramente não sei responder.
A lei sei que sim, mas e a exploração explícita por vezes aberta em qualquer portinha em qualquer esquina?
Revoltante!
Enfim, explicando com palavras leigas, ou seja, as minhas: emolumento é aquilo que os notários e registradores ganham quando executam um serviço a quem precisa dele. É como uma gratificação. Ex: quando você paga uma taxa, parte dela é do serviço que você precisa, a outra é a tal gratificação, é o emolumento. Resumindo: pelo que entendi é uma taxa em cima da taxa que você já tem que pagar.

*Flavinha (flport@ig.com.br)
Respeito demais a fé e a crença das pessoas, mas abuso não dá pra engolir!

**Comentário da autora.

"Não tenho nada contra as igrejas, contanto que não interfiram na obra de Deus."

(J. B. Atkinson)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Jack London, Jon Krakauer, Buck e Chris McCandless - Liberdade!

* Por Sérgio Soares



Há pouco mais de um ano, ao terminar a leitura do livro “Na Natureza Selvagem”, de Jon Krakauer, uma narrativa da história real do jovem americano Christopher McCandless, que abandonou família, dinheiro e carreira, aventurando-se pelo Alasca selvagem em uma viagem sem volta que lhe custaria a vida (roteiro brilhantemente levado ao cinema por Sean Penn com trilha sonora estupenda de Eddie Vedder), movido pela curiosidade e pelas citações constantes do livro de Krakauer, decidi conhecer um escritor muito admirado pelo jovem McCandless. Confesso que até então apenas conhecia Jack London de nome, não tendo qualquer contato com sua obra literária, embora seja reconhecidamente um dos mais conhecidos escritores norte-americanos. Em realidade, sempre preferi a leitura de autores nacionais, sendo que apenas há alguns anos passei a me interessar de verdade pela literatura estrangeira.

Eis uma rápida apresentação de Jack London: Nasceu em 12 de janeiro de 1876 na cidade de São Francisco, Califórnia. Antes de se tornar escritor fez de tudo um pouco: funcionário de fábrica, pescador, marinheiro, trabalhador de moinho, entregador de jornal... Em 1897 foi tomado pela febre do ouro então em alta na América do Norte, época em que se dirigiu ao Alasca no intuito de enriquecer. Nada, ou quase nada conseguindo, retornou à Califórnia onde se dedicou com mais afinco à carreira de escritor, obtendo fama mundial com livros como “O Chamado da Floresta” (1903), “O Lobo do Mar” (1904) e “Caninos Brancos” (1906). Publicou vários artigos, crônicas e cerca de 50 livros ao longo de seus quarenta anos de vida. Faleceu precocemente em 22 de novembro de 1916, debilitado por vários problemas de saúde.

Pois bem, visando um primeiro contato com a obra de Jack London, parti diretamente para seu livro mais conhecido, “O Chamado da Floresta”, originalmente chamado “The Sleeping Wolf” – o lobo adormecido, lançado em folhetim no jornal The Saturday Evening Post de 20 de junho a 18 de julho de 1903. Qual não foi minha surpresa ao me deparar não com um livro extenso, mas com um pequeno livro, que mesmo na edição em formato de bolso (coleção L&PM Pocket, vol. 280) possui apenas 142 páginas. Mas que belas e simples páginas!

A obra trata da saga de Buck, um cão doméstico californiano que é roubado e enviado para o Alasca, a fim de ser utilizado em atividades ligadas à febre do ouro ocorrida no final do século XIX. Lá Buck sofre uma série de maus-tratos e precisa se ambientar o mais rápido possível à sua nova realidade e regras da matilha. A história parece e é simplória, mas o estilo da escrita de Jack London esconde um pequeno e precioso tratado acerca de relacionamentos, concessões e descobertas íntimas.

É certo que o pequeno livro não traz profundas questões inerentes ao comportamento, humano ou animal, mas como diz o release de apresentação da obra, leva o leitor a “reavaliar seus princípios de civilidade, lealdade e liberdade”.

Após a leitura de “O Chamado da Floresta”, fica muito claro o motivo pelo qual Jack London era tão admirado pelo sonhador Chris McCandless e por tantos outros, anônimos ou não, que buscam autoconhecimento e anseiam por liberdade, na mais íntima acepção do termo.



“Como nômades saltam os velhos anseios
Que a correia da doma deixara irritados;
Novamente das brumas do sono nos seios,
Os instintos da fera serão despertados.”

(Jack London)






* Sérgio Soares é barramansense radicado em Minas Gerais.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Heleno Guanabara pede desculpas mas não sai de cima.

Caros amigos do blog Estação BM, como diria aquela cantora chata, irmã do Zé ramalho, “estou de volta pro meu aconchego”. Na minha boa e velha Porciúncula.

Sei que estou devendo a vocês, um relato pormenorizado de minhas andanças por esta maravilhosa Barra Mansa e seus arredores. Ocorre meus caros, que desde que cheguei de viagem, meu microcomputador não esta pegando muito bem, a imagem e o som estão péssimos, e eu estou achando que é a antena.

Maria da Gloria tem tentado me convencer que os microcomputadores não tem antena, mas ora, se tem tela de televisão, imagem de televisão, então tem que ter antena.

Mas tudo bem, não quero brigar com quem tem me servido por tantos e tantos anos, aliás, me serviu ontem à noite, tanto de fora pra dentro como de dentro pra fora.

Como não conseguimos chegar a um acordo sobre a antena, pedi a Maria da Glória que procurasse um técnico de informática, e não é que o filho da puta disse a ela que meu microcomputador está velho? Besteira, ele não tem nem um arranhãozinho e fica o tempo todo coberto com uma capa de crochê igual a do liquidificador.

Argumentei ainda sobre a possibilidade de trocarmos apenas as válvulas, mas o espertalhão disse que para o meu microcomputador, que é um 386 DX 40 (HD 270, 16MB) não existem mais peças.

Bom, conforme dizia meu pai, contra a força não há resistência. Solicitei a Maria da Glória que fosse às Casas Pernambucanas, e comprasse outro microcomputador. Chega semana que vem e vou pagar em 12 prestações.

Amigos, estou redigindo está pequena nota, com uma caneta esferográfica e uma folha de papel almaço. Maria da Glória irá enviá-lo para vocês através do microcomputador do vizinho.

Na próxima semana, já com o microcomputador novo, pretendo escrever um texto reafirmando que eu sou eu mesmo e narrando minhas aventuras pelas terras de Barra Mansa, inclusive o estranho encontro que tive com um dos mais querido membros deste blog. Eu, ele e Maria da Glória.

Um abraço a todos.

Heleno Guanabara.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tapa na cara




por Jefferson Sarmento



O tapa na cara é o silêncio histérico da esperança. E esse silêncio não é o da falta de sons, mas aquele que enseja o fim das palavras, o encerramento total e inquestionável dos argumentos. Não existe mais explicação ou retórica depois de um tabefe de mão aberta, espalmado e esculhambante nas bochechas do cidadão. O tapa na cara é um ponto final. Ouso dizer que um tapa desses chega a transcender a agressão física; por outra: o tapa na cara não é uma agressão física. É um achincalhe moral, é o desdém do espírito e depois dele não se pode passear incólume por aí, achando-se um ser humano comum aos semelhantes. Agressor e agredido (e estou para dizer que até a plateia se perde na cena) passam a um novo nível de existência... não necessariamente um nível melhor.


Deve ser por isso que essa coisa não existe. É isso. Estou dizendo. O tapa na cara, como o conhecemos, como concebemos, não existe. Exceto nos folhetins da Ordem dos Templários Globais. Por lá, o tapa na cara é uma instituição: novela das oito que se preze tem que ter um por semana: estala e faz gosto. Mas aqui fora... Quantos tapas na cara você já presenciou de verdade? Não vale o que te contaram, porque de contar se jura até disco-voador, mula-sem-cabeça e quenga virgem. Pois eu estou aqui contando nos meus dedos e cheguei no meu número: zero, nada, rosca. Nunca presenciei um tapa na cara. Sou um falido por isso? Acho que não caio em desgraça sozinho.


Isso porque o tapa, como eu dizia, é o fim. É irreversível, dramaticamente irreversível. Faz do estapeado um renegado que se esconde pelos cantos da alma feito um corno da humanidade; não um traído qualquer, mas um que tivesse sido abandonado pela humanidade. Digno de pena. Mas transforma também o dono da mão que escangalha as fuças alheia num pária abjeto e desprezível, um Cain pra quem não se pode dar sequer o direito do arrependimento. Pode tudo: soco e ponta-pé, mas tapa na cara é o insulto final. É passar da conta, do limite e até do exagero.


Outro dia eu estava descendo da banca de jornal, aquela em frente à... Oi, Telemar, Telerj... folheando uma revista de... arquitetura. Não, não era de arquitetura. Era de decoração. Contei o caso prum primo e ele me veio com essa de que homem comprando revista de decoração... hmmm... Aí o sujeito fica meio perdido e solta aquela: comprei pra minha mulher. Mas... esqueçam a revista, o fato é outro.


Estava descendo da banca e passei por aquela cena. Todo mundo dava uma olhadinha. Passava e virava o pescoço pra ver. Outros que tais paravam do outro lado da rua ou na esquina. Até na faixa, atravancando o trânsito. Ali, perto dos orelhões, encoxado feito periguete no muro da igreja, o sujeito segurava a criança no colo (e a criança com olhos esbugalhados, tanto que, se eu fosse advogado, proporia ao Homer Simpson uma ação por violação dos diretos autorais; o olho da criança era uma quebra de patente de dar dó) e se punha na ponta dos pés enquanto a mãe da criança, descabelada, apontava o dedo e espinafrava o coitado disso e daquilo, fazendo alusão a alguma vagabunda que entrava na estória a cada duas palavras. "Liga praquela vagabunda na minha frente! Fulana é uma vagabunda! Pensa que eu não sei a vagabunda que ela é?! Eu viro as costas e você vai atrás da vagabunda!"


Aos berros. Não, não eram berros: eram urros, silvos, desafiavam a barreira do som e poriam o conde Drácula pra correr de horror.


Logo atrás dessa senhora tão singular em sua raiva pelo mundo masculino, estava a sogra. Dele. Digo isso porque o ser humano vê a cena e logo dá nome aos personagens. Fosse comigo... não, não seria comigo jamais - eu sou um santo e meus amigos sempre corroboraram minha condição de fraude do mundo chauvinista. De qualquer forma, minha sogra é o que há de mais santo e puro neste mundo, de modo que... vai tirando esse risinho da cara porque não tem cinismo nesta frase.


Mas como ia dizendo... O que eu ia dizendo? Isso: a sogra, atrás da filha enfurecida, murmurava o coro do diabinho no ombro do cidadão prestes a pecar: "É uma vagabunda! Ele é outro vagabundo! Eu te disse que ele não prestava..." E então houve o desfecho da cena. É onde entra o tapa na cara (alguém já se perguntava o que o início da coisa toda tinha a ver com a cena defronte à banca). É onde entra o fim de tudo e eu estava ali, com a maior cara de quem comprou uma revista de decoração e dá de cara com um pastelão suburbano (nada contra os suburbanos, sendo eu mesmo um habitante do subúrbio - embora acredite, seriamente, que no centro do universo todos os bairros são... centrais). A traída dá um passo atrás e abre a mão...


Pausa no mundo. Nessa hora, no ponto em que enxergamos a vida inteira antes do suspiro final, quando as coisas parecem em câmera lenta... nessa hora em que até o gerente do Itaú, do outro lado da rua, passou a dever direitos autorais pro Homer, pensei em João e o Apocalipse. Foi um pentelhésimo de segundo apenas, mas o silêncio lancinante rasgava a Joaquim Leite feito uma pena de pombo despencando do horizonte infinito. E então a voz do mal reverbera: a sogra engasgada no veneno sentencia: Dá na cara dele! Dá na cara desse imprestável! Dá na cara!


Queixo tremendo, baba de doida escorrendo, a traída agiu. O braço cruzou o ar naquele arco... curto e inútil, insuficiente. Ela não acertou o marido apavorado pela cena. Antes, não teve coragem. Usou até a outra mão, pra ver se naquele lado do corpo as coisas ficavam diferentes. Vai que com a esquerda o viço reacende? Nada. Outro arco que cruzou o peito do canalha aparvalhado. A moça repetiu a tentativa umas quatro vezes, cada hora com um braço. Sem sucesso. Errou todas. Por outra: não quis acertar. O corpo lhe traiu. O corpo, aliás, a salvou e quiçá o casamento - pelo menos por enquanto. Era o inconsciente que lhe alertava para o fim de tudo, para o assassínio cruel da coexistência, da razão e do sentimento. Nada mais haveria depois disso.


Como se percebesse em seguida o que estava propondo, a sogra segura o braço da filha e puxa para trás. Olha para os lados, sente o peso silencioso dos olhares e murmura um "vamos embora" desenxabido, o que é obedecido pela traída, agora de cabeça baixa, apavorada, em choque pela situação: esteve tão perto de apertar o botão que dispara as ogivas da destruição em massa que chegou a ver o sorriso do Tinhoso no reflexo da poça d´água atrás do orelhão.


Nunca mais será a mesma.


Mas à noite, quando se deitar para dormir, vai rezar e agradecer por não ter consumado o ato. Afinal, tapa na cara é o fim da esperança.


Jefferson Sarmento


PS: Esse tipo de cena só é concebível se for aqui, no Centro do Universo.