Caros amigos dessa gare barramansense, o tema do meu texto dessa semana já estava decidido desde a semana passada: os programas Pânico e CQC.
Como o Figurótico na semana passada, vou tomar a liberdade de dividir o meu texto. Em duas partes.
A primeira é a reprodução de um texto do jornalista Sidney Rezende. A segunda é a minha opinião.
Por que temer Danilo Gentili, Rafinha Bastos
e humoristas do 'Pânico'?
Sidney Rezende
O humor não é a ciência exata que caiba no que chamamos de politicamente correto. Não existe nada mais medonho do que piada consentida.
Mas não devemos esquecer que, como tudo na vida, a graça transita na equação causa e efeito. Até nesta sintonia é preciso respeitar o ser humano.
Ter espírito humanista é sinônimo de nobreza da espécie.
Concordo plenamente com Danilo Gentili que disse à revista "Cláudia": "O riso é o sintoma de que o mal está curado: se você consegue gargalhar ao lembrar de algo ruim é porque não dói mais".
Vejamos agora isto sob outra ótica. Qual a utilidade do riso, da crônica ácida do comportamento - ou mesmo do deboche -, se o efeito é igual a menos zero? Se nada de bom for construído com a "humilhação", qual a utilidade de praticá-la com pessoas indefesas?
Os meios de comunicação são Golias com condições de esmagar Davis. Basta impedir que o "pequeno" se expresse enquanto o "grande" martela suas "verdades". É contra esta perversidade que devemos lutar. Direitos e espaços iguais para os diferentes é a briga boa.
A TV e a Internet estão nos oferecendo uma leva extraordinária de talentos humorísticos. O sucesso do "CQC", "Pânico" e “vlogueiros” é só a demonstração mais escancarada que os meninos e meninas da nova geração estão renovando a forma de fazer rir. Mais inteligência, perspicácia e ousadia. Novos formatos estão em construção.
No grande leque de esquetes e stand-ups sempre tem coisa boa. Muito boa. Dá gosto ver esta profusão de ofertas de programação nos teatros e mídias digitais. Já fui a várias destas apresentações e rolei de rir.
No meio de tudo isso tem muito lixo, também. O salutar hábito de criticar os humoristas está dando lugar ao medo dos "ofendidos". Com isso, muitos comediantes estão "se achando". Se os arrogantes pensam que são Deus, alguns humoristas parecem ter certeza.
Não faz muito tempo a modelo Vanessa Barzan, a Mulher Arroto do "Pânico na TV", pretendia arrotar na atriz Laura Cardoso, de 82 anos, mas foi impedida por um jornalista.
Em 2005, a trupe comandada por Emílio Zurita contratou um guindaste para espiar dentro da casa da Carolina Dieckmann.
Numa outra passagem durante encalhe de uma baleia na praia, os locutores passaram a chamar o animal de Preta Gil.
Não posso deixar de passar que a cantora Preta Gil esbanja bom humor. Ela deveria ser aplaudida, pois quebra todos os paradigmas na luta pela inclusão social dos gordos, um dos segmentos mais discriminados da atualidade.
Esta semana, no Twitter, o roteirista Bruno Mazzeo reproduziu trecho de uma das letras do compositor Cazuza. Danilo Gentili, do "CQC", perguntou se o exame havia dado positivo, se referindo ao teste de HIV. Qual é graça disso?
Por que repetir que a apresentadora Hebe Camargo é uma "velha caquética", "múmia". Por que?
Qual a justificativa racional para humoristas desdenharem mendigos, sem-teto, doentes mentais, esquizofrênicos?
Em 2009, Rafinha Bastos escreveu sobre a morte de atriz em decadência: "Não condenem o suicídio. Pense: se você fosse a Leila Lopes, o que você faria?". Inconformado com as críticas que recebeu de alguns tuiteiros, ele voltou a carga: "A todos os que se ofenderam com o que eu disse da Leila Lopes: a vida é ótima e suicida tem mais é que se f...".
Todos devem falar e escrever o que pensam, mas devem aprender a ouvir também. Caso contrário, o nome disso é autoritarismo.
Para não parecer que do alto da minha idade estou dando lição de moral em quem quer que seja, vou concordar novamente com Danilo Gentili: "Quando sair pra pular carnaval leve a camisinha e evite que algo terrível aconteça: a proliferação de idiotas."
NEM TUDO VALE O QUE CUSTA
· P por Geraldo Costa*
Há muito tenho ficado incomodado com as atitudes dos humoristas do Pânico e do CQC.
Reconheço que eles foram precursores, no que cada um se propôs a fazer. Mas cometem alguns exageros que me incomodam.
O Pânico já está meio passado. Tipo piada velha. De um lado uma cópia tupiniquim do programa americano “Jackass”. De outro, uma iconoclastia delirante, que não respeita artistas e minorias. E aí mora o perigo. Uma postura sem limites atrai reações sem limites. Não é de hoje, que os homossexuais estão armados (sem trocadilhos) contra alguns de seus humoristas. Sofreram bastante na última passeata gay de São Paulo.
São intolerantes à crítica e quem não quer participar de suas brincadeiras são perseguidos. Os artistas sofrem na mão deles. Tudo pela audiência. Até esculachar artistas iniciantes ou decadentes. E ai daqueles que não participarem do circo.
Já o CQC é mais pretensioso. Quer vender a idéia da mistura do humor com jornalismo. Mas cá entre nós, de jornalismo têm muito pouco. São completamente parciais. Humilham os entrevistados e reagem grosseiramente a qualquer negação. E fazem isso até com gente comum, simples, sem capacidade de reação intelectual. Têm uma postura arrogante e uma coleção de processos. São inteligentes, mas estão sem limites.
Muitos artistas e políticos já nem falam com eles, por que não respeitam ninguém. É só sacanagem. Quem reage é pior. Sai da reportagem e vira tema central da bancada.
Boa parte dos artistas, principalmente os de mais sucesso, defendem que os programas só existem por causa deles, ou melhor, da sacanagem em cima deles e que não querem legitimar a coisa toda. E acho que estão certos. Cada vez mais tenho a impressão de que a propaganda nesses programas só faz crescer, e a claudicante audiência se deve justamente por causa dessas “entrevistas” ou similares. Já são vários casos de reações, até mesmo com violência, de artistas e políticos. O último foi o Paulinho Vilhena, que cuspiu na cara do Rafael Cortez. Lamentável. Mas o cara é chato pra caralho...
Os repórteres do CQC são espertos, ágeis e inteligentes. Fazem sucesso no teatro com seus “stand-ups”, mas vamos e venhamos, na TV aberta, param por aí. Os outros programas filhotes tipo “Formigueiro” do Marco Luque e “A Liga” do Rafinha Bastos, onde os humoristas não vivem às custas da imagem de terceiros, são fracassos de audiência que, muito provavelmente, sairão da grade da emissora. Como tantos outros programas “geniais”.
Sobre os políticos, acho um caso à parte. Acho que aí sim, cumprem um papel do humor questionador, histórico até no Brasil. Como Chico Anísio e Jô Soares fizeram. Mas novamente se perdem, não respeitando ninguém. São autoridades constituídas pelo voto e tem que ser respeitadas. Questionadas sim, mas com um mínimo de responsabilidade. Se o cara é um ladrão como o Maluf, pau nele, mas não dá pra tratar um Chico Alencar por exemplo, com a mesma volúpia opressora. Nem um Deputado calouro. Como diria o Valério: menos, bem menos.
Os nossos nobres humoristas julgam a todos, ou melhor, pré julgam. Longe de mim defender incondicionalmente nossa classe política. Mas vamos devagar com o andor. Estamos, graças a Deus, vivendo em uma democracia.
O que me preocupa é que a geração CQC / Pânico, que está agora formando uma opinião sobre tudo, tenha a visão de que política e políticos é tudo uma merda só. Que tem mais é que ser esculachados. Isso é um perigo. A ninguém interessa esse desinteresse. Felizmente ou infelizmente, não existe futuro nem democracia sem a participação política. Só vai melhorar se nossos filhos aprenderem a participar, votando e expondo suas opiniões civilizadamente.
Pra terminar, “linkando” com o texto do Sidney Rezende, eu os acho autoritários. Vendem uma postura democrática, mas são autoritários. Se eu me divirto assistindo aos programas? Sim, em algumas partes. Não sou um cara mal humorado, ranzinza. Ah, e as paniquetes são um espetáculo à parte. Meu filho mais velho adora...
Resumo da ópera: estou convicto que uma piada nem sempre vale o que custa.
*Geraldo Costa é músico, jornalista e publicitário e pseudo blogueiro. Tentou colaborar com o blog. Mas não está mais disposto a se expor com anônimos, amigos ou inimigos.