terça-feira, 31 de maio de 2011

Não seria eu...


Meu ego contesta, mas admito que sou substituível. Sou uma peça que cumpre um papel e, como tal, posso me gastar e cansar. Num belo dia de sol, entre tantos outros, serei trocado. Por um tempo curto, serei lembrado, mas depois...

Antes que me tentem acudir com palavras de ânimo, preciso correr e explicar que esta é uma constatação racional do nosso papel diário. A "peça" que sou desempenha uma função que outro qualquer poderia em meu trabalho, em minhas relações, em meus dias de rotina alegre ou triste - outro cumpriria de maneira diferente, mas cumpriria. Porém, socorrido antes pelas reações químicas que constroem minhas emoções (não por minha razão pura e simples, mas pelo arremedo que ela se torna ao tentar explicar meu coração), esclareço que eu ("eu") não sou uma peça. "Eu" jamais poderia ser substituído. Na verdade, em determinados momentos, até torço para que substituam a "peça" e, sendo assim, sobrariam mais horas no dia para que "eu" pudesse desfrutar e preencher os espaços em que ninguém seria capaz de me substituir.

Confuso?

Uma amiga, dia desses, me disse que "precisamos ser racionais". Ao que respondi ingenuamente que só a razão não me bastava, que eu precisava de mais. Aparentemente (e corro o risco de tê-la interpretado equivocadamente), a razão lhe basta; ou é tudo que lhe sobra. Não admito isso, sob pena de aceitar minha condição de "peça" substituível: o gerente de banco que pode ser trocado, o marido que é apenas uma presença e como tal pode ser confundido com um outro qualquer (ai que medo), o pai que é apenas um lugar na poltrona da sala (mesmo levando o filho na escola e cantando parabéns no dia do aniversário - porque não basta ser, Sr. Gelol, tem que participar), o transeunte que poderia atravessar a rua agora ou simplesmente não estar lá, a árvore que cai na mata e ninguém vê ou ouve. Agir com a razão é fazer o que tem que ser feito - se você não fizer, alguém fará por você e não fará a mínima diferença se quem fez foi o Jefferson ou aquele outro.

Por isso, meu coração não é razoável. Por isso meus desejos falam mais alto que a conta do banco (isso às vezes é um problema). Por isso, se alguém pede minha ajuda, eu assumo suas dores com mais pesar do que se fossem minhas. Por isso... me apaixono de minhas paixões: literatura, música, não fazer nada, tomar uma cerveja com os amigos num fim de dia extenuante, rir, escrever, caminhar... e errar... Porque essas coisas (e um milhão de outras mais) me fazem "eu". E embora meu trabalho e minha vida pudessem ser "executados" por outra pessoa, só eu a "toca" da minha maneira - a música só é assim porque eu a compus, porque sou eu quem empresto a ela minha voz. Meu sorriso de desespero é único quando algo dá errado. Minha gargalhada pode até ser imitada, mas só eu conheço a intensidade verdadeira por trás dela. Meu amor pode até estar aqui no mundo representado por uma convenção milenar anelada num dedo meu da mão esquerda, mas aqui do lado de dentro ele é único e seu tamanho e verdade não podem ser desenhados, descritos, explicados ou mensurados por razão alguma. Se pudesse, poderia ser trocado, substituído...

Portanto, aceito até que outro cara pudesse estar agora em meu lugar, mas (cuidado, que isso é óbvio, mas há que se enxergar por trás dele, do óbvio, nesta simples oração)...

... mas não seria "eu".

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A Estação por seus passageiros

* Por Geraldo Costa

Amigos colaboradores e leitores dessa nossa gare diária, entre todas as possibilidades de texto que me vieram à cabeça nessa quinzena, achei que abrir uma avaliação pública e exposta das vísceras de nosso blog fosse conveniente, adequado e no tempo certo. Acho justo fazermos essa análise por aqui, transparentemente. É da natureza do meio e está no DNA do Estação BM. Se entendermos onde estamos errando, se nos anteciparmos, podemos ter vida longa, que com certeza, é a vontade e o sentimento de todos envolvidos.
Bem, esse texto pretende ter a humilde missão de abrir os trabalhos, sem melindrar ninguém. Vou adiantar cinco questões.

A primeira é uma velha já colocada por mim: o anonimato. Não vejo sentido em manifestações sem identificação. Muito menos legitimidade. Se ainda fosse um blog de denúncias, ainda ia, mas o EBM? Nosso negócio é debate, opinião. Sem cores políticas, sem preconceitos, sem radicalismos e sem agressões pessoais. Então pra que? Só pra aumentarmos os números de comentários? Seríamos contraditórios... Só pra gerarmos polêmicas? Seríamos contraditórios... O comentário anônimo é um espaço aberto - arrombado melhor dizendo, para a covardia. Essa semana tivemos mais um exemplo. Os bons comentários anônimos recebidos, humorados e criativos, não seriam problema nenhum em serem identificados. Muito pelo contrário. Sem falar no fogo amigo, uma desconfiança minha antiga.

A segunda questão é a pós-moderação. Acredito o melhor, o mais responsável, é que os comentários sejam pré-moderados. Por dois bons motivos: o anonimato inconsequente e a questão da responsabilidade legal. Um intrinsicamente ligado ao outro. Os administradores do blog e eu, com muito orgulho sou um deles, são os responsáveis pela liberação do conteúdo dos comentários publicados. Como bem sabe o nosso jurista Sérgio Soares, a jurisprudência é enorme e crescente. E quem tem ..., tem medo. Fora que eu não tenho a menor paciência para ficar ‘batendo palma pra louco dançar’.
Claro que vai haver sempre alguém levantando a bandeira da liberdade de expressão, da censura prévia e por aí vai. Lindo. Mas nenhum deles vai responder qualquer pendência jurídica na justiça. Então, que seja no estilo ‘a Cesar o que é de Cesar’.

A terceira é o comprometimento dos escritores. O ideal é que pelo menos tivéssemos dois procedimentos. O primeiro é óbvio: cumprir a agenda e de preferência cedo. Furar o texto é evidentemente contribuir para diminuir o interesse e o grau de leitura e a audiência do blog. E esse espaço precisa de leitores, de conteúdo, de massa crítica. Sem leitores viramos uma espécie de clube de amigos ou qualquer coisa parecida. E isso não parece ser producente, pelo menos para um blog aberto. A segunda situação é justamente respondermos os comentários aos nossos textos e também comentarmos os de nossos parceiros. Vejo que muitos deles se esforçam para publicar textos legais, frutos de pesquisas e vivências pessoais. E repito: esse espaço precisa de leitores, de conteúdo, de massa crítica. Se algum de nós não faz isso, como podemos esperar que nossos leitores o façam? A passagem de 7 para 14 escritores, na minha opinião, foi uma medida certa. Multiplicou os acessos do blog e popularizou o EBM, mas ainda é pouco. Só a regularidade vai permitir que possamos avançar. E podemos ir longe.

A quarta questão é técnica, sobre a formatação dos textos. Precisamos melhorar nosso padrão de exibição. Alguns belos textos são publicados de uma forma sofrível e sem compreensão do por que. Mr. Estação - o Sr. Carlos - acredita que se migramos da plataforma blogspot para wordpress seria legal. Não tenho conhecimento para opinar. Mas se for isso, estou à disposição para ajudar, via agência.
Por fim, tomo a liberdade de republicar o pequeno texto de abertura do nosso boteco, feito, se não me engano, pelo Mr. Estação - Carlos Vinícius Rosenburg, um barramansense nascido em 30 de agosto de 1972.

QUARTA-FEIRA, 29 DE JULHO DE 2009
Apresentando o blog

Caros amigos, depois de um longo tempo, conseguimos colocar nossas idéias no papel. Bem, papel não seria bem o termo exato nesses tempos de internet.
Na verdade, conseguimos juntar nossas idéias em um local, em um lugar para ficarem registradas. Alguém as lerá? Tomara, afinal, já se disse por aí que "a miséria de quem escreve é a que vem do silêncio e da indiferença" (Cândido Rangel Dinamarco).
Buscaremos fazer, a princípio, uma coluna por dia, ficando cada colaborador responsável por determinado dia da semana, sem obrigação de abordar esse ou aquele assunto. A tribuna aqui é livre. É claro que cada um vai seguir a sua praia, mas isso vem com o tempo.
Bom, não há muito mais o que falar. Que consigamos leitores, comentaristas, críticos, admiradores e novos colaboradores. Estaremos abertos a tudo isso. Na pior das hipóteses (a ausência de leitores - vade retro!), comentaremos nós mesmos os textos de cada um. Assunto não vai faltar.
Alea jacta est. Embarquem no Estação.

Geraldo Costa é o pai de Gabriel e Guilherme Costa. Acredita no Estação BM, no blog e no facebook.

domingo, 29 de maio de 2011

Indignado? E daí?











Por Valério Cortez


Noite de sábado, quase domingo. Enquanto escrevo, a noite fria se espalha pelo lado de fora da minha janela. Escura e fria como o focinho do Zeca.

Pra começo de conversa, talvez fosse bom agradecer as milhares e milhares mensagens de congratulações recebidas pela passagem de meu aniversário.

Milhares de mensagens?

Liga não. Segundo a Zora Yonara, nós os geminianos, somos necessariamente megalomaníacos. De qualquer forma, muito obrigado, poucos ou muitos, foram todos ótimos.

Aliás, andam dizendo por aí, que andei sumido nesses últimos dias, andei sim, mas por favor entendam, segundo a mesma Zora Yonara, nós, os mesmos geminianos, além da megalomania, sofremos também, de propensão a melancolia e a solidão, e nestas datas especiais a coisa acaba pegando.

Vocês nem imaginam como é, às vezes, se sentir imensamente alegre e feliz no aniversário dos outros e profundamente triste e infeliz no seu. Paciência, vai entender essa gente maluca.

Mas, independemente do meu aniversário e da já esperada e previsível derrota do Botafogo para o Palmeiras, a semana seguiu frenética e transbordante de indignação.

Nos indignamos com aprovação do novo Código Florestal, com o silêncio do ministro Antonio Palocci, com o aumento dos combustíveis, com o assassinato dos lideres extrativistas no Pará e, principalmente com a prefeitura de nossa cidade, que resolveu por bem, usar o nosso rico dinheirinho, numa campanha publicitária esdrúxula e ridícula, suscitada por briguinhas paroquiais, sem nenhuma importância pra nós, moradores e contribuintes.

Mais foi legal, a porrada comeu solta e a grita foi geral.

Aqui no blog e no Facebook, graças a um texto-desabafo do nosso amigo e colaborador, Jorge Soares Junior, todos puderam exercitar sua santa indignação.

Mas fica a pergunta, e daí?

Como sempre, o que não nos faltam são motivos para nos indignar, mas qual a utilidade prática de toda essa nossa louvável e justa indignação?

Na maioria das vezes, depois de externarmos em alto e bom som toda nossa revolta, contra isso ou aquilo, damos por encerrada nossa participação no processo.

Resumindo, eu fiz minha parte, e que agora, algo ou alguém, resolva o problema. Que cobre do ministro ou do prefeito, do padre ou dos vereadores. E até, se for o caso, os tire de lá.

Fácil não?

Claro que não. A indignação só faz sentido se for o início, o estopim de um processo de transformação, se não, será apenas mais um simples exercício para se desopilar o fígado de alguém já cansado de engolir sapos.

Se os vereadores não estão cumprindo com seu dever, de propor leis e fiscalizar o executivo, se o prefeito não tem atendido as expectativas da população, devemos é lógico, demonstrar todo nosso descontentamento, mas principalmente, devemos nos organizar e participar mais efetivamente do processo político e decisório.

Precisamos deixar de ser meros observadores e críticos eventuais do processo, para nos transformamos em mais um polo ativo deste intrincado jogo da cidadania.

Meus amigos, às vezes é necessário enfiar a mão na merda.

Pensem nisso e um bom domingo a todos.


Como é que é? Zora Yonara?

sábado, 28 de maio de 2011

Paz na escola: Caminho longo e urgente!

Texto publicado por Leda Nagle no dia 13/05/2011, em sua coluna no jornal O Dia. Leda dispensa apresentações.


*por Flavia Alvaro Porto


Paz na escola: Caminho longo e urgente!



Rio - É tempo de guerra. Mas não estou falando da Faixa de Gaza, da Síria, Egito ou Afeganistão, nem mesmo da guerra cotidiana das quadrilhas que dominam nossa cidade. Quero falar da guerra entre professores e alunos nas salas de aula do País inteiro, em escolas públicas ou particulares. É tempo de falta de respeito ente alunos e professores. Gloria Perez, sempre antenada, mostrou isto em ‘Caminho das Índias’. O personagem Zeca aprontou todas, pra todo mundo ver, apoiado pelos pais da ficção que, além de não lhe dar limites, desculpavam suas ações. Gloria apontou o que os mestres vivem na vida real. Esta semana, no ‘Sem Censura’, fizemos um debate sobre o assunto, na tentativa de entender o que acontece de fato na sala de aula.

Por que o professor, antes respeitado, agora é ameaçado, às vezes espancado e até assassinado pelo aluno descontente? O docente Bruno Burgarelli, diretor do Sindicato de Professores de Minas Gerais, foi um dos convidados e defendeu a tese de que a raiz da questão está na mudança da relação entre a família e a escola. Nestes tempos em que vivemos, segundo ele, a educação é um negócio, gerido por conglomerados econômicos. O aluno não é mais aluno, é um cliente, que acha que tudo pode, que deve ser atendido e ter seu desejo satisfeito. O sindicato de Minas criou até uma espécie de Disque-Professor (0800-770-3035) para registrar denúncias de agressões físicas e verbais contra os docentes.

Com mais de 50 anos dedicados ao ensino, a professora Amélia Lacombe afirma que os pais não sabem mais o que querem da escola, só se preocupam com o conteúdo dado aos alunos, e o mestre não consegue mais professorar, não é mais acreditado nem respeitado na medida em que “a ascensão social não se dá mais pelo saber e sim pelo dinheiro”. Para Wanderley Quedo, presidente do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro, o consumo, cada vez mais valorizado pela sociedade, está na raiz das más relações entre alunos e professores e é preciso restabelecer a valorização dos profissionais de educação, recuperar o espaço escolar e adotar políticas de Estado e não de governo na questão da educação.

E os alunos? Também não estão satisfeitos com os professores. Reclamam da impaciência, das notas baixas, das cobranças diárias (afinal, alguém tem que dar limites) e das ausências frequentes. Quem vai ganhar a guerra, eu não sei, mas alguém tem que trabalhar pela paz. E tem que ser urgente. Pra ontem. Até porque o caminho da reconquista do respeito é longo.


*Flavia Alvaro Porto é a Flavinha. (flport@ig.com.br)
Sou professora e com muito orgulho!

Paz nas escolas: sonho com esse dia!


"Pois paz sem voz, paz sem voz. Não é paz, é medo!" (Minha Alma - Marcelo Yuka)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

BRING ON THE NIGHT!


* Por Sérgio Soares

Me recordo perfeitamente. Parece que foi ontem. O ano era 1986 e lá estava eu, do alto de meus 13 anos de idade jogando bola no quintal de minha casa de pedra no final da Rua Jansem de Melo, perto da curva que dá para a subida do Morro do Cruzeiro. Quase em frente a um ponto comercial que anos mais tarde ficaria conhecido como o Bar do Borracha.

Como de costume durante as tardes, liguei o velho 3 em 1 National que ficava na sala, aumentei o volume consideravelmente, a fim de que pudesse ouvir a música lá nos fundos, no quintal. Sintonizei na 104,1 FM e me mandei para meus treinamentos de cobranças de faltas e pênaltis, na vã esperança de um dia ser como o Zico.

E eis que inopinadamente o rádio começou a tocar algo simplesmente sensacional, diferente de tudo que eu já havia ouvido em minha curta experiência de apreciador de música, iniciada poucos anos antes. Fui atingido em cheio por aqueles sons. Soube, de imediato, que se tratava de algo especial. Uma música dançante, cheia de swing e energia, tocada com maestria de uma forma que então me soou estranha, meio torta, desafiadora...

Eu já conhecia aquele cantor. Era o Sting, do Police. Também já havia ouvido seu primeiro hit da carreira solo, “If You Love Somebody Set Them free”. Mas aquela música que tocava no rádio era uma grande novidade pra mim. Larguei minhas barreiras e traves improvisadas para trás e corri desesperado em direção à sala, onde me postei em frente às caixas acústicas a tempo de ouvir um vigoroso solo de teclado, executado por um tal de Kenny Kirkland. Mais à frente entrou um sujeito meio que cantando, meio que falando. Demais! Eu ainda não sabia o que era um rap. Quanto mais um rap jazzístico!

Aquilo me tocou de um jeito que fiquei simplesmente louco para conseguir aquela música, aquele disco, aqueles sons. Descobri que se tratava de “Bring On the Night/When The World Is Running Down You Make The Best Of What’s Still Around”, faixa de abertura do álbum duplo ao vivo “Bring On The Night”, da primeira turnê solo de Sting. Este, após o fim do Police, temporariamente deixou o baixo de lado e empunhou uma guitarra, acompanhado de uma banda que até hoje se afigura como nada menos que estupenda: Darryl Jones no baixo; Omar Hakim na bateria; Kenny Kirkland nos teclados; Branford Marsalis no sax e mais duas excelentes vocalistas de apoio: Janice Pendarvis e Dolette McDonald.

Hoje, passados 25 anos daquela tarde, percebo com ainda mais clareza a alta qualidade da música produzida pela banda, eternizada no primeiro disco solo de Sting, “The Dream Of The Blue Turtles” e no citado duplo ao vivo “Bring On The Night”. Exemplos não faltam: “Fortress Around Your Heart” (que até hoje lamento não ter entrado no disco ao vivo), “Shadows in The Rain”, “Moon Over Bourbon Street”, “We Work The Black Seam”, “Children’s Crusade”, “Russians”...

Há coisas que acontecem poucas vezes na vida. Momentos mágicos. Sting, por exemplo, jamais conseguiu montar novamente uma banda tão coesa, talentosa e cheia de vigor juvenil como aquela, apesar da qualidade de seu trabalho perdurar até os dias de hoje.

A quem achar que estou exagerando, segue a versão ao vivo de “Shadows in the Rain”, simplesmente sensacional, uma quebradeira generalizada:





* Sérgio Soares possui Bring On The Night em vinil duplo/CD duplo/DVD e passou a se interessar pelo universo do Jazz, Fusion e afins a partir das “tartarugas azuis” de Sting.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Até Quando?


Caros leitores,

nosso blog sempre teve como característica a paixão por Barra Mansa, a crítica construtiva e a posição apartidária nas questões políticas.

Por isso, é com prazer que recebemos (e publicamos) o texto de um amigo e leitor, barramansense apaixonado por nossa cidade, que vive e investe na cidade. Por conta disso, sente-se um pouco incomodado com os últimos acontecimentos testemunhados pelos moradores de Barra Mansa.

Com vocês, o desabafo de um barramansense. Longe das questões partidárias, é uma demonstração de que a indignação não se restringe a picuinhas entre adversários políticos.

E que tal demonstração de indignação faça com que os homens públicos, se é que podem ser assim chamados, tenham consciência de que o dinheiro público (seu, meu, nosso) não pode ser usado para pequenas vinditas contra adversários. O dinheiro não lhes pertence. Ao contrário do que pensam, dinheiro público não é coisa de ninguém. É de todos.

Administração do blog.






Até Quando?




por Jorge Soares Junior*

Até quando vamos ter que assistir essa política ridícula de Barra Mansa, onde os meios de comunicação da Prefeitura (outdoors) são usados para atacar sei lá quem?

Quando será que teremos orgulho de sermos barramansenses, mas um orgulho concreto, e não um orgulho saudosista, de quem ouviu falar que essa cidade um dia já foi boa? Seremos obrigados a ver nossos filhos tendo que sair daqui para conseguir uma carreira fora? Infelizmente, temos visto Barra Mansa acabando em todos os aspectos...

Não sei e nem quero saber quem o prefeito quer atacar com os outdoors “Perder Faz Parte do Jogo” e “Cães Que Ladram”. Acho que precisamos de uma política séria e que faça de Barra Mansa uma cidade de verdade, que ande para frente, que não sintamos vergonha de nela morar, que ela não continue ficando para trás, enquanto outras cidades crescem ao nosso redor.

Até quando?

Vamos nos manifestar sem nenhum comprometimento político-partidário, não contra o prefeito ou a Prefeitura, e sim contra essa política que vem sendo, há anos, praticada em Barra Mansa, uma política de egos onde, pelo que parece, Barra Mansa fica sempre em segundo plano.

*Jorge Soares Junior tem 31 anos, é empresário e completamente apaixonado por Barra Mansa.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Velho e Tubarão




Taí um conto arrancado do baú de quinquilharias (resultado de uma tentativa de arrumação nos arquivos velhos que ficam pendurados na estante do computador, esperando pacientemente para um dia ver a luz). Se me engano mal, deve datar da época faculdade... diferenças estilosas são meramente acaso do tempo. Espero que apreciem.


O Velho e o Tubarão

N

inguém engana a Morte”, foi o que ele me disse da primeira vez. Isso antes de nós começarmos. Jogamos xadrez, então. Um longo e cansativo jogo de xadrez. Ele chegou a ficar bastante excitado quando contei-lhe que as peças que segurávamos datavam de algo em torno do século XV. Meu amigo sempre gostou de quinquilharias. Na verdade aquele era apenas mais um truque meu para ludibriá-lo. As peças eram realmente antigas e bem feitas, entalhadas em madeira nobre. Cada figura parecendo uma escultura barroca perfeita. Meu truque consistia em deixá-lo à vontade...

Eu venci o jogo. Ele mal acreditou. Ficou olhando para o tabuleiro de marfim por horas, até entender o que aquilo significava. Eu compreendi. Pobre criatura da noite, jamais perdera uma vítima que fosse. Aquilo deve tê-lo arrasado como nunca um mortal ficara em sua presença.

Ele se foi, calado. Estava exausto, completamente exaurido. Lançou-me apenas um olhar de respeito e, por mais antagônico que isso possa parecer, de desprezo. Eu sorri para ele, demonstrando que aquilo não passava de um jogo (ainda que o prêmio tivesse o valor de uma vida!) e que, a despeito disso, poderíamos ser bons amigos.

Quando voltou, um ano depois, surpreendi-o com uma mesa coberta por veludo verde e um par de baralhos novos, reluzentes. Ele sorriu. Desta vez nós trocamos mais palavras. Consegui deixá-lo ainda mais à vontade. Cheguei a arrancar até mesmo um sorriso sincero de seu rosto liso, branco e magro. Um sorriso que, na verdade, mais parecia uma careta de dor. Ele me confessou que há muito tempo não se sentia tão alegre, ainda que tivesse que fazer aquilo que faria quando terminássemos. “Vai ter que me vencer”, eu falei. Ele sorriu novamente, mostrando aqueles dentes brancos e finos. “Ninguém engana a Morte duas vezes”, foi o que retrucou.

Jogamos pôquer, vinte e um, tranca... Deixei que ganhasse algumas partidas, para não desmerecer tão nobre adversário, mas sempre tive tudo sob controle. E mais uma vez saí vencedor, o que já era esperado. Desta vez ele não pareceu tão... derrotado. Estava surpreso, meio confuso. Mas aceitou minha vitória mais facilmente então. Seu último olhar, agora, veio seguido de respeito apenas. Eu era um oponente à altura, não o vencera apenas por sorte. Apertou-me a mão e se foi. “Até breve”.

No ano seguinte eu quis algo diferente. Queria testá-lo e não apenas ser testado. O que fiz foi inventar uma nova modalidade de roleta russa. Ele aceitou com um sorriso cínico. “Desta vez você não me escapa”, anunciou. “É o que veremos”.

O jogo consistia num “O CÉU É O LIMITE” (no sentido literal da expressão) onde o entrevistador fazia sua pergunta e, caso o entrevistado a respondesse corretamente, os papéis eram invertidos, de forma que um testava o outro e vice-versa. O primeiro que não soubesse a resposta era eliminado.

Aquela foi uma noite longa. Ele se surpreendeu com minhas respostas e, ainda mais, com minha perguntas. Chegou a dizer que humano nenhum poderia ter tanto conhecimento. Conhecimento de coisas que habitavam velhos livros perdidos em velhas bibliotecas, templos soterrados e mentes de pessoas que jamais tornaram seus pensamentos um domínio comum. Tive até um certo receio de que ele descobrisse meu engodo. Mas fiz a pergunta derradeira antes que tudo fosse por água abaixo. Ele se sentiu tão ameaçado e perdido que esqueceu todo o resto.

O que havia antes Dele?

Esse era um conhecimento que anjo nenhum poderia ter. Ser nenhum, exceto Ele próprio, saberia responder. Meu amigo gemeu uma profanação bem vulgar e me encarou perplexo. Ia questionar a legitimidade daquela pergunta, mas conteve-se. Não havia regra que me impedisse de fazer uma pergunta cuja resposta eu mesmo não soubesse. E, ainda assim, desconfiado, ele não ousou perguntar se eu conhecia aquela resposta. Apenas levantou-se e, humildemente (e sei o quanto isso lhe foi difícil), sussurrou: “Eu não sei”.

Há quem o chame de O Segador, O Ceifeiro, Aquele que Traz a Sega Afiada de Deus. Há quem o chame de Anjo da Morte. Ou Morte, simplesmente. Eu o chamo apenas de... meu bom amigo. E tenho enganado meu bom amigo desde que resolvi mostrar-lhe que havia mais no mundo do que a crueldade e a frieza que seu trabalho mostrava. Tenho tido um certo sucesso.

Este é o quarto ano que ele vem. Ainda não pensei em nada para fazermos, mas tenho certeza de que me ocorrerá algo à altura, quando chegar a hora. Ele me contará velhas histórias que já conheço. Eu o surpreenderei com algumas de que jamais teve conhecimento. Tomaremos chá e, depois, assistidos de perto pelos livros desta sala, empoleirados nas estantes velhas desta casa, começaremos mais um de meus engodos.

Não escondo que me divirto com nosso jogo. Mas tomo isso como uma brincadeira entre velhos amigos. Pai e filho, talvez. Sei que ele descobrirá um dia. Talvez por um erro meu (quem sabe? Estou já velho e às vezes nem tão atento quanto gostaria), talvez por sua própria esperteza (porque ele é realmente um velho esperto). Mas não faz diferença. Vou me sentar naquela cadeira e vou esperá-lo. Tenho tempo. Muito tempo. Bem mais do que os sete dias que me deram no primeiro livro.


...

Jefferson Sarmento é aspirante a escritor, gerente de banco nas horas vagas, e vem rabiscando o EstaçãoBM nessas últimas semanas. E acha multo legal esses textículos em terceira no fim dos posts, apresentando os autores contribuintes com um Fulano é isso e está assim, Cicrano é aquilo e ficou assado... Como não tinha um desses ainda, resolveu matar a vontade.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

SEM FRESCURA










































por Carlos Vinicius Rosenburg*


Pedi licença ao Cazuza e “acordei com sono, sem vontade de acordar”. Domingo, aquele bode clássico, roupa de dormir (ou falta dela) o dia todo, cama desarrumada, edredons misturados aos travesseiros.

Você levanta, come alguma coisa, vai ao banheiro. Come outra coisa, deita, dorme, acorda, come novamente, vê um pedaço de um filme, lê um trecho de um livro, olha para o jornal de ontem, começa a ler o jornal de hoje. Mas o bode está ali. E você dá mais um pulo até a cozinha, abre a geladeira, olha, pensa, medita, analisa, pega alguma coisa, devolve, pega novamente, escolhe outra coisa e acaba bebendo um copo d’água. E quanto menos coisa você faz, mais cansado fica. O bode pelo simples prazer de bodar – coisas de um neo-solteiro.


Cansado de não fazer nada, liguei a televisão no Canal Brasil, por volta de 13h30min - estava começando o programa de entrevistas do Paulo César Peréio, o Sem Frescura. Na verdade, uma reapresentação – o programa é exibido às terças.


Pois bem, o entrevistado era Evandro Mesquita. Os dois sentados em volta de uma mesa, batendo papo. Sem exageros: foi uma das coisas mais engraçadas que já vi em vídeo. Peréio e Evandro completamente à vontade, falando as maiores barbaridades, como se estivessem em uma mesa de bar, dando altas gargalhadas, que acabaram contagiando o escriba aqui – cheguei a chorar de rir! Parecia que eu estava trocando ideias com dois amigos, num daqueles dias inspirados, falando apenas bobagens. Não me contive: abri uma cerveja e voltei àquele bate-papo. A descontração era tamanha que, em determinado momento, os dois trocaram de lugar: era Evandro Mesquita o entrevistador. Pena que durou apenas meia-hora... Procurei a entrevista no Youtube, mas não encontrei. Busquei no site do programa e também não havia.


O Sem Frescura é um programa de entrevistas. Quem nunca viu, não sabe o que está perdendo. Na verdade, mais do que as entrevistas, é um privilégio poder ver esse monstro (em todos os sentidos) chamado Paulo César Peréio. Quando o entrevistado não rende uma boa entrevista, pelo menos há o Peréio ali. Quando o entrevistado entra no clima, como foi o caso do Evandro Mesquita (que merece uma menção honrosa – o cara é uma figuraça!), temos, certamente, os melhores momentos do que é produzido em vídeo atualmente. Palmas para o Canal Brasil (que merece um post específico, diga-se de passagem)!


Peréio é uma lenda viva. Isso às vezes acaba por obscurecer o grande ator que sempre foi, um dos maiores que nós temos – fosse americano e seria comparado a Christopher Walken, por exemplo – um dos grandes atores cults. Mas Peréio alimenta a lenda, coloca lenha na fogueira, veste a camisa do “personagem” Peréio. Isso tudo poderá ser visto quando for lançado (se já foi, eu desconheço) o documentário “Peréio – eu te odeio”, um longa- metragem sobre o ator – link para o trailler aqui - http://bit.ly/dN2jLD - não dá pra perder.


Enquanto o longa não vem, continuamos tendo o prazer de assistir o Sem Frescura. No site do programa é possível ver trechos de entrevistas, algumas impagáveis, como a de Miéle. Entrevistando o showman, Peréio, com aquela delicadeza que lhe é peculiar, fez uma afirmação fundamental, uma curiosidade que deve passar pela cabeça de todas as pessoas que já viram Miéle:


- Miéle, eu nunca descobri exatamente o que você... é! Se você é ator, se você é humorista, cantor...


Não há como uma entrevista assim não ser boa – essa foi em um bar – os entrevistados escolhem a locação, cada um na sua praia. Para ver alguns trechos, clique aqui - http://glo.bo/aN3Lv1.


Bom, depois disso tudo, o bode do domingo foi embora. E a coluna do Estação, que tinha vários assuntos possíveis – Palocci, livro distribuído pelo MEC, show do Paul, polêmica da coluna do Heleno Guanabara aqui no blog etc. – acabou sendo escrita ali, em meio a gargalhadas.


Até a próxima.



*Carlos Vinicius Rosenburg tem 38 anos e é fã de Paulo César Peréio – espera ansioso pelo lançamento do documentário “Peréio – eu te odeio”.

domingo, 22 de maio de 2011

Faros de animal


Por Figurótico*

Botelho era cidadão tijucano, dos típicos. Mantinha uma rotina mais ou menos, muito mais ou menos. Pois trabalhava dia sim, dia não; ganhava dinheiro num, noutro gastava, um dia tinha, outro não. Nada o chateava, a não ser pelos chamados constantes dos amigos de repartição que para chateá-lo chamavam-no de Bedelho. O que no fundo, no fundinho, fazia sentido. Pois Botelho gostava de meter, meter-se na vida de mulheres inusitadas, metia o bedelho e tudo o mais.

Em dias de labuta, chegava em seu apartamento na Rua Uruguai, despia-se do traje obrigatório, punha bermuda e chinelo e ia ao supermercado comprar coisas inúteis, para passar o tempo e ver donas de casa (viúvas ou desquitadas eram o alvo predileto) e puxava papos inocentes de bom vizinho. Já conhecia umas dez delas, inclusive seus nomes e sobrenomes. Era sempre um ritual, como que para aplacar a solidão se enganava em papos que não levariam a nada.

E deslanchava a perguntar da couve, da alface, se a senhorita Schneider poderia ajudar-lhe a escolher umas, pois como homem solitário não tinha tamanha habilidade. E enquanto a moça viúva ajudava-o com as hortaliças indiferentes (que nunca seriam utilizadas numa cozinha masculina), Botelho só pensava em invadir aquele apartamento 101 da Uruguai e meter o bedelho na vida da donzela. Aquele perfume de outrora, aquela face que já derrubou muito marmanjo pela vida o fascinava. Bastava ver que a moça tivera um passado glorioso que seu repertório mental estava completo, satisfazia-se completamente com mulheres assim, mais do que as novatas da ocasião.

As conversas progrediam em ritmo de passeata:

- Senhorita Schneider, vistes a situação do Borel na noite anterior? Que horror... Dizem que a ordem veio do Turano.

- Botelho, nem me fale... Liguei imediatamente para minha filha, pois minhas netinhas, tão novinhas e já à mercê dessa violência freqüente de agora. O motorista as busca na creche, mas a gente se preocupa, né? Mas com a graça divina nada lhes aconteceu. Moram na Usina, e qualquer tensão por ali já me alarmo toda.

Senhorita Schneider era um alvo de tempos, a conquista da vez. Desde que viúva ficou, passou a ter a companhia de um cãozinho que ela chamava de Rabugento. E este, com a morte do marido sentiu-se proprietário da donzela, a fim de protegê-la de tipos safados que por acaso fossem ajudá-la no apartamento por motivo fútil. Portanto, para ter acesso aos chamegos e desfrutar de tardes sob o sol da Tijuca com a pretendente, era preciso deter o animalzinho, trancafiá-lo, ou acalmar a fera, convencendo-o de que aquilo que ele viria, não era nada.

Vez por outra ele ia na companhia de Schneider, todo emperiquitado de adornos a vigiar os passos da dona. Vez por outra ele não ia... Nestas, a subir a rua a passos de casa, Botelho fitava olhar no primeiro andar e avistava o bichano pendurado nas grades do apartamento. Não se sabe se latia pra qualquer um aleatoriamente ou se latia somente a Botelho, pressentindo pelo faro o desejo do homem por sua dona. Latia ferozmente. Botelho começou a travar um duelo de titãs com o animal sempre que subia à rua. Fazia caretas, ameaça voar com a cabeça fazendo movimentos repentinos para o alto, mostrava a língua. Tudo irritava o animal e os dois já não podiam mais se ver. Botelho foi perdendo para si mesmo o duelo. Em vez de se aproximar do bicho, quis peitá-lo, e sabia que uma visita ao apê lhe seria desfavorável...

Mas o homem que teme um cão não é um homem. Botelho fez que fez, e conseguiu abordar senhorita Schneider na saída do supermercado (o único local de possíveis esbarradas) cheia de bolsas, não se conteve. O cenário exato para um malandro oferecer os préstimos.

- Não, não posso deixar que a senhorita carregue esse peso todo, com licença.

- Obrigada, Botelho, nem precisava, estou acostumada...

- Que nada, faço questão.

- Ah, o senhor é uma graça...

Não imaginava a graça que Botelho queria fazer em seu apartamento, a donzela.

- É neste aqui, certo?

- Sim. Até sabe qual é meu prédio?

- Moro aqui há tempos, conheço bastante gente, sou amigo dos porteiros, aí já viu, né? Gostam duma conversa...

- Vixi... e como?! O seu eu não sei onde fica.

- Mas ali adiante, no número 503, um prédio modesto, mas se a senhorita quiser ofereço-lhe um chá de tarde.

- Tudo bem, num outro dia, quem sabe?

- Seria um prazer.

- Chegamos.

- Permita-me – e Botelho lhe abre as portas do prédio.

Na entrada ao apartamento o cão já dava sinais de que sabia da presença masculina na companhia da patroa. Quando avistou Botelho deu um salto em sua perna. Madame deu um fora no cachorro e o trancou na cozinha, mas não impediu seus latidos horríveis de animal desesperado. Definitivamente, com aquele pentelho não haveria clima favorável à abordagem final. Nos minutos restantes na despedida, Botelho a convidou para uma tarde no seu apartamento, para conversarem e tomaram um chá para passar o tempo. Schneider achou melhor ele vir a casa dela outro dia para um lanche, e disse que aos poucos o cãozinho se acostumaria com ele.

Botelho ficou exultante, pois se ela disse que “aos poucos” ele se acostumaria, é que talvez ela estivesse nutrindo pensamentos da mesma natureza dos de Botelho: obscenos. Botelho deixou um cartão e disse que aguardaria ansioso o convite.

Na semana seguinte o telefone toca, felizmente! Era uma segunda-feira, e senhorita Schneider marcara o lanche para a quinta. Botelho não se conteve, passava depois do trabalho na calçada abaixo do apartamento só para visualizar seu campo de ação. Todos os dias. E imaginava o mundo parando diante dos beijos banhados pelo sol nos braços de senhorita Schneider. E esta a lhe dizer que há muito não se sentia tão bem, tão feliz naquele apartamento solitário.

Na terça, quando não trabalhou, passou assim mesmo e lá estava o cãozinho a latir bravamente para aquele safado. Ele só ficava na janela quando madame estava fora, então começou a verdadeira guerra. Olhou para os lados, e ficou ali embaixo chamando o cão pra porrada. Este revidava e fazia o bairro inteiro ouvir. Botelho se certificou que madame não vinha – só ela não poderia ver aquilo. E continuou com caretas e até imitação de cachorro. O cão estava descontrolado. No ápice Botelho deu uns pulos como se quisesse o atingir com socos no espaço. E pulava, e pulava! O cão já tinha a cabeça pra fora da grade e o duelo permanecia árduo. Até que Botelho lançou uma pedrinha na direção do canino, e este sem atinar furou o bloqueio da grade e veio ao chão. Pluft... Ensangüentado no chão, o cão viu um Botelho seguir caminho impavidamente.

Agora sim, o caminho estava aberto. Dona Schneider que se preparasse. Pois Botelho seria o maior consolo à morte de Rabugento. Sentou-se calmamente em seu apartamento e esperou que seu telefone tocasse com a voz trêmula de Schneider a berrar-te que seu cãozinho morrera. De perfume e tudo, já estava pronto pra bater à porta do 101.

*Figurótico escreveu este continho porque tudo que escreve ultimamente vai parar no livro que contará os dez anos de sua banda. Por isso tenho sumido tanto.

sábado, 21 de maio de 2011

O que as mulheres querem afinal?

O que as mulheres querem afinal?
*Por Renata Klotz


Num dia normal como outro qualquer,estava eu num táxi,vindo pra casa.Começo um bate papo com o motorista.Taxistas são ótimos de papo,quase sempre.E contam coisas muito interessantes pra gente,do que ouvem no trabalho,do que vêem na praça. Tem que saber ouvir.Mas às vezes são só bobos mesmo.
No meio do assunto o sujeito solta: -Mulher gosta de homem com dinheiro não é?
Eu digo: -Não, não é assim não.
Ele: -Ta bom,estabilidade né ? Completa o moço(trocando o vocábulo só pra não parecer ofensivo, mas querendo dizer a mesma coisa).
Eu resumo: -Não.Mulher hoje quer alguém com quem possa ter uma vida.Planos em comum,família,um companheiro.Que possa acompanhá-la e lhe faça feliz.O dinheiro é o de menos.
Ele me olha pelo retrovisor com cara de quem não acreditou muito no que ouviu. Mudamos o assunto.

Mas, afinal...o que querem as mulheres?

Grande questão, talvez sem uma resposta absoluta,definitiva.Depende da mulher,depende do momento,depende de várias coisas.
Depende da classe social da mulher,da cultura,da etnia.Depende,depende,depende!!!!
Nós ocidentais queremos amor.Quanto mais esclarecida ,quanto mais inteligente,mais boba em matéria de amor.As humildes se dividem entre as que querem dinheiro e as que querem amor,independente da condição social. E se der pra unir,dinheiro e bom sexo.As mais independentes...surpresa!Querem amor e sexo,ou sexo com amor.Se não der,querem sexo e amizade.Em último caso,se não der mesmo,querem companhia pra ir ao cinema.

Tá, resumi muito. Mulher quer ser feliz.Ser feliz varia de mulher pra mulher.Mulher mais nova quer intensas emoções,paixões avassaladoras.Mulher mais madura que amor apaixonado.Mulher mais velha quer um companheiro.Mais velha ainda,quer sossego.
Mulher quer tudo.Mulher não quer nada.Quer tudo que acabe com o Nada.Mulher quer ser amada,adulada,compreendida,desejada.Mulher gosta de homem sim.Mas gosta de homem que gosta dela,ou que no mínimo goste da classe.Mulher gosta de sexo.De sexo bem feito.Bem feito quer dizer bom pros dois,não só pra ele.Mulher gosta de homem com sensibilidade sem ser veado.De homem com pegada.Mulher gosta de pegada.De gentileza.De interesse genuíno.Se não tiver nada disso, ela gosta de beijo na boca,pelo menos.Gosta de se sentir um pouquinho especial,nem que seja naquele minuto.Na verdade ela quer ser especial pro cara que é especial pra ela,por bem mais que um minuto.Mulher não gosta de homem galinha.Ela atura homem galinha(às vezes) porque o bom galinha sabe como tratar uma mulher.Ou melhor,sabe como tratar mulher,de um modo geral.O mau galinha só manda bem na cama,quando manda.

As mulheres não querem ouvir a mesma ladainha,desculpas esfarrapadas,caôs de todo o tipo.As mulheres inteligentes sabem muito bem quando o cara tá de caô. Ela inteligentemente finge que não percebe. Mas percebe,esteja certo.Mulher não gosta de cantada baixaria.Aliás,no geral,mulher nem gosta de cantada.Ela gosta do autor da cantada.,às vezes.As mulheres também conversam entre si.E sabem dos bastidores dos cafas (cafajestes).Fingem que não sabem,mas só se acharem que embaixo daquele cafa pode existir um ser pensante,quiçá interessante.

Mulher sofre.Sofre muito.Sofre porque é mais sensível,sofre dores que os homens jamais poderão imaginar,físicas,emocionais e psicológicas.E sofrem por serem desrespeitadas por muitos homens e também por algumas mulheres machistas, que jogam no time de lá.É muito duro ser mulher.

Mulher não se resume a cabelereiro e manicure.Mulher pensa,sente,corre atrás,busca,sonha,luta,ama,estuda,formula,questiona.

A mulher moderna está cansada. Cansada de ser supermulher e ainda assim ouvir piadinhas imbecis de homens que não dão conta de metade do que elas fazem.Se você não consegue admirar e respeitar uma mulher,pelo menos dê a ela o maravilhoso benefício da dúvida.Será que você é diferente? Mulher que é mulher, sonha com esse maravilhoso espécime masculino que deixou a era das cavernas e se tornou um homem inteiro, um homem de verdade.E que quer ter ao seu lado também uma mulher de verdade.

O que as mulheres querem? Se você é mulher, não mais menina, a essa altura já sabe ou tem boa noção.Afinal a gente leva um tempo pra descobrir.Mas descobre,graças a Deus.

Se é homem, tente pensar: As mulheres querem o mesmo que eu.Querem o que qualquer ser humano quer.Amor,respeito,amizade,sexo,paz de espírito.
As mulheres querem ser felizes, assim como você.

Em último caso, pergunte à mulher que você quer o que ela quer. Pode ajudar... Ou tente descobrir. Pode ser divertido.
E quem sabe até dê certo...?


*Renata tem 34 anos e levou uns 30 pra descobrir o que realmente queria.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Seja homem, mulher!


Então... no intuito de verificar a eficácia de um livro de auto-ajuda e buscando preparação para me adequar às mudanças que têm ocorrido no local em que trabalho, resolvi me aventurar por algumas páginas de alguns livros indicado por uma colega.
Os tais livros prometem ajudar mulheres a se desenvolver profissionalmente com dicas e conselhos que farão sua carreira deslanchar. Que mal há nisso? É exatamente o que preciso. E realmente há dicas úteis (algumas).
Então resolvi dar minha contribuição, sugerindo tópicos que poderão ser inseridos em  próximos livros.
- Esqueça os filhos.  Vocês já viram algum homem sair correndo no meio do expediente porque a professora da escola ligou dizendo que o filho se machucou? Ou chegando atrasado porque o filho não acordou bem e foi preciso levá-lo ao médico? Isso pode até acontecer. Mas é raríssimo. Do tipo 1 em 1000. Já mulheres fazem isso a todo instante. Coloquem seus filhos em colégios internos se quiserem ser promovidas. Se ainda não tem filhos, ótimo, continue assim. Caso se sinta sozinha, arranje um gato.
- Aprenda a fazer xixi de pé. Homens demoram muito menos tempo no banheiro. Isso é fato. Seu chefe leva isso em consideração. O tempo que você gasta no banheiro é inversamente proporcional ao valor que você receberá de aumento. Portanto seja mais rápida no banheiro. E como será muito difícil retirar o hábito das mulheres de dar aquela ajeitada básica no visual na frente do espelho toda vez que vai o banheiro, o modo mais eficiente de se economizar alguns minutos no banheiro é aprendendo a fazer xixi de pé.
- Troque a novela pelo futebol. Essa é fácil. Encare cada campeonato como uma novela diferente. Escolha um time para torcer: estes serão os “bonzinhos”, todos os outros serão os malvados. Quanto mais bem classificados estiverem “os outros”, mais malvados eles serão. Decore os nomes dos jogadores como você decora os nomes dos personagens das novelas. Final de campeonato deve ser sagrado como o último capítulo da novela. E não se esqueça de descobrir qual o time do chefe, este será o protagonista.  Já reparou quando junta um bando de homem em torno do chefe na hora do cafezinho? O assunto é este em 99% dos casos.
Boa parte desses livros consistem em comparar comportamentos femininos com os masculinos. Não sei se sou psicótica ou se há subliminarmente o conceito: “Se você deu o azar de nascer mulher, pra se dar bem na vida, aja como homem.”.
Lógico que tem partes com as quais concordo, e muito, mas a mulher que seguir ao pé da letra todos os livros, irá se transformar em Miranda Priestley (O Diabo veste Prada).
Se alguém conhecer um livro que oriente a mulher a se desenvolver profissionalmente respeitando as características femininas, por favor me indique.

*Dielena quer melhorar profissionalmente, mas nunca vai deixar de usar saias para isso.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Comunicado Importante









Atenção, atenção...

Em breve nas melhores e piores casas do gênero, “O PROIBIDÃO DO GUANABARA”.

Com a versão integral de “HOMO PRA MIM É MARCA DE SABÃO EM PÓ”, um texto política e gramaticalmente equivocado.

Agora em versão 3D.