
Por Figurótico*
Botelho era cidadão tijucano, dos típicos. Mantinha uma rotina mais ou menos, muito mais ou menos. Pois trabalhava dia sim, dia não; ganhava dinheiro num, noutro gastava, um dia tinha, outro não. Nada o chateava, a não ser pelos chamados constantes dos amigos de repartição que para chateá-lo chamavam-no de Bedelho. O que no fundo, no fundinho, fazia sentido. Pois Botelho gostava de meter, meter-se na vida de mulheres inusitadas, metia o bedelho e tudo o mais.
Em dias de labuta, chegava em seu apartamento na Rua Uruguai, despia-se do traje obrigatório, punha bermuda e chinelo e ia ao supermercado comprar coisas inúteis, para passar o tempo e ver donas de casa (viúvas ou desquitadas eram o alvo predileto) e puxava papos inocentes de bom vizinho. Já conhecia umas dez delas, inclusive seus nomes e sobrenomes. Era sempre um ritual, como que para aplacar a solidão se enganava em papos que não levariam a nada.
E deslanchava a perguntar da couve, da alface, se a senhorita Schneider poderia ajudar-lhe a escolher umas, pois como homem solitário não tinha tamanha habilidade. E enquanto a moça viúva ajudava-o com as hortaliças indiferentes (que nunca seriam utilizadas numa cozinha masculina), Botelho só pensava em invadir aquele apartamento 101 da Uruguai e meter o bedelho na vida da donzela. Aquele perfume de outrora, aquela face que já derrubou muito marmanjo pela vida o fascinava. Bastava ver que a moça tivera um passado glorioso que seu repertório mental estava completo, satisfazia-se completamente com mulheres assim, mais do que as novatas da ocasião.
As conversas progrediam em ritmo de passeata:
- Senhorita Schneider, vistes a situação do Borel na noite anterior? Que horror... Dizem que a ordem veio do Turano.
- Botelho, nem me fale... Liguei imediatamente para minha filha, pois minhas netinhas, tão novinhas e já à mercê dessa violência freqüente de agora. O motorista as busca na creche, mas a gente se preocupa, né? Mas com a graça divina nada lhes aconteceu. Moram na Usina, e qualquer tensão por ali já me alarmo toda.
Senhorita Schneider era um alvo de tempos, a conquista da vez. Desde que viúva ficou, passou a ter a companhia de um cãozinho que ela chamava de Rabugento. E este, com a morte do marido sentiu-se proprietário da donzela, a fim de protegê-la de tipos safados que por acaso fossem ajudá-la no apartamento por motivo fútil. Portanto, para ter acesso aos chamegos e desfrutar de tardes sob o sol da Tijuca com a pretendente, era preciso deter o animalzinho, trancafiá-lo, ou acalmar a fera, convencendo-o de que aquilo que ele viria, não era nada.
Vez por outra ele ia na companhia de Schneider, todo emperiquitado de adornos a vigiar os passos da dona. Vez por outra ele não ia... Nestas, a subir a rua a passos de casa, Botelho fitava olhar no primeiro andar e avistava o bichano pendurado nas grades do apartamento. Não se sabe se latia pra qualquer um aleatoriamente ou se latia somente a Botelho, pressentindo pelo faro o desejo do homem por sua dona. Latia ferozmente. Botelho começou a travar um duelo de titãs com o animal sempre que subia à rua. Fazia caretas, ameaça voar com a cabeça fazendo movimentos repentinos para o alto, mostrava a língua. Tudo irritava o animal e os dois já não podiam mais se ver. Botelho foi perdendo para si mesmo o duelo. Em vez de se aproximar do bicho, quis peitá-lo, e sabia que uma visita ao apê lhe seria desfavorável...
Mas o homem que teme um cão não é um homem. Botelho fez que fez, e conseguiu abordar senhorita Schneider na saída do supermercado (o único local de possíveis esbarradas) cheia de bolsas, não se conteve. O cenário exato para um malandro oferecer os préstimos.
- Não, não posso deixar que a senhorita carregue esse peso todo, com licença.
- Obrigada, Botelho, nem precisava, estou acostumada...
- Que nada, faço questão.
- Ah, o senhor é uma graça...
Não imaginava a graça que Botelho queria fazer em seu apartamento, a donzela.
- É neste aqui, certo?
- Sim. Até sabe qual é meu prédio?
- Moro aqui há tempos, conheço bastante gente, sou amigo dos porteiros, aí já viu, né? Gostam duma conversa...
- Vixi... e como?! O seu eu não sei onde fica.
- Mas ali adiante, no número 503, um prédio modesto, mas se a senhorita quiser ofereço-lhe um chá de tarde.
- Tudo bem, num outro dia, quem sabe?
- Seria um prazer.
- Chegamos.
- Permita-me – e Botelho lhe abre as portas do prédio.
Na entrada ao apartamento o cão já dava sinais de que sabia da presença masculina na companhia da patroa. Quando avistou Botelho deu um salto em sua perna. Madame deu um fora no cachorro e o trancou na cozinha, mas não impediu seus latidos horríveis de animal desesperado. Definitivamente, com aquele pentelho não haveria clima favorável à abordagem final. Nos minutos restantes na despedida, Botelho a convidou para uma tarde no seu apartamento, para conversarem e tomaram um chá para passar o tempo. Schneider achou melhor ele vir a casa dela outro dia para um lanche, e disse que aos poucos o cãozinho se acostumaria com ele.
Botelho ficou exultante, pois se ela disse que “aos poucos” ele se acostumaria, é que talvez ela estivesse nutrindo pensamentos da mesma natureza dos de Botelho: obscenos. Botelho deixou um cartão e disse que aguardaria ansioso o convite.
Na semana seguinte o telefone toca, felizmente! Era uma segunda-feira, e senhorita Schneider marcara o lanche para a quinta. Botelho não se conteve, passava depois do trabalho na calçada abaixo do apartamento só para visualizar seu campo de ação. Todos os dias. E imaginava o mundo parando diante dos beijos banhados pelo sol nos braços de senhorita Schneider. E esta a lhe dizer que há muito não se sentia tão bem, tão feliz naquele apartamento solitário.
Na terça, quando não trabalhou, passou assim mesmo e lá estava o cãozinho a latir bravamente para aquele safado. Ele só ficava na janela quando madame estava fora, então começou a verdadeira guerra. Olhou para os lados, e ficou ali embaixo chamando o cão pra porrada. Este revidava e fazia o bairro inteiro ouvir. Botelho se certificou que madame não vinha – só ela não poderia ver aquilo. E continuou com caretas e até imitação de cachorro. O cão estava descontrolado. No ápice Botelho deu uns pulos como se quisesse o atingir com socos no espaço. E pulava, e pulava! O cão já tinha a cabeça pra fora da grade e o duelo permanecia árduo. Até que Botelho lançou uma pedrinha na direção do canino, e este sem atinar furou o bloqueio da grade e veio ao chão. Pluft... Ensangüentado no chão, o cão viu um Botelho seguir caminho impavidamente.
Agora sim, o caminho estava aberto. Dona Schneider que se preparasse. Pois Botelho seria o maior consolo à morte de Rabugento. Sentou-se calmamente em seu apartamento e esperou que seu telefone tocasse com a voz trêmula de Schneider a berrar-te que seu cãozinho morrera. De perfume e tudo, já estava pronto pra bater à porta do 101.
*Figurótico escreveu este continho porque tudo que escreve ultimamente vai parar no livro que contará os dez anos de sua banda. Por isso tenho sumido tanto.