quinta-feira, 30 de junho de 2011

JOSÉ CORTEZ

Por Jorge Couto



Quem frequentou o Clube Municipal de Barra Mansa nas décadas de 60, 70, 80, deve se lembrar dele. Era o “seu” Cortez, funcionário do clube, homem de baixa estatura, cabelos brancos, sempre trajando calças que terminavam na altura das canelas, surrada camisa de malha branca com diversos furos e sandália de dedo. Na minha fase de Municipal, de final dos anos sessenta até meados da década seguinte, era ele quem ficava na portaria principal ou na ducha que levava as piscinas. Sempre severo e meio carrancudo, era quase impossível passar por ele sem se estar com a mensalidade paga, exame médico em dia e carteirinha do clube em perfeitas condições. Quando a garotada vazia muita algazarra era ele quem aparecia para chamar a atenção e restabelecer um mínimo de ordem. Esta imagem de disciplinador foi a que tive do “seu” Cortez durante muitos anos.
No início da década de oitenta, quando eu já não freqüentava o clube, fiquei sabendo numa conversa com meu pai, que Cortez tinha sido funcionário da Prefeitura Municipal de Barra Mansa até 1964 , mais especificamente, chefe de turma na Divisão de Obras, hoje chamada de Secretaria de Obras. Outro fato que tomei conhecimento é que ele era comunista e membro do antigo PCB, o que motivou sua saída apressada de Barra Mansa em abril de 1964, quando ele e outros membros do partido passaram a ser perseguidos pela ditadura militar que se instalara no Brasil. Cortez conseguiu fugir e escapar da prisão, não tendo oportunidade de desfrutar da hospitalidade do Primeiro Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), na época aquartelado em nossa cidade. Vários de seus correligionários não tiveram a mesma sorte e passaram uma temporada como hóspedes do Primeiro BIB, com direito a banhos noturnos nas águas do rio Paraíba e tímpanos estourados por “telefones”, entre outros mimos a que os prisioneiros eram submetidos. Como resultado da fuga para escapar da prisão, Cortez acabou sendo demitido da PMBM por abandono de emprego.
Como todos sabem, ou deveriam saber, esta foi uma época difícil, época em que o “dedo-durismo” foi amplamente praticado em nosso país. Agradar o fardado mais próximo poderia ser altamente recompensador. Com a promessa de que nada lhe aconteceria e que ele poderia reassumir seu emprego na PMBM, algumas notáveis e ilustres figuras da política e sociedade barramansense, numa nauseante demonstração de sabujice para com o coronel comandante do batalhão, tentaram atrair Cortez de volta a Barra Mansa para que ele fosse preso. O plano não deu certo porque alguns funcionários da prefeitura conseguiram avisar o perigoso “agente de Moscou”, que, na verdade, ele seria recepcionado e detido pelo exército tão logo chegasse. Só alguns anos mais tarde, passado o ardor dos intrépidos revolucionários, é que “seu” Cortez pode retornar a Barra Mansa sem ser incomodado, provavelmente porque as forças de repressão estavam ocupadas em massacrar outros grupos de esquerda envolvidos na resistência ao regime.
A partir do momento que tomei conhecimento desta face “tenebrosa” do velho Cortez, passei a vê-lo com outros olhos. Ele era bem mais que um sujeito severo e rabugento. Aliás, ele não tinha nenhuma destas características. Nas longas conversas que tive com ele na porta do Municipal, descobri nele uma pessoa amável, sempre bem humorado e otimista. Uma de suas principais preocupações era a de provar que não tinha abandonado a PMBM, mas sim fugido, porque sua liberdade e vida encontravam-se em perigo. Por diversas vezes tentou ser readmitido na PMBM com esta argumentação, mas sistematicamente sua pretensão foi recusada pelos prefeitos da época pós-64, numa demonstração explícita de pouco caso com as dificuldades de um velho que se aproximava do final da vida. Alguns destes antigos prefeitos e seus consultores jurídicos ainda estão vivos e gozam de fama de bons sujeitos. Outros já faleceram, mas deixaram seus herdeiros atracados a cargos públicos e com o mesmo apetite pela servilidade ao poderoso mais próximo.
No final da década de 70, Luis Carlos Prestes rompeu com o PCB logo após a volta do exílio. Cortez também se afastou do PCB, seguindo o chamado grupo prestista que se filiou ao PDT, embora este não fosse um partido de orientação comunista. Por diversas vezes conversei com Cortez a respeito do racha no PCB e sobre a figura de Prestes. Para minha surpresa, numa demonstração de insuspeitado prestígio, com um único telefonema, Cortez me colocou em contato pessoal com Prestes. Em uma atitude imprudente, pude, numa calorenta tarde de janeiro de 1984, bater um longo papo a sós com Prestes em seu apartamento no Rio. É verdade que naquela altura as pessoas já não eram presas e torturadas, mas ainda se vivia sob o governo de um general e, certamente, Prestes era constantemente vigiado. Cortez gozava de real prestígio entre os seus pares comunistas, mesmo entre aqueles que romperam com Prestes e permaneceram no antigo PCB. Sempre que falei seu nome, até mesmo com membros do Comitê Central ou com comunistas famosos como João Saldanha, Cortez era reconhecido e elogiado. No entanto nunca falava ou se gabava disto. Era um sujeito simples, que acreditava no comunismo como o futuro da humanidade e como uma causa pela qual valia a pena lutar.
A aposentadoria (INPS) pelo Clube Municipal era pequena e ele viveu com considerável dificuldade material. Continuou tentando reverter sua situação junto à prefeitura, sem nunca demonstrar mágoa ou se queixar das constantes negativas que recebia. Para ele esta situação era a consequência natural de suas opções políticas. Só no governo da Inês Pandeló foi possível sua reintegração e aposentadoria como funcionário da PMBM. Isto deu a ele um certo conforto material e assistência médica digna nos seus últimos anos de vida.
Minhas últimas lembranças do “seu” Cortez são as de vê-lo na sede do FUNDAMP, sentado, aguardando a consulta médica para o tratamento da doença que acabou por vencer o velho comuna. Ele então se levantava e vinha sorrindo me abraçar e bater um papo.




quarta-feira, 29 de junho de 2011

Amor de Chico














Por Alex Frederick

Com um inusitado apelo de marketing involuntário, chega às lojas neste mês de julho, o novo disco de Chico Buarque de Holanda, que traz na música ¨ Querido Diário ¨, o que está sendo considerado por muitos como um dos piores versos da MPB.

¨Por uma estatua ter adoração/Amar uma mulher sem orifício¨, vem causando diversos comentários pouco elogiosos ao artista.

De fato este verso pode tranquilamente se juntar a outros digamos assim, pouco felizes da nossa MPB. ¨ Foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez na sua mão¨ do Belchior e ¨Mulher nova bonita e carinhosa, faz um homem gemer sem sentir dor¨ do Zé ramalho, são alguns exemplos.

Apesar do possível escorregão, onde para rimar com sacrifício, palavra usada no verso anterior, Chico tenha usado o termo mulher sem orifício, fazendo uma possível leitura edipiana a sua música, Chico Buarque de Holanda chega aos seus já quase 70 anos de vida, cobertos de êxitos.

Desde o começo da carreira, lá pelo fim dos anos 50 e início dos anos 60 , quando Elvis Presley arregimentava fãs por todo o mundo com seu colonizante Rock’n’Roll, Chico Buarque optava pela bossa nova de João Gilberto e pelo samba vindo dos morros cariocas, mantendo uma postura bem brasileira em toda sua obra até os dias de hoje.

Cantou o amor, o desamor, a alegria do carnaval, a tristeza da dor e, sobretudo o homem e a mulher como protagonistas de seu tempo.

Apesar de músico, escritor e poeta, é dele também um dos pronunciamentos políticos mais fantásticos e emblemáticos dos últimos anos, proferidos em terras brasileiras. Para uma platéia de petistas presentes, e para quem mais quisesse ouvir no país inteiro, ele declarava seu apoio a um governo que nas suas palavras, não cortejava os poderosos de sempre, não desprezava os sem terra, os professores, os garis. Um governo que fala de igual para igual com todos,que não fala fino com Washington,nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai. - Grande Poeta.

O novo álbum que se chama ¨Chico ¨, está sendo lançado pela gravadora Biscoito Fino, traz uma novidade na carreira do artista. Ele está sendo disponibilizado antecipadamente para pré-venda, na sua página oficial , trazendo vários elementos da construção do disco,como capa ,musicas,fotos e entrevista.

Se não bastassem todas estas qualidades, mais uma vem somar a sua extensa lista. Em entrevista,o roqueiro Lobão,revelou-se um ferrenho crítico da obra do poeta.Mais um ponto para o Chico.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Layla


* por Jefferson Sarmento

Já falei algumas vezes dessa música (não aqui, o que me reserva esse direito quase constitucional de encher a paciência de vocês com o assunto), mas minha... fixação, pra não dizer paixão, por ela me é tão enigmática quanto o nó de marinheiro. Vá lá...

No aparelho encostado do outro lado da biblioteca eu deixei o senhor-deus Eric Clapton tocando sua turnê de 2002. Agora há pouco, enquanto eu tentava colocar as notíocias de ontem em dia (não sei porque ainda assino o jornal...), Clapton começava a explicar seu amor desgraçadamente doloroso e impossível por Pattie Boyd, esposa de seu amigo fiel, George Harrison.

Em 1968, John, Paul, George e Ringo construíam na Abbey Road o mais impressionante disco que os Beatles puderam trazer a este mundo (certo, os puristas vão dizer que Sargent Pepers é o melhor, mas eu ainda fico com o álbum branco). George trouxe Clapton para tocar com eles e uma das canções que mais gosto desse encontro é While My Guitar Gently Weeps; na verdade, ela é para mim a melhor composição que já ouvi num disco daqueles quatro sujeitos fantásticos - já fui amaldiçoado por preferir esta, por não reconhecer que o conjunto todo é uma obra prima, etc... O conjunto todo é uma obra prima (quem disse que eu não reconheço?!), mas prefiro esta aqui do velho George perdido para os cigarros e o câncer.

Enquanto os dois trabalhavam e se divertiam e faziam o que amigos com interesses semelhantes fazem, algo inesperado aconteceu. Eric apaixonou-se por Pattie, mulher de George, dessas paixões fulminantes, dolorosas, vergonhosas. Desses amores que levam um homem ao fundo do poço. E Pattie, vivendo uma vida de segundo plano, frequentemente afastada por George e seu amor devoto à cultura hindu, apaixonou-se também por Eric.

Dessa paixão arredia e traidora nasceu a canção Layla; visceral, forte, poderosa e cheia de um amor carnal e pecaminoso – na verdade colada de um conto árabe em que a princesa Layla apaixona-se por um plebeu e não pode casar-se com ele, por conta de suas diferenças. Você pode sentir a raiva de Eric tocando aquele arranjo infernal que construiu para a abertura da canção, que foi gravada para o álbum da então nova banda do guitarrista, Derek and The Dominos, lançado no mesmo ano da morte de Jimmi Hendrix e Duane Alman – um disco cheio de canções feitas para ela, como a destruidora Have You Ever Loved a Woman? – que não é de Eric, mas representa com perfeição aquela condição complicada em que os dois estavam (You just love that woman/So much it's a shame and a sin/But all the time you know/She belongs to your very best friend).

Durante grande parte da vida, Eric sofreu por esse amor quase doentio - bem... de fato doentio, levando-se em conta que passou anos internado na própria casa, vivendo de uma dieta rigorosa de heroína... porque não podia consumar sua paixão. Reclusão de que foi resgatado, entre outros, pelo próprio George – que mais tarde perderia Pattie para o amigo.

Estranhamente... Eric e Pattie não foram um casal feliz e é o próprio que conta em sua biografia (esplêndida, vale a leitura em cada vírgula, letra e espaço) que aquela paixão talvez fosse... uma invenção sua: a realidade mostrou-se desastrosa.

De qualquer modo, acho que nós, pobres mortais, devemos pelo menos algum respeito a Pattie Boyd, que arrancou de dois músicos inigualáveis canções que não apenas representavam sua importância para eles, mas que alcançaram um grau quase divino na cultura pop dessa nossa humanidade esquisita – George escreveu Something para ela, entre outras.

* Jefferson Sarmento tem uma lista das dez mais em sua cachola e Layla aparece em primeiro, mas Something não fica muito atrás e esse idiota só descobriu que as duas falavam da mesma mulher quando leu a pataca da biografia dos Beatles, do Bob Spitz - que eu também recomendo.

P.S.: Pra quem quiser dar uma babada em Eric tocando Layla ao vivo: http://www.youtube.com/watch?v=r9jKhs7zki0

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Saudade não é nostalgia


* Por Geraldo Costa

Amigos, já tinha até começado a escrever meu texto quinzenal. Estava decidido. Mas na madrugada de sábado pra domingo - à 1h30 da madrugada, ao me encaminhar pra dormir, resolvi ligar a TV só pra relaxar. Ato espontâneo, ligo na Globo e estava lá: Altas Horas Especial, aniversário do Serginho Groisman. Tema: anos 80.
De início, torci o nariz. Lá vem aí mais uma “festinha” tipo ploc ou qualquer raciocínio similar. Detesto me sentir ligado no passado. Me sinto datado, ultrapassado. E cá ente nós, nenhum tempo volta atrás. Então, pra que perder tempo e lágrimas? Mas confesso que dessa vez me enganei e assim, mudei minha opção de texto.
Feito a intro, vamos ao programa.
Visualizem aquele padrão estético de apresentação de artistas que todos conhecem, “a la” Altas Horas, meio que chupado do programa britânico “Jools Holland”. O programa se caracteriza por ser eclético, dinâmico e de misturas artísticas inusitadas. Pois é, vou tentar ser direto.
Já na abertura “Lugar Nenhum”... com os TITÃS e os 4 heróis da resistência: Tony Belotto, Sérgio Britto, Paulo Miklos e Branco Mellomais o auxílio luxuoso do Andreas Kisser, do SEPULTURA. Durante o programa Margareth Menezes (“Sonífera Ilha”) e Negra Li (“Go Back”) tocaram com a banda, que pra minha surpresa se apresentou revigorada com um baterista novo no lugar do Charles Gavin, que eu ainda não tinha assistido. Estão bem vivos...
No outro corner a BLITZ que recebeu a participação da FERNANDINHA ABREU depois de 25 anos! Cantaram obviamente, “Você Não Soube Me Amar”. Nosso “Paulão da Lanternagem” está ainda em forma e com a colaboração dos remanescentes Juba na bateria e William Forghieri nos teclados, a banda fez muita gente voltar no tempo, com histórias de bastidores deliciosas. Mas o destaque ali pra mim é uma mulher que toca muito baixo: Cláudia Niemeyer, que carregou o KID ABELHA nas costas durante alguns anos. Ainda rolou a também óbvia “A Dois Passos do Paraíso”.
No outro corner, uma banda especialmente montada para a festa, denominada “All Stars”: FREJAT do BARÃO VERMELHO - guitarra e voz, George Israel do KID ABELHA - Sax e voz, Guto Goffi do BARÃO VERMELHO - bateria, ODEID do LOBÃO E OS RONALDOS - baixo, entre outros. Abriram os serviços com “Beth Balanço”. Depois rolou ROGÉRIO FLAUSINO do JOTA QUEST cantando “Que País é Esse” da LEGIÃO URBANA. PÉRICLES e THIAGUINHO do EXALTA SAMBA cantando “Nós Vamos Invadir sua Praia” do ULTRAJE À RIGOR”. DI FERRERO do NX ZERO cantando “Inútil” do ULTRAJE À RIGOR”. FERNANDA ABREU cantando “Kátia Flávia” do FAUSTO FAWCETT. CLÁUDIA LEITE cantando “Um Certo Alguém” do LULU SANTOS. GABY AMARANTES (quem ?) cantando “Ska” do PARALAMAS. No fim, BARÃO de novo com “Por que a Gente é Assim?”
Um estímulo atrás do outro. Ouvi tudo no volume 33 (pra madrugada bem alto). Fui dormir às 3 da manhã com a uma frase na cabeça: vida inteligente na madrugada...

Geraldo Costa ainda se acha um músico. É pai de Gabriel e Guilherme Costa. Acordou no outro dia no bagaço. Gostaria de homenagear com esse texto o Figurótico e o Jorge Guilherme, dois músicos com os quais ele tem muito respeito.

domingo, 26 de junho de 2011

Você me deve, malandro?


Por Figurótico*

- Como sabes, estou precisando de uma grana, sabe como é... uma continha pra pagar aqui, outra ali – e assim ele vai lambendo e "labiando" tudo pelo caminho.

- Sei, sei. De quanto você fala?

- Vintinho, trintinha, deizinho... qualquer troco... Porque amanhã – ahhh, amanhã – vai pingar um dinheiro na minha conta, dinheiro do bom, sabe? Garantido! O dinheiro está lá, meu chapa! Só que ele só cai amanhã, só bate amanhã, cara! Estou te dizendo, vai cair uma grana amanhã na minha conta, ahhh... E assim que bater eu te pago, fechado? “Num” tem erro! Mas “num” tem “mermo”!

- Tá, bicho, não precisa explicar tanto, eu já entendi. Amanhã vai bater uma grana que ta batendo há anos, né não?

- É, amigo.

E assim se prolonga a ladainha. Manjada, antiga, ultrapassada, “veiaca”. E nós, os ditos “macaco véi” caímos nessa e fingimos acreditar. Acreditar no dinheiro dos malucos, um dinheiro que não existe, e que eles também fingem acreditar que um dia cairá em suas contas, “sacuméquié, né”?! Lorota, papo de seca-gelo, conversa fiada, logro, papo ardiloso e todos os clichês que você encontrar por aí, rapá.

Isso acontece, é aquele cheque que faz parecer sua vida depender daquela merda de pedaço de papel, e ele não cai. Contar com o ovo antes da galinha, conversa pra boi dormir. As horas passam e o banco é sua esperança, e como eu odeio bancos, ilustríssimo. Eu tenho amigos que trabalharam em banco, e pude ver em seus olhos a alegria por se mandar daquela coisa – ou melhor ainda – ser demitido! Que delícia ver isso na pessoa, a alegria por uma demissão. E os bancos não abrem no domingo como hoje, ainda bem. Mas você vai à rua e esta te pede um dinheiro. Todo mundo resolve num dia te pedir todo o dinheiro, um dinheiro que você não tem.

Já experimentou descer do ônibus que leva à Rodoviária Novo Rio? Aquela reta é a rua onde mais se pede dinheiro no país. Aquele trajeto é amaldiçoado, pode acreditar. Há um sinal de trânsito, e o “motô” pára ali pra quem vai para o setor de Embarque da “rodô”. E a vontade ali, como você não conhece o pedinte, é ao invés de responder, “não, não tenho”, é responder no tapa! Sim, no TA-PA!

- Não tenho dinheiro, rapá! Não é da sua conta, e se eu tenho, é pouco, pode ter certeza, mas eu quero quebrar a sua cara, malandro. Por me pedir sempre que eu passo por aqui. Você pede pra todo mundo? E essa sua cara de coitado que você faz num piscar de olhos? Acha que engana alguém, malandragem? Olha aqui, esse dinehiro que ta no meu bolso, ta vendo? É pouco pra cassete! E por que haveria eu de te dar esse troço? Aliás, vou lhe dizer: se tu (não chamas todo mundo de tu?) quer essa grana, abra a boca que eu a enfiarei goela abaixo pra seu prazer!

A grande astúcia de quem pede dinheiro é o costume, infalível este. Pois o costume leva à falta de vergonha na cara. E fica fácil pedir um, dois, “cincão” (“cincão” pra quem paga, “cinquinho” pra quem pede), “deizinho”, “cinquentinha”, “cenzinho” mesmo. O poder do pedido eleva a quantia. E o tempo? O que é o tempo para quem pede grana? O aliado, o tempo pode apagar sua dívida, pode amaciar seu humor, pode trazer-te um fato novo, e o dinheiro emprestado se vai. Porque agora quem tem vergonha é você. Vergonha de cobrar! Fica feio, não é mesmo?

- Dá pra você me devolver aquela grana? De preferência as mesmas notas. – Se o empréstimo foi em notas de dez, que venham notas de dez. Só de raiva.

O soluço, o medo, de repente pode traumatizar quem pediu, e é melhor sermos cautelosos com isso. Afinal nos preocupamos com a reação das pessoas. Não façamos mal a ninguém. E problemas existem para ficar longe da gente, não é? Estresse nem pensar. Fique com essa grana. Onde ela foi parar? Quanto tempo ela durou no teu bolso? Aposto que nada, xará.

*Figurótico pede, encarecidamente, se pode escrever no blog durante a semana. Escrever no domingo significa escrever de ressaca. Só o Valério domina essa arte! E além do mais estou escrevendo para o portal da TV Rio Sul, e me publicarão no domingo também. Podes crer, malan?

sábado, 25 de junho de 2011

Obrigado, Cabral !

"Hoje é o Dia do Juninho"


O escritor Angrense Alberto da Cruz é formado em Letras e leciona Literatura Brasileira.
Publicou os romances Intermitência: a separação dói, Obsessão: a verdade sobre meu pai, Paixões Perigosas e Memórias em Ruínas; o livro de contos Pesadelos - contos de Horror e medo e, na poesia, Fragmentos de um beijo.
Também participou das antologias poéticas Mosaico e Caleidoscópio.
Escreve no blog http://albertodacruz.blogspot.com/ e, assim como todos os outros professores, anda bem indignado com nossa situação.
O mais engraçado é que seu texto, escrito em 2009, retrata a nossa atual realidade profissional.
Que tal entender um pouco mais sobre a greve e a revolta dos professores estaduais?

 

Obrigado, Cabral!
 
*Por Alberto da Cruz

A forma com que Sérgio Cabral, governador do estado do Rio de Janeiro, trata os professores é vergonhosa. É indecente a proposta de incorporação do Nova Escola aos vencimentos dos servidores. Não bastasse as diferenças de valores na gratificação, o governador ainda propõe a diminuição do plano de carreira, obtido depois de muitas discussões.
           
Depois de anos sem reajuste salarial, tivemos o desprazer de ouvir propostas risíveis nos últimos anos. Um aumento
 de doze por cento, dividido em pequenas prestações soou como desrespeito. Quando finalmente tivemos a boa notícia da incorporação do piso máximo aos nossos mirrados vencimentos, poucos acreditaram, e fizeram bem em não acreditar em tamanha lorota.
           
Sergio Cabral se comprometeu em nos conceder este aumento em parcelas anuais até o ano de 2015. Um ultraje à categoria que sofre todos os dias com salas lotadas, com a falta de estrutura das escolas e um salário que, em breve, será menor que o mínimo.
           
Ontem houve votação na Alerj para a lei que diminuiria nosso plano de carreira e nosso aumento salarial parecido com um carnê das Casas Bahia. O que se viu foi o cúmulo do desrespeito ao educador estadual. Policiais lançaram bombas de efeito moral nos professores que acompanhavam a votação, deixando feridos os profissionais que lutam pelos seus direitos ignorados por um governante sem escrúpulos, como todos os outros que prometem e nunca cumprem. Não bastasse a violação dos nossos direitos, ainda agridem o professorado, um dos alicerces da formação e transformação social, moral e fisicamente.
           
Devemos lembrar ao nosso governador que não somos criminosos, apesar de nos tratarem como seres marginalizados. Não somos arruaceiros, somos professores querendo melhores condições de vida, um salário justo e, principalmente, respeito.
           
Não me admira o estado do Rio de Janeiro ser tão violento, depois da selvageria de ontem. Uma polícia despreparada, professores miseráveis, governantes hipócritas. A soma desses fatores mostra a cara do Rio de Janeiro: o paraíso para quem é de fora, um inferno para quem está dentro.
           
Agora vamos esperar até 2015 para receber a nossa esmola. Continuar ensinando, porque somente o amor à educação nos motiva a entrar nas salas de aula, já que o incentivo é a base de presentes desnecessários e investimentos duvidosos.
         
 Quanto a greve, é melhor desistirmos, pois se não, ficaremos também sem a merenda que, muitas vezes, é o único prato que vemos sobre a mesa.
            Obrigado, Cabral, por expor ao Brasil a miséria do educador fluminense.

Rio de Janeiro,
09 de setembro de 2009
Alberto da Cruz
Publicado no Recanto das Letras em 09/09/2009

 
*Alberto da Cruz é o Juninho. Meu sensível colega de profissão que encontro quase todas as quintas-feiras na sala dos professores de nossa escola lá em Angra.
Parabéns, Juninho!

Bom restinho de feriado à todos!
Flavinha


sexta-feira, 24 de junho de 2011

E com 14 letras, a palavra é...


PROCRASTINAÇÃO
* Dielena

pro.cras.ti.na.ção
sf (lat procrastinatione) Ato ou efeito de procrastinar; adiamento, delonga, demora.
(fonte Michaelis)
Se para Carlos Drumond de Andrade as palavras mais feias da língua portuguesa são alhures, miúde e quiçá, para mim deveria ser incluída a essa lista a palavra procrastinação. É uma palavra feia mesmo, esteticamente falando. Dói os ouvidos.
E também não possui um significado agradável.
A procrastinação é bem diferente da preguiça. Preguiça é quando você não quer fazer nada. é quanto você quer ficar largado no sofá, com o controle remoto na mão e, de prferência, tendo ao lado alguém com disposção para ir até a geladeira buscar uma cervejinha. Disso eu até gosto. A procrastinação é quando você não quer fazer exatamente o que precisa ser feito. Você fica inventando mil outras tarefas para não fazer aquilo que quer adiar.
Procrastinação é ficar mais 10 minutinhos na cama, mesmo não estando com sono.  É ficar lendo e-mails enquanto sua pesquisa acadêmica fica implorando sua atenção no computador. É inventar de arrumar alguma coisa minutos antes daquele compromisso que você tem que ir, mas não está tão afim. É revisar um relatório pela décima vez enquanto aquele cliente chato espera sua ligação. É se prender a um artigo de uma revista que você não gosta enquanto a louça suja na pia fica gritando seu nome.
É o melhor exemplo de "Para que fazer hoje, se você pode deixar para amanhã?"
Se criarem um grupo de apoio chamado Procrastinadores Anônimos eu até pensaria em fazer parte. Mas provavelmente me lembraria que tenho que levar o carro para lavar e deixaria para uma outra oportunidade.

- Obs: Assim como vocês, eu também senti falta do texto de hoje de nosso colega Sergio Soares. Vamos aguardar para que seja uma ausência temporária.
*Dielena está neste exato momento procrastinando para se arrumar para o trabalho.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Bob Roberts. Seu voto primeiro, perguntas depois

Nesses tempos em que a gente discute a mistura de política com religiao, celebridades, empresas e interesses escusos, fica a dica de uma grande estória: Bob Roberts.

O filme foi escrito, dirigido e estrelado por um excelente Tim Robbins em 1992, completamente "engasgado" com os rumos que a America tomava com os governos Reagan e Bush.

Bob, candidato ao Senado dos EUA pelo estado da Pensilvania, é um cantor folk de bastante sucesso cujo carisma arrebata multidoes. Ele utiliza muita tecnologia e diversas técnicas de marketing político para construir uma campanha com grandes chances de vitória. Por exemplo, combate as drogas firmemente, apesar de seu nome estar indiretamente envolvido com suspeitas de tráfico e aplica inúmeros golpes baixos contra seu rival nas urnas.


Filmado como um mockumentário (filme gravado como um documentário normal, mas que nao é real) e contando com um elenco estelar (vários astros fizeram participacoes especiais, incluindo o escritor Gore Vidal), Bob Roberts foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme naquele ano.


Procurando na rede, a gente consegue baixar o filme legendado. Clicando no cartaz acima voce assiste o trailer do filme (em ingles) no YouTube.


Tande Vieira é apaixonado por este filme. Curiosamente, ele foi feito durante o governo Collor, e algumas coincidencias entre os dois candidatos sao incríveis.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Helena de Tróia




* por Jefferson Sarmento

– Você estava mesmo fechando, não é? – ela perguntou.

Tom ficou ali parado, olhando para ela. O cretino que sempre tinha o que dizer ficou sem ação e perdido, segurando duas folhas de manjericão e procurando o texto num roteiro que tinha acabado de cair de suas mãos. E ele não tinha decorado as próprias falas.

– Você... parecia meio faminta. Minha mãe me ensinou a não... não... não...

Balançou a cabeça. Perdeu a graça e a deixa. Balançou a mão fazia no ar. Ela riu mais intrigada. Tom teve um vislumbre de razão: ela era sua mãe! Por alguma razão, lembrava sua mãe. E, nós meninos, jamais superamos nosso complexo de Édipo e seremos sempre apaixonados por ela. Assim, procuramos parceiras de vida inteira que tenham algo dela. Não as mulheres com quem nos esbarramos e trocamos fluídos por aí. Não a diversidade: mas a mulher para toda a vida.

O que estou pensando?

– Se tivesse dito que estava fechando, eu teria ido para o hotel e pedido um lanche – disse.

– Não é trabalho algum. Aliás, já terminei.

Ele amassou as folhas sobre o molho. Escorreu o macarrão cozido e os lavou, enquanto ela observava. Espaguete fino, feito de sêmola sem ovos, que Heitor fazia melhor que ele. E o careca nem era italiano ou árabe.

– Me disseram que eu comeria o melhor macarrão da cidade aqui, por isso tentei. Desculpe se cheguei tão tarde.

– Não precisa se desculpar. Mas você foi enganada.

– Enganada?

– Não vai comer o melhor macarrão da cidade aqui. Vai comer o melhor que poderá experimentar em toda a sua vida.

Ela sorriu e levantou as sobrancelhas.

– Nossa – disse.

Tom serviu o espaguete no prato e deitou o molho sobre ele. Pegou o moedor de queijo.

– Aceita? – perguntou. Ela assentiu. Ralou alguns farelos do parmesão por sobre o prato e voltou-se pare ela. Colocou o prato diante dela. O vapor dançou à frente de seu rosto. O cheiro ficou mais intenso. Ele viu quando os lábios dela se moveram. Ela estava salivando. E ele adorava isso. A sensação de desejo que a comida e o sexo despertavam nas pessoas.

– Tive essa impressão quando entrei – ela disse. – De que já te vi em algum lugar, mas... Você é daqui mesmo?

– Nascido, crescido, criado nesse pedaço caipira do estado.

– Estou aqui há duas semanas. A trabalho. Não tenho como ter conhecido você antes.

– Outras vidas? Viagens astrais? Vidência...

– Minha religião não permite esse tipo de crença pagã.

– Hmmm... temos uma religiosa. Realmente não tenho como ter conhecido você, a não ser que tenha sido há vinte ou trinta anos, quando minha mãe me arrastava pela rua para me enfiar na sala com aquela dona Ofélia, uma mulher enorme e de fala fina que me ensinou o catecismo e o temor a Deus. Na boa, sempre que sonho com o inferno, o capeta tem a cara dela. E ela grita: Eu te avisei! Eu te avisei!

– Jesus! – ela disse, depois que colocou o garfo na boca. Ele achou que ela tivesse queimado a língua. Ou que tivesse ficado horrorizada com o que ele havia dito. Algumas criaturas inocentes do universo costumavam achar em seus comentários imprudentes a chave para o reino dos pecadores. Nem lhe passou pela cabeça que ela pudesse ter achado o molho ruim.

– Desculpe – ele acabou dizendo.

– Hmmm... – ela gemeu, mastigando e fazendo uma cara fechada.

– O que foi?

– O molho! É melhor que eu pensei. Melhor que o cheiro.

Ele riu aquele riso que dizia: Claro que é!

– Achei que tivesse engasgado com a espinha do peixe.

– Que peixe?

– Sei lá. Foi o que me ocorreu dizer. Acho que você é... é estranhamente radioativa. Quando está perto, meus pensamentos embaralham.

Ela ergueu uma sobrancelha. Limpou a boca no guardanapo. E ele achou que era verdade. Não estava controlando o que ia dizer. E achou que o último comentário tinha sido... que tivesse ido longe demais.

– Diz isso para todas as clientes do seu restaurante?

– Só as que entram aqui depois das onze e elogiam meu molho.

– Você sempre conversa desfiando clichês?

Ele pensou um pouco.

– Vi você no jornal – acabou dizendo. Ela mastigou e meneou a cabeça afirmativamente.

– Pode ser – disse.

– Estava com os policiais que prenderam o pobre e coitadinho do Sid Romano, aquele santo homem, ícone desta comunidade familiar e cheia de santos em seu seio. Juíza, não é isso?

– Agora você vai se desculpar pelas gracinhas e dizer que não preciso pagar pelo jantar. E eu vou ficar desconfiada de que tem o rabo preso com algum indigente desonesto da sua cidade e nunca mais vou poder comer esse molho maravilhoso.

– Você é sempre espirituosa assim? Na foto do jornaleco você parecia mais sóbria.

– Estou saturada de trabalho e... e por alguma razão... não me pergunte, não consigo parar de falar. É alguma coisa que pôs no molho? Que mato é esse?

Canabis. Mas eu não me envolvo com os bons samaritanos de Cerro Calina. Eu sou da outra metade da família. Sou uma das ovelhas negras. Não tem medo de andar por aí sozinha, à noite? O Sid deve ter alguns primos irritados com você e sua gente.

– Eu ando protegida.

Colocou uma semi-automática sobre o balcão, enquanto manuseava o garfo. Tom deu um passo para trás. De onde tinha vindo aquela arma? Uma Glock de 33 tiros. Escura, em perfeito estado e parecendo um brinquedo de menino. Meninas não deviam andar com isso por aí...

– Além disso, eu apenas acompanhei a prisão. E não sou juíza. Sou apenas uma Oficial de Justiça tentando comer alguma coisa depois de um dia inteiro entregando intimações a maridos sacanas subempregados que se recusam a pagar as pensões de seus filhos e ex-mulheres.

– Essa não. Luana quer pensão?

– Luana? Você tem uma ex-mulher?

– Todos os idiotas têm.

– Você pode pedir pensão pra ela.

– Nãaa... O dinheiro dela vem da parte digna e ilibada desta cidade maravilhosa. É a atual esposa do ilustríssimo senhor prefeito e eu não quero que minhas mãos sujas emporcalhem as notas sempre limpas deles. Seria um crime.

Ela ficou olhando para ele por alguns segundos, enquanto mastigava. Era como se ele tivesse dito alguma coisa de que não gostasse. Ou algo que lhe remetesse a alguma memória indesejável. Tom não percebeu.

– Por que mesmo colocou essa... coisa em cima do meu balcão? Se for pra me impressionar ou... você sabe... me intimidar...

Ela acabou rindo, meio nervosa. Disse um desculpa com o rosto corado e retirou a arma. Devolveu para algum lugar em sua cintura, por dentro do blazer.

– Não sei porque fiz isso. Você... me desconcentra um pouco.

– É. Eu causo isso nas mulheres. Nem sabia que oficiais de justiça podiam andar armados.

– Pois não abuse muito desta aqui. Meus nervos andam meio imprevisíveis nesses dias.

– Você gosta de quiabo?

– O quê?

– Gosta de quiabo?

Ela fez aquele ar de intrigada.

– Gosto. Minha mãe fazia quiabo com...

– Você é quase perfeita! – eu disse. – Elogiou meu molho, é espirituosa, carrega a própria proteção, deve ter um bom salário e... É uma pena que goste de quiabo. Mas todo mundo deve ter algum defeito. Diga. Pode contar, eu aguento: tem mais algum?

– Sou religiosa.

– Não tenho nada contra o bom Jesus. Talvez Ele é que não se sinta muito à vontade comigo, mas... minha mãe ia adorar você.

– Que espécie de conversa é essa? – ela disse, entre uma garfada e outra.

– Você não tem aliança ou anel nos dedos. Espero não estar invadindo nenhuma jurisdição ou instância superior de qualquer tribunal...

– Eu poderia dizer que assédio é crime e dá cadeia.

– Diga a verdade, você me imaginou de algemas e gostou do que viu.

– Talvez eu tenha mesmo algum tipo de tara por homens de algema.

– Tara? Oficiais de Justiça beatas usam esse tipo de palavreado?

– É o preço que pagamos por lidarmos com a escória da sociedade. O que você põe nesse molho?

– Há dez minutos atrás eu diria que é amor, pra não chocar a lindíssima cliente de sorriso contido que entrou no meu restaurante e pediu spaghetti. Acho que posso lhe contar a verdade: é tesão que ponho nas minhas comidas.

– Isso também pode dar cadeia. Nem tenho coragem de descrever a imagem que me veio.

– Meritíssima, precisa confiar mais na paixão humana.

– Não sou juíza.

– Como trato uma Oficial de Justiça?

– Não sei, nunca pensei nisso... Oficial?

– Quer mais suco? Mais queijo? Aceita jantar comigo amanhã à noite? Sei fazer outros pratos, além de macarrão. Gosta de peixe?

– Seus pratos são muito caros. Se eu disser para minha mãe que comi um prato de macarrão por cinquenta Reais, ela vai mandar internar ou prender a filha.

– Estou convidando. Eu pago o jantar amanhã. E, quem sabe, dia desses... você pode usar suas algemas em mim e... e de graça?

– Se me dissessem que eu terminaria um dia infernal como este tendo esta conversa...

– Por sorte, você não me parece do tipo que escuta a conversa de qualquer um...

– Mesmo horário? Aqui?

– Bem... às sextas o trabalho aqui é meio complicado. Estamos em época de eleição e minha clientela é meio eclética. Todos os bons samaritanos saem de suas celas sujas e vêm fazer campanha aqui. Isso vai ficar parecendo uma feira livre em Candahar por essa hora. É claro que não permito troca de elogios, mas não teríamos como conversar tranquilamente num ambiente que mais parece fila de banco em dia de pagamento.

– Posso ficar desconfiada de um dono de restaurante que convida uma cliente para comer em outro lugar?

– E eu nem disse que convidaria você para comer em minha casa.

– Ah! Ainda bem que não disse. Isso sim me deixaria assustada.

Ela terminou o macarrão. Olhou para o molho no prato e ficou com aquele ar de pesar. Ele a socorreu com a cesta que usavam para colocar torradas. Ainda havia algumas. Colocou diante dela. Ela estendeu o braço. Ele puxou de volta.

– Confia em mim? – Tom perguntou.

– Não deveria. Mas o que mais eu poderia temer do sujeito que me preparou o jantar?

Ele pegou uma torrada com a ponta dos dedos, raspou no molho do prato, pingou duas gotas de azeite e um farelo do parmesão. Ela levantou a mão para pinçar o pão. Ele puxou de volta outra vez. Ela franziu o cenho. Ele sorriu e estendeu o braço, para servi-la.

– Você não vai servir na minha boca.

– Por que não? Já aceitou jantar comigo amanhã.

– Não. Não é...

– Vamos, vai perder a melhor parte da comida.

– Pensei que o molho fosse a melhor parte.

– O pão. Ele tem essa textura mágica quando encontra com o molho. Nada em sua vida... ou melhor, quase nada, vai ser tão delicioso.

Ficou olhando desconfiada. E, ele reconheceu, ela ficava linda com aquele ar de desconfiada. Por fim, abriu a boca e pegou a torrada com os dentes. Ele segurou um instante mais. Ela mordeu. O pão estalou. Um pouco do molho escorreu pelo seu lábio. Ele usou a outra mão e limpou. Recolheu o pedaço da torrada que sobrou.

– Muito boa.

– Como todo o resto – ele concordou, lambendo o molho no seu dedo, o que tinha limpado do queixo e lábio de Helena. Estendeu o resto da torrada e ela mordeu.

– Preciso ir. Quanto lhe devo?

– O jantar de amanhã.

– Não vou pagar o jantar de amanhã. Você me convidou.

– Não! Não foi o que quis dizer. Quis dizer que o que me deve é aceitar o jantar de amanhã.

– Eu entendi. Mas queria ter certeza.

– De que eu pagaria o jantar?

– Você nem sabe o meu nome.

– Júlia? Selma? Mara? Antônia? Luiza? É Luiza, não é?

– Por que não pergunta?

– Não gosto de coisas fáceis. Gosto de coisas conquistadas.

– E acha que pode me conquistar?

– Maria Augusta. Seu nome é Maria Augusta.

– Helena.

– De Tróia! Sabia que conhecia você de algum lugar! A mulher mais bela do mundo, que deixou até Afrodite com inveja, entra em meu restaurante e eu não a reconheço. Como posso ser tão estúpido?

– Não exagere. Eu já aceitei o convite. Não estrague tudo sendo Peter Pan.

– Claro, Oficial. Em que mais posso servi-la?

– A conta. Quero pagar por sua comida. Pelo menos desta vez.

– Já que insiste.


* Jefferson Sarmento... pede desculpas pelo comprimento do texto, mas sinceramente, fiquei apaixonado pelo diálogo e não dava pra cortar... mais.