Quem frequentou o Clube Municipal de Barra Mansa nas décadas de 60, 70, 80, deve se lembrar dele. Era o “seu” Cortez, funcionário do clube, homem de baixa estatura, cabelos brancos, sempre trajando calças que terminavam na altura das canelas, surrada camisa de malha branca com diversos furos e sandália de dedo. Na minha fase de Municipal, de final dos anos sessenta até meados da década seguinte, era ele quem ficava na portaria principal ou na ducha que levava as piscinas. Sempre severo e meio carrancudo, era quase impossível passar por ele sem se estar com a mensalidade paga, exame médico em dia e carteirinha do clube em perfeitas condições. Quando a garotada vazia muita algazarra era ele quem aparecia para chamar a atenção e restabelecer um mínimo de ordem. Esta imagem de disciplinador foi a que tive do “seu” Cortez durante muitos anos.
No início da década de oitenta, quando eu já não freqüentava o clube, fiquei sabendo numa conversa com meu pai, que Cortez tinha sido funcionário da Prefeitura Municipal de Barra Mansa até 1964 , mais especificamente, chefe de turma na Divisão de Obras, hoje chamada de Secretaria de Obras. Outro fato que tomei conhecimento é que ele era comunista e membro do antigo PCB, o que motivou sua saída apressada de Barra Mansa em abril de 1964, quando ele e outros membros do partido passaram a ser perseguidos pela ditadura militar que se instalara no Brasil. Cortez conseguiu fugir e escapar da prisão, não tendo oportunidade de desfrutar da hospitalidade do Primeiro Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), na época aquartelado em nossa cidade. Vários de seus correligionários não tiveram a mesma sorte e passaram uma temporada como hóspedes do Primeiro BIB, com direito a banhos noturnos nas águas do rio Paraíba e tímpanos estourados por “telefones”, entre outros mimos a que os prisioneiros eram submetidos. Como resultado da fuga para escapar da prisão, Cortez acabou sendo demitido da PMBM por abandono de emprego.
Como todos sabem, ou deveriam saber, esta foi uma época difícil, época em que o “dedo-durismo” foi amplamente praticado em nosso país. Agradar o fardado mais próximo poderia ser altamente recompensador. Com a promessa de que nada lhe aconteceria e que ele poderia reassumir seu emprego na PMBM, algumas notáveis e ilustres figuras da política e sociedade barramansense, numa nauseante demonstração de sabujice para com o coronel comandante do batalhão, tentaram atrair Cortez de volta a Barra Mansa para que ele fosse preso. O plano não deu certo porque alguns funcionários da prefeitura conseguiram avisar o perigoso “agente de Moscou”, que, na verdade, ele seria recepcionado e detido pelo exército tão logo chegasse. Só alguns anos mais tarde, passado o ardor dos intrépidos revolucionários, é que “seu” Cortez pode retornar a Barra Mansa sem ser incomodado, provavelmente porque as forças de repressão estavam ocupadas em massacrar outros grupos de esquerda envolvidos na resistência ao regime.
A partir do momento que tomei conhecimento desta face “tenebrosa” do velho Cortez, passei a vê-lo com outros olhos. Ele era bem mais que um sujeito severo e rabugento. Aliás, ele não tinha nenhuma destas características. Nas longas conversas que tive com ele na porta do Municipal, descobri nele uma pessoa amável, sempre bem humorado e otimista. Uma de suas principais preocupações era a de provar que não tinha abandonado a PMBM, mas sim fugido, porque sua liberdade e vida encontravam-se em perigo. Por diversas vezes tentou ser readmitido na PMBM com esta argumentação, mas sistematicamente sua pretensão foi recusada pelos prefeitos da época pós-64, numa demonstração explícita de pouco caso com as dificuldades de um velho que se aproximava do final da vida. Alguns destes antigos prefeitos e seus consultores jurídicos ainda estão vivos e gozam de fama de bons sujeitos. Outros já faleceram, mas deixaram seus herdeiros atracados a cargos públicos e com o mesmo apetite pela servilidade ao poderoso mais próximo.
No final da década de 70, Luis Carlos Prestes rompeu com o PCB logo após a volta do exílio. Cortez também se afastou do PCB, seguindo o chamado grupo prestista que se filiou ao PDT, embora este não fosse um partido de orientação comunista. Por diversas vezes conversei com Cortez a respeito do racha no PCB e sobre a figura de Prestes. Para minha surpresa, numa demonstração de insuspeitado prestígio, com um único telefonema, Cortez me colocou em contato pessoal com Prestes. Em uma atitude imprudente, pude, numa calorenta tarde de janeiro de 1984, bater um longo papo a sós com Prestes em seu apartamento no Rio. É verdade que naquela altura as pessoas já não eram presas e torturadas, mas ainda se vivia sob o governo de um general e, certamente, Prestes era constantemente vigiado. Cortez gozava de real prestígio entre os seus pares comunistas, mesmo entre aqueles que romperam com Prestes e permaneceram no antigo PCB. Sempre que falei seu nome, até mesmo com membros do Comitê Central ou com comunistas famosos como João Saldanha, Cortez era reconhecido e elogiado. No entanto nunca falava ou se gabava disto. Era um sujeito simples, que acreditava no comunismo como o futuro da humanidade e como uma causa pela qual valia a pena lutar.
A aposentadoria (INPS) pelo Clube Municipal era pequena e ele viveu com considerável dificuldade material. Continuou tentando reverter sua situação junto à prefeitura, sem nunca demonstrar mágoa ou se queixar das constantes negativas que recebia. Para ele esta situação era a consequência natural de suas opções políticas. Só no governo da Inês Pandeló foi possível sua reintegração e aposentadoria como funcionário da PMBM. Isto deu a ele um certo conforto material e assistência médica digna nos seus últimos anos de vida.
Minhas últimas lembranças do “seu” Cortez são as de vê-lo na sede do FUNDAMP, sentado, aguardando a consulta médica para o tratamento da doença que acabou por vencer o velho comuna. Ele então se levantava e vinha sorrindo me abraçar e bater um papo.






