quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Rock in Rio e a nova (e primeira) Cidade do Rock



Por Figurótico*

Tênis limpo, bermuda intacta, banheiro limpo. Alguma coisa deve ter dado errado na minha ida ao Rock in Rio IV no último domingo. Acostumado aos perrengues das outras edições, nesta voltei muito diferente pra casa. Pela primeira vez a palavra “cidade” fez sentido na descrição de onde se situa o Rock in Rio. “Cidade Nova do Rock” deveria ser o nome. Nova por realmente cheirar à nova. O piso de concreto e a grama sintética são como o quarto de sua casa: pode chegar e dormir de tão zerado que estão – sem exagero.

Não tinha empurrões, não tinha confusão, e acreditem: senti falta disso... Não tinha gente maluca, alucinada. Os anos de Rock in Rio Lisboa e Madrid realmente interferiram neste in Rio, na forma e no conteúdo. Fui preparado para a maior confusão e esta não estava presente. É certo que o fato de eu ter ido ao dia do Metal influiu em tudo isso – pelos amigos que estiveram nos dias anteriores, o do metal foi o mais vazio de todos.

Os comentários dos internautas foram claramente escritos por quem nunca foi num Rock in Rio, só neste. Reclamavam de fila, de furtos, de confusão pra pegar ônibus. Num dia de semana (sexta) onde o trânsito do Rio é caótico em qualquer canto a partir das 15 horas, o que se dirá em dia de Rock in Rio? (E não estamos em janeiro, como nos outros...). Não há vazão. Se o “Mixto Quente” em 86, só com artistas nacionais e que rolava aos domingos, atravancava o trânsito da zona sul pra chegar a Paria do Pepino em São Conrado teve de ser levado para a Praia da Macumba, o que dizer de um Rock in Rio? No meu caso, no domingo, foi tudo ótimo demais. Tudo certo.

Por que escolhi do dia do Metal? Por eliminação. Este está sendo um Rock in Rio onde se faz a ordem inversa: em vez de selecionar os dias legais, você elimina os “sem chance de ir”. E foi assim, será assim. No primeiro dia bastou o nome Claudia Leiite para me expulsar de lá. Rihanna e Kate Perry eu nem sei quem são. E Elton John não vale meu dinheiro. No segundo Nx Zero e Capital Inicial me espantam de qualquer evento. Mais do que as bandas, o público que irá vê-las, é o que mais me assusta... Vi um pedaço do Capital pela TV. Medo! A banda erra as próprias músicas (o baterista mais que os outros). O Dinho é um exagerado ao extremo. Sempre invocando “o Renato, o Renato”. Também pudera...

As três primeiras (e melhores) músicas do Capital foram presente do Renato e do Aborto Elétrico (no qual baixista e baterista do Capital formavam o trio): “Música Urbana”; “Fátima” e “Veraneio Vascaína”. E tome “véio, Du caralho, moçadaaa”. Ainda por cima pede insistentemente para que “levantem suas mãos para o alto” como num show de axé. Não dá. Basta ver se o Red Hot fica pedindo esse tipo de coisa. Aplauso não se pede.

Da primeira semana restou-me do dia do Metal. Vi Motörhead e Metallica de frente. As demais fui para a RockStreet (melhor lugar do Festival) refrescar-me de chope. Devo minha ida a esse dia a um de nosso administradores do blog, Geraldo Costa, por me vender os ingressos. Geraldo faz parte daqueles que não envelhecem: vai a quase todos os dias do Rock in Rio. Não aceito a desculpa de que “estamos velhos” pro Rock in Rio.

Mais do que as atrações, eu gosto de estar no evento; de ver gente na mesma intenção, de ver mobilização em torno do rock; de ver os ônibus do Rio estampados com o destino “ROCK IN RIO”; da cidade temporariamente deixar de falar de outros ritmos; de ver crianças atingidas (como eu fui) pela mídia, pelo falatório em torno da marca. Sou uma vítima dela. E fiquei feliz ao andar em Barra Mansa no dia seguinte, derrubado, com a camisa EU FUI e ver a molecada dizer: "caraca, ele foi". Em 85 eu dizia isso...

Retorno amanhã para Jamiroquai e Stevie Wonder. E ainda busco um ingresso para o último dia: aceito camaradagem de algum amigo. System of a Down promete.

*Figurótico é e sempre será Rock in Rio!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Depois daquele texto da Dielena...



* por Jefferson Sarmento

É, eu fiquei aqui, matutando as minhas considerações, revisando os meus planos. Na verdade eu sempre achei que os planejamentos só são escritos para podermos ter um balizador, uma referência ou... um troço qualquer para medir o quanto estávamos errados desde o princípio. A quantidade de variáveis é grande demais para levarmos a coisa à sério. Se tivermos apenas dois caminhos a seguir, já temos 50% de chance de termos planejado errado!
A maioria de nossas escolhas é um exercício simplista que vaga entre esquerdas e direitas infindáveis, rodando em círculos concêntricos que podem ou não revelar a pretensiosa reta de nossa vida, se é que existe uma – o Destino. Invariavelmente, essas escolhas podem ser revistas para outra direção, sentidos diversos que não influem no mistério universal. Mas existem aquelas decisões que mudam o rumo do mundo. O segredo da existência talvez esteja no poder que teríamos se tivéssemos como reconhecer, dentre todos os atos minúsculos e rotineiros, aquele que irá reverter a ordem suprema e nos jogar contra uma nova realidade; aquele milésimo de segundo em que deixamos de virar à direita e por isso atravessamos a fina barreira entre as dimensões que compõem esta realidade – e, novamente, se é que existe uma realidade.
Se você parar por um segundo, poderá reconhecer as duas ou três vezes em que uma decisão aparentemente comum e rotineira subverteu o sentido de sua vida; mudou o caminho e destruiu completa e cruelmente os planos que havia feito para o futuro. Aquele segundo em que você acabou de virar a esquina do corredor e olhou de modo diferente para a mulher de sua vida, que estava lá todo esse tempo, mas você não olhava desse modo, até então. Não há como voltar atrás nesses casos. Não há como pedir a alma de volta ao diabo, depois de vendê-la, seja lá qual tenha sido o preço. O que resta é olhar para frente e refazer todo o traçado tênue que são os planos mirabolantes que aprendemos serem necessários em nossa vida terrena (acreditando ou não em algo além desta Terra estranhamente concreta e contraditória em que vivemos). Mas, com o tempo, percebemos que esses planos são eficazes apenas em trazer aquela sensação de controle inicial e aconchegante que nos acostumamos a ter. Não se engane. Mesmo isso é apenas um outro engodo. É só um placebo.
Se existe sentido e controle, não nos foi dado o poder de conhecê-lo.
Muito menos de exercê-lo.

* Jefferson Sarmento não escreve planejamentos, mas até já tentou. E pede licença à colega do blog por ter aproveitado o assunto.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Uma História Severina


por Carlos Vinicius Rosenburg*


Um dos temas mais polêmicos do momento é a questão do aborto dos fetos anencéfalos. Há uma arguição de descumprimento de preceito fundamental no STF (ADPF nº 45) tratando do assunto - ainda falta julgar o mérito.

É um ponto delicado, que envolve o direito à vida do feto, de um lado, e o direito à liberdade de escolha (e dignidade) da mulher, de outro. Não é uma questão de fácil decisão, tampouco de soluções prontas ou simplistas.

Sem qualquer pretensão de colocar um ponto final no assunto (mesmo porque, sinceramente, acho que não há ponto final ou lado certo - há bons argumentos dos dois lados), indico um curta que tive a oportunidade de ver recentemente: "Uma História Severina", de Débora Diniz e Eliane Brum. É um filme forte, triste, mas que joga alguma luz e racionalidade sobre um tema tão carregado de paixão. Mais do que isso, o filme traz um pouco de realidade para um debate que, como em todas as discussões de ideias, costuma ficar no ambiente asséptico dos meios intelectuais.

Vejam o filme e tirem suas próprias conclusões.

Link para o filme - http://bit.ly/ecZGVE

Até a próxima.

*Carlos Vinicius Rosenburg tem 39 anos e acha que, na questão do feto anencéfalo, deve prevalecer a liberdade de escolha da mulher, seja qual for esta escolha (retirada do feto ou não). Como simples método contraceptivo continua a ser contrário ao aborto, uma vez que existem inúmeros e incontáveis métodos colocados (gratuitamente) à disposição da população. Mas reconhece que o tema é polêmico e extremamente passional.


sábado, 24 de setembro de 2011

E se eu não quiser me adaptar...?

E se eu não quiser me adaptar...?
*Por Renata Klotz

Não vou me adaptar a esse mundo do jeito que ele está. Não vou mesmo! Não concordo e bato o meu pé até que me chamem de louca e me mandem pra uma casa de repouso.
Não me venha dizer o que se há de fazer... Há muito que pode ser feito. Se vai adiantar eu não sei,mas que há,há.Não me diga que o amor morreu,não me diga que o capitalismo venceu,não me diga que não há mais ninguém confiável no mundo inteiro.
Não me diga que a arte, a poesia, a música, o cinema, nossas ações e palavras; que nada disso é capaz de alterar o rumo dessa história louca da qual nós somos todos cúmplices e vítimas. Não me diga que atitudes isoladas não fazem diferença e que uma andorinha só não faz verão. Eu não quero ouvir isso e não vou acreditar nisso.
Por favor, não me diga que seus sonhos envelheceram, que você precisa optar entre ser humano ou pagar as contas no fim do mês. Não me diga que amizade dá trabalho.
Não, pelo amor de Deus, não diga que ser bom é uma perda de tempo.
Não vou acreditar se você me disser que ao ler o jornal e ver tanta notícia de corrupção, assalto, seqüestro, bomba, terrorismo, prostituição, pedofilia, crianças deixadas no lixo; isso tudo te parece normal.Não me venha com esse ar blasé de quem tudo viu e que agora não tem mais coração que sofre, peito que dói, revolta que transborda.
Sério?!? Você não vai me dizer que se acostumou e que essa porcaria de mundo lá fora não é da sua conta, ou será que vai? Não diga, eu não quero ouvir isso.
Não venha tentar me convencer de que o ser humano é uma ilha. Não adianta você discursar sobre aceitação. Essa eu não engulo. Eu não vou me conformar com a morte de tudo que vale a pena. Não vou aceitar como fato imutável a perda dos sentimentos. A frieza, o egoísmo, a desonestidade terem se tornado corriqueiros. Não vou aceitar mesmo, desculpa. Desculpa se a minha revolta te incomoda, mas ela vai continuar intacta.

Se for mesmo assim, e se isso for tudo o que nos resta... Não sei o que estamos fazendo aqui, juro. Plagiando Renato Russo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito.
Eu não vou me adaptar. Eu não quero me adaptar.


*Renata tem 34 anos e não pretende se adaptar nos próximos 34.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Quem manda mesmo?



Quando criança eu imaginava que ao crescer seria dona do meu nariz. Eu faria o que quisesse, na hora que quisesse e do jeito que quisesse. Sim, eu tinha essa doce ilusão.
Mas cresci, e como todos, descobri que as coisas não funcionam assim. Vi que existem cordinhas atadas a nós, que mãos misteriosas por trás dos bastidores manipulam a todo tempo. Seja lá qual nome você escolha (Deus, carma, destino) as mãos e as cordinhas se movem sempre na direção oposta ao que você pretendia.
Como aquela fase na vida em que você decide se dedicar apenas aos estudos. Resolve passar alguns fins de semana enfiado nos livros. Mas aquela grande amiga termina com o namorado e precisa de compania para algumas noitadas que a farão curar a dor de cotovelo. Geralmente isso ocorre na adolescência, e todo mundo que eu conheço já passou por isso.
E quando você resolve investir na carreira? É o primeiro a chegar, o último a sair, sabe de cor a pauta de todas as reuniões e sente que só com mais um pouquinho de dedicação poderá conseguir uma promoção. Neste exato momento o amor bate à porta. E quando o amor bate à porta, já viu! Você abre e sua vida vira de cabeça pra baixo, você esquece-se de todos os outros planos. Pelo menos por um tempo.
Há também um período em que você não quer saber nem de estudos, nem de trabalho, nem de ninguém, só quer saber de você. E neste momento o ideal a fazer é mergulhar num período sabático. Cuidar de si mesmo. Ler alguns livros que você estava protelando, colocar algumas visitas em dia, ou ficar de pernas pro ar vendo o tempo passar. Só que neste exato momento irá acontecer uma crise familiar, e você precisará sair correndo para socorrer, antes que a crise vire um verdadeiro pandemônio.
Passada a crise, voltemos ao amor, agora você poderá se dedicar exclusivamente a mimar seu amado. Jantares românticos, passeios, vida de casado, tudo às mil maravilhas. Surge então a tal oportunidade no trabalho,  mas ela fica a mais de mil quilômetros de distância (sem exageros). Só que nem sempre o que é bom pra você é bom para outro, nem bom para o casal. Você então se consola sabendo que essa tal oportunidade nem era tão “UAU” assim, e no fim das contas tinha 50% de chance de não dar certo.
Você então resolve colocar a vida financeira em ordem.  Começa até a economizar dinheiro para projetos futuros. Então aparece uma despesa que faz você quebrar todos os porquinhos e lá está outra vez com a conta no vermelho.
E não pára nunca. Sempre que você decide focar em uma área da vida, a mão leva as cordinhas pra outro lado. É inútil insistir. O problema é quando você desiste de remar contra a maré e deixar o barco correr. Nessas horas as correntezas acalmam e o barco não sai do lugar. Aí  a vida não tem graça.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

COBRAR DOS RICOS, QUE HORROR!

Por Jorge Couto

Tenho me divertido bastante vendo programas de entrevistas com economistas. Pouco entendo desta nebulosa ciência (?), mas não é preciso ser um sábio para rir do contorcionismo dos diversos convidados na tentativa de explicar a situação da crise mundial. Os diversos canais de TV trazem a cena vários doutores para tentar explicar o imbróglio em que se encontram as finanças mundiais. O problema que os “Murdochs” tupiniquins não se atrevem a convidar economistas sérios, como por exemplo um Luiz Gonzaga Belluzzo; portanto nos apresentam doutores de diversas agências de análises econômicas, muito desmoralizadas com os feitos de suas congêneres norte-americanas nos últimos anos. Os arrogantes analistas que tão bem defendem os interesses dos clientes rentistas, se limitam a previsões de curtíssimo prazo sobre oscilações das bolsas de valores. Quando muito a contra gosto,se aventuram em alguma análise que não seja de uma superficialidade de poça d’água, querem fazer crer que toda esta confusão se deve a obra de alguns banqueiros malfeitores, mas que o modelo neoliberal continua sendo o ideal e, o mais importante, a única alternativa. Ou seja, é como se um médico defendesse sangria para um paciente gravemente anêmico.

Sei perfeitamente que a piora da situação econômica do mundo atinge também ao Brasil e, por consequência, a minha pessoa. Mas sou obrigado a admitir que assistir os analistas econômicos, com a desfaçatez habitual, tentarem fazer com que todos nos esqueçamos do que andaram a exaltar nas últimas décadas, na base do “não é bem assim, eu não disse nada disso”, é muito divertido.


FILAS DA MORTE E O SUS

A saúde no Brasil está doente, e isto não é novidade para ninguém. Também não é novidade que há necessidade de aumentar as verbas para o setor. Mas de onde tirar o dinheiro?

Em 2007, foi extinto a CPMF, diminuindo-se deste modo, em R$40 bilhões anuais, o orçamento federal. Com o argumento, até de certo ponto verdadeiro, de que o dinheiro arrecadado não era investido na saúde, o condomínio conservador: mídia, PSDB, DEM e agregados, saudou o fim do imposto como uma vitória do povo sobre o estado-Leviatã, convenientemente, esquecendo-se que a CPMF foi criada durante o governo do “farol de Alexandria". Na época da extinção da CPMF, os corifeus do neoliberalismo trombetearam que haveria uma redução do “custo Brasil”. Entretanto, “não há registro de abatimento de preço de qualquer empresa a partir dessa decisão. Na verdade, a taxa irrisória de 0,37% sobre o cheque penalizava apenas grandes transações, ademais de dificultar a circulação do dinheiro ilegal e a sonegação embutida na prática do caixa 2 . Cruzamentos de dados da Receita Federal demonstraram que dos 100 maiores contribuintes da CPMF, 62 nunca tinham recolhido imposto de renda no Brasil. Nunca” (Agência Carta Maior). Aliás, a questão da carga tributária no Brasil necessita de ser mais bem dissecada e apresentado alguns dados para que se possa ter uma discussão séria sobre o assunto, que supere a pantomima do “impostômetro” da Associação Comercial de São Paulo.

Uma rápida olhada na Internet nos informa que: “a) a carga fiscal do país, da ordem de 35% do PIB, cai substancialmente quando descontados subsídios e incentivos ao setor privado; b) debitados, por exemplo, os 6% do PIB entregues aos rentistas no pagamento do juro da dívida pública, a carga líquida já cai a 29%; c) cerca de 44% da carga fiscal brasileira advém de imposto indireto embutido nos produtos de consumo, pesando assim proporcionalmente mais no orçamento dos pobres do que no dos ricos; d) levantamento feito pela instituição inglesa UHY demonstra que a alíquota fiscal máxima brasileira é uma das mais amigáveis do mundo com os ricos, situando-se em 54º no ranking de intensidade; e) pesquisa do Inesc de 2007 mostra que o lucro dos bancos brasileiros aumentou 446% entre 2000 e 2006, enquanto o IR do setor só cresceu 211%: em termos absolutos os assalariados pagam quatro vezes mais imposto que os bancos; f) por fim, cabe lembrar que as remessas de lucros e dividendos do capital estrangeiro crescem explosivamente nas contas nacionais: somaram US$ 30,4 bi em 2010, salto de 20,4% sobre 2009”.

Agora o financiamento da saúde pública volta a ser discutido no Congresso com a emenda 29. Alguns parlamentares - entre os quais não se encontram representantes do PSDB, DEM e agregados – propõem a criação de uma taxa específica sobre o lucro bancário e sobre as remessas de lucros do capital estrangeiro, para o financiamento da saúde pública. Como já era de se esperar, a mídia conservadora e conhecidos políticos já iniciaram a arenga do “custo Brasil”, na tentativa de convencer a classe média do absurdo da criação de novo imposto, especialmente quando atinge em cheio os ricos, independente da fila da morte enfrentada pelos pobres no funil do SUS.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

E agora...Os Pirulitos!














Por Alex Frederick.



Pirulito que bate bate

Pirulito que já bateu

Quem gosta de mim é ela

Quem gosta dela sou eu



Domínio público.



terça-feira, 20 de setembro de 2011

...é algo assim...


* por Fernando Polastri (psicoimaginografado por Jefferson Sarmento)

É preciso ter a fé esperançosa de um monge tibetano pra encarar algumas sacanagens da vida. Se ficar tentando encontrar o porquê de certas curvas da estrada, vai acabar resvalando em questões mais complicadas que o futuro das crianças em Teerã. Por isso eu fecho os olhos e aceito o destino passado como se ele fosse os sulcos negros de um velho vinil; o que tocou, tocou. Mas, meu bem, amores impossíveis e velhas canções nascidas deles jamais podem ser deixados de fato para trás.

Se soubesse que ia perdê-lo, teria ouvido sua música chiada uma última vez. Mas... talvez nem pudesse, porque a agulha da vitrola não era mais a mesma de 25 anos atrás. Seja como for, teria tentado.

Passei pela porta do sótão naquela manhã, antes do trabalho, e jamais poderia imaginar o destino trágico das bugigangas moribundas além da escada estreita; ela subia espremida e magra, escura e morna, para a área quente entre a laje batida e as telhas portuguesas que davam à casa aquele ar colonial adorado pelo velho Polastri. Fosse um filme, o "eu" personagem daquele drama estúpido pararia ao lado do guarda-corpo que cercava a escada para o térreo e olharia na direção da porta. Teria aquele olhar de "algo está errado" desenhado a nanquim sob a testa intrigada, mas os afazeres do dia me chamariam e eu esqueceria aquele chamado fantasma como quem esquece que acabou de ouvir um grito de criança vindo do bosque, porque... não deve ser nada.

Mas passei direto, seja como for. Os livros com as capas soltas, as caixas de cartões de aniversário e de natal, as velhas bonecas da minha irmã, os esquecidos discos de vinil... tudo perdido em caixas de memórias desprezadas naquele sótão. Eles não foram lembrados nem naquele último dia. Não por mim. Não pelo empolgado Fernando Polastri que se casaria em duas semanas e que carregaria para as estantes novas do apartamento na cidade a coleção de quase dois mil CDs. Em defesa daquela atitude maquinal e vil da dona Elza, preciso dizer que cultivei o esquecimento como qualquer pessoa. Nos romances açucarados que as garotas adoram existem lembranças que jamais perecem; o primeiro beijo, a primeira garota, a primeira vez que peguei um carro... o primeiro disco autografado. Nesses instantes mágicos, nesses presentes fotográficos em que o peito arde pelo amor, a memória é feita de metal reluzente e indestrutível. Em tese, a boa lembrança é imbatível, inesquecível!...

Mas o tempo é ainda mais cruel que o mais poderoso sentimento. E nisso Einstein estava errado: ele não é relativo, o tempo. Relativos somos nós e nossas verdades fatais – perecemos ao longo dos anos.

Sinto a dor, às vezes, de só ter sabido um ano depois. É mais uma prova de que o esquecimento é indiscutível e nivelador como uma tonelada de concreto sobre um velho passeio de terra. O esquecimento esconde os sulcos e me peguei sentado aqui, olhando para a parede onde há milhares de anos havia uma estante e sobre ela um possante três-em-um onde desfiei centenas de discos agora mortos para a minha existência. Eles devem estar por aí, em algum canto, mas vivos apenas para outros ouvidos e olhos.

Naquele dia, duas semanas antes de entrar na igreja com uma para-sempre-amada Letícia (perdida para a rotina e algumas picuinhas das quais tenho metade da culpa), a viúva do velho Polastri faxinou com minha irmã as caixas mais empoeiradas das nossas velhas lembranças da família. E se desfez de antigos casacos, enfeites encardidos, brinquedos meio quebrados e... 427 discos de vinil que reneguei com meu vil esquecimento após substituí-los, um a um, por disquinhos prateados e impessoais que moram agora em caixas de papelão – achei melhor tirá-los do apartamento, antes que a agora para-sempre-rancorosa Letícia tocasse fogo em tudo.

Como disse, só hoje, um ano depois, soube do destino incerto dado ao velho The Wall, ao álbum branco dos Beatles, ao meu adorado Krig Ha Bandolo... E por um acaso tenebroso. Levei as caixas de CD para o sótão e entulhei-os por lá sem qualquer carinho; não sinto nada por eles – nem a raiva que cultivo da futura ex – mas não tratei com amor nem os vinis por quem choro agora, o que se dirá dos CDs?!

Quando estava descendo, tropecei numa caixa menor e ela desceu quicando pela escada estreita. Fui buscar o conteúdo até no corredor do segundo andar. A última peça da caixa era uma camisa puída do Flamento. Tem um 10 atrás. Quase tive uma crise; olhos marejados e lembranças de uma infância fantástica – e do momento em que o Galinho assinou seu nome sob o símbolo no peito.

Eu amava aquela camisa!

Mas ela também havia sido relegada a uma caixa no sótão.

No mesmo instante, corri para o mundo empoeirado sob as telhas portuguesas à procura do único exemplar, entre os 426 outros, que era especial de um modo quase fantástico: Bi escreveu meu nome e assinou embaixo; o finalmente sem óculos Herbert assinou de um lado e o imberbe Barone do outro. Eles me escreveram um abração. E eu ouvi aquele disco milhares de vezes. E naquela tarde chuvosa, vasculhei desesperado os escombros das memórias dos Polastri naquele sótão. Mas, claro, não encontrei nada.

Foi minha mãe quem contou. A Nandinha vendeu por 30 dinheiros a minha coleção. Foi entregue naquela banca que vende revistas velhas, perto do cemitério. Ou pelo menos vendia. A banca está fechada há alguns meses. Dizem que o dono morreu.

Fiquei ali sentado, olhando para a parede vazia onde a estante não existe mais, sobre o colo a camisa de listras estreitas com o autógrafo sob o escudo. Murmurei a primeira frase do Tim (você é algo assim) e deixei os ombros caírem com um suspiro.

Minha esperança de monge é que ele esteja bem (que eles todos estejam bem), valorizado e reverenciado como deveria ter sido por mim. E depois pensei em Letícia. Se pudesse voltar no tempo, salvaria meus discos e deixava aquela sovina de unha encravada esperando pra sempre no altar!

* Jefferson Sarmento não é espírita, não tem dons mediúnicos e jamais trocaria seu casamento pelos velhos discos de vinil. E espera verdadeiramente não ter decepcionado o Valério e o Geraldinho com essa pseudomemória do pobre Fernando Polastri (que perdeu o Selvagem! dos Paralamas pra mim, com dedicatória, autógrafo e tudo! Ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah!)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Zooilógico



• Por Geraldo Costa
Já estava com o meu texto pronto sobre o Rock in Rio, mas ao assistir mais um depoimento da Cissa Guimarães, agora no Fantástico, às 21h37, resolvi escrever outro. Escrever sobre um assunto que tem me incomodado há muito. Sobre a dor de alguém ao perder um parente querido por uma violência estúpida ou por uma injustiça.
Já escrevi aqui anteriormente: depois de que meus filhos nasceram, nunca mais fui o mesmo, psicologicamente falando. Me sinto mais fragilizado, com meus medos me visitando com mais freqüência. Não sou mais só. Aliás, nunca fui. Nunca fomos, mas esquecemos disso.

Não sei se as pessoas estão perdendo completamente suas referências morais e espirituais ou se a internet e as mídias modernas trazem qualquer ou todas as desgraças do mundo para a minha sala. Ou ambos. Só sei que é só ligar minha antena para o planeta que o circo de horrores se aconchega.

O que dizer sobre uma mãe faxineira que “conseguiu” após impensáveis esforços diários, após doses cavalares de despreendimentos, após humilhações muito prováveis, quebrar todas as barreiras sociais e econômicas e fez de seu filho um estudante de medicina? E ver esse menino assassinado no portão de sua casa, confundido com outro... Dá pra duvidar de tudo, até de Deus... Ao mesmo tempo, eu, um católico, não vejo outra maneira de superar tamanha mágoa, sem uma religião, alguma que seja.

O que dizer sobre um pai de família que ao chegar na porta de casa, à noite, de carro, depois de um dia inteiro de trabalho é abordado por dois “meliantes” em uma maldita moto, que exigem seus cartões, seu dinheiro, seu carro e sua dignidade. E você, temeroso, entrega tudo, sem nenhuma reação. Aí, eles resolvem entrar na sua casa, onde estão sua mulher e duas filhas adolescentes. Aí, você se desespera, muito provavelmente pede pelo amor de Deus e suplica que levem tudo e vão embora. Sem opções, você faz age por impulso e joga a chave do portão da casa por cima do muro.

Pra terminar, os nobres cidadãos encerram o caso com dois tiros em sua cabeça e vão embora. E você ali, morto na portão de casa, deixando um trauma para as pessoas que você mais ama e quis proteger.

O que dizer sobre uma milícia de afegãos que recentemente atacaram um caminhão (hic) de jovens estudantes que cometiam o “crime” de se encaminharem às suas salas de aula. Metralharam todas, não sobrou uma. O problema é que elas eram de uma minoria étnica. Um pequeno acerto de contas com o passado.

O que dizer do casal Nardoni que jogou a filha pela janela do apartamento? Ou a tal Richthofen que matou o pai e a mãe, arrumou uma notinha de motel para tentar arrumar um álibi e ainda chorou no enterro dos pais... E a mãe que jogou seu recém nascido no Rio em BH? Ou aquele menino, João Hélio, preso pelo cinto de segurança e arrastado por ruas e ruas por uma rapaziada “gente boa”...

Enfim, um cardápio de barbaridades pra qualquer ser humano comum, com um mínimo de sentimento, enlouquecer.

Juro, que mesmo violentando minhas mais profundas convicções religiosas, começo a entender quem defende a pena de morte. Somos hipócritas. Enquanto não é um parente nosso, sua mãe ou sua filha, até incomoda, mas vira só uma estatística. Já estamos nos tornando insensíveis pela repetição contínua dos fatos. A saída é a educação, a inclusão social, etc. Concordo com tudo. Mas falemos a verdade, se é com o nosso sangue, nossa gente, aí tudo muda...

Enfim, Pena de Morte, Prisão Perpétua ou Agrícola, alguma coisa tem que ser implantada no nosso código penal. Topo participar de qualquer movimento do tipo BASTA, CHEGA, ACABOU, NÀO AGUENTO MAIS. Se não daqui a pouco vai ser o NÓS OU ELES. Aí, será tarde demais, o bang-bang vai estar oficializado.

Geraldo Costa é pai de Gabriel e Guilherme Costa. Pede desculpas pelo desabafo e pelo assunto espinhoso. Mas está preocupado, acuado, em seu apartamento do 5o andar.

domingo, 18 de setembro de 2011

Coração Vagabundo














Coração vagabundo
Por Valério Cortez

Eu adoro chouriço.
Tem gente que gosta de jiló.
Muitos não gostam de pepperoni.
Gostos são gostos
Diferenças são só diferenças.

Mas o que realmente move nosso coração?
Bom, o Google acaba de me explicar que o que faz nosso coração bater é um tal de Sistema Nervoso Autônomo. Esse Google não falha.
Nosso coração, além de bombear 5 litros de sangue por minuto, 300 litros por hora e 7200 litros por dia, ainda encontra tempo para fazer de nós, seres sensíveis, emotivos e apaixonados.
É vermelho. Fica do lado esquerdo do peito e existe nas versões coração mole e coração duro. Normalmente as mães têm a versão mole e os pais a versão duro.
Porém, podem também ser encontrados em papel, manteiga, pedra e ouro.
Além de regular nosso fluxo sanguíneo, o coração serve também pra ter infartos, anginas e pericardites.
Segundo os hindus, é nele que está localizado o quarto Chacra, moradia do pulsar da alma e do amor incondicional e segundo os ritmistas, sua batida sincopada acompanha bem os afinados e os desafinados.
Mas como nem tudo na vida é concordância, a ciência, insensível como sempre, vem, ao longo dos tempos, tentando tirar do coração a condição de morada dos sentimentos e das emoções.
Primeiro fizeram da lua um mero satélite e agora querem fazer do coração uma simples bomba.
Tiraram são Jorge e o dragão do céu e agora querem desempregar Eros e Cupido.
Assim não dá.

Mas e aí meu camarada, o que move teu coração?
Bom, o meu coração hoje ta batendo lá no Engenhão,
pois assim como o Flamengo,
ele tem razões que a própria razão desconhece
Ponto final

Um bom domingo a todos.
Vamos partir pra cima.

sábado, 17 de setembro de 2011

"O Mestre e o Gênio"

*Flavia Alvaro Porto



Quase que diariamente tenho visitado o site do queridíssimo Millôr Fernandes, que é um jornalista incrível, de humor refinado e que escreve de tudo um pouco: charges, crônicas, peças teatrais, fábulas, entre outros estilos, sendo tudo com muita propriedade. Sensacional!
Em uma dessas visitas encontrei o texto abaixo, no qual ele conta sobre "o dia em que traduziu Renato Russo."

Para quem não conhece o "saite" (como o próprio Millôr o chama), aqui está o endereço: http://www2.uol.com.br/millor/index.htm

Rentato Russo

Legião Urbana. Renato Russo. Esta é minha relação com ele.

Meu cartaz aumentou muito com a galera da faixa etária entre 15 e 20 anos, depois que Renato Russo me citou duas vezes em seus shows, como guru não sei de quê. Não muito tempo depois, José Costa Netto, meu advogado e agente de direitos autorais, me telefonou dizendo que Russo queria que eu - profissionalmente - traduzisse um poema (musical) dele. Recusei, achando que fosse tradução do português pro inglês. Não acredito em quem faz traduções pra outra língua que não a sua. ("Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo, tradução pro inglês feita por ele mesmo, tradução que não li, mas me dizem excelente, é exceção. Mas com maluco não só não se discute como é melhor não estabelecer regras).

De pura curiosidade pedi pra ler o poema. Minha estranheza foi enorme - o poema, dedicado a um grande amigo dele, Cazuza, era denso, misterioso, cheio de sub-intenções, e em excelente inglês. Como uma pessoa que escrevia inglês assim me pedia para fazer a tradução? De qualquer forma topei traduzir, depois que o agente combinou o preço, altamente profissional. Altamente profissional, também, Renato Russo não hesitou diante do preço, bem, os da Legião Urbana não sabiam se o último show deles tinha 10 ou 60.000 espectadores.

Traduzir o poema era tarefa delicada, a começar pelo título "Feed-back for a dying young man". Qualquer tradutor desprevenido não perceberia que feed-back aí era um jogo de palavras entre o retorno emocional que o poeta fazia, com o retorno musical comum na música grupal - quando um músico "solicita" a resposta do outro, tipo jam session. A palavra podendo significar ainda retorno de som, aquele que dá microfonia. E seria lamentável traduzir dying por moribundo, palavra que indica instantes finais e soturnos, e não, como alguém à morte, morte esperada mas sem tempo definido pra chegar, a palavra conservando ainda o lastro romântico das damas das camélias.

Porém, traduzido o poema, sendo o poema audacioso e seu autor vivo, entrei em contato com ele para aprovação. Renato não corrigiu uma palavra. Apenas, aqui e ali, murmurava, perplexo e escandalizado: "Deus, do céu, eu escrevi isso?", confirmando a minha tese de que não há bilingüe. Só quando ouviu em sua própria língua o que tinha escrito em inglês, Renato percebeu a audácia do que dizia. Do lado de cá o surpreendido era eu. Com toda razão tendo opinião não muito lisonjeira a respeito do nível intelectual da maioria dos roqueiros, fui ficando admirado com a sutileza e justeza das observações de Renato e da perfeição com ele citava coisas em inglês - incluindo Shakespeare. Seu inglês era, definitivamente, melhor do que o meu. Até hoje não entendi porque me pediu a tradução. O poema foi incluido num de seus últimos CDs.

CANÇÃO RETORNO PARA UM AMIGO À MORTE
Alisa a testa suada do rapaz
Toca o talo nu ali escondido
Protegido nesse ninho farpado sombrio da semente
Então seus olhos castanhos ficam vivos
Antes afago pensava ele era domínio
Essas aí não são suas mãos são as minhas
E seguras, minhas mãos buscam se impor
Todo conhecimento do jorro viril do meu senhor
O gosto perfumado que retém minha língua
É engano instalado e não desfeito
Seus olhos chispantes podem retalhar minha pele bárbara
Forçar toda gravidade a ir embora
Ele vadeia em águas fechadas
Sono profundo altera seus sentidos
A meu único rival eu devo obedecer
Vai comandar nosso duplo renascer:
O mesmo
Insano
Sustenta
Outra vez.
(os dois juntos junto de nossos próprios corações)
Calei e escrevi
Isto em reverência
Pela coincidência
PS. Arthur Dapieve tem um excelente livro sobre Renato. "Renato Russo, o Trovador Solitário" (Relume Dumará, 183 pgs., Coleção Perfis do Rio de Janeiro. 2000).

FEEDBACK SONG FOR A DYING FRIEND
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá) © 1985

Soothe the young man's sweating forehead
Touch the naked stem held hidden there
Safe in such dark hayseed wired nest
Then his light brown eyes are quick
Once touch is what he thought was grip
This not his hands those there but mine
And safe, my hands do seek to gain
All knowledge of my master's manly rain
The scented taste that stills my tongue
Is wrong that is set but not undone
His fiery eyes can slash my savage skin
And force all seriousness away
He wades in close waters
Deep sleep alters his senses
I must obey my only rival -
He will command our twin revival:
The same
Insane
Sustain
Again
(The two of us so close to our own hearts)
I silenced and wrote
This is awe
Of the coincidence



*Flavia Alvaro Porto é a Flavinha.

"Acho que Millôr pinta e borda com as palavras."

Luto



Nós, do Estação BM, externamos nossas condolências às famílias das advogadas Ana Carolina Otoni Müller e Patrícia Calderaro Nogueira Leite, moradoras de Barra Mansa, brutalmente vitimadas em um acidente na Via Dutra, na altura de Floriano, no início da noite de ontem. Força a todos nesse momento de dor.

Administração do blog.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Momentos Inesquecíveis


















Flagrante da última reunião da Administração do Blog ESTAÇÃO BM.

Após a reunião e um breve aquecimento, todos se dirigiram a inauguração do Diário de Bordo ou Bar do Head.

Na foto, fora de ordem, Geraldinho Costa, Vinicius Bujão, Heleno Guanabara, Figurótico, Jorge Couto, Cezinha e Chico Bento.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Minha primeira companhia



Por Figurótico*

Aos 13 anos eu já tinha ido ao Ultraje a Rigor no Canecão, Lobão, Engenheiros e Titãs no Ilha Clube, porém, só aos 15 é que tive a permissão de ir pra noite em Volta Redonda, no único local que ficava cheio e aquele aonde todo mundo ia: a Boate Porão. Se não me engano, aos 14 já tinha estado lá, mas era num domingo à tarde, num festival de Heavy Metal. Moleques, ficamos com receio de entramos na porrada, pois éramos disparados os mais novos do ambiente. Sendo assim, minha estreia foi realmente aos 15.

Pegamos o ônibus na rodoviária e partimos. Ônibus lotado, pois todo mundo ia pro mesmo local naquele horário das 23 horas. Dentro do mesmo sou informado de uma condição que por pouco não me fez descer no ponto seguinte: você só podia entrar na companhia de uma garota. Gelei de medo, pois só conversava com garotas de colégio ou vizinhas, e ter de puxar papo com uma desconhecida para um cara tímido como eu era dose. Minha timidez nesses tempos era gritante, mesmo já integrando a galera da bagunça (dizíamos zona) no Verbo Divino desde os 12 anos, a relação homem-mulher aquele tempo não passava de conversa, ninguém beijava ninguém dentro da escola, coisa de 2% dava essa sorte.

Dentro do ônibus vou formulando um monte de abordagem diferente para poder ter êxito na chegada. Sócios do Clube dos Funcionários e Clube Municipal não pagavam pata entrar durante um tempo, o que facilitava, pois como sócio dos Funcionários restaria uma grana para pagar para a mulher quando esta lhe impunha essa condição – sim, também me disseram que algumas malandragens exigiam isso para que entrasse contigo.

Ao descermos do ônibus (muitos desciam no ponto anterior para não demonstrarem que vieram de bus) a luta começou, e fui assistindo para ver quem se dava bem nessa abordagem, muitos levavam um fora na lata (mulher nasce com essa habilidade de dizer não a engraçadinho). Deixei correr pra tomar coragem e fiquei vagando pela porta, vendo a senhorita Débora na portaria aguentar um monte de conversa fiada, gente dizendo que não havia mais garota disponível e tal. Mas não colava. Pra casa ficar tête-à-tête essa regra não era violada.

Fui me acalmando e vi que não seria tão difícil assim. Quando vejo duas mulheres mais velhas saírem do restaurante Casarão (acima do Porão) tranquilamente, a darem uma olhada na portaria fazendo aquela linha “entramos ou não nesse lugar de pirralhos?”. Era minha chance. Abordo-as e pergunto se uma delas não me faria companhia para entrar, pois todos meus amigos já haviam conseguido. Uma me abre um sorriso lindo e diz que sim, “por que não?” – completa.

Pronto, desci as escadas como um garanhão, com a mulher a me dar os braços e nos despedimos lá dentro, depois de um breve papo. (Agora me questiono: será que vem de lá meu desejo por mulheres mais velhas?). Minha memória me enche de orgulho, pois sei quem é essa mulher até hoje. Só não sei seu nome. É de Barra Mansa. Já a memória alcoólica não me ajuda tanto, pois acho (acho) que em certa feita já, décadas mais tarde já confidenciei ao seu ouvido: “você foi minha primeira companhia a entrar no Porão, nunca me esqueci”. Também “acho” que ela retribuiu com o mesmo lindo sorriso de outrora.

Nas vezes seguintes essa timidez foi deixando meu corpo, e já no ônibus eu saía disparando para quem não tinha companhia. Se a abordagem para a companhia estava resolvida, para uma conquista ainda não. Só que a mesma timidez fez com que eu fosse abordado em meu primeiro beijo e os demais dentro do Porão. Não sabendo dançar, ficava no meio da boate bebendo (pra perder a timidez) e ficava imóvel. Até que chegava alguma mulher e dizia: “oi, minha amiga quer te conhecer”. Bastava um papinho introdutório e a garota já estava pronta para. Recordo-me que a primeira que consegui morava na Casa de Pedra de Volta Redonda. E assim fomos aprendendo um tanto na Boate de Elias Salume (na foto acima em grande companhia: Martha Rocha), que vinga até os dias de hoje. Mesmo não freqüentando hoje devido à programação, reconheço que é o cara mais guerreiro de Volta Redonda, figura emblemática que foi tema de outra coluna minha por aqui.

http://estacaobm.blogspot.com/2010/08/o-fechamento-e-o-salumao.html

*Figurótico quer saber como foi a inauguração do Diário de Bordo ontem, já que não pôde ir...