
Ora que melhora
O barulho da cidade me incomoda muito. Sempre sonhei viver no meio do mato, sem vizinhos, ouvindo só passarinho e vento. Então, na primeira oportunidade que tive, contrariando a família, comprei um terreno na beirada mais isolada do mundo.
O lugar era perfeito, cercado de árvores, com uma reserva florestal atrás. Só um vizinho, um criador de orquídeas muito educado, aparecia por lá de mês em mês para ver as flores e bater um papo na cerca tomando uma cachacinha comigo.
Um dia ele se cansou da estrada ruim e pôs o sítio à venda. Com a saída dele as orquídeas ficaram abandonadas, se proliferaram sem controle e o local ficou infestado de perfume e beija-flores. Se melhorasse estragava mesmo.
Um dia soube que o sítio tinha sido vendido e fiquei torcendo pro comprador não aparecer tão cedo. Levou um bom tempo, mas apareceu. Era uma velha, a mãe dela centenária e um cachorro grande que parecia o Cérbero, aquele cão de três cabeças que tomava conta da porteira do inferno.
No primeiro contato que eu tive com a velha senti um calafrio. Tive a certeza dela ter causado algum embaraço pro demônio e ele ter botado o bando todo pra correr das profundezas.
E daí pra frente nunca mais tive sossego. Ela construiu a casa do cachorro o mais perto que podia da janela do meu quarto, gritava o dia inteiro com a mãe, a mãe berrava com o cachorro, o cachorro latia sem parar. Eu reclamava e ela dava gargalhada. Todo dia eu pensava em assassinato, mas na mão não ia dar. Eram duas velhas possuídas, tinha que ser coisa pensada, com arma boa, senão quem morria era eu.
Um dia, já desorientado e descrente de uma solução, pensei: -“Estaca no coração! Vou procurar um toco grosso e afiar bem afiadinho!” – E saí andando sem rumo pela reserva atrás de um galho no jeito. Fui me embrenhando cada vez mais pra dentro da mata, até que lá no fundo de um grotão, sentado em uma pedra, me aparece um apache velho, fumando um cachimbo esquisito.
Ele disse -“Rôu!” e me ofereceu o cachimbo. Eu aceitei e na terceira tragada eu já estava mais calmo que o índio. Perguntou o motivo de minha aflição e eu contei o caso todo. Quando descrevi a velha ele fez uma careta e me pediu o cachimbo de volta. Deu uma puxada forte, se virou e me aconselhou: -“Não reaja, não faça nada a não ser rezar. Entregue o problema nas mãos de Tupã.” E eu disse: -“Sim, mas me passe o cachimbo de volta”.
Na quinta tragada, olhei pro lado e cadê o apache? Como apareceu, sumiu, levando a pedra e o cachimbo. No lugar dele ficou só uma fogueirinha de gravetos, que eu apaguei pro fogo não lamber o mato.
E eu, que nunca tive fé, segui o conselho do pajé e a partir daquele dia comecei a rezar. O cachorro latia, eu rezava. A velha berrava, eu rezava mais.
Parece que funcionou, Tupã sentiu meu drama e me acudiu. Com o tempo, o cachorro foi ficando quieto, parando de latir, até que um dia sem mais nem menos parou de respirar.
A mãe da velha também foi dando tanta alteração que acabou internada em um asilo em São Gonçalo.
E a velha, que era dura na queda, murchou. Foi ficando muda e um dia desses vi um médico sair da casa dela. Pela expressão do doutor conversando com o caseiro deduzi que não havia mais o que fazer.
Parei de rezar antes que a casa dela pegasse fogo. E apesar de não entender direito o que aquele apache estava fazendo em Maricá, me converti. Tupã é fiel.
Notas da Administração
Cláudio Pelegrineti morou em Barra Mansa até 1972, quando migrou para Niterói abordo de uma Variant bege em bom estado.
Estudou no Grupo Escolar Barão de Aiuruoca, no Colégio Estadual e no Verbo Divino. Era bom aluno, mas as más companhias o desviaram.
Por aqui foi companheiro de copo, no extinto Bar do Batata, dos também extintos, Andura, Altino Pena, Tatá e Clécio Penedo.
Cláudio, seja muito bem vindo.


