quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Estação BM tem a honra de apresentar Cláudio Pelegrineti em:












Ora que melhora

O barulho da cidade me incomoda muito. Sempre sonhei viver no meio do mato, sem vizinhos, ouvindo só passarinho e vento. Então, na primeira oportunidade que tive, contrariando a família, comprei um terreno na beirada mais isolada do mundo.

O lugar era perfeito, cercado de árvores, com uma reserva florestal atrás. Só um vizinho, um criador de orquídeas muito educado, aparecia por lá de mês em mês para ver as flores e bater um papo na cerca tomando uma cachacinha comigo.

Um dia ele se cansou da estrada ruim e pôs o sítio à venda. Com a saída dele as orquídeas ficaram abandonadas, se proliferaram sem controle e o local ficou infestado de perfume e beija-flores. Se melhorasse estragava mesmo.

Um dia soube que o sítio tinha sido vendido e fiquei torcendo pro comprador não aparecer tão cedo. Levou um bom tempo, mas apareceu. Era uma velha, a mãe dela centenária e um cachorro grande que parecia o Cérbero, aquele cão de três cabeças que tomava conta da porteira do inferno.

No primeiro contato que eu tive com a velha senti um calafrio. Tive a certeza dela ter causado algum embaraço pro demônio e ele ter botado o bando todo pra correr das profundezas.

E daí pra frente nunca mais tive sossego. Ela construiu a casa do cachorro o mais perto que podia da janela do meu quarto, gritava o dia inteiro com a mãe, a mãe berrava com o cachorro, o cachorro latia sem parar. Eu reclamava e ela dava gargalhada. Todo dia eu pensava em assassinato, mas na mão não ia dar. Eram duas velhas possuídas, tinha que ser coisa pensada, com arma boa, senão quem morria era eu.

Um dia, já desorientado e descrente de uma solução, pensei: -“Estaca no coração! Vou procurar um toco grosso e afiar bem afiadinho!” – E saí andando sem rumo pela reserva atrás de um galho no jeito. Fui me embrenhando cada vez mais pra dentro da mata, até que lá no fundo de um grotão, sentado em uma pedra, me aparece um apache velho, fumando um cachimbo esquisito.

Ele disse -“Rôu!” e me ofereceu o cachimbo. Eu aceitei e na terceira tragada eu já estava mais calmo que o índio. Perguntou o motivo de minha aflição e eu contei o caso todo. Quando descrevi a velha ele fez uma careta e me pediu o cachimbo de volta. Deu uma puxada forte, se virou e me aconselhou: -“Não reaja, não faça nada a não ser rezar. Entregue o problema nas mãos de Tupã.” E eu disse: -“Sim, mas me passe o cachimbo de volta”.

Na quinta tragada, olhei pro lado e cadê o apache? Como apareceu, sumiu, levando a pedra e o cachimbo. No lugar dele ficou só uma fogueirinha de gravetos, que eu apaguei pro fogo não lamber o mato.

E eu, que nunca tive fé, segui o conselho do pajé e a partir daquele dia comecei a rezar. O cachorro latia, eu rezava. A velha berrava, eu rezava mais.

Parece que funcionou, Tupã sentiu meu drama e me acudiu. Com o tempo, o cachorro foi ficando quieto, parando de latir, até que um dia sem mais nem menos parou de respirar.

A mãe da velha também foi dando tanta alteração que acabou internada em um asilo em São Gonçalo.

E a velha, que era dura na queda, murchou. Foi ficando muda e um dia desses vi um médico sair da casa dela. Pela expressão do doutor conversando com o caseiro deduzi que não havia mais o que fazer.

Parei de rezar antes que a casa dela pegasse fogo. E apesar de não entender direito o que aquele apache estava fazendo em Maricá, me converti. Tupã é fiel.


Notas da Administração

Cláudio Pelegrineti morou em Barra Mansa até 1972, quando migrou para Niterói abordo de uma Variant bege em bom estado.

Estudou no Grupo Escolar Barão de Aiuruoca, no Colégio Estadual e no Verbo Divino. Era bom aluno, mas as más companhias o desviaram.

Por aqui foi companheiro de copo, no extinto Bar do Batata, dos também extintos, Andura, Altino Pena, Tatá e Clécio Penedo.

Cláudio, seja muito bem vindo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Trampo Duro: Parte 7


* por Jefferson Sarmento

Anteriormente em Trampo Duro... Erik acordou de frente para o poderoso e temido Don Vidigal, o bicheiro chefão, mas... o velho estava com um acessório estranho no meio das costas, mortinho da silva como todos os outros. Depois disso, Erik finalmente encontra Pattie.
(Parte 7: Quando tudo parecia ter fim...)

Eu tinha duas escolhas: esperar a polícia chegar à sala e me explicar ou dar o fora com Pattie e assistir de longe ao show. Lembrei da faca nas costas do Vidigal, da chacina na casa do vereador fuinha e de Gilda morrendo em meus braços. Era muita coisa para explicar. Nem um marido com as calças na mão e a aliança no bolso tem tanta coisa para explicar.
– Pattie, escute, temos que sair daqui. Depressa.
– Mas a polícia está chegando...
– Confie em mim!
Peguei-a no colo, amarrada ainda. Prefiro não comentar os pensamentos que tive com aquela cena. Carreguei-a por outra porta, seguindo na direção da cozinha. O batalhão armado fazia uma barulheira descomunal na sala.
– Erik, vamos voltar. Posso explicar tudo à polícia.
– Que foi sequestrada e que o resgate cobrado de seu marido era entregar o testamento do velho Hans ao Vidigal? Acho que não vai fazer bem à carreira dele.
Ela se calou. Chegamos à área de serviço. Perdi-me pelo longo jardim do bicheiro e chagamos a um portão que levava a outra rua. Desamarrei-a e saímos. Chamei um taxi. Parados na esquina, ficamos olhando o movimento.
– Sempre que precisei, você estava lá – ela disse. Encostou-se em meu peito. Tremi meio grau na escala Richter. Pensei em dizer-lhe que a recíproca não era verdadeira, mas deixei passar. Como se lesse meus pensamentos, ela murmurou: Às vezes fico imaginando o que teria acontecido se eu tivesse ido àquela estação.
– Eu teria ido com você até o fim do mundo.
– Acha que um dia... nós... ainda...
– Não me dou o luxo desses pensamentos, meu bem. Além do mais, você foi bem clara: tem a sua vida e não pretende mudar suas escolhas.
– Você fala de uma maneira... como se eu tivesse mesmo uma escolha...
– Sempre temos uma escolha. Você fez a sua.
– Precisava ser racional. Além disso... meu marido...
– Já ouvi essa estória, Pattie. Ele a perdoou. Seja lá o que tenha contado a ele... o perdão é uma vingança mais cruel que um tiro no coração.
– Contei tudo a ele.
– Tudo?
Ela me olhou como se não entendesse a pergunta.
– O que você acha? – questionou, as entrelinhas gritando que uma mulher direita faria aquilo: confessaria todos os erros e deixaria de lado, para sempre, todas as mentiras, pelo bem do casamento. O taxi parou no outro lado da rua.
– Vá embora. Entre naquele taxi.
– E se... se eu ficasse. E se fôssemos embora agora, para sempre!
Era tentador, eu sei. Mas...
Beijei sua testa. Olhei para o outro lado da rua. Tive medo. No fim, sou apenas um desses covardes. Respirei fundo. Já tinha passado por aquilo antes. Não acabava bem. Pensei no sujeito decente que ela tinha em casa e na vida miserável que eu tinha. Ela jamais seria feliz comigo.
Se aquele taxi partir e você não estiver nele, vai se arrepender. Talvez não hoje, nem amanhã, mas em breve e para o resto de sua vida.
E nós?
Nós sempre teremos Paris...
Percebi que ela corou ao baixar os olhos. E entendi que não havia contado tudo ao marido. Pelo menos não a parte do Resort Paris, onde passamos aqueles três dias memoráveis em que ela deveria estar numa convenção para especialistas em libras.
Eu disse... que nunca deixaria você...
Segurei seu rosto. Respirei fundo. E tentei explicar da melhor maneira possível.
E você nunca vai me deixar. Mas tenho um trabalho a fazer também. E aonde vou não posso levá-la. Você não pode participar do que vou fazer. Pattie, não sou muito bom em ser nobre, mas qualquer um vê que os problemas destas três pessoas não são nada diante deste mundo louco. Um dia você ainda vai entender isso.
Ela se foi. Pela segunda vez. Quanto a mim... tinha mesmo um trabalho a fazer. Fiquei olhando o taxi virar a esquina. E depois comecei a caminhar de volta até a frente da casa do bicheiro Vidigal.
...
No tipo de trabalho que faço, uma hora ou outra a polícia acaba envolvida. Assim, espiei primeiro para saber quem estava atuando naquela diligência. E quando percebi a figura aquilina do velho delegado Falcão, perdi a timidez e resolvi me aproximar. Comprei antes um maço de cigarros para queimar o resto de Pattie em minha garganta e parei ao lado do homem da lei.
– Está perdendo o medo ou o velho Vidigal finalmente deixou um rastro para você farejar? – perguntei, insinuando que não sabia por que todo aquele alvoroço.
– Oi, Erik. Como estão as coisas no bar?
– Calmas. Sabe como é monótono por aquelas bandas. Mas aqui...
– Aqui as coisas estão meio complicadas. Não espalhe ainda, mas alguém enfiou uma faca do tamanho de uma banana nanica nas costas do bicheiro.
– Meu Deus! O mundo está mesmo perdido. Não se respeita mais nada mesmo. Tem ideia de quem poderia ter feito uma barbaridade destas?
– Ainda não. Mas estou seguindo uma pista. Ontem à noite quase pegamos o sujeito que matou a mulher do promotor. E hoje... veja só, alguém ateou fogo na casa do vereador cunhado do Vidigal. Quando chegamos lá, encontramos todos mortos. Incluindo o promotor Hayworth.
– Mas o que o promotor estava fazendo lá? – agora era uma curiosidade verdadeira.
– Ainda não sei ao certo, mas...
O delegado com cara de ave de rapina e inteligência de ostra olhou para os lados. Chegou bem perto, como quem toma um bourbon e conta ao barman que comeu a mulher do vizinho.
– Lembra do alemão que queria construir um hotel em Qwatzuan?
– Ele não morreu do coração?
– Pois é. Mas antes de morrer, vendeu a praia para o Vidigal. E... não vá espalhar uma coisa dessas, somos amigos, mas eu teria que tomar uma providência...
– Ora, desembuche. Sabe que guardaria um segredo seu por sete gerações.
– Andam comentando por aí que Hayworth chantageava o alemão porque descobriu que o gringo gostava de... bem...
O delegado fofoqueiro fez um gesto com as mãos.
– O alemão de Qwatzuan gostava de rapazes? – essa era nova.
– O promotor Hayworth tentou embargar a obra, sabe-se Deus por quê, durante uns dois anos. Não conseguiu pelas vias normais. Por fim, chantageou o alemão e ele acabou desistindo do hotel.
– Mas por que Hayworth queria tanto que o Hans desistisse do hotel?
– Isso eu não sei. Mas contam as más línguas que o processo contra o Vidigal foi arquivado pelo promotor logo que o alemão vendeu as terras da praia de Qwatzuan para o bicheiro.
Fiquei pensando naquilo, sem entender bulhufas. E então me ocorreu uma coisa.
– E a família do alemão? – perguntei.
– O alemão não tinha família.
– Não deixou um... testamento? – insisti.
– Aí é que a coisa fica engraçada.
– E qual é a graça?
– Tem esse contador lá do centro cuidando do inventário. Parece que o velho Hans deixou o que sobrou de seus bens para... veja só, para o caseiro. Um tipo meio bronco que vende camarões graúdos na feira.
Levantei a sobrancelha esquerda e fiz a conta simples que me passara despercebida todo aquele tempo: todas as pessoas que encontrara até então, com pistas sobre o desaparecimento de Pattie e o caso do espólio de Hans estavam mortas, menos o pescador matuto com o tórax do Tarzan.

(Ele deixou mesmo Pattie ir embora?! Que idiota! Continua...)

* Jefferson Sarmento... ainda tem esperança de que Erik e Pattie terminem juntos e pede desculpas por ter usado o texto de Rick e Ilsa no aeroporto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

AOS PEDAÇOS

* Por Geraldo Costa


RIP
Com as recentes conquistas das montadoras Nissan e Hyundai, nossa região Sul Fluminense está em um acelerado processo de industrialização. A comparação com o ABC paulista é inevitável. Já ganhamos até uma sigla na imprensa: RIP (Resende, Itatiaia e Porto Real).
Enquanto isso, em Barra Mansa, titular dessa amada estação...
Tá difícil...


CARTEIRADA
Sexta passada, o desembargador Cairo Ítalo França David - da 5a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, saiu em defesa de seu motorista que se recusou a fazer o teste de bafômetro em uma blitz da Operação Lei Seca. O magistrado desembarcou do carro e disse aos agentes que não deveria ser fiscalizado, por ser uma autoridade. Fez mais, deu voz de prisão ao Tenente da PM que estava trabalhando dando suporte à operação Lei Seca. Isso após o motorista tentar se evadir do local.
Resultado: pararam todos na delegacia e nas páginas policiais.
Pois é... Somos cidadãos de segunda classe?


A CÉSAR, O QUE É DE CÉSAR
O recente episódio do vazamento de óleo nas águas do Norte do Estado do Rio, mostra a face mais cruel e evidente da necessidade das contra-partidas socioambientais na partilha dos royalties do petróleo. Quem produz, corre riscos e tem seu meio ambiente atingido, inevitavelmente. A exploração de petróleo tem alto risco para a natureza. E com o pré-sal, com exploração em grandes profundidades, vai ficar ainda mais arriscado.
As estimativas mais positivas dão conta de que meio milhão de litros de petróleo vazaram. E a empresa Chevron não parece nada preparada para resolver rapidamente a situação.
Pra meu espanto, o Presidente da Petrobras - Sérgio Gabrielli, declarou que o “vazamento não interfere na discussão dos royalties”. Um absurdo!


BRASILEIRÃO
Um grande jogo entre Vasco e Fluminense.
O gol do Fluminense foi irregular. Podia ter sido mais uma injustiça do futebol.
Por essas e outras é que sou totalmente a favor da tecnologia no futebol. Passa o vídeo, tira a dúvida e que a justiça seja feita.
Essas polêmicas do futebol são ridículas. Tem quem ache legal, que isso que alimenta o esporte, etc, etc. Pra mim, só gera desconfianças, infartos, discussões, ódios e violências.
Tudo inútil.


VESPEIRO
O atual Ministro da Educação - Fernando Haddad (por enquanto não entrou no cai-cai), acaba de relançar o kit homofobia, vulgarmente chamado Kit Gay.
Pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, a maior do país, Haddad mal saiu de mais uma cagada no ENEM 2011 (pelo terceiro ano seguido), já se meteu em outra polêmica. Deve estar achando legal...
Pelo andar da carruagem, vão fazer do imbecil do Bolsonoraro, o Deputado mais votado do Brasil nas próximas eleições. O Senador Francisco Dornelles já previu essa. Afirmou que Bolsonaro tem a melhor assessoria de imprensa do país: o PT.


KING KONG
Em Vitória, capital do Espírito Santo, uma mulher foi presa ao tentar assaltar um banco sem uma única arma ou similar.
Sua estratégia era uma perigosíssima carta. Isso mesmo, uma carta e muito mal escrita.
Presa, ela falou que tinha visto isso em um filme.
Esse é o Brasil que vivemos. Gente simples, endividada, sem perspectivas e sem discernimento...


ALÔ, ALÔ...
A Nasa acaba de lançar a nave não-tripulada Atlas 5, que leva o jipe-robô Curiosity, a Marte.
A missão como sempre é arriscada. Entre russos e americanos, dois terços das missões espaciais enviadas a marte fracassaram. Alguns falam até em maldição.
A engenhoca é o que existe de mais moderno produzido por nossa civilização. Um investimento de 2,5 bilhões de dólares na tentativa de achar vestígios de água e quem sabe, com sorte, marcianos.
As transmissões de lá vão ser transmitidas em 3D HD.
Há vida no planeta vermelho? Alguém em Barra Mansa já foi abduzido?


URUCA
A Fórmula 1 se tornou bastante previsível e desequilibrada. O melhor carro ganha sempre. Os pilotos campeões só nos melhores carros.
Pra nós brasileiros, os últimos anos têm sido cruéis. Muito mal acostumados com Piquet e principalmente Senna; os brazucas Barrichelo, Massa e alguns ainda menos cotados, só nos dão decepções.
Mas além da deficiência técnica, acho que nossos pilotos deveriam se benzer. Nunca antes na história desse país assisti tanta gente azarada pilotando. Se pode dar errado, dá...


NÚMEROS E SIGLAS
A Firjan acaba de lançar seu ranking de avaliação dos serviços dos municípios do Brasil, chamado de IFDM - Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal, referente a 2009. O IBGE acaba de lançar os dados populacionais referentes ao ano de 2010.
Em ambos os números são muito ruins pra Barra Mansa, titular dessa nossa gare.
No IFDM, de 2008 para 2009, nossa cidade caiu da 11a para a 21a posição no Estado do Rio.
Caiu da 335a para 694a posição no Brasil. Na Educação, estamos na 60a posição entre os 92 municípios do Estado do Rio. Só como informação, nossa cidade em 2010, tinha o 17o orçamento do Estado. Per capta, estamos na honrosa 72a posição.
No IBGE, em uma década de 2000 a 2009, a população de Barra Mansa cresceu apenas 4,13%, o menor dos 12 municípios do Sul Fluminense.
Amo minha cidade. Nasci e muito provavelmente, vou morrer por aqui. Aqui optei por viver e mais importante, optei por criar meus filhos.
Mas tá difícil...


AS ALEGRIAS SERÃO DE TODOS...
Assisti no Fantástico ao lançamento do clipe de fim de ano da Globo.
Falem o que quiser, a Globo é incomparável.
Roberto Carlos cantando a tradicional música de Marcos Valle e letra de Nélson Motta. E um coral com, entre tantos, Lima Duarte, “Augustinho Carrara”, Milton Gonçalves, Mariana Ximenes, Lázaro Ramos, Luciano Huck, Serginho Groisman, Leandro Hassum e Marcius Melhem e em vídeo a imagem do palhaço Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo.
Meu primeiro feliz natal pra todos. E do Estação BM também.




Geraldo Costa é pai de Gabriel e Guilherme Costa. Tem andado com muito sono e desanimado.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A construção da usina pode ser necessária, a matriz energética pode ser limpa, mas que os índios e os ribeirinhos vão se fuder, ah isso vão


















A construção da usina pode ser necessária, a matriz energética pode ser limpa, mas que os índios e os ribeirinhos vão se fuder, ah isso vão.

Por Valério Cortez

No último dia 15, começou a ser vinculado nas redes sociais, um vídeo de aproximadamente cinco minutos, onde um grupo de dezenove atores e atrizes da Rede Globo de televisão, questionam e criticam o projeto do Governo Federal de construir no Pará, na bacia do Rio Xingu, em plena Floresta Amazônica, o Complexo Hidroelétrico de Belo Monte.
Produzido pelo até então desconhecido, Movimento Gota d’ Água, o filme intitulado “A Gota d’Água + 10”, prima pela excelência da produção e pela enorme quantidade de informações incorretas, distorcidas e tendenciosas, nele difundidas.
E como era de se esperar, reacendeu-se a velha polêmica, colocando novamente frente a frente, defensores e detratores do projeto de Belo Monte.
E para que nosso blog não passe batido por este assunto, tão importante quanto polêmico, pedimos licença para enfiar nossa colher de pau nesse enorme angu energético e amazônico.
Se você tiver tempo e se der ao trabalho, poderá passar algumas horas ou alguns dias ou até mesmo, algumas semanas, mergulhado na internet lendo tratados, entrevistas, análises e pareceres, contra e a favor a construção do complexo hidrelétrico.
Assim, terá a oportunidade de ouvir a opinião do pessoal do governo, do pessoal da oposição, da turma da esquerda, da turma da direita, dos ambientalistas sérios, dos ambientalistas picaretas, de artistas brasileiros, de artistas ianques e de um monte de palpiteiros sem noção.
Enfim, tem de tudo para todos os gostos.
E aqui chegamos a nossa primeira grande conclusão: Belo Monte antes de ser uma usina hidrelétrica, já é um grande problema.
E não é de hoje.
Tudo começou lá pela metade dos anos 70, quando os militares iniciaram os estudos do inventário Hidroelétrico da Bacia do Rio Xingu. Depois, no início dos anos 80, a Eletronorte começa a desenvolver os estudos de viabilidade técnica e econômica do chamado Complexo Hidrelétrico de Altamira.
Em fevereiro de 1989, em Altamira no Pará, o “I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu”, serviu, entre outras coisas, para que os índios e as comunidades ribeirinhas da região demonstrassem aos representantes do governo, presentes ao encontro, todo o seu descontentamento com os estudos que previam a construção de barragens na bacia no Rio Xingu.
O encontro, realizado dois meses após o assassinato de Chico Mendes em Xapuri, teve repercussão mundial e, na época, dezenas de jornais de todo o mundo, estamparam a foto da índia Kaiapó Tuíra, tocando e ameaçando com seu facão, o rosto do presidente da Eletronorte, José Antonio Muniz Lopes.
No início de 2002, já no governo de Fernando Henrique Cardoso, o então Presidente da República, em defesa dos projetos previstos no Plano de Metas de seu governo, o “Avança Brasil”, critica os ambientalistas e diz que a oposição à construção de usinas hidrelétricas na Amazônia, atrapalha o desenvolvimento do país.
Em outubro de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva vence as eleições e torna-se Presidente da República e herda, entre tantos outros problemas, o polêmico projeto de Belo Monte.
Convém lembrar que, ainda durante as eleições presidenciais, no caderno temático “O Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil”, parte integrante do Plano de Governo do futuro presidente, Lula preconizava:
“A matriz energética brasileira, que se apóia basicamente na hidroeletricidade, com megaobras de represamento de rios, tem afetado a Bacia Amazônica. Considerando-se as especificidades da Amazônia, o conhecimento fragmentado e insuficiente que se acumulou sobre as diversas formas de reação da natureza em relação ao represamento em suas bacias, não é recomendável a reprodução cega da receita de barragens que vem sendo colocada em pratica pela Eletronorte”
Mas, como todos nós sabemos, Planos de Governo não são feitos para serem cumpridos, Planos de Governo são feitos para se ganhar eleições.
E assim, de 2002 até os dias de hoje, varias alterações foram sendo incorporadas ao projeto original de Belo Monte, procurando sempre adequá-lo a legislação ambiental, aos gritos dos ambientalistas, ao esperneio de mal intencionada ONGs internacionais e ao reclamo dos índios e das populações ribeirinhas.
Mas na verdade, no fundo no fundo, Belo Monte é mais uma boa briga onde os santos são raros.
Pois vejamos, se por um lado temos a crescente demanda por energia e a ameaça à soberania nacional, (representada pelas insinuantes propostas de internacionalização da Amazônia), por outro lado temos os interesses políticos paroquiais e os interesses econômicos das grandes empreiteiras.
E, aqui e agora, chegamos a nossa segunda grande conclusão: O caldo é grosso e a oportunidade é rara.
Tenho por hábito não gostar de governos, sejam eles quais forem, inclusive aqueles que um dia ajudei a eleger com meu voto. Mas, mesmo não gostando, sempre procurei ser justo em minhas avaliações. Como espero estar sendo agora.
Eu acredito que a construção da Usina de Belo Monte, neste momento, seja necessária e imperiosa, assim como acredito que discutir a sua construção, seja um ato de cidadania.
Além do que, acreditar que só é possível alguém ser contra a construção da usina, por inocência, estupidez ou falha de caráter, é uma atitude fascista. E aos fascistas, o fundo mais fundo do inferno.
Que se construa a usina, mas, por favor, não tentem me convencer de que a construção da terceira maior usina hidroelétrica do mundo, exatamente no meio da floresta amazônica, seja algo razoável. Não, não é. Pode ser necessário, mas razoável não é.
Acreditem, por necessidade, podemos estar criando na Amazônia, um novo Vale do Anhangabaú, com os paulistas e tudo mais.

Enquanto isso, os índios e os ribeirinhos...

Bom, neste exato momento, chegamos a nossa terceira e última grande conclusão: O nome deste jogo não é Ganha & Ganha, o nome deste jogo é Perde & Ganha.

E é isso que eu penso. Por hora.

Um bom fim de semana a todos.