sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Que venha 2012.

Mais um ano que chega ao seu final e, como das outras vezes, também é chegada a hora do Estação BM dar uma paradinha nas suas atividades.
Nosso blog, como nos anos anteriores, vai parar um pouquinho para tomar um ar e uma cerveja gelada, vai dar uma paradinha para discutir a relação e a vida.
Foi bom para você?
Paramos, mas prometemos voltar logo logo, trazendo muitas novidades.
Prometemos voltar com o mesmo senso democrático, a mesma disposição e coragem para discutir e repercutir tudo de importante que esteja acontecendo no mundo, no país e principalmente em nossa cidade.
No mais, a hora é de agradecer a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para que esta nossa movimentada estação chegasse até aqui.
Muito obrigado a todos, valeu rapaziada.
Alex Frederick
Alex Peres
André L.G. dos Santos
Altino Penna
Ângela
Camila Cací
Cláudio Pelegrineti
César Zadorosny
Carla Caravieri
Carolino
Chico Bento
Dário Aragão
Dielena
Dulce Sales
Diana Castro
Eder e Hendylla
Eliane Groetaers
Ernesto
Eugenio
Flavinha Porto
Figurótico
Geraldinho Costa
Heleno Guanabara
Itarco
Jefferson Sarmento
Jorge Couto
Josie Carneiro
JC, o Leleh
Julinho Esteves
Jonas Ciozimo
Kiki
Luiz Correia
Márcia Pereira
Marcos Carvalho
Max Guedes
Mozart Valle
Magú
Nádia UBM
Nando Pollastri
Paula Coelho
Paulo Emilio Tarden
Prof. Sampaio
Renata Klotz
Rosangela Martini
Sérgio Soares
Sérgio Rodrigues Alves
Tande Vieira
Valério Cortez
Vinicius Rosenburg
Vini Barbosa
Um feliz e próspero Ano Novo
Abraços afetuosos, de todos em todos.
Nos vemos em 2012.
Tabacaria - o poema mais espetacular de todos os tempos
Bom dia e feliz 2012 para todos!
por Carlos Vinicius Rosenburg*
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Os cães ladram e a Caravan ultrapassa

Por Cláudio Pelegrineti
Capítulo 2
Passados uns quatro meses do desaparecimento da Caravan, eu já estava quase conformado, mas ainda triste quando pensava no que poderia ter acontecido com ela. Esse pessoal de ferro-velho é tudo bandido sem coração, os desalmados esquartejam e vendem aos pedacinhos, que nem fazem com boi em supermercado.
Preferia pensar que ela ainda estava viva, me procurando. Sentia que nossos caminhos se cruzariam de novo. Mesmo que eu trocasse de CPF e ela mudasse de RENAVAM, iríamos nos reconhecer em uma esquina qualquer.
Em um sábado de manhã, tinha ido de moto com a Bia, comprar carne em um açougue mais barato na rua da praia, perto da estação das Barcas. Na chegada, procurando um lugar para deixar a moto, me apoiei na lateral de um carro. Olhando assim com o canto do olho direito, que não é o bom, reparei que era um carro branco, grande...
Meu coração disparou quando abri a viseira embaçada do capacete. Vi que ali, estacionada e mal disfarçada, estava minha velha amiga. A placa era diferente, de Duque de Caxias. Mas eu tinha certeza que era ela. Como um marido que já fez bodas de ouro, eu conhecia cada arranhão e amassado daquela lataria.
Pedi logo pra Bia descer e ir atrás da polícia. Eu esperaria ali pra não perder mais o carro de vista. Fiquei ali de boca seca e barriga gelada, botando os neurônios pra funcionar, pensando em um plano rápido, infalível e seguro.
Pensei em esvaziar os pneus, mas na hora chegou um moleque cheio de sacolas de compras e começou a guardar tudo no porta-malas. Quando eu falei que queria conversar com o motorista, ele disse que o dono era um PM e foi correndo no mercado chamar o sujeito.
No banco de trás tinha uma velha gorda com cara de cozinheira de história de Joãozinho e Maria. No porta-malas umas panelas enormes de cozinhar bicho grande. Eu pensei nervoso, tenho que ficar esperto, senão viro miúdo na mão dessa velha.
Daí a pouco volta o moleque com um sujeito barrigudo, de bigode, carregando uns pacotes de carne sangrenta e um volume debaixo da camisa que parecia ser uma arma. Parecia não, era um revólver.
Me aproximei tranqüilo, que na hora do perigo gente sem noção arranja coragem. Dei bom dia e perguntei logo onde ele tinha comprado o carro. Ele disse que tinha sido em uma agência lá no Alcântara. Eu disse que infelizmente ele tinha comprado um carro roubado e que minha esposa tinha ido ali chamar a polícia e já estava voltando.
E fui provando que sabia o que estava dizendo: mostrei um parafuso de borboleta, bem diferente do original, que eu tinha instalado embaixo do banco do carona, coisa que deixou o bigodudo convencido que eu era mesmo o dono do carro.
Começou a juntar curioso, já tinha um monte de desocupado levantando o pescoço pra ver que hora eu ia levar o tiro. Mas como tinha muita gente ali ele sugeriu que eu entrasse no carro, que me levaria lá na tal agência. Eu concordei, vamos lá sim, mas eu vou aqui. Pulei na moto e me arranquei pra longe uns cem metros. Por coincidência o meu amigo Mandril, que é campeão de tiro, tinha me dito no dia anterior que a cinqüenta metros ninguém acerta nada com revólver, só na sorte.
Fiquei de longe acelerando a moto e fazendo sinal que tinha sujado pra ele. Ele até tentou arrancar com o carro, mas do mesmo jeito que eu reconheci a Caravan, ela também viu que era eu e engasgou de não andar mais nem um metro.
O jeito foi o bando desistir e começar a tirar as coisas do carro. De longe eu vi o Bigode, a velha e o garoto saírem rapidinho em fila indiana carregando aquela tranqueira de sacolas de compras e panelas. Reparei que a velha mancava, deu até um pouco de pena, mas quem mandou ela andar com bandido?
Fiquei de longe, moto ligada, vigiando se o cara voltava. Passou um tempão e nada. Nem ele, nem a Bia com a polícia.
Nisso, atraído pelo ronco do motor, chega um mendigo e me pede um dinheiro. Eu disse pra ele, vá ali naquele carro branco e tire os cabos de vela que eu lhe dou trinta cruzeiros. Antes que alguém me chame de nome feio, explico que contei a situação pra ele, que o sujeito do bigode podia ser polícia, que estava armado, que podia estar por lá ainda. Em suma, que ele podia morrer de bala.
Ele pensou nos trinta, calculou quantas doses de caninha da roça, tomou coragem e foi.
Voltou com os quatro cabos e me entregou. Aí que foi o chato, meti a mão no bolso e cadê? Quem anda sempre com dinheiro é a Bia e ela, eu já disse, tinha sumido. Perguntei se ele aceitava cheque. Ele ficou puto, mas disse que aceitava. Perguntei se ele tinha uma caneta.
Com os cabos na mão, parti pra delegacia e relatei o ocorrido. Os policiais disseram que se eu quisesse teria que levar o carro lá, que eles estavam sem viatura e não iriam buscar. Falei, se o problema é transporte eu levo um na garupa da moto e eles olharam pra minha cara de um jeito que eu achei melhor ir saindo.
Voltei pra cena do crime, que àquela hora tinha ficado confusa. A Caravan no meio da rua com as portas abertas, o alerta ligado. A Bia finalmente tinha chegado com outras polícias que investigavam uma mancha vermelha no tapete do carro. Ela já ensaiava um choro de viúva, porque os astutos detetives diziam que o sangue da carne da compra da velha era meu.
Mas nem tudo foi tristeza. Quando fui ligar os cabos de vela, reparei que tinha herdado uma bateria novinha. Entrando no carro, dei de cara com um toca-fitas Roadstar auto-reverse instalado. Liguei o carro com a chave da moto e fui pra delegacia ouvindo uma fita pirata de música gospel que o Bigode, na pressa, tinha largado pra trás.
E pra tirar o carro da delegacia? Foi muito mais difícil que tomar do ladrão. A perícia pra comprovar que o número de série estava adulterado demorou seis meses. Mais uns seis meses pra resolver os documentos e a remarcação de chassis. Demorou um ano para eu ter de volta minha Caravan, mas pela primeira vez, desde a década de oitenta, totalmente legalizada.
Na época meu pai estava a pé e eu resolvi agradar o velho: dei o carro de presente pra ele. Ele estava de namoro com uma viúva simpática lá de Barra Mansa e eu achei que iria gostar de levar a dona pra dar umas voltas no carrão. Andou uma semana com a Caravan, o suficiente pra não querer mais. Falou que era pra eu pegar de volta logo, que todo dia enguiçava e ele chegava sempre com a mão preta na casa da moça.
Então não sobrou alternativa. Vendi minha amiga por oitocentos cruzados, pagos à vista. Peguei a grana, fui direto pras Casas da Banha e gastei tudo em uma compra de mês. Comi tudo e não pensei mais no assunto.
Só fui me lembrar de novo da velha Caravan quando, um dia destes de engarrafamento, no MP3 com bluetooth da minha Mercedes, ouvi uma musiquinha da Rita Lee e do Moacyr Franco que dizia mais ou menos assim:
“Salsichão, arroz, feijão
Mulçumano e cristão
A Mercedes e o Fuscão
A patroa do patrão
Meu salário e meu tesão
Tudo vira bosta...”
Qurem impor a mordaça - por Marco Antonio Villa

Marco Antonio Villa, O Globo, 27/12/11*
Não é novidade a forma de agir dos donos do poder. Nas três últimas eleições presidenciais, o PT e seus comparsas produziram dossiês, violaram sigilos fiscais e bancários, espalharam boatos, caluniaram seus opositores, montaram farsas. Não tiveram receio de transgredir a Constituição e todo aparato legal. Para ganhar, praticaram a estratégia do vale-tudo. Transformaram seus militantes, incrustados na máquina do Estado, em informantes, em difamadores dos cidadãos. A máquina petista virou uma Stasi tropical, tão truculenta como aquela que oprimiu os alemães-orientais durante 40 anos.
A truculência é uma forma fascista de evitar o confronto de ideias. Para os fascistas, o debate é nocivo à sua forma de domínio, de controle absoluto da sociedade, pois pressupõe a existência do opositor. Para o PT, que segue esta linha, a política não é o espaço da cidadania. Na verdade, os petistas odeiam a política. Fizeram nos últimos anos um trabalho de despolitizar os confrontos ideológicos e infantilizaram as divergências (basta recordar a denominação “mãe do PAC”).
A pluralidade ideológica e a alternância do poder foram somente suportadas. Na verdade, os petistas odeiam ter de conviver com a democracia. No passado adjetivavam o regime como “burguês”; hoje, como detém o poder, demonizam todos aqueles que se colocam contra o seu projeto autoritário. Enxergam na Venezuela, no Equador e, mais recentemente, na Argentina exemplos para serem seguidos. Querem, como nestes três países, amordaçar os meios de comunicação e impor a ferro e fogo seu domínio sobre a sociedade.
Mesmo com todo o poder de Estado, nunca conseguiram vencer, no primeiro turno, uma eleição presidencial. Encontraram resistência por parte de milhões de eleitores. Mas não desistiram de seus propósitos. Querem controlar a imprensa de qualquer forma. Para isso contam com o poder financeiro do governo e de seus asseclas. Compram consciências sem nenhum recato. E não faltam vendedores sequiosos para mamar nas tetas do Estado.
O panfleto de Amaury Ribeiro Junior (“A privataria tucana”) é apenas um produto da máquina petista de triturar reputações. Foi produzido nos esgotos do Palácio do Planalto. E foi publicado, neste momento, justamente com a intenção de desviar a atenção nacional dos sucessivos escândalos de corrupção do governo federal. A marca oficialista é tão evidente que, na quarta capa, o editor usa a expressão “malfeito”, popularizada recentemente pela presidente Dilma Rousseff quando defendeu seus ministros corruptos.
Sob o pretexto de criticar as privatizações, focou exclusivamente o seu panfleto em José Serra. O autor chegou a pagar a um despachante para violar os sigilos fiscais de vários cidadãos, tudo isso sob a proteção de uma funcionária (petista, claro) da agência da Receita Federal, em Mauá, região metropolitana de São Paulo. Ribeiro — que está sendo processado — não tem vergonha de confessar o crime. Disse que não sabia como o despachante obtinha as informações sigilosas. Usou 130 páginas para transcrever documentos sem nenhuma relação com o texto, como uma tentativa de apresentar seriedade, pesquisa, na elaboração das calúnias. Na verdade, não tinha como ocupar as páginas do panfleto com outras reportagens requentadas (a maioria publicada na revista “IstoÉ”).
Demonstrando absoluto desconhecimento do processo das privatizações, o autor construiu um texto desconexo. Começa contando que sofreu um atentado quando investigava o tráfico de drogas em uma cidade-satélite do Distrito Federal. Depois apresenta uma enorme barafunda de nomes e informações. Fala até de um diamante cor-de-rosa que teria saído clandestinamente do país. Passa por Fernandinho Beira-Mar, o juiz Nicolau e por Ricardo Teixeira. Chega até a desenvolver uma tese que as lan houses, na periferia, facilitam a ação dos traficantes. Termina o longo arrazoado dizendo que foi obrigado a fugir de Brasília (sem explicar algum motivo razoável).
O panfleto não tem o mínimo sentido. Poderia servir — pela prática petista — como um dossiê, destes que o partido usa habitualmente para coagir e tentar desmoralizar seus adversários nas eleições (vale recordar que Ribeiro trabalhou na campanha presidencial de Dilma). O autor faz afirmações megalomaníacas, sem nenhuma comprovação. A edição foi tão malfeita que não tomaram nem o cuidado de atualizar as reportagens requentadas, como na página 170, quando é dito que “o primo do hoje candidato tucano à Presidência da República…” A eleição foi em 2010 e o livro foi publicado em novembro de 2011 (e, segundo o autor, concluído em junho deste ano).
O panfleto deveria ser ignorado. Porém, o Ministério da Verdade petista, digno de George Orwell, construiu um verdadeiro rolo compressor. Criou a farsa do livro invisível, isto quando recebeu ampla cobertura televisiva da rede onde o jornalista dá expediente. Junto às centenas de vozes de aluguel, Ribeiro quis transformar o texto difamatório em denúncia. Fracassou. O panfleto não para em pé e logo cairá no esquecimento. Mas deixa uma lição: o PT não vai deixar o poder tão facilmente, como alguns ingênuos imaginam. Usará de todos os instrumentos de intimidação contra seus adversários, mesmo aqueles que hoje silenciam, acreditando que estão “pela covardia” protegidos da fúria fascista. O PT não terá dúvida em rasgar a Constituição, se for necessário ao seu plano de perpetuação no poder. O panfleto é somente uma pequena peça da estrutura fascista do petismo.
*MARCO ANTONIO VILLA é historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos/SP.
Nota da administração do blog: apesar de parecer óbvio (mas, no Brasil, é preciso dizer o óbvio), deixamos claro que o texto em questão não resume a posição do blog ou de seus colunistas. Aliás, nenhum texto expressa a opinião do blog. Qualquer texto é expressão única de seu autor. Uma conclusão óbvia, mas que precisa ser reafirmada em um país desacostumado ao debate e à pluralidade de ideias, algo comum em lugares sérios.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Trampo Duro - FINAL
(Parte 10: Quando o fim veio beijar meus lábios)

